A parede de vidro invisível
Aquela tempestade de dez anos atrás
Nessa noite, o céu sobre Lisboa estava carregado, pesado como o olhar de Beatriz Fernandes.
Nesta casa só vive quem respeita as minhas regras! A voz dela, firme e habituada a comandar salas de aula, soava forte por todo o apartamento.
As tuas regras são um nó na garganta, mãe! gritou Duarte, de vinte anos, arremessando o saco desportivo ao chão. Não me deixas respirar. Não quero ser o teu rascunho, para me voltares a escrever à tua maneira!
Então procura outro ar! e apontou à porta com um dedo inabalável. Vai. E não voltes enquanto não souberes valorizar o que fiz por ti.
Duarte olhou-a com olhos de fogo gelado. Pegou, sem dizer palavra, no saco e saiu para a chuva torrencial sem olhar para trás. Beatriz ficou à janela, convencida de que dali a uma hora, ou no máximo até de manhã, o filho regressaria. Encharcado, esfomeado, arrependido.
Mas Duarte nunca mais voltou. Nem de manhã, nem numa semana, nem em dez anos.
Duarte Fernandes tornou-se aquilo que sonhara: arquiteto. Os seus edifícios assemelhavam-se ao próprio: vidro, cimento e aço. Belos, funcionais, porém gélidos.
Vivia num apartamento no 28.º andar, tinha um Audi topo de gama, e não cultivava o hábito de olhar atrás. Mas havia no seu mundo perfeito um buraco negro: um T1 antigo em Chelas, cujo endereço tentava a todo o custo esquecer.
Senhor Doutor Duarte, amanhã entregamos o projeto lembrou a assistente dele, Mariana. E sábado está marcado no seu calendário. O aniversário da sua mãe.
Duarte imobilizou-se diante da vista sobre Lisboa. Dez anos. Não ligava. Ela nunca procurou. Todos os anos comprava uma prenda que ficava esquecida na bagageira do carro, até acabar numa instituição de caridade. Mas este ano, algo mudou por dentro. Talvez o entendimento de que cimento não protege do vazio.
Sábado. O velho pátio recebeu-o com cheiro a jacarandás e o ranger dos baloiços de ferro. O jipe de Duarte destoava ali, como se tivesse aterrado acidentalmente numa Lisboa paralela.
Saiu do carro. As pernas pesadas, presas em correntes de recordações. Um passo. Outro. O prédio cheirava a humidade e cebola frita. Segundo andar. Porta nº 8.
Duarte levantou a mão para bater. As articulações suspensas, a meros centímetros do tecido rasgado da porta.
O que vou dizer? Olá, vim depois de dez anos? Ou Desculpa por não ter regressado aquela manhã? O pensamento enredava-se, sufocando-lhe o peito.
Na mesma altura, Beatriz estava do outro lado. Vira-o chegar pela janela. O coração, que há tantos anos acreditava ser de pedra, disparou numa desordem louca. Ficou no hall, mãos encostadas à boca, os lábios trémulos a impedir um grito.
Viu através da frincha do olho mágico a imagem distorcida dele. O seu filho. Adulto, elegante, no casaco caro, rosto fechado.
Abre, vai lá. Diz que tens o chá ao lume. Diz que esperaste todos os dias pelo som destes passos, suplicava-se.
Mas a mão ficou parada. Orgulho, regado com anos de solidão, sussurrava: Veio para humilhar? Só para saber se ainda estou viva? Nunca ligou em dez anos. Porque é que devia ser eu a abrir?
Ficaram assim cinco minutos. Uma eternidade. Duarte sentia o calor pela porta sabia que ela estava ali. Ouvia-lhe o respirar entrecortado.
Mãe… murmurou, quase encostando a testa à porta fria.
Beatriz estremeceu. A voz do filho soou-lhe como um eco de uma vida anterior.
Não sei pedir desculpa continuou Duarte, frente à porta fechada. Foste tu que me ensinaste a ser forte. Duplo. Orgulhoso. Construi centenas de casas, mãe. Mas na tua, nunca tive espaço.
Beatriz fechou os olhos. Uma lágrima rolou pela face vincada.
Fui eu que ergui este muro sussurrou, sabendo que ele não ouviria. Expulsei-te, à espera que rastejasses de volta. E tu aprendeste a voar. Agora tenho medo que abras a porta e vejas como sou pequena e frágil sem a minha raiva.
Duarte ergueu novamente a mão. Desta vez quase tocou a maçaneta. Ela, do outro lado, já lhe pousara a palma. Apenas três centímetros de madeira e metal separavam as mãos deles.
Um impulso, e o muro desabava. Um gesto, e a década de inverno terminava.
Mas Duarte baixou o braço.
Não abre. Continua zangada. Não me quer ver, decidiu.
Beatriz sentiu a hesitação do lado de lá.
Vai-se embora. Não bateu nem chamou. Não lhe faço falta, concluiu.
Duarte voltou-se devagar. Do bolso tirou uma caixinha uma pregadeira de ouro em forma de ramo de jacarandá, aquela que quisera dar no dia em que recebeu o primeiro ordenado digno.
Colocou-a suavemente no tapete, diante da porta.
Parabéns, mãe disse com mais firmeza. Desculpa por me tornar no que quiseste.
Desceu as escadas, os passos ecoando no vazio do prédio.
Beatriz não aguentou mais. Rasgou o silêncio, o molho de chaves caiu no chão. A porta abriu-se abruptamente.
Duarte! gritou, para o vazio da escada.
Duarte deteve-se a meio caminho do rés-do-chão. Voltou-se. No portal inundado de luz estava uma mulher pequena, já toda branca, irreconhecível da antiga diretora de escola. Frágil como porcelana do tempo.
Nas mãos apertava a caixinha que ele deixara.
Olharam-se pelo vão da escada.
Vais embora? a voz dela estalou. Vais novamente sem esperar resposta?
Não abriste respondeu Duarte, subindo um degrau.
E tu não bateste à porta Beatriz avançou, corajosa. Ficou ali, parado. Achei que só querias saber se já morri por orgulho.
Duarte avançou mais três degraus. Agora só os separavam poucos metros.
Tive medo que dissesses: Para que vieste?
Eu temia que dissesses: Vim só para dizer que já não preciso de ti.
Silêncio. O ar do prédio aliviou-se.
A pregadeira é linda murmurou Beatriz. Mas os jacarandás deste pátio cheiram melhor. O chá está pronto, Duarte. Há dez anos deixei-o fervido até ao fim. Hoje pus água nova.
Ele aproximou-se. Era mais alto, um arquiteto admirado. Mas, por instantes, voltou a ser o rapaz do saco desportivo. Abraçou-a com cuidado. Ela cheirava a remédios e jacarandá.
Mãe, eu não entro se não quiseres…
Cala-te apertou-se ao ombro dele. Já chega de paredes. Vamos só beber chá.
Entraram juntos. A porta nº 8 fechou-se. E, pela primeira vez em dez anos, não foi com um estrondo seco, mas com um suave estalar, protegendo-os do frio do mundo lá fora.
Nunca foram bons com palavras bonitas. Continuavam a ser complicados, espinhosos. Mas, nesse fim de tarde, Duarte compreendeu: o projeto mais difícil da sua vida estava finalmente terminado. Reconstruiu a casa sobre um alicerce em ruínas. E, desta vez, não havia vídeo de vidro invisível. Só luz.







