O nó na garganta apareceu antes de Inês pousar a chávena na mesa.
Voltaste a pôr demasiado sal, disse Dona Adelaide, sem levantar os olhos do prato. Disse-o como quem constata que está a chover lá fora.
Inês estava junto ao fogão e olhava as costas da sogra. O cabelo bem apanhado por um gancho preto, os ombros retos debaixo do casaquinho bege de lã.
Acho que está normal, respondeu, mantendo a voz calma.
A tua opinião, repetiu Dona Adelaide, dando uma ênfase especial à última palavra. Rui, prova.
Rui estava sentado em frente à mãe. Já levava a colher à boca. Quando os olhares dos dois se cravaram nele, apenas encolheu ligeiramente os ombros.
Está bom, mãe.
Está bom, retomou a sogra, como se aprovasse o próprio gosto pelas palavras. Bom para quem? Para uma cantina militar talvez.
Inês pegou numa toalha e limpou as mãos, uma de cada vez, devagar. Era um ritual que aprendera a fazer nas últimas três semanas, uma forma de não deixar as mãos tremer.
Três semanas. Dona Adelaide chegara havia três semanas. Estava previsto que ficasse cinco dias. Depois uma semana. Depois disse que não se sentia bem e Rui olhou para Inês como uma criança aliviada porque um teste foi adiado. Alívio e inquietação juntos.
Agora era a terceira semana.
Vou ali fora, disse Inês, pousando a toalha.
Ninguém a tentou impedir.
Entrou no quarto, fechou a porta com cuidado, sem bater. Olhou para a cama com duas almofadas, as mesinhas de cabeceira, os candeeiros iguais. Tudo arrumado. Tudo certo. Só que agora certo tinha outro sabor: sentia-se decoração, não lar.
Sentou-se à beira da cama e fixou-se na janela. Lá fora, Lisboa em março, cinzenta, com restos de chuva nas ruas. Antes gostava dessa hesitação do tempo entre o inverno e a primavera. Agora só pensava no relatório que tinha de rever à noite e que no dia seguinte Dona Adelaide certamente ia pedir-lhe para passar de novo no supermercado do bairro, porque lá há melhores guardanapos.
Da cozinha chegava a voz da sogra. Conversava com Rui, que respondia qualquer coisa. Depois, um riso abafado.
Inês esfregou as têmporas.
Quando conheceu Rui há seis anos, a mãe parecia-lhe uma mulher comum. Um pouco rígida, sim, algo antiquada, mas nada que não fosse habitual. No casamento, Dona Adelaide ofereceu-lhes um serviço de chá e desejou-lhes tudo de bom. Inês soube sorrir. Sempre foi paciente; a mãe dela chamava-lhe isso. Para Inês era apenas maturidade.
Agora, aos trinta e dois anos, começava a sentir que maturidade e paciência podiam não ser a mesma coisa.
Do outro lado da porta, ouviu Rui rir mais alto.
Levantou-se, olhou-se ao espelho. Cabelos escuros, até aos ombros, olhos claros, cansados. Não por falta de sono era outro cansaço, aquele que dormir não resolve.
Pegou no telemóvel. Escreveu à amiga Margarida: Amanhã?
Ela respondeu pouco depois: À hora de almoço no escritório?
Sim, apareço aí, escreveu Inês.
Meteu o telemóvel no bolso e voltou à cozinha. Era preciso arrumar a mesa uma das muitas tarefas que nunca foram obrigações até Dona Adelaide transformar cada gesto rotineiro num dever.
A sogra já se sentara na poltrona da sala. Adorava aquela poltrona: o lugar preferido de Inês, junto à janela, com vista para um pedaço da rua. Antes, ela lia ali à noite. Agora, lia no quarto, porque a cadeira estava ocupada.
Inês, chamou Dona Adelaide, ao passar. Trouxeste o chá de que te falei?
Mandei vir pela internet. Chega depois de amanhã.
Pela internet, abanou a cabeça, como quem ouve tolices. Não compreendo estas modernices vossas. Mais valia ir ao mercado, cheirar, ver como deve ser.
Não havia esse chá nas lojas do bairro.
Então procuravas melhor.
Rui passava os olhos no telemóvel, sentado no sofá, sem levantar a cabeça. Inês olhou para ele, depois para a sogra.
Está bem, Dona Adelaide. Da próxima procuro melhor.
E foi lavar a loiça.
Enquanto lavava, pensava em como as conversas com Rui antes eram diferentes. Trocavam telefonemas só porque sim, ele levava-lhe pastéis da pastelaria no Chiado ao fim do dia. Uma noite foram ver as estrelas a Sintra só porque Inês disse que tinha saudades do céu aberto. Ele não perguntou porquê. Pegou nas chaves e foram.
Agora estavam em divisões diferentes, Rui agarrado ao telemóvel enquanto a mãe lhe dava lições sobre chá.
A água escaldava-lhe as mãos. Baixou a temperatura e continuou.
A família, pensava Inês, não é feita só de amor. É feita de espaços, de tudo o que se faz quando há desconforto. Rui não era uma má pessoa: sabia-o. Era carinhoso, atento, bem-humorado. Mas com a mãe presente, mudava. Tornava-se o Rui das fotografias antigas: pequeno, meio perdido.
Arrumou os pratos no escorredor.
Anoitecia cedo. Inês lembrou-se das lâmpadas mais quentes que queria comprar. Tinham comprado a casa havia três anos, e ela começou logo a torná-la sua: cortinas à sua escolha, mudou os móveis, procurou meses pelas travessas de barro com ornamentos azuis que vira uma vez na internet.
Aquilo era a sua casa. O seu espaço.
Da sala, a voz de Dona Adelaide:
Rui, ajeita-me a manta, que sinto corrente de ar.
Secou as mãos. Uma sensação apertada no peito, como se alguém lhe cingisse devagar.
No dia seguinte, almoçou com Margarida.
Ela trabalhava numa contabilidade ali perto. Tinham combinado encontrar-se duas vezes por mês regra sagrada desde que Inês começara a trabalhar como contabilista.
Pediram cafés na esplanada sossegada onde nunca havia música alta, apenas vozes e o cheiro a pão quente.
Então? perguntou Margarida, envolta na chávena.
Já faz três semanas…
Margarida não se admirou; conhecia a fama de Dona Adelaide.
E o Rui?
O de sempre, disse Inês, olhando a rua. Não vê. Ou finge que não vê, não sei o que é pior.
Falaste com ele?
Tentei. A mãe está sozinha, temos de compreender, diz ele.
Ela disse-lhe que se sente sozinha?
Queixa-se da saúde, mas quando é para ir ao centro comercial, passa lá horas. Depois chega cansada e vai repousar.
Margarida arqueou as sobrancelhas.
Três horas às compras.
Três horas, confirmou Inês. Comprou duas fronhas, que pousou sem avisar na minha pilha de roupa de cama. Abri o armário e nem percebi o que era.
Disseste-lhe alguma coisa?
Como? Só se arriscasse à discussão: Queria ajudar, Na nossa família é assim, Antigamente não era nada disto. Ele cala-se. Depois acusa-me de ser fria.
E então?
Nada. Guardei as fronhas e devolvi-as ao quarto dela.
Margarida ficou um tempo calada.
Estás cansada.
Estou mesmo, e foi um alívio dizer em voz alta.
Quanto tempo mais ela fica?
Não sei. O Rui diz para esperar, que ela um dia há de querer ir.
Isso não é resposta.
Eu sei.
Margarida bebeu café, olhou-a com seriedade.
Têm de conversar, a sério. Não da forma habitual. Tem de ser a valer.
Não sei se ele aguenta. Com a mãe por perto, ele volta a ser miúdo.
Então fala quando ela sair. Manda-a dar um passeio qualquer.
Inês riu.
Isso é fácil, não é?
Faz como puderes, mas conversa.
Ficaram caladas. Lá fora, uma senhora passeava um cão pequeno e castanho. O cão puxava numa direção, ela noutra. Uma dança silenciosa.
Sabes o que me assusta? disse Inês baixinho. Não é ela… É não reconhecer quem ele se tornou.
Margarida não respondeu. Às vezes, o silêncio é o melhor consolo.
No regresso a casa, pensou em relatórios, em leite no frigorífico, em ligar à mãe há semanas que não o fazia. Margarida tinha razão: era preciso conversar. Ainda não sabia como.
Chegou a casa e cheirava a perfume. Não o dela; um cheiro adocicado, pesado, como os armários antigos com memórias guardadas. O Eau de Lisboa de Dona Adelaide.
Já vieste? chamou a sogra da sala. Descasquei batatas, podes fritá-las.
Inês tirou o casaco, pendurou-o direito.
Obrigada, Dona Adelaide.
O Rui avisou que chega só às oito. Alguém lá no trabalho atrasou-se.
Sim, ele avisou-me.
Na cozinha, as batatas estavam grosseiramente cortadas, nada como os cubos pequenos e iguais que Inês fazia sem pensar e enquanto pensava noutra coisa. Pegou na faca, cortou de novo.
O que fazes? a sogra apareceu à porta.
Corto mais pequeno.
Não vês que já cortei?
Assim fritam-se melhor.
Sempre fiz assim, ficou sempre bom.
Inês continuou, sem responder.
Inês, agora a voz era fria, mas controlada disse que já estava cortado.
Eu ouvi. Obrigada, fiz à minha maneira.
Pausa.
À tua maneira, repetiu a sogra. E saiu.
Inês pôs as batatas ao lume, viu o óleo dançar. Esperou o chiado.
Fronteiras pessoais, pensou. Expressão agora na moda, mas ali não tinha nada a ver com modas. Era o direito a cortar batatas como quisesse, no seu espaço.
Rui chegou perto das nove, exausto. Deu-lhe um beijo mecânico, foi ter com a mãe.
Estás melhor?
A cabeça dói menos.
Ainda bem. Inês, há jantar?
Está a acabar. Já sirvo.
O jantar decorreu entre relatos de trabalho e perguntas da sogra. Inês calou-se. Depois foi a tratar de um relatório no quarto, os ecos de conversas familiares vinham da sala.
Cifras baralhavam-se no ecrã. Na verdade, a confusão era outra: a presença, o som, o saber que estavam do outro lado.
Perto das onze, Rui deitou-se ao lado dela.
Estás bem?
Acabei o relatório.
A mãe diz que continuas aborrecida.
Inês pousou o computador.
Não estou maldisposta. Estou cansada.
Do trabalho?
Ela olhou-o. No escuro, o rosto dele sereno. Não estava a fingir; não entendia mesmo.
Não é só do trabalho.
Então de quê?
Rui a voz firme já passaram três semanas.
Ela está frágil.
Três semanas atrás estava doente. Agora passa tardes na baixa.
Silêncio. Ele fita o tecto.
Precisa de companhia. Sente-se só.
Entendo. Mas, Rui, esta casa é nossa.
É dela também.
Não, respondeu calma e clara. É nossa. Dos dois.
Silêncio.
E o que queres que eu faça? Mando-a embora?
Que fales com ela. Marques um dia.
Inês…
Ouves-me?
Ouço mas é a minha mãe.
Sei disso. Não te peço para a rejeitar, só para conversar.
Novo silêncio, denso. Era bom a ler quem ela era pelo que não se dizia.
Falo, disse finalmente.
Quando?
Vou encontrar o momento.
Inês deitou-se de costas, olhos no tecto cinzento, pensou que sempre quiseram pintar. Encontrar o momento. Quantas vezes ouvira isto? Sobre tudo: visitas à sua família, arranjar a torneira, ter filhos.
Era um idioma próprio, o de quem foge do conflito.
Adormeceu perto da uma da manhã.
No sábado, Dona Adelaide fez o pequeno-almoço. Sinal inesperado que Inês levou apenas como gesto, não como reconciliação. Aveia com passas, torradas, manteiga. Tudo bem posto.
Fiz como para o Rui, quando era pequeno, gabou-se.
Obrigada.
Ele gosta com passas, sabes?
Sei, faço-lhe assim há três anos.
E tu, como comes?
Gosto mais de torradas com queijo.
Não achei queijo de jeito aqui. Que queijo é esse?
O que gostamos.
A sogra torceu o nariz, mas calou-se.
Rui apareceu, sonolento, de calças de pijama.
Ah, papa! A mãe fez papa…
Para ti, meu Rui.
Inês, prova. Ela é especialista.
Provo, disse, e provou. Doce de mais para o seu gosto, mas calou-se.
Conversaram sobre o tempo e planos para domingo no jardim botânico. Rui assentiu de imediato. Inês perguntou se Dona Adelaide não se cansaria. Faz bem andar, respondeu, sorrindo superior.
Sábado era dia de limpezas. Era o método de Inês para organizar-se quando algo pesava. Arrumou a sala, endireitou os livros na estante, voltou a colocar a petite escultura de madeira comprada numa feira há dois anos no lugar certo.
No hall, reparou que os casacos de Dona Adelaide ocupavam agora todo o bengaleiro. Quase não se via o seu casaco.
Mudou a posição da gabardina da sogra com cuidado. Repôs o seu lugar.
Que estás a fazer? lá estava a frase, sem interrogação. A sogra à porta.
A organizar.
E mexeste no meu casaco porquê?
Estava a atrapalhar.
Tudo te incomoda…
Inês não respondeu. Puxou da escova para limpar sapatos. Continuou.
Eu só digo Podes ao menos pedir licença.
Está bem. Para a próxima peço.
À noite, Rui sugeriu encomendar pizza.
Isso faz mal, protestou Dona Adelaide. Porque é que não se faz jantar?
É rápido, Inês está cansada, disse Rui.
Cansada de quê, se está o dia todo em casa?
Trabalho em casa, retorquiu Inês.
Eu também sempre trabalhei. E nunca deixei de cozinhar.
Dona Adelaide, tentou Inês manter o tom sereno. Hoje pedimos pizza.
Pausa.
Rui escolheu a pizzaria.
A sogra fechou-se no quarto que até três semanas antes era o pequeno escritório de Inês.
A pizza chegou. Eles jantaram na cozinha. A sogra olhou, torceu os lábios, fez uma sandes.
Quer uma fatia?
Não obrigada. Gosto de refeição, não de lanches.
Inês ficou com a pizza à frente e olhou para Rui.
Disseste que ias falar com ela.
Inês, agora não.
Quando? Há sempre desculpa…
Ele calou-a com a voz doce da resignação.
Aguenta mais um pouco. Ela acaba por ir.
Porquê?
Porque sempre acabou por ir.
Antes eram três dias. Agora são três semanas.
Está sozinha.
Eu também.
Ele olhou-a.
O que queres dizer?
O que disse.
Mordeu a pizza. Fria. A frase estás a exagerar era outro idioma; o de quem não quer ouvir.
Falam de choque de gerações como diferenças de ideia, mas é sobre espaço: quem manda, quem aceita.
Limpar, arrumar, ir para o quarto.
Domingo, foram ao Jardim Botânico. Não lhe apetecia, mas cedeu à educação. Pouca gente. As árvores nuas, a terra húmida. Havia beleza na ausência de folhas. Nada a esconder, só galhos e céu.
Dona Adelaide caminhava devagar, apoiada no braço de Rui, contando histórias. Inês atrás, olhando as costas deles.
Perto das sequoias, a sogra disse:
Inês, devias sorrir. Tem graça.
Desculpe?
Digo para sorrires. Pareces numa procissão.
Estou normal, Dona Adelaide.
Ela encolheu os ombros. Rui olhava para uma árvore.
Foram ao café. Tomaram chá. Inês ficou calada, a ver as árvores.
Pronto, diz-me: vocês e os netos, não pensam nisso?
Inês virou-se devagar.
É coisa nossa.
Sou a mãe. Importo-me.
É assunto meu e do Rui.
Lá isso é. Mas não estás a ficar nova.
Dona Adelaide, ouça respeito-a, mas esse é assunto para mim e para o meu marido.
Pausa. Trocaram olhares. Rui estudava a chávena.
Pronto, pronto, cedeu a sogra.
Tomaram chá em silêncio. Ninguém conversou no regresso.
Nos dias seguintes, Inês afundou-se no trabalho. Números, quadros, relatórios essas coisas tinham respostas certas.
Dona Adelaide, silenciou. Talvez sentisse o ambiente.
Na quarta-feira, Inês encontrou as toalhas rearrumadas no armário. Nem tudo, mas o suficiente para notar. Ficou a olhar. Calou. Foi à sala.
Dona Adelaide…
A sogra levantou os olhos.
Por favor, não mexa nas minhas coisas.
Queria só ajudar. Estava desorganizado.
Não estava. Era o meu método.
Cada um tem o seu.
Exactamente. Esse é meu. Por favor, respeite.
Foi sentar-se ao computador. As mãos tremiam, mas disse. Sem escândalo.
Na sexta, Rui chegou cedo, com um bolo da pastelaria do Rossio.
Sei que gostas de limão, disse, com algum embaraço.
Obrigada.
Mãe, quer bolo?
Não posso, faz-me mal à tensão.
Tomaram chá sozinhos. Primeira vez em semanas.
Como te sentes?
Bem. Obrigada pelo bolo.
Tenho pensado no que disseste sobre solidão.
Ela olhou-o.
E então?
Tens razão. Só não sei como lhe dizer.
Diz.
Fica magoada.
Pode ficar. É direito dela. Mas explique. Amor e limites podem andar de mãos dadas.
Silêncio.
Se fosses tu a…
Não. É tua mãe. És tu quem deve. Se disser eu, é a nora má. Se fores tu, é o filho adulto.
Longo olhar.
Tens razão.
Pois tenho.
Algo pequeno mexeu-se. Nada resolvido, mas em marcha.
Dona Adelaide saiu da cozinha pelas nove.
Vou-me deitar cedo. Estou cansada.
Boa noite, mãe.
Boa noite, Dona Adelaide, disse Inês.
A sogra foi-se. Ficaram sentados, Inês a ler.
Falo com ela amanhã.
Ela não respondeu. Bebeu chá.
Manhã não era amanhã.
No sábado, Dona Adelaide quis fazer almoço de família à portuguesa. Levantou-se cedo, foi ao talho, trouxe tudo. Tomou a cozinha de assalto.
Inês acordou com cheiro a refogado.
Bom dia.
Bom dia. Preciso da panela grande.
Inês passou-lhe a panela.
Obrigada. Agora deixa-me, está bem?
Perdão?
Não há espaço. Eu cá cozinho.
É a minha cozinha, Dona Adelaide.
Pois é. Hoje, faço eu.
Inês olhou-a um instante. Depois, foi beber café ao quarto. Ouviu panelas, facas.
Na barriga, o gelo formou-se depressa.
O almoço foi às três. O cozido estava bom, reconheceu Inês. A sogra sabia cozinhar. Havia pão caseiro, sobremesa.
Assim é que se cozinha, gabou-se Dona Adelaide, servindo sopa.
Muito bom, disse Rui.
Inês?
Obrigada, está saboroso.
Estive desde as oito da manhã nisto. Deu trabalho.
Podia ter pedido ajuda.
Nunca tens tempo. Andas sempre agarrada ao computador.
Trabalho.
Todos trabalhámos. O problema agora é pensar-se demais.
Tem razão?
Acho que sim.
Inês fechou a torneira. Virou-se para a sogra.
Dona Adelaide, falou devagar. A senhora sabe fazer muita coisa. Mas vivemos de modos diferentes. Quero paz. Mas para isso, precisamos de respeito mútuo.
A sogra semicerrava os olhos.
Tem razão.
Fico contente.
Inês foi até ao Rui.
Ela incomodou-te?
Consegui falar.
E?
Diz que percebe. Vamos ver.
Rui segurou-lhe a mão, num gesto simples.
Três dias depois, Dona Adelaide perguntou quando podiam conversar sobre regressar a casa.
Inês ouviu, parada no corredor.
Rui, já fiquei muito tempo. Está na hora.
Não digas isso. Estivemos bem.
Vê-se que vieste do teu pai, que é calado. Quando a mulher se cala, é que não está bem.
Pausa.
Reparaste?
Reparei.
Não sou cega. Uma coisa são visitas, outra ser parte da casa.
Se quiseres
Não quero. Sexta volto.
Inês encostou-se à parede, olhos fechados. Não sentiu vitória, nem alívio imediato apenas um lento desapertar no peito, como quem solta o ar depois de segurar a respiração.
Sexta-feira passaram o dia a arrumar. A sogra metódica, Inês a ajudar, as coisas a cair no sítio.
Tens jeito para malas, observou Dona Adelaide.
Calhou de ajudar o Rui nas viagens.
Ele, arrumar? Nem sabia.
Agora já.
Foi um dos primeiros sorrisos genuínos de Inês em semanas.
Dona Adelaide passeou pela casa, como quem se despede. Olhou as janelas, a sala, a cozinha.
Apartamento bonito, elogiou. Tem boa luz.
Procurámos muito até encontrarmos este.
Nota-se. Tem alma.
Primeiro elogio sincero.
Obrigada, Dona Adelaide.
Trocaram um olhar longo. Não de ternura, não ainda. Mas sincero.
És forte.
Tento ser.
Rui levou a mãe à estação. Inês acompanhou-os ao elevador. A sogra abraçou-a breve, prático.
Vens nos feriados de maio?
Logo se vê.
Vêm, de certeza.
Fecharam-se as portas.
Inês voltou ao apartamento. O cadeirão estava vazio. Sentou-se, sentiu o conforto familiar.
Chovia lá fora. Março hesitava ainda. Havia beleza nessa dúvida.
Pegou numa revista, leu. A sala em silêncio, no seu lugar.
Duas horas depois, Rui regressou.
Como estás?
A ler.
A mãe diz que chegou bem.
Ainda bem.
Inês.
Ela levantou os olhos.
Sei que foi difícil. Desculpa.
Está desculpado.
Devia ter resolvido antes.
Já chega, disse. Não precisamos de dissecação. Já passou.
Ele assentiu. Sentou-se no sofá.
Ouviam a chuva. Ela folheou páginas, ele fitou a rua.
Tenho de trocar a lâmpada do corredor, notou.
Comprei uma nova. Está na prateleira.
Vou já mudar.
Ouviram-se passos, depois luz. Mais brilhante. Notava-se a diferença.
Está feito.
Ela agradeceu. Voltou à leitura.
Dias depois de Dona Adelaide partir, Inês encontrou a lata de chá que a sogra trouxera de casa, esquecida na prateleira. Chá de Serra, lia-se no rótulo gasto. Inês abriu, aspirou o cheiro agreste de ervas.
Pôs a água a ferver, fez o chá, levou a caneca para o seu cadeirão à janela.
Surpreendentemente, era bom.
Segurou a chávena entre as mãos, à maneira de Margarida, olhando a rua. A chuva parara, o chão brilhava, o céu refletia-se nas poças. Março, enfim, parecia admitir a chegada da primavera.
Pensou em ligar à sogra. Talvez domingo. Perguntar se chegou bem, como andava a pressão. Não por obrigação, mas por saber que, entre ela, Rui e Dona Adelaide, foi preciso tempo, distância e respeito.
Sabedoria, pensou. Não é a paciência sem fim é saber onde acaba o nosso espaço. Saber calar ou dizer, conforme. Saber que ser branda não é ser apagada.
O telemóvel vibrava. Margarida: E então, ela já saiu?
Incrivelmente, sim. Tudo em paz.
Veio resposta: emoji do café.
Inês sorriu. Largou o telemóvel. Sorveu o chá.
Na segunda, voltou ao trabalho com uma estranha leveza. Não era alegria nem paz uma espécie de tranquilidade. Como largar uma mala depois de a transportar tempos demais.
Reviu um relatório, corrigiu um lapso, mandou e-mails, fez café.
À tarde, Rui ligou:
O que jantamos?
Onde quiseres.
Saímos? Já não saímos há semanas.
Pensou: há três semanas não iam a lado nenhum. Por Dona Adelaide, por hábito.
Vamos àquele da Baixa, das massas.
Combinado, às sete.
À hora marcada estavam lá. Mesinhas de madeira, luz difusa. Inês pediu massa com cogumelos, Rui um bifinho.
Conversaram não sobre mães, nem limites. Apenas falaram como gostam, com tempo. Rui contou disparates do escritório. Inês riu do fundo. Sem esforço.
Sabe bem ouvir-te rir outra vez, disse ele.
Também sentia falta.
Poisaram os copos. Silêncio confortável.
Tu querias mudar as luzes do quarto?
Queria.
Vamos juntos sábado comprar.
Boa.
Acabaram o jantar. Saíram para a noite de abril, o cheiro anunciava a primavera. Rui passou-lhe o braço, e ela deixou-se estar.
Chegaram a casa. O silêncio amigo. Inês ficou no cadeirão. Tudo no seu lugar: a escultura da feira, os pratos de rebordo azul, os livros.
Olhou os candeeiros, o sofá, a janela.
E pensou que no domingo podia fazer um prato só para si. Pequenas coisas, mas certas.
Rui surgiu do banho.
Vens deitar?
Vou já.
Ele saiu. Inês ficou a olhar Lisboa lá fora, as luzes, a cidade atarefada, cheia de gente em varandas, mulheres de todas as idades na mesma inquietação: guardar o casamento, não se perder.
Não sabia se tinha conseguido. Talvez só um pouco. Isso nunca tem fim.
Mas, por agora, o corredor tinha nova lâmpada e o cadeirão era de novo dela.
Por agora, bastava.
Não tinha pressa de se deitar. Levantou-se, bebeu um copo de água, apagou as luzes.
Na manhã seguinte, ligaria à mãe.
A vida continuava: perguntas sem respostas fáceis. Talvez essa fosse a verdadeira sabedoria continuar, mesmo entre dúvidas. Dizer o que precisa ser dito, deixar o que pode ficar por dizer.
Não sermos vítimas nem carrascos, apenas saber o que nos pertence.
Na casa que é nossa.
Junto à janela.
Na vida que vamos fazendo.







