NOIVA
Beatriz assiste enquanto o seu noivo, com o rosto desfigurado por raiva, dá uma sapatada em Filipa, a pequena Dachshund, que, sem querer, pisou com a pata suja nas sapatilhas brancas dele. Foguete, a rafeira, tenta defender a amiga, mas também leva com força uma traulitada de trela de couro. Agora Beatriz percebe por que razão os seus gatos e cães nunca gostaram do Miguel.
Pensativa, senta-se junto à janela. O frio da noite de inverno já se faz sentir em Lisboa, com as luzes dos apartamentos a acender-se ao longe, mas tudo isso lhe é indiferente claro ou escuro, tanto faz. Beatriz tem muito em que pensar.
Parece que não lhe falta nada: um T2 simpático na Amadora, um emprego seguro no centro de saúde de Benfica, e uma vida organizada. Só que, quando se espreita para a vida sentimental, as coisas nunca lhe correm bem. O tempo passa, as amigas de infância já todas casaram, outras até vão no segundo filho… e ela continua sozinha.
Será que está destinada, apesar de ser uma rapariga inteligente e até jeitosa, a ser solteirona para sempre? Em que é ela pior que as outras?, pensava Beatriz, fitando os seus fiéis amigos de quatro patas, sempre carinhosos e colados a ela.
Os pais de Beatriz morreram cedo, com poucos meses de diferença. Ela, então, ficou a viver com a avó, prometendo a si mesma que um dia seria médica. Quando não conseguiu entrar em medicina à primeira, seguiu para o curso de enfermagem na escola técnica de Setúbal e hoje trabalha no INEM, fazendo turnos longos.
A avó Maria, que sempre a adorou, mudou-se para uma casa térrea na margem sul, querendo deixar liberdade à neta para esta criar a sua própria felicidade. Só que isso nunca aconteceu.
Na infância, Beatriz sonhava com um gato e um cão. Mas, quando trouxe para casa o seu primeiro gatito arranjado na rua, a mãe teve logo uma crise de alergia. O Bolinha foi morar com a avó.
Quando perdeu os pais, apareceu o Gato Tobias, que ela apanhou ao lado dos contentores na Baixa da Banheira. Beatriz sempre quis também um cão, mas a avó, com medo da responsabilidade, nunca cedia.
Agora, em vez de marido, tem cinco amigos dedicados, sem os quais a vida seria quase insuportável. Foguete foi encontrada aos pulos, entre o frio, em frente ao Pingo Doce. A pobrezinha só queria entrar, mas os seguranças não permitiam. Beatriz pôs o animal em segredo dentro do saco de compras e levou-a num instante para casa.
Assim nasceu a Foguete cheia de energia, mereceu o nome. Logo ficou amiga de Tobias.
Mais tarde, entrou para a família a Filipa, uma Dachshund deixada à porta por vizinhos que se mudaram para um apartamento novo e decidiram que a cadela não combinava com móveis modernos. Durante dias, Filipa ficou ali ao frio, a tentar entrar nos prédios, até que uma vizinha contou tudo a Beatriz, que não resistiu: trouxe Filipa, tratou-lhe das orelhas doentes, e a pequena revelou-se uma verdadeira dona de casa, meiga e sensata.
Para as caminhadas de inverno, Beatriz costuma colocar-lhe um cachecol de lã, o que a torna uma figura tão engraçada e querida pelas ruas do bairro que até as crianças acenam.
A seguir, chegou a Gata Senhora Rosa, que simplesmente apareceu na escada pelas seis da manhã, enquanto Beatriz saía para um turno. Um monte de gelo e pelo miava desconsolado, e Beatriz levou-a para junto do calor do radiador, deu-lhe pão, queijo e fiambre e afixou no quadro de avisos do prédio: “Por favor, não afugentem a gata! Venho buscá-la depois do trabalho. Obrigada! Beatriz, apartamento 2D.
Rosa foi ficando, tomando conta da casa, impondo regras de limpeza e ordem, e todos os outros animais obedeciam-lhe sempre em rondas noturnas, vigiando tudo.
O mais novo é o Gatinho Nico, que Beatriz salvou de ser atacado por gaivotas no jardim do Príncipe Real. Sempre tímido, amigável com todos e incapaz de fazer mal a uma mosca. Estes cinco antigos abandonados são felizes e tentam nunca dar desgostos à dona.
Beatriz, por muito que os adorasse, sabia que há pretendentes que não toleram tanta bicharada. A avó sempre lhe dizia:
Ó Beatriz, com tantos animais, não sei não Dois cães e três gatos!? Olha que rapazes hoje em dia não são para isso, nem querem preocupações.
Se não aceita, não é homem para mim, avó.
Com o Ricardo durou pouco não suportava animais. Depois conheceu o Miguel, nadador dos campeonatos distritais, bonito e brincalhão. Ele até fingia gostar dos bichos e levava os cães a passear, parecia que iam casar.
Mas, aos poucos, os animais começaram a rejeitá-lo. Foguete rosnava-lhe abertamente, Filipa escondia-se; gatos fugiam, Rosa até bufava e não deixava Miguel tocar-lhe.
Um dia, Beatriz viu, da varanda, Miguel erguer o braço e dar uma sapatada a Filipa, que acabara de pisar, sem querer, os ténis dele. Foguete tentou intervir, mas Miguel largou-lhe uma chicotada da trela. Beatriz correu, tirou-lhe as trelas e devolveu-lhe a ofensa.
Estás doida, Beatriz? Isso dói!
E ela, furiosa: Magoa, não é? Achas que tens o direito de bater nos meus animais? Também me vais bater a mim?
Não lhes fiz nada de mais, foi só para educar.
Põe-te a andar e nunca mais voltes!
Também não tenho vontade nenhuma de viver num zoológico gritou ele, batendo a porta.
Beatriz sofreu muito. Achava que, ao fim de um ano com Miguel, já tinha tido sorte, já se via casada, e só agora percebia quem ele realmente era. Passou-se um ano. Quando quase aceitava a ideia de uma vida sozinha, apaixonou-se verdadeiramente ao ponto do tempo sem a pessoa parecer infinito.
Tudo aconteceu por acaso no Hospital de Santa Maria. Alexandre Costa, ortopedista, estava de banco quando Beatriz chegou com um doente do INEM. Quando ele ergueu os olhos para ela, sentiu-se atingida por uma descarga eléctrica. Não acreditava em amor à primeira vista, mas agora via, é real.
Alexandre fez pela vida, conseguiu o telefone dela e, no dia seguinte, ligou. Começaram a namorar.
Beatriz percebia, pela forma como a tratava, que Alexandre levava tudo muito a sério. Estava feliz e assustada e se, de novo, tudo acabava por causa dos animais?
Decidiu esconder-lhe a verdadeira família. Depois de casada, logo se via. Pouco tempo depois, Alexandre apresentou-lhe a irmã, a Sandra, e o cunhado. Foram juntos a Coimbra apresentar-lhe os pais. Beatriz também já lhe mostrou a avó.
Ela já tinha ido várias vezes ao pequeno apartamento T1 do Alexandre no Campo de Ourique, mas ele nunca entrara em casa dela, levantando perguntas. As desculpas do costume já não convenciam, por isso Beatriz teve de agir: levou todos os seus animais com as suas coisas para casa da avó. Filipa e Foguete já eram conhecidas, os gatos adoravam a nova anfitriã, só Bolinha já lá vivia há muito.
A avó não gostou:
Não é justo, Beatriz. Vais começar a tua vida com o Alexandre a mentir?
Vó, eu não aguento perdê-lo! Mas também não consigo estar longe deles. Só preciso de tempo…
Bem, pronto, mas vem cá todos os dias. Olha que enganos não acabam bem.
A cada dia, Beatriz morria de saudades, mas tentava manter as aparências. Alexandre aceitou finalmente ir a casa dela. O casamento já estava marcado, ela andava atarefada com as compras do vestido na Baixa, marcações do restaurante na Graça e joalharia. Afinal, o grande dia aproximava-se.
Voltaram depois de almoço, trataram do menu e contaram os convidados. Depois de um lanche rápido, Alexandre, ao tentar deitar o lixo fora, não consegue fechar o saco dentro estão embalagens de ração para cão e gato.
O que é isto?
Não é nada de especial, Alexandre, falo depois…
Nessa altura, a avó Maria solta os cães no quintal para correrem no meio da geada; entretanto, chega a reformada do CTT com a reforma. Entre uma e outra, a porta da rua fica mal fechada. Rosa, Tobias e Nico não perdem a oportunidade, escapam todos, só Bolinha fica. Cada um à sua velocidade, lá vão atravessando as praças da Amadora, sempre guiados pela matreira Foguete, com Rosa atrás a garantir que ninguém se perde.
As pessoas na rua acham piada ao desfile peludo. O lenço de Filipa vai parar ao lado, arrancando sorrisos.
Já em Lisboa, alguém mia e ladra à porta do prédio. Alexandre abre, espantado, e aparecem-lhe todos: a Dachshund Filipa de cachecol, a rafeira Foguete, três gatos encharcados de neve e alegria.
Mas… que equipa é esta?
Beatriz, de vergonha e lágrimas nos olhos, nem sabe onde se colocar.
São teus?! Todos?
Sim, estavam com a minha avó.
Sentindo que o novo pretendente era a causa da tristeza da dona, Foguete e Filipa começam a ladrar ferozmente, Rosa arma-se em leoa.
Dizias tu que não tinhas dote!
Alexandre pega nas chaves, sai, entra no carro e parte sem dizer palavra. Beatriz consola a avó, a chorar por dentro. Pronto, acabou tudo, pensa ela aflita, agarrada aos animais. Sente-se um lixo, um fracasso. Não lhe liga nem manda mensagem, sente o rosto inchado de tanto chorar.
Horas depois, tocam à campainha. Alexandre está à porta com sacos de ração gourmet para cães e gatos, pousa tudo, vai ao carro e volta.
Não feches, já venho.
Entra a seguir com uma Dachshund envergando fato de treino vermelho.
Esta é a minha cadela, Nina. E esta é a Maruxa, a gata da minha irmã Sandra. Podemos juntar à vossa turma?
Passaram-se anos. Beatriz Maria e Alexandre Costa lembram-se disto muitas vezes e riem-se. Quem sabe o que teria sido se ela não tivesse tido aqueles amigos de quatro patas como dote? Talvez nunca tivessem sido tão felizes juntos.







