A minha família
Ai, Madalena, como tu estás linda! exclamou Teresa, com espanto delicado nos olhos, ao entrar no quarto da filha.
Madalena permanecia diante dum daqueles espelhos que se alongam como rios jamais vistos, enquanto Sofia, a amiga e cabeleireira de sempre, ajeitava o véu com dedos de fada. As últimas ganchas entraram no cabelo como se fossem ideias perdidas à solta no nevoeiro, e Madalena rodou sobre si própria, deixada no limbo entre o sonho e o reflexo.
Achas mesmo, mãe? Ficou bem?
Perfeito, minha filha. És a noiva mais bela! E Teresa sorriu. Lembrava-se bem de quando a sua mãe, entre lençóis lavados e cheiro a bolos acabados de sair do forno, lhe sussurrou as mesmas palavras. Quase, pensava ela, todas as mães o dizem, diante da filha com vestido de noiva. Talvez seja uma tradição, talvez só sonho.
O vestido demorou a nascer deste mundo. Madalena era exigente, não se importava com as tendências nem com o paleio das amigas. Só queria sentir-se bem e tinha olho para o belo e corpo que o pedia. Nenhuma amiga alguma vez a censurou pelo toque original de cada escolha. Agora, também queria algo diferente para a boda: nada de tule, nem saias de princesa, mas outro estar só seu. As funcionárias da loja de vestidos em Lisboa olhavam-na como se procurasse no Atlântico um navio desaparecido. Só a dona do espaço, Catarina, ajudou.
Se calhar tenho aqui o que procuras disse, evaporando-se uns minutos.
Quando voltou, abria um invólucro de tecido vaporoso como lençóis de infância, e Madalena deixou o ar escapar-se-lhe do peito. Era aquilo.
Linhas direitas, sem rendas, sem brilhos, só tecido caro e a promessa de algo único. O vestido caía-lhe como poema esparso à medida e sem mágoa.
O que diz?
Fico com ele respondeu Madalena, com brilho de luar nos olhos.
Catarina sorriu, mas por instantes o olhar perdeu-se num lugar antigo. Comprara aquele vestido para si mesma para bodas que nunca se deram. E as linhas direitas guardavam segredos: não se casa sem confiança, e não há confiança sem amor. Por vezes, é melhor fechar o livro antes de o acabar. Catarina afastou nuvens de memórias e desatou a vida ao presente.
Para este vestido, tenho um véu de encantar. Eu já trago.
Madalena piscou o olho à mãe.
Não disse que ia encontrar o meu vestido? segredou, como criança prestes a abrir um presente.
Teresa assentiu, o peito cheio de alegria. Guardaria estes dias dentro da caixa das recordações felizes. Ainda se recordava do seu próprio casamento, quando se cosia vestidos às escondidas, pois não se compravam feitos. A amiga da mãe trabalhava num ateliê em Sintra e costurou-lhe, com paciência de formiga, renda e esperança. A felicidade, porém, não ficou no vestido: ela e o marido separaram-se cedo, quando Madalena ainda cheirava a leite. Nova paixão, novas voltas. Teresa ficou sozinha, mas com a filha.
O pai, Jorge, limitava-se a transferir euros, religiosamente. Afinal, se falhasse, logo a vizinhança cuidava de comentar e virar costas. Faltava outra coisa tempo, abraço, vontade de ser pai. Teresa nunca forçou conversa. Antes nenhum pai do que um que nunca aprende a gostar.
Tentou outra vez ser feliz, mas o padrasto de Madalena não partilhava o amor por crianças nem por sonhos grandes. Quando, uma tarde, sugeriu que Madalena ficaria melhor com o pai, Teresa nem discutiu: fez-lhe a mala em silêncio e abriu-lhe a porta.
Não faz mal, filha. Cá nos arranjamos. Não precisamos de ninguém.
Talvez por isso, Madalena cresceu a saber que era escolha nunca fardo. Na adolescência, nunca houve gritos nem fugas, porque mãe e filha eram cúmplices e porto seguro uma da outra.
Madalena, são horas. Ainda te atrasas sussurrou Teresa, arranjando o véu e beijando-lhe a testa. Que sejas feliz, minha menina.
Madalena abriu os braços e riu.
Mãe, se choro agora, a Sofia acaba comigo! Duas horas a maquilhar-me para quê? Depois escorre tudo.
Abraçando Teresa, murmurou baixinho:
Vou tentar ser feliz
O dia do casamento escorreu depressa, como chuva nas telhas. Quando voltou a casa, Teresa ficou sozinha no hall. Madalena ia viver com o marido, Tiago, na casa da avó em Cascais, que Teresa lhes ofereceu. Quando Madalena sugeriu viver com os sogros, Teresa não hesitou e entregou-lhe as chaves:
Filha, vivam tranquilos. Sozinhos. Não quero saber de rendas. Eu dou-me bem. É a vossa vez.
Madalena dançou com as chaves nas mãos.
Agora falta pouco para ter a minha casa, mãe. Uma grande, cheia de luz, com quartos para três crianças, pelo menos! corou, encostada à mãe.
Sejam quantas forem, que tenham saúde, filha. E que tu sejas feliz.
Ainda bem que compreendes
E ainda bem que vou ser uma avó jovem! brincou Teresa, com um beijo apressado na testa da filha. Vivi como quis, filha, agora é a tua vez.
Guardou para si o confronto com os sogros, na véspera do noivado.
Fizeram tudo conforme manda o figurino português, casa cheia, panelas ao lume e vinho sobre a mesa. Teresa gostava de receber, mas poucas vezes a vida lhe pedia grandes jantares agora era a ocasião.
Os pais de Tiago pareceram simpáticos, enquanto não provaram do peixe assado à moda de Vila Real e da carne no forno, receitas antigas. A sogra, D. Mercedes, provou e torceu o nariz:
Estranho Não é à nossa moda
Teresa ergueu uma sobrancelha, intrigada. Já o sogro comia, apreciando cada garfada. Mercedes, impassível, retorquiu:
E a Madalena, também não cozinha? Vai ser difícil. Terá muito que aprender. Ainda bem que vão viver connosco, assim aprende a cuidar do Tiago. Ele é mimado. E Madalena é filha única, não?
Sim.
E sozinha, sem pai?
Foi o que calhou.
Sabe, exemplo de família completa é fundamental. Como pode uma filha única, sem homem em casa, aprender a ser esposa?
Teresa sentiu o sangue correr rápido, mas Madalena, por baixo da mesa, tocou-lhe o pé uma, duas, três vezes fica calma, mãe.
Mais tarde, deixando a filha arrumar, Mercedes pediu uma palavra a sós.
Teresa Afinal, somos mães. Quero o melhor para o meu rapaz. Preciso de garantias. E gostava de saber sobre a família do pai da Madalena. Alguma doença grave? Bebia? Problemas de comportamento?
Não, nada disso respondeu Teresa, já a ponto de rebentar.
Mas precisamos saber É importante para a saúde dos netos, você sabe como médica.
Teresa conteve-se com esforço, prestes a pôr fim às conversas e casamentos. Voltou ao tom calmo.
Não têm motivo para recear. Toda a informação está ao dispor, se quiserem. Faz parte da vida, os jovens decidem por eles. Cortou o discurso da futura sogra com um gesto. O importante é não deixar dúvidas nem medos que prejudiquem ninguém.
Pegou o prato do bolo de bolacha e desarmou Mercedes:
Vamos servir o chá, ajudar-me?
Assim, o serão terminou sem escândalo. Depois, os jovens trataram de tudo pagaram casamento, organizaram a vida sem pedir um euro aos pais.
Dois anos mais tarde, decidiram levantar casa. Venderam o apartamento antigo, investiram numa pequena quinta uns quilómetros além de Lisboa. Madalena, já grávida, era agora engenheira e capataz, irritando os pedreiros e convencendo-os a fazer como ela queria. Mas a casa acabou por não ficar pronta a tempo, e quando a filha nasceu, Tiago levou mãe e bebé para a casa de Teresa.
Desculpa, mas precisávamos de calma, ficamos aqui uns tempos.
Fizeram bem. Anda, pai, não tenhas medo, pega nela, o instinto ajuda riu Teresa, pondo a pequena Leonor nos braços do genro.
Até ao primeiro banho e passeio, Tiago portou-se como peixe na água. Mercedes, no dia seguinte, abanou a cabeça:
Isto não são coisas de homem
Ó Mercedes, deixe lá atalhou Teresa, a rir de Tiago com a bebé ao colo.
Por dentro, também ela lutava contra a vontade de fazer tudo à sua maneira. Todas as avós o sabem: acabam por esquecer que um dia também eram desastradas, e falha faz parte do caminho.
Leonor cresceu forte, saudável. Comem o novo lar, a vida nova, mas eis que, pouco depois de Madalena pensar num segundo filho, veio o susto:
Mãe, a Leonor está com febre!
Teresa apertou o telefone.
Muito?
Alta e não passa.
Chama o INEM. Vou já para aí.
Acelera pelas ruas de Lisboa, engolindo orações, de mãos coladas ao volante. Que o sonho do medo não ganhe pernas
A resposta não veio: foi parar ao hospital, noites intermináveis na sala de espera, sem que a deixassem sequer espreitar a neta. Madalena era de pedra encostada à parede; Teresa trazia-lhe chá, obrigava a comer qualquer coisa.
Precisas de forças. Se a Leonor passar para o quarto, vais ser tu quem precisa de estar bem.
Tiago corria entre trabalho e hospital, esgotado, e Teresa aconchegava-o.
Aguenta! Se tu falhas, a Madalena desaba.
Mercedes chegou feita vendaval.
O que foi isto? De onde veio? É hereditário? Que problemas vos calharam?
Mercedes, por amor de Deus, agora não suspirou Teresa, finalmente perdendo a calma. O que importa o motivo? O que a menina precisa é sair disto.
Mercedes calou-se, engolindo o resto do sermão que viria. O olhar da família pôs cobro à conversa.
Felizmente, Leonor melhorou. Logo exigiu mãe e colo. Dias depois, já Teresa recebia mais notícias: Madalena precisava de ajuda e pedia-lhe para ir viver com eles um tempo, enquanto a pequena recuperava.
Pode contar comigo. Teresa sorriu. Mas é só até ela recuperar. Avós são apoio, não chão da casa.
Queria que ficasses sempre murmurou Madalena.
Estou sempre perto. Ser família é saber apoiar e saber sair de cena. A vossa casa, a vossa vida.
Ao arrumar a mala, Teresa atendeu Mercedes ao telefone.
Teresa, faz-me impressão eles preferirem-te. Eu sei mais de crianças… Sempre ali ficas tu? Devias recusar
Mercedes, não sou eu quem decide. A vida é deles. Estás sempre ausente, eu faço o que posso. pergunta a Tiago, se queres perceber.
És impossível! enfureceu-se a sogra.
Teresa desligou, pensativa. Manter a paz é milagre. Mas só quem a vive sabe o quanto custa. Com convicção, ligou ao genro.
Tiago, temos de conversar.
Três anos passaram.
Avó, levas-me tu ao ballet ou vai a avó Mercedes?
Hoje vou eu, a Mercedes vai ao parque com o Tomás. Hoje comes comigo.
Bolinhos há?
Os que tu gostas. Teresa espreitava a neta pelo retrovisor. Leonor sorria no assento de criança, rodeada dos seus brinquedos: um coelho dado por Teresa, um urso por Mercedes.
Avó
Diz, querida.
Aos fins-de-semana vamos ao Jardim Zoológico contigo ou com a avó Mercedes?
Vamos todos juntos! E o avô também, que precisa de passeios.
Vais comprar balões?
E gelado. E algodão doce.
Boa! Mas balões para o Tomás também, está bem?
Sempre.
Avó, posso confiar-te um segredo, o mais segredo de todos?
Conta.
Vou ter mais um irmãozinho ou irmã.
Teresa ergueu as sobrancelhas. A filha sorria há dias com um mistério no canto dos olhos, mas não dissera nada. Desde que Teresa recusara viver com eles, ajudava sem impor distância; as novidades agora iam primeiro para Tiago. Com o tempo, entre zangas e cedências, encontraram o equilíbrio: duas avós, um avô, e uma família onde cabia tudo.
Como sabes isso?
Ouvi a mãe e o pai a falar. E posso querer uma irmã? Só tenho medo que, se for irmão, ele se chateie. Se eu queria uma mana
Teresa sorriu, abraçando a neta ao modo dos sonhos.
E tu gostas do Tomás?
Muito!
Então, se for irmão, vais gostar na mesma. O amor multiplica-se.
Podemos esperar para saber quem é, como uma prenda de Natal por abrir?
Claro. E já te comprei prenda, mas só a dou nos anos. Segredo!
És má! Leonor fingiu amuo.
Falta pouco, vais ver.
Leonor correu para a porta, puxando o coelho. Teresa tirou o saco do ballet e cumprimentou Mercedes, que vinha já com Tomás pela mão.
Olá, avó!
Olá, querida! Mercedes sorriu. Vamos ao parque, e vocês ao ballet.
Enquanto via as netas correrem e os dias a passar, Teresa pensou que tudo era simples e enigmático, igual aos sonhos que nos acordam em cheiro a bolos e memórias de infância: amar quem está perto, ouvir na distância certa, ser família, assim, com todas as cores e cheiros e barulhos de Portugal.







