Que desgraça é esta? Olha só, Leonor, passa ali o dedo. Isto nem é pó, já parece feltro! A sério, dava para plantar batatas nesta prateleira! O tom agudo e crítico da voz da minha sogra, D. Rosalina Mendes, ecoava pela sala como faca a cortar presunto bem curado.
Suspirei fundo, fechei o portátil e levantei-me devagar. O relógio já marcava oito da noite; eu tinha chegado a casa apenas meia hora antes, depois de um dia inteiro a fazer fecho de contas do trimestre no escritório. A cabeça parecia uma linha de alta tensão a zumbir. O que menos queria nesta vida era ouvir sermões sobre pó, mas D. Rosalina era daquelas pessoas impossíveis de ignorar. Estava ali, no meio da sala, a segurar um bibelô de porcelana (um galo de Barcelos) e lançava-me um olhar cheio de virtude ofendida.
D. Rosalina, limpei a casa no sábado. Abrimos as janelas, sim, mas Lisboa está cheia de trânsito e o pó entra logo tentei justificar-me, sabendo de antemão que era perda de tempo.
Toda a gente abre janelas, minha menina, mas é só aqui que há porcaria retorquiu, esfregando o dedo num guardanapo que, pelos vistos, trazia sempre na mala para estas ocasiões. O Salvador chega cansado do banco, com fome, e o que encontra? Desordem. Um homem precisa de conforto e de ordem. E vejam só: duas canecas na banca, desde manhã, seguramente!
Saímos apressados, Salvador tomou café à pressa, podia ter lavado… murmurei, indo à cozinha pôr água no fervedor.
A minha sogra, nas suas pantufas (sempre traz as suas de casa, não gosta das de visita), arrastava-se atrás de mim, o som irritante do seu arrastar perturbando a paz já pouca do apartamento.
Um homem nunca deve lavar loiça! indignou-se, gesticulando no ar. Isso é tarefa da mulher, guardiã do lar, já ouviste? E tu, só números e faturas E o meu filho, pobrezinho, sempre de camisa por passar. Ontem vi-o quando me veio trazer os frascos, o colarinho uma miséria. Quem olhar até julga que o Salvador está sozinho no mundo!
Peguei nos bolinhos do armário tentando não bater a porta. Cá dentro já fervia. Cinco anos de casamento e sempre a mesma cantiga. No início ainda tentei fazer tudo: engomar, esfregar, cozinhar sopas, bacalhau e sobremesa. Mas ser chefe de contabilidade é puxado. O Salvador nunca reclamou: contenta-se com massa ao domingo e nem vê pó a não ser quando procura as sapatilhas. Mas a mãe isso não suporta.
Justo quando o ambiente pesava, ouviu-se a porta de entrada.
Já cheguei! Salvador apareceu de sorriso aberto.
Meu querido! A sogra mudou logo de figura, sorriu e correu para o hall, ajeitando o cabelo pelo caminho. Vim trazer-te rissóis de camarão, como tu gostas. Sei que a Leonor não pode, está sempre a trabalhar, coitadinha…
Salvador entrou na cozinha, deu um beijo na mãe, outro na minha cara, e caiu na cadeira estafado.
Ó mãe, que maravilha, estou cheio de fome. Temos jantar, Leonor?
Fiquei ali parada com o fervedor na mão.
Só agora cheguei, Salvador. Pensei fazer massa à marinheira, o atum já estava a descongelar.
A minha sogra pôs as mãos ao peito indignada.
Massa outra vez? Salvador, ouviste? Só come massa, não tem uma refeição decente! O teu pai, Deus o tenha, tinha sopa fresca todos os dias e nunca lhe doía a barriga. Aqui
E fez beicinho, olhando para o fogão vazio.
Vá lá, mãe, não dramatizes Salvador já a comer um rissol. A Leonor já faz num instante.
Não dramatizes?! Só quero o teu bem! Olha para ti, emagreceste, estás pálido. Tudo culpa de má alimentação e má gestão do lar. Uma mulher deve criar um ambiente onde o homem queira sempre voltar. Mas o que temos aqui? Pó, loiça suja e massa. A tua mulher não é nada de dona de casa, Salvador, já te disse isso antes de casarem…
D. Rosalina! coloquei o fervedor sobre a base de cortiça, com firmeza.
Caiu o silêncio. Ela olhou-me surpreendida; não estava habituada a ouvir-me responder. Normalmente engolia e ficava calado.
Que foi, Leonor? Já nem posso dizer a verdade? Eu vivi uma vida inteira, sei bem o que é manter um lar.
Olhei para a cozinha. Para o meu marido a fingir que não era com ele, para a minha sogra vitoriosa, para o atum descongelado a largar água. E naquele momento, algo clareou.
Tem toda a razão, D. Rosalina. Eu sou péssima dona de casa. Não engomo, não faço sopa todos os dias, não limpo pó às quartas. Trabalho e trago euros para a casa, dinheiro que, aliás, poupamos para trocarmos o carro, aquele com que o Salvador a leva à Figueira da Foz. Mas isso não desculpa.
Vês? Ela própria admite! O primeiro passo é assumir!
Não, não vou mudar, não tenho como. Mas arranjei solução. D. Rosalina, já que se importa tanto com a casa do Salvador, já que sabe tudo o que um homem precisa e tem tanto tempo desde que se reformou… proponho que assuma o comando.
O comando? ela nem entendeu.
A rotina. Tudo. Eu tiro as mãos, só venho dormir, pago metade da luz e da prestação. E a senhora, dona absoluta, mostra como é. Cozinha-lhe comida à portuguesa, engoma as camisas como manda o figurino, esfrega o chão. E vive a cinco minutos daqui, tem as chaves.
Salvador parou de mastigar e ficou a olhar para mim.
Leonor, estás maluca?
Então? A mãe tem razão. Tu mereces o melhor. Eu não estou à altura, deixo a mãe mostrar como é. Um mês de experiência. Se ao fim do mês disseres que gostaste mais assim, eu inscrevo-me num curso de economia doméstica. Ou peço para trabalhar menos horas.
A D. Rosalina ficou tonta, nunca esperou ter de calar e mostrar. Mas não podia recuar estava em jogo o orgulho da senhora perfeita.
Muito bem! elevou o queixo. Aceito! O Salvador merece comer bem ao jantar. Mas ninguém se mete comigo na cozinha!
Combinado abri braços, teatral. Nem me aproximo do fogão. Vou jantar fora ou comer nas cantinas do trabalho.
Então amanhã de manhã cá estarei para pôr isto a brilhar, que vergonha perante as visitas!
Aquele fim de noite foi estranho. O Salvador tentou falar, mas virei-me para o lado.
Dorme, Salvador. Amanhã começa uma nova vida para ti. Com camisas cheirosas.
Na manhã seguinte, já eu voava para o escritório e D. Rosalina entrava em casa com ar de comando. Começou logo em força: limpou tudo, lavou janelas, tirou cortinados pra lavar (achava-os cinzentos de pó), esvaziou armários, alinhou os frascos por ordem alfabética.
Quando cheguei ao fim do dia nem reconheci o apartamento: cheirava a lixívia e a refogado. D. Rosalina, vermelha e de avental, batia panelas na cozinha. O Salvador à mesa, diante dele uma taça de caldo verde, bifes com puré, salada de feijão-frade e até chouriço.
Lá vem a trabalhadora, resmungou ela, sem se virar. Lava as mãos e senta-te. Fiz canja à moda antiga, cozeu três horas.
Obrigado, já comi no escritório. Passei direto para o quarto.
Lá dentro, outra surpresa: o meu lado do armário arrumado por cores, roupa interior toda mexida, livros limpos do criado-mudo, a minha agenda já não estava à vista.
Voltei à sala.
D. Rosalina, onde está o meu livro? Estava na mesinha.
Aquilo? Guardei dentro do armário. Só faz tralha. Os móveis têm de estar limpos para passar o pano. E tens o armário uma confusão, misturas tudo. Agora está organizado, como numa farmácia.
Mordi os dentes. Uma invasão brutal das minhas coisas. Mas lembrei-me: Isto é para o bem do experimento.
Agradeço o cuidado, rosnei, fui trocar de roupa.
A primeira semana foi uma abundância. O Salvador estava extasiado: todos os dias vinha para um banquete. Sopa, prato, doçaria. D. Rosalina lá ao almoço, cozinhava, limpava, ouvia o Salvador a desabafar sobre o chefe e só ia embora quase às dez.
Eu chegava, cumprimentava, fechava-me com o computador ou um romance. Descobri que tinha três horas livres por noite. Não precisava de comprar mercearia, cozinhar, arrumar a máquina da loiça (que ela limpava tudo à mão, dizia que máquina não limpa como deve ser). Inscrevi-me na piscina, li tudo o que tinha ficado por ler, dava passeios ao fim do dia.
Mas ao meio da segunda semana, o ânimo do Salvador mudou.
Leonor, cochichou uma noite, já deitados. Falta muito para a minha mãe parar?
Um mês, combinámos. Porque, não gostas? Tens sopa rica, camisas imaculadas. Nem precisas de fazer nada.
Está tudo ótimo, mas… ela é demais. Eu chego, queria só relaxar a ver a bola, ela não sai do meu lado, fala das artroses, das vizinhas, dos preços no Minipreço. Fica ali, sempre a chamar: Come, filho, Por que deixaste arroz?, Deixa passar-te um guento nas costas. Sinto-me um miúdo de cinco anos.
Era esse o preço do conforto, sorri no escuro. Mas pelo menos não comes massa.
E depois mexe-me nas coisas. Ontem perdi as minhas meias da sorte, vasculhei tudo. Atirou-as fora porque tinham buraquinho. São MINHAS meias!
Diz-lho. Ela só pensa no teu bem.
Já lhe disse! Fico mal-agradecido Estou aqui a esfalfar-me e tu assim!
Na terceira semana, quem cedeu foi D. Rosalina. O esforço pesou-lhe, a idade também. Limpar um T3, carregar sacos do mercado (a fruta no mercado é melhor…), fazer pratos à antiga todos os dias não era como parecia.
Uma noite cheguei e encontrei-a estendida no sofá, toalha molhada na testa. Cheirava a Vicks Vaporub pela casa toda. O Salvador, aflito, ao lado.
Que aconteceu? perguntei.
A pressão dela subiu, suspirou o Salvador. A mãe pôs-se a fazer cozido à portuguesa e depois lavou tudo à mão, nem a mopa usou. Agora está assim…
Ai, Leonor, choramingou a sogra, as costas, o coração aos saltos…
Fui buscar o aparelho, estava elevada mas nada de grave. Fatiga, mais nada.
O melhor é descansar uns dias, D. Rosalina tirei-lhe o medidor. Para quê tanto sacrifício?
E quem é que cozinha ao Salvador? Ele vai ficar esfomeado, tu não vais cozinhar
Não, não vou, confirmei. É o acordo.
Ó mãe, deixa-te disso suplicou Salvador Encomendamos pizza ou faço umas sardinhas. Não te mates.
Pizza gemeu D. Rosalina, sem forças. Pronto, hoje é pizza, amanhã venho eu. Tenho massa fresca no frigorífico.
Mas no dia seguinte já não apareceu. Ligou a dizer que nem se conseguia levantar. Estava presa da coluna.
O Salvador respirou de alívio. Aquela noite encomendámos sushi, abrimos uma garrafa de vinho verde e apreciámos a paz. Nem cheiro a lixívia, nem gritos, nem cozinha militar.
Leonor, acaba-se com isto? pediu o Salvador, molhando a peça no molho de soja. Chega. Amo a minha mãe mas só ao domingo. Prefiro massa todos os dias e as minhas meias velhas a viver assim.
E o conforto? brinquei.
Venha o Diabo e escolha. Compro camisas que não engelham. Leonor, tinhas razão não sei como aguentavas. É um trabalho dos diabos e ainda por cima a trabalhar fora
Sorri, era a vitória que precisava.
O final deu-se uns dias depois. D. Rosalina, já mais composta, veio ver como estavam as coisas. Entrou, viu as caixas da pizza por deitar fora, uma chávena por lavar e desta vez não disse nada.
Sentou-se à mesa, pensativa.
Leonor, disse quando me juntei a ela. Estive estes dias a pensar. Isto é um terror.
O quê? perguntei ao servir-lhe chá.
Tudo. Esta casa é grande, lavar estes soalhos Fiquei toda partida. E, sinceramente, o Salvador é um desmazelado! Sem eu dar conta, frita, suja, deixa migalhas por todo o lado. Passo o dia a apanhar-lhe coisas. Reclamei, e sabes o que ele diz? Oh mãe, não amoles! Imaginas?
Contive-me para não rir. O filho perfeito ficou só slogan quando a mãe passou a ser empregada doméstica.
D. Rosalina, sentei-me em frente. Peguei-lhe na mão enrugada de produto de limpeza. É uma ótima dona de casa, juro. Eu nunca conseguirei igual, e nem quero. Aqui temos o nosso jeito, funcionamos assim. Ambos trabalhamos, chegamos cansados. Às vezes há pó, às vezes só temos sopa instantânea ou bifanas. Mas somos felizes. E, quando quisermos bacalhau assado e rigor, vamos a sua casa. Pode ser?
Ela olhou para as mãos, cansada, mas sorriu de lado.
Pode, sim. Avisem com antecedência. Que tenho de tratar das flores e da novela, e até queria ir às Termas. Estou farta, já chega. Passei as camisas ao Salvador e estão penduradas. As próximas que trate ele ou tu, quero lá saber. A saúde vem primeiro.
Terminou o chá, ajustou a malha.
E olha que já pus o teu livro de volta à mesa de cabeceira. Lês umas coisas estranhas, mas é contigo.
Nessa tarde, quando o Salvador chegou, a casa estava tranquila. O cheiro já não era de cloro, nem de refogados, só o perfume da Leonor. No fogão cozinhavam salsichas frescas, na mesa uma lata de ervilhas.
A mãe foi embora? perguntou ansioso.
Foi. Abandonou o cargo. O experimento acabou por exaustão da funcionária.
Ele abraçou-me com força, encostando o nariz ao meu cabelo.
Obrigado murmurou.
Porquê? Pelos salsichas?
Por seres sábia. E por devolveres a minha paz. Amo-te, mesmo se não fores boa dona de casa.
Não sou má ri. Sou moderna. E estas salsichas são de marca, só para ti.
Desde então, D. Rosalina continua com os seus palpites (não se perde o jeito), mas quando passa o dedo por cima de uma prateleira e encontra pó, limita-se a suspirar longamente. E se se prepara para pregar discurso sobre deveres de mulher, basta eu perguntar: D. Rosalina, quer vir cá uma semana ajudar? Tenho viagem de trabalho, e ela lembra-se logo da novela ou da gata por alimentar e desaparece.
A paz voltou ao lar. O pó fica. O que importa é que as pessoas saibam respeitar o espaço uns dos outros.
Hoje aprendi que, numa família, felicidade não é feita de casas impecáveis, mas de respeito e compreensão. O resto são só migalhas numa mesa bem portuguesa.







