A minha sogra não quer ir embora

A sogra não vai embora

O nó na garganta apareceu antes mesmo de Mafalda conseguir pousar a chávena na mesa.

Outra vez exageraste no sal comentou Dona Palmira, sem sequer levantar os olhos do prato. Disse isto como quem diz que amanhã vai chover, uma daquelas constatações óbvias da vida.

Mafalda continuou de pé junto ao fogão, olhando para as costas da sogra. O coque perfeito, preso com uma mola preta. Os ombros direitos por baixo da camisola de lã bege.

Eu acho que está bom respondeu Mafalda, na sua voz mais zen.

Tu achas Dona Palmira arrastou a palavra como se saboreasse presunto ibérico. Zé Maria, prova lá.

Zé Maria, sentado à frente da mãe, já mastigava com a colher a meio caminho da boca. Quando sentiu os dois olhares apontados a si, encolheu discretamente os ombros.

Está bom, mãe.

Bom suspirou Dona Palmira, agora repisando, como quem inspeciona nódoas num lençol acabado de lavar. Bom para quem? Para rancho militar, talvez passe.

Mafalda pegou na toalha do prato e limpou as mãos, dedo a dedo, calmamente. Um ritual que começou a dominar nas últimas três semanas: mãos ocupadas ajudam a não tremer.

Três semanas. Dona Palmira chegou havia três semanas. Era para ficar cinco dias. Depois foram sete. Depois avisou que não se sentia bem e Zé Maria lançou a Mafalda aquele olhar de quem descobriu que o teste de matemática afinal foi adiado: alívio e pânico.

Já vão três semanas.

Vou sair um bocadinho, disse Mafalda, pendurando a toalha no gancho.

Ninguém deu por ela.

Entrou no quarto e fechou a porta. Com tranquilidade ninguém precisa de dramas. Observou a cama de casal, as duas almofadas, os candeeiros gémeos na mesinha de cabeceira. Tudo certinho. Só que agora a certeza daquela arrumação parecia cenário, não conforto.

Sentou-se na beira da cama, olhos postos na janela. Lá fora, Lisboa arrastando-se num março encardido e restos de chuva junto ao passeio. Ela sempre gostou daquelas indecisões da primavera. Antes gostava, agora só pensava que tinha um relatório para rever logo, e que amanhã a Dona Palmira, certamente, lhe vai pedir para passar na Casa do Lar porque aquelas toalhas são, aparentemente, melhores.

Da cozinha, chega a voz da sogra. Fala para Zé Maria. Ele responde qualquer coisa. Depois ri-se baixinho.

Mafalda massajou as têmporas.

Quando conheceu Zé Maria, há seis anos, a mãe dele parecia-lhe só uma senhora pouco dada a sorrisos, talvez de outro tempo. No casamento, Dona Palmira ofereceu um serviço de chá e mandou vir com o clássico Casa-te bem, sê feliz. Mafalda sorriu. Costumava conseguir ser amável, acreditar nas pessoas, esperar pelo melhor, engolir notas de irritação. A mãe dela chamava-lhe paciência. Mafalda preferia adultice.

Mas aos 32, Mafalda questionava se paciência e maturidade eram mesmo a mesma coisa.

Mais eco de riso do Zé Maria, desta vez alto.

Mafalda foi ao espelho: cabelo castanho escuro, olhos claros e ar de quem precisava de férias. Não porque dormisse pouco: era cansaço de outra espécie, que não se lava a dormir.

Pegou no telemóvel. Escreveu à amiga, Filipa: Amanhã?

Filipa respondeu passados dois minutos: Óbvio! A que horas?

Mafalda: À hora do almoço, eu passo no teu escritório.

Filipa mandou um smiley. Mafalda pousou o telemóvel e voltou à cozinha. Havia pratos para arrumar. Mais um dos seus trabalhos invisíveis, que só viraram obrigações desde que Dona Palmira chegara uma artista em transformar afazeres em deveres morais.

A sogra já estava afundada na sua poltrona favorita da sala. A tal poltrona era o trono de Mafalda ao fim da tarde, com vista para o Largo. Agora lia no quarto, porque a poltrona tinha inquilina.

Mafalda, chamou Dona Palmira, assim que ela passou. Não compraste aquele chá que pedi?

Comprei online. Chega depois de amanhã.

Online Dona Palmira abanou a cabeça como quem ouve um disparate. Não percebo essa vossa moda. Era só ir ao supermercado, cheirar, ver com olhos.

Esse chá não há aqui perto.

Pois, procurar melhor dava jeito.

Zé Maria dedilhava o telemóvel, afastado do drama. Mafalda olhou para ele, depois para a sogra.

Faço isso, Dona Palmira. Próxima vez procuro melhor.

E foi lavar os pratos.

Enquanto esfregava, lembrou-se de quando tudo era diferente. Outras conversas. Zé Maria ligava-lhe do trabalho só para saber se já tinha merenda. Trazia-lhe pastéis daquela pastelaria minúscula ao lado do Martim Moniz. Uma vez atravessaram a Ponte 25 de Abril às tantas da manhã só porque ela queria ver estrelas e, na cidade, não se vê estrelas. Ele nem perguntou porquê. Só levou as chaves e foi.

Agora estava a dois quartos dela, a ver stories no Instagram, enquanto a mãe lhe dava lições de chá.

A água escorria quente. Ela regulou um pouco e continuou.

Psicologia familiar, pensava. Não é só amor. É o que as pessoas fazem quando a vida lhes aperta o espaço. Zé Maria não era má pessoa. Era meigo, atento, piadista até. Mas bastava a mãe entrar em cena e Zé Maria tornava-se o miúdo das fotos antigas camisola às riscas, olhar tímido, à espera de direcções.

Ela pôs o prato a secar.

A noite caía cedo em Lisboa em março, e Mafalda pensou que estava na altura de comprar umas lâmpadas mais quentes. Quando compraram o apartamento há três anos, ela passou logo a pô-lo à sua maneira. Escolheu cortinas, moveu móveis, encontrou os pratos com a risca azul que vira no Pinterest e que andou meses a caçar.

Aquilo era o seu espaço. A sua ilha. A sua ordem.

Zé Maria, endireita o xaile, aqui passa uma corrente de ar! ergue-se a batalha de Dona Palmira da sala.

Mafalda secou as mãos. O peito ficou mais apertado, aquele sítio que, nas últimas três semanas, parecia cada vez mais pequeno. Costelas em promoção. Não doía só aquela sensação de alguém a apertar devagarinho.

No dia seguinte, Mafalda ia almoçar com Filipa.

Filipa trabalhava numa empresa de contabilidade a duas ruas; já tinham um pacto de almoço quinzenal há quatro anos, desde que Mafalda também era exilada no Excel ou os miolos azedavam de vez.

Um cafézinho curto na esplanada que ambas gostavam o barulho certo, nem música ambiente, só o rumor do mundo real.

Conta lá, disse Filipa, envolvendo a caneca nas duas mãos.

Ela já cá está há três semanas.

Filipa nem desmanchou as sobrancelhas. Conhecia Dona Palmira de ouvir falar. O suficiente.

Zé Maria?

Sim, como sempre. Não percebe ou percebe e faz de conta. Já nem sei qual deles é pior.

Fala com ele.

Tentei. Diz que a senhora está idosa. Que é aguentar.

A mãe diz-lhe essas coisas?

Que está doente, sozinha, a precisar de companhia. Mas para as compras em segunda mão, mil anos de saúde. Quarta-feira foi à Baixa, à loja dos têxteis. Três horas de gira-gira. Depois chega, ai que canseira, preciso de me deitar.

Filipa ergueu uma sobrancelha.

Três horas à caça de lençóis?

E comprou só duas fronhas. Que escondeu na minha pilha dos lençóis sem avisar. Abro o armário, já nem sei distinguir o que é meu.

Diz-lhe alguma coisa.

Mafalda pousa a colher.

Assim de caras? Dona Palmira, largue os meus lençóis? Experimenta, Filipa, depois contas-me se sobrevivo à novela no serão. É logo o sermão: “na nossa família sempre foi assim”, antigamente tudo diferente, “tu é que devias ser mais delicada”. Ele ouve a conversa, fica calado. Depois, às escondidas, diz que devia ter sido suave. Que a mãe não faz por mal.

Então e tu?

Fecho o saco-fronha e devolvo ao quarto dela, sem discussões.

Filipa ficou em silêncio.

Estás exausta, disse baixinho.

Tão exausta, respondeu Mafalda, e nem soube porque aquilo soou a um alívio.

Fica até quando?

Zé Maria diz: “é esperar. A mãe logo se farta.”

Isso não é resposta.

Eu sei.

Filipa bebe um golo de café, medindo Mafalda com olhar sério.

Tens mesmo de falar com ele mas a sério. Não à mesa com a sogra. A SÉRIO.

Nem sei se ele sabe discutir isso. Fica diferente, quando ela está.

Então apanha-a num passeio. Leva-a a ver rendas, tu ficas em casa a pôr as cartas na mesa.

Pareces ver tudo fácil.

A sério, disse Filipa. Manda-a dar corda aos sapatos, e tu conversas com o teu marido.

Ficaram caladas enquanto pela rua passava uma senhora com um cão pequeno ruivo. O cão queria ir para um lado, a dona para o outro: aquela clássica guerra silenciosa.

Sabes o que me assusta? murmurou Mafalda. Não é ela. Ela é o que é. Assusta-me não reconhecer o meu próprio marido.

E Filipa não respondeu. Às vezes o melhor é não dar resposta nenhuma.

Voltou ao trabalho. Ficou a pensar no relatório por entregar, que o leite já acabava e que nem telefonar à mãe tinha conseguido em duas semanas. Filipa tinha razão. Era preciso uma conversa. Daquelas.

Cheirava a perfume na casa, dos doces. Mas não era o dela. Mafalda parou na entrada, farejando mais uma nota adocicada, intensa. Dona Palmira e o seu Noite Serena, aroma de guarda-fatos antigos, com valores sentimentais.

Chegaste? perguntou Dona Palmira da sala. Descasquei as batatas. Podes fritar.

Mafalda tirou o casaco, arrumou-o calmamente.

Obrigada, Dona Palmira.

O Zé ligou, diz que chega depois das oito. Qualquer coisa no escritório.

Eu sei, ele mandou mensagem.

A cozinha cheirava a batata. Cortada em generosos calhauzinhos, nada parecida com as fininhas e certinhas de Mafalda. Aqui, ia tudo à sorte, cada uma fritava de maneira diferente.

Pegou na faca e foi recortando outra vez. Em silêncio.

O que fazes? perguntou a sogra, já por trás.

Corto mais fino.

Para quê? Eu já fiz.

Assim frita melhor.

Fritou assim a vida toda, e ainda cá estou.

Mafalda continuava.

Mafalda, e aquele tom aquele tom frio por baixo da polidez que ela já reconhecia à primeira sílaba. Estou a dizer que já cortei as batatas.

Eu ouvi, respondeu. E obrigada. Só estou a fazer à minha maneira.

Pausa. Longa.

À tua maneira e foi-se embora.

Mafalda espetou a batata, preparou a frigideira. O óleo a aquecer. Um fio de fumaça, depois o sizzle. A batata começou a estalar.

Limites, pensava ela. O termo do momento. Mas enquanto mexia batata, percebeu que não era moda. Era muito mais simples: o direito de cortar as batatas como lhe desse na real gana na sua casa.

Zé Maria chegou perto das nove, com ar moído e aquele este dia foi eterno estampado no rosto. Um beijinho rápido na entrada e foi para a sala.

Mãe, tudo bem?

Melhor. Dói-me menos a cabeça.

Ótimo. Mafalda, há jantar?

Batatas ainda na frigideira. Eu já as sirvo.

Jantaram. A conversa girou em torno do trabalho do Zé. Dona Palmira fazia perguntas, ele respondia. Mafalda mastigava e acenava. Aquilo ia como o TGV: pesado e rotineiro.

Depois Zé Maria esparramou-se no sofá, mãe na poltrona. Mafalda foi analisar um relatório no portátil. Os números bailaricavam-lhe nos olhos, não por cansaço, mas pelo zunido constante do outro lado da parede. Os diálogos dos dois, longos, sobre tudo e sobre nada.

Perto das onze, Zé Maria chegou ao quarto.

Então, como estás?

Bem, relatório finalizado.

A mãe diz que pareces maldisposta.

Mafalda guardou o portátil. Virou-se.

Não, só cansada.

Do trabalho?

Olhou para ele. Na penumbra o rosto sereno. Não fingia, não fazia ideia.

Não só.

Então do quê?

Zé, interrompeu, com calma. Já reparam que já vão três semanas?

A mãe esteve doente.

Estava. Agora passa as horas na rua.

Silêncio.

Ela só está cá porque se sente só.

Eu percebo disse Mafalda. Mas, Zé… Esta é a nossa casa.

É a casa dela também.

Não, Mafalda firme, sem raiva. É a nossa casa. Nossa.

Silêncio. Depois:

Queres que aponte um prazo? Que a mande embora?

Quero que fales com ela. Combinem datas.

Mafalda

Estás a ouvir?

Ouço. Mas é a minha mãe.

Sei que é a tua mãe. Não quero que a expulses. Só conversa.

Pausa. Daquelas que ela já sabia ler demasiado bem.

Falo, prometeu.

Quando?

Quando for o momento.

Mafalda ficou a olhar o teto cinzento. Uma vez achou que devia pintá-lo, ou pôr um de reboco de luz cálida. Ficou em ideias.

Boa noite.

Boa, respondeu ele.

Ouviu-o adormecer em segundos. Ela, essa, ficou a pensar se quando for o momento significava quando me apetecer ou nunca. Já ouvira essa promessa sobre visitar os sogros, arranjar a torneira, ter filhos.

Era a língua dos que odeiam confronto. Adiar para sempre.

Adormeceu perto da uma da manhã.

No sábado, Dona Palmira fez o pequeno-almoço. Foi um gesto inesperado, e Mafalda encarou-o como tal. Havia papas de aveia com passas, torradas, manteiga. Tudo arrumadinho, como ela gostava.

Fiz como fazia ao Zé, em criança explicou Dona Palmira.

Obrigada.

Ele gosta com passas, sabes?

Sei. Faço há três anos.

E tu comes o quê?

Normalmente, torrada com queijo.

Não achei queijo digno à venda. Queijos estranhos, por aqui.

O que gostamos.

Palmira fechou a boca, mas deixou ar crítico.

Zé Maria apareceu de pijama, apanhou a mesa posta, sorriu.

Oh, papas! Mãe, fizeste papas.

Para ti, meu querido.

Mafalda, prova, a mãe faz mesmo bem.

Estou a provar, respondeu, com o melhor ar de quem já não se importa.

As conversas matinais ficaram-se pelo tempo, pela sugestão de passeio ao Jardim Botânico no domingo. Zé Maria aceitou logo. Mafalda só perguntou se a sogra não se cansava. Ela devolveu um olhar triunfante: andar faz bem à saúde, minha menina.

Sábado foi dia de limpezas para Mafalda: o seu método de sobrevivência.
Limpar era organizar a cabeça.

Primeiro a sala: limpou prateleiras, alinhou livros, pôs a boneca de madeira que compraram há dois anos no sítio correto (estava mais à beira desde a última semana).

No hall, pendurados os casacos de Dona Palmira ocupavam o território todo, o próprio sobretudo já quase tapava o dela. Mafalda corrigiu, sem cerimónia.

O que fazes? lá estava Dona Palmira.

Limpo, só isso.

Para quê mexer na minha roupa?

Estava a tapar a entrada.

Tudo te incomoda…

Mafalda pegou na escova de sapatos. Continuou.

Eu só digo, meteu a sogra, um tom mais suave, como quem bate em ferro frio. Da próxima vez avisa.

De acordo. Aviso.

Ao jantar, Zé Maria sugeriu pizza. Dona Palmira fez o ar entre o drama e o julgamento: isso não é comida a sério, façamos antes qualquer coisa decente.

Mafalda simulou um sorriso para Zé Maria. Ele retribuiu.

Ó mãe, pizza é mais rápido. A Mafalda está cansada.

Cansada de quê? Trabalha de casa!

Trabalho, Dona Palmira. Não é igual a estar aqui pendurada.

Eu trabalhei a vida toda, e ainda tinha tempo de fazer jantar!

Eu compreendo replicou Mafalda, voz calma, já quase contra a vontade. Mas hoje há pizza.

Fim de discussão. Zé Maria pediu a pizza enquanto Palmira recolheu-se ao quarto o antigo gabinete de Mafalda, agora pousio de malas e roupa da sogra. Ela já só entrava para buscar papéis.

Quando veio a pizza, comeram os dois à mesa da cozinha. Dona Palmira foi buscar uma sandes.

Se quiser, experimente ofereceu Mafalda.

Obrigada, mas prefiro comida normal, inatingível.

Mafalda olhou para Zé Maria.

Disseste que ias falar com ela.

Mafalda Agora não.

Quando?

Não é hora, não à mesa.

Mas quando então? Depois do jantar vês televisão e deitas-te logo. Quando acaba o agora não?

Ele suspirou.

Aguenta só mais um pouco. Ela há de querer ir embora sozinha.

Porquê?

Porque é sempre assim.

Isso era antes. Agora já não.

Sente-se só.

Eu também.

Ele parou de mastigar.

O quê?

Ouviste.

E ele, pão mordido no ar, voltou o olhar para além dela.

Estás a exagerar, decidiu por fim.

Mafalda comeu a pizza fria. Estás a exagerar era outra forma de dizer não quero ouvir.

O chamado conflito de gerações, dizem, é só diferenças de ponto de vista. Mas não: trata-se de poder. De quem define o normal e quem aprende a calar.

Arrumou a mesa. Lavou as mãos. Foi para o quarto.

No domingo foram ao Jardim Botânico todos juntos. Mafalda queria ficar, mas a boa educação nunca a largava.

O jardim em março estava quase deserto. Árvores nuas, chão húmido. Uma beleza resignada.

Palmira caminhava devagar, agarrada ao filho, a narrar histórias sobre vizinhos e hortas. Zé Maria assentia, Mafalda ia atrás, perdida em pensamentos.

Entre pinheiros, Dona Palmira largou:

Mafalda, um sorrisinho, sim? Parece que vai a um funeral.

Desculpe?

Digo, sorria. Nem parece gente alegre.

Vou como costumo, Dona Palmira.

Palmira encolheu os ombros. Zé Maria analisava um pinheiro.

A seguir, café no átrio na entrada. Quente, cheiro a pastelaria. Mao Mafalda olhava para a chuva a escorrer nos ramos.

Então, Mafalda, vocês não pensam em ter filhos?

Virou-se devagar.

Isso é assunto meu.

Tão meu também: sou avó

É entre mim e o Zé Maria.

Claro, mas tu já tens trinta e dois…

Dona Palmira, agora o tom era diferente, de chão firme, eu ouvi. Mas não vou discutir isso aqui.

Pausa. Palmira olhou para ela, depois para o filho, que estudava a chávena.

Pois muito bem.

Voltaram sem grande conversa. Em casa, Mafalda mergulhou nos relatórios: aquela aritmética trazia paz. Palmira, nos próximos dias, também amainou. Talvez tivesse percebido algo. Ou então cansada da maratona dos lençóis.

Na quarta-feira, Mafalda descobriu que alguém rearranjara as suas coisas no armário: as toalhas estavam dobradas diferente, os lençóis numa ordem esquisita.

Foi à sala:

Dona Palmira.

Ela nem tirou os olhos da revista.

Pode não mexer nas minhas coisas, por favor?

Só organizei. Estava uma confusão.

Estava no meu modo. O meu modo.

Cada um com o seu, rebateu Palmira, sorriso na ponta.

Exato. Este é o meu.

Voltou para a secretária. As mãos tremiam, mas não importava. Disse o que tinha a dizer. Calmamente.

Na sexta-feira, Zé Maria chegou mais cedo, com uma caixa de bolo de limão da Pâtisserie do Rossio. Um pormenor. Algo nela aqueceu.

Lembrei-me que gostas com creme de limão, disse ele, meio tímido.

Obrigada.

Mãe, queres bolo?

Sinto a tensão a subir só de ver gritou Palmira da cozinha.

Mafalda e Zé Maria comeram o bolo, sozinhos. Primeira vez, em quase um mês.

Como estás? perguntou ele.

Obrigada pelo bolo.

Tenho pensado no que disseste. Da solidão.

Mafalda fixou-o.

E?

És capaz de ter razão. Não sei é como contar-lhe.

Conta só.

Ela vai ficar magoada.

Tem direito. Explicamos-lhe com jeito: que gostamos dela, mas precisamos de espaço.

Zé Maria ficou a mastigar.

Se fosses tu a explicar

Não. És TU, Zé Maria. Se sou eu, sou a nora má. Se és tu, és o filho adulto.

Demorou um olhar.

É verdade.

Qualquer coisa moveu-se, pequena, mas presente.

Palmira apareceu à noite:

Vou para a cama cedo. Algo cansada.

Boa noite, mãe.

Boa noite, Dona Palmira.

Saiu. Silêncio.

Falo com ela amanhã, prometeu Zé Maria na penumbra.

Mafalda não respondeu. Esperou.

Amanhã ainda demorou.

No sábado seguiu-se almoço de família. Dona Palmira ergueu-se cedo, ocupou a cozinha, trouxe compras como quem vai abrir o Lux Frágil ao final da tarde.

Mafalda levantou-se ao cheiro de cebola frita. Entra na cozinha, vê a fila de ingredientes, Palmira comandante do fogão.

Bom dia.

Bom dia. Preciso da panela grande.

Aqui tens.

Obrigada. Agora, se puderes, não estejas a atrapalhar.

Perdão?

Esta cozinha é pequena. Eu oriento-me.

É a minha cozinha, Dona Palmira.

E eu é que cozinho, anda dar uma volta.

Mafalda resfriou toda a compostura. Respirou fundo.

Vou buscar o meu café.

Sentou-se no quarto com o café, enquanto a sogra fazia história do outro lado da parede.

Aquele era o seu fogão, a sua bancada. Procurou por meses, redecorou vezes sem conta. Agora, diziam-lhe para não se meter ali.

Deixou a caneca e foi ao corredor, encontrou Zé Maria. Toalha ao pescoço.

Ouviste?

O quê?

A tua mãe disse-me para não me meter na minha cozinha.

Mafalda…

Vais hoje falar com ela? Hoje mesmo?

Aquela pausa dele, a luta interna: o rapazinho e o homem. Mas respondeu:

Hoje.

E ela foi ler, finalmente.

O almoço foi às três. O caldo estava bom até ela admitia, Dona Palmira sabia o que fazia. Os folhados ficaram topo.

Assim é que se faz, afirmou Dona Palmira, enquanto servia.

Está ótimo elogiou o filho.

Gostas, Mafalda?

Muito bom, obrigado.

Ainda bem. Dei em cima disto desde as oito.

Podia ter pedido ajuda, sabe?

Nunca tens tempo. Estás sempre colada ao computador.

Eu trabalho.

Bem sei, mas ajudar nunca fez mal.

Mandou-me sair da cozinha.

Dona Palmira olhou para ela, depois para Zé Maria.

Quis fazer sozinha…

Pronto, cortou Mafalda.

Ficaram a ouvir histórias de vizinhas e filhas que mudaram para o Porto. Mafalda pensava que, na psicologia das famílias, há triângulos onde alguém fica sempre de fora não por mal, mas porque assim acontece. E dói na mesma.

Zé Maria foi ao varandim. Mafalda arrumou a loiça. Dona Palmira foi ajudando.

Estás zangada disse, num tom inesperado.

Acha?

Vejo que sim. Ficas silenciosa de outro jeito.

Estou a pensar.

Em quê?

Prioridades. A vida ensina a dar pesos distintos às coisas.

Palmira resmungou.

Vocês, jovens, querem racionalizar tudo. Antes vivia-se, e pronto.

Acha mesmo?

Acho.

Mafalda fechou a torneira, olhou-a de frente.

A Dona é uma mulher esperta, despachada. Sabe da vida como ninguém. E somos diferentes. Como eu organizo a casa é assunto meu. Só quero paz.

Palmira mediu as palavras.

Pois, está bem.

E paz precisa limites. Eu, a Dona, o Zé Maria. Não é birra. É respeito.

Silêncio.

Tem razão, admitiu Dona Palmira, mas com aquele tom de respondo porque sim.

Fico contente.

Mafalda foi à varanda, onde Zé Maria absorvia Lisboa.

Ela implicou?

Não.

Falei com ela. Limites.

E ela?

Diz que entende. Logo vejo.

Ele apertou-lhe a mão. Ela deixou.

Três dias depois, pela primeira vez desde a chegada, Dona Palmira perguntou calmamente quando dava para combinarem o regresso.

Mafalda foi ouvindo, distraída, parada no corredor.

Zé Maria, acho que já abusei.

Ó mãe, não diga isso. Foi bom tê-la cá.

Foi. Mas a Mafalda está mais calada. Mulher calada é sinal de nuvens.

Reparou?

Reparei admitiu Zé Maria.

Eu sei quando sou a mais. Também sei a diferença entre casa nossa e casa dos outros.

Mafalda encostou-se à parede.

Vou na sexta, disse Palmira.

Só se quiser…

Não. Está bom assim. Preciso de ir ver da minhocária. E a vizinha precisa de mim.

Mafalda recolheu-se ao seu quarto. Não sentia triunfo nem alívio imediato, só uma espécie de largada de fôlego.

Na sexta, prepararam tudo.

Palmira arrumou as coisas com a precisão de quem viaja em pacote turístico. Mafalda ofereceu ajuda; desta vez a sogra aceitou. Dobraram roupa sem confusões.

Até tens jeito para dobrar, elogiou Palmira.

Aprendi com o Zé. Agora faz muitas viagens.

Ele nunca foi jeitoso para isso.

Agora é.

Palmira deu uma volta pelo apartamento, olhando e guardando o espaço.

Bela casa, disse ela. Muito luminosa.

Gostamos muito.

Nota-se. Está feita a preceito.

Primeiro elogio verdadeiro.

Obrigada.

Olhou-a, sem calor, só reconhecimento.

És resistente, afirmou Palmira, sem julgamento.

Tento ser, riu-se Mafalda, sincera.

Zé Maria acompanhou a mãe até à estação. Mafalda ficou à porta. Palmira abraçou-a seco, pegou na mala.

Veem nos feriados de maio, não?

Logo se vê. Se tudo correr bem.

Vão, sim, aposto e carregou o elevador.

Quando a porta fechou, Mafalda entrou em casa, sentou-se na sua cadeira azul. O seu assento agora vazio, agora dela.

Lá fora, miudinha, a chuva hesitava se era inverno ou primavera. Mafalda abriu o livro. Leu uma página. Depois outra. Só isso.

Duas horas mais tarde voltou Zé Maria.

Estás bem?

A ler.

Via-se. Ela chegou bem, ligou do Alfa.

Boa.

Mafalda

Levantou os olhos.

Eu sei que foi difícil. Desculpa.

Está desculpado.

Devia ter falado mais cedo…

Já passou, cortou Mafalda. Não vamos voltar ao assunto.

Ele anuiu, sentou-se. Tirou o comando da televisão, largou-o, e ficou em silêncio.

Ficaram, cada um por si, ela a ler, ele a olhar pela janela. A luz da entrada acesa.

Uns dias depois, Mafalda encontrou a lata de chá que Palmira trouxera. De propósito? Esqueceu? Chá da Serra dizia a lata, toda amolgada. Abriu. Aroma de tomilho e mato seco.

Aqueceu água, fez uma chávena, e sentou-se na poltrona, olhar perdido na rua. A chuva parou. O céu espelhava-se nas poças.

Pensou telefonar à sogra domingo. Só porque sim. Não por obrigação, mas porque era o correto: Palmira era difícil mas era mãe do Zé, e entre eles havia agora um fio que finalmente não partia só precisava de distância.

Mafalda pensava que isto da sabedoria de mulher não é engolir tudo é saber onde acaba o nosso e começa o dos outros. Falar quando é preciso, calar o que não vale a pena. Ser soft não é igual a não ter posições.

O telemóvel vibrou. Filipa: Tudo bem? A sogra já saiu?

Mafalda: Já. Tudo ok.

Filipa mandou smiley de chávena.

Mafalda sorriu. Pousou o telefone. Acabou o chá.

Na segunda, voltou ao Excel com aquela estranha paz de quem finalmente pousa um saco. O braço ainda dói, mas já está livre.

Corrigiu um relatório, acertou uns valores. Mandou mensagem a uma colega, fez café.

Ao almoço, Zé Maria ligou.

Jantamos o quê?

Não sei. O que sugeres?

Que tal irmos jantar fora? Já não fazemos isso há séculos.

Era verdade, havia semanas que não jantavam a dois.

Apetece-me massa. Aquela da tasca na Praça das Flores.

Ótimo. Às sete?

Combinado.

Na tasca, comeram massa, Zé Maria um bife. Beberam vinho branco. Conversaram de coisas leves, gargalhadas de verdade.

Tens um riso bonito, sabias?

O quê?

Estavas sem rir assim há séculos.

Sim, admitiu ela, surpresa.

Ficaram a beber. Zé Maria falou das asneiras de um colega, ela riu alto.

E as lâmpadas para o quarto? lembrou ele.

Lembraste-te?

Claro, querias quentes. Escolhemos este fim de semana?

Escolhemos.

Saíram, Lisboa iluminada por abril lá fora.

Chegam a casa: o silêncio era dela. A sala inteira. A cadeira junto à janela.

Aproximou-se. Olhou as luzes, lambidas de luar, o caminho dos carros, a vida lá em baixo. Pensou que ligaria à mãe amanhã. Que tinha de pôr ordem no gabinete, escolher a tal lâmpada. E que, no domingo, prepararia uma lasanha só para si, como devia ser.

Eram pequenas certezas. Dela.

Zé Maria saiu da casa de banho.

Vens dormir?

Já vou.

Ele despediu-se, foi para o quarto.

Mafalda ficou mais um pouco. Sorveu o tempo devagar. Depois foi à cozinha, bebeu um copo de água. Guardou tudo. Apagou a luz.

Amanhã ligaria à mãe.

Mas isso era conversa para outro dia.

Andou pelo corredor de luz morta, enfunou-se nas mantas, a pensar: como é que se mantém um casamento sem perder quem somos? Como marca o seu território sem destruir a casa dos dois?

Talvez a sabedoria seja mesmo isto: ir vivendo as perguntas.

Nem mártir, nem campeã. Só uma mulher consciente do seu lugar.

Na sua sala.

À sua janela.

Na sua vida.

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A minha sogra não quer ir embora