A Meia Azul

As minhas mãos ainda tremem quando pego nesta caneta, desejando que as palavras me aliviem o peito enquanto escrevo sobre o que se passou ultimamente. E ao pensar nisto tudo, nem sei se rio ou choro. Vidas paralelas entre prateleiras de livros, conversas abafadas atrás dos balcões da biblioteca e suspiros no final de cada jornada.

Filomena, cobre-me amanhã, sim? A minha sogra faz anos. É preciso lá ir dar os parabéns.

Mas, Teresa, parece-me que foi há pouco aí há um mês que lhe levaste flores pelos anos de nome! levantei os olhos de uma caixa cheia de fichas.

Mas qual é o mal? Na altura eram os anos de nome, agora é de nascimento! Preciso mesmo! E tu, olha, custa-te assim tanto? Nem filhos tens, nem bichos, estás sempre sozinha! Bem, desculpa Não queria…

A Teresa bateu na boca, mas as palavras ficaram suspensas, em silêncio constrangedor. Apertei a ficha mais forte, dei-lhe um aceno e saí da sala de leitura.

Ficou feio ela encolheu os ombros e lançou um olhar semicúmplice à Carminho.

A Carminho não era de aturar mariquices. Nunca deixava passar uma. Aquela tinha fibra, mesmo sendo bibliotecária de profissão! Defendia que, mesmo rodeados de livros, devemos lutar pelos nossos interesses. As suas opiniões deixavam-me sem fôlego e a Teresa ria-se até às lágrimas.

Lá vês? Não somos todas “meias de vidro”, Nadinha! Olha para nós, para mim e para a Carminho! Tu… andas da biblioteca para casa, casa para a biblioteca, cachecóis, gatos Solteirona! Não me leves a mal, mas alguém tem de te abrir os olhos. Tu até és bonita, se fores a ver bem! Mas andas sempre com o ar desgrenhado Diz lá, Carminho!

E a Carminho lá a calava:

Chega! Dás-te como exemplo de quê? Tens romances mais do que figos em agosto! E depois? És casada com o Vítor que, coitada, nem sei se é castigo ou prêmio. Ora te dá para o tabefe, ora ele some a passear sabe-se lá onde. E tu ainda te dás a ares!

Mas tenho marido! E filhos! E tu, Nadinha? Mais um gato com nome pomposo? Qualquer dia mudas-te para a biblioteca! Dá ao menos à luz para ti, já que dinheiro não te faltou dos teus pais…

Ao ouvir isto, a Carminho já não refreava o verbo. A Teresa saía apressada, inventando compromissos e eu fugia para o canto mais afastado da sala, limpando discretamente uma lágrima.

Pergunto-me muitas noites: porque é que tudo calha a mim? Foi assim que a vida veio: primeiro o pai doente, depois a mãe, quinze anos a cuidar, lavar, virar, como podia Alguma vez cabia ali espaço para alguém? E mesmo se houvesse, quem aceitaria tal fado? Olho-me ao espelho: não sou feia, mas também não sou de virar cabeças. Uns olhos castanhos, traços regulares, uma trança grossa que só cortei quando a mãe partiu, trocando por um corte prático.

Sou, sim, uma portuguesa comum. Sem grandes vícios, sem grandes sonhos. Nem nunca os procurei muito. Quando vejo o tumulto nas casas das minhas amigas, assusta-me.

Pega na Teresa: casada, é certo, mas à custa de quê? Em Vila das Flores toda a gente sabe das suas agruras. O marido a arrastar-se por aí com outra família, discussões tão sonoras que já são história para contar. A Teresa diz que não há que esconder nada; se é para falar, que falem do que se passa. E neste aspeto não a censuro no que conta, ela está sempre pronta a ajudar, e foi ela que me orientou quando precisei de injeções para a mãe e não arranjava enfermeira.

Uma vez até quis pagar-lhe pelas ajudas, ela irritou-se:

Estás tolinha? Pões-me o dinheiro na mão e nunca mais cá venho, ouve bem! Olha, até dá jeito sermos vizinhas

Senti-me verdadeiramente envergonhada. Tentei recompensar em silêncio: lenços, cachecóis, toucas feitas por mim. A filha dela, Rosarinho, só vestia as luvas com passarinhos ao domingo, para não as perder.

Mãe, e se as perco?

E a Teresa teve um dia a inspiração:

Devias abrir uma lojinha na internet, Nadinha. Vendias estes trabalhos num instante!

Por um momento pensei nisso, depois ri-me: não tenho mãos para tamanha produção.

Então junta as senhoras do prédio, estão ali todas as tardes a tricotar no banco!

A coisa pegou. Em semanas, montámos um pequeno negócio. Não eram grandes quantias, mas aliviou-me a carteira. E as senhoras, agora parte do “clube das malhas”, punham-se com novelos todos os dias ao fresco, a comentar modelos connosco.

Olha este ponto! Vi numa revista de Paris. Uma saia assim e até eu me enfeitava!

E pus-me ao trabalho. Em pouco, a Teresa garrida numa saia nova, e no site mais uma peça para mostrar.

O dinheiro? Não era fortuna, mas vinha. Senti-me, pela primeira vez, útil uma verdadeira “mulher de negócios”.

A Carminho sorria ao ver-nos, mas ajudava com coisas incríveis: rendas finas, ensinadas pela avó, que se tornaram o artigo mais caro da minha lojinha. Com três filhos, o marido fugiu ao nascerem os gémeos, “em busca de si mesmo”. Carminho sustenta-se entre filhos, biblioteca e os pais na aldeia, que ainda lhe enchiam a casa de hortaliças e galinhas. Crianças felizes, tão diferentes das famílias partidas que tantos têm.

A Teresa volta e meia insistia: “Deixa-te de tanto gato, Nadinha, tem mas é um filho!” Mas eu, não A ideia de ficar sozinha neste mundo a criar uma criança, sem apoio, apavorava-me. Se me acontece algo? Ir parar o miúdo a uma instituição? Não. Antes, vidas felinas e cachecóis ao menos isso controlo.

Claro que eu não imaginava o que a “comissão de mulheres” do prédio arquitetava. A Teresa e as outras acérrimas vizinhas já ensaiavam listas de candidatos para me arranjar marido, embora nada do aprovado. “Há de aparecer, calma”, diziam

Apareceu, sim, de forma insuspeita. Depois de uma troca de turnos aceite com relutância (a Teresa precisava mesmo), ia a pensar nas fotos para pendurar na loja virtual quando ouvi um grito tímido pelas escadas.

Socorro

No rés-do-chão, a voz da Dona Augusta, antiga amiga da minha mãe, professora de matemática aposentada, mulher sem filhos que me aconselhava sempre:

Vive como queres, Nadinha. Não te deixes empurrar pela vida alheia. Quem disse que há de ser sempre à moda dos outros?

Mas naquele dia, a Augusta caiu na casa de banho, partiu o fémur e só conseguiu pedir ajuda porque as paredes eram finas e, por acaso, eu ia a passar. Arrastei meio prédio, a Maria Amélia do condomínio usou o molho de chaves que guardava para emergências, e entrámos antes que a coisa piorasse.

Augusta passou meses no hospital. Quando voltou, já não a deixei sozinha: veio viver comigo. Habituei-me às suas histórias, aos ralhetes miúdos aos meus gatos e a ver o seu Boris gato preto, pançudo a tentar ditar regras às minhas gatas.

A vida ficou cheia barulhenta, até.

E então, batem à porta numa noite: um homem de barba, jaqueta de cabedal, tudo menos o estilo clandestino do bairro. Era o Sérgio, afilhado da Augusta, a caminho de um encontro de motards no Douro. Fez-se conversa, o Boris desmanchou-se por ele e, sem grandes cerimónias, ficou uns dias lá em casa.

Depois, voltou. E assim, sem dar conta, virei noiva de um homem que até podia ter saído de uma história rocambolesca.

Mas Nadinha, conhecemo-nos tão pouco ainda arrisquei.

E então? Vivemos para as convenções dos outros? riu-se.

Quando contei à Teresa e à Carminho, ficaram boquiabertas, mas, pela primeira vez, não disseram nada. Só sorrisos.

A Teresa consola-me: “Já passaste idade de paixões à moda antiga. Mas é bom homem?”

E eu, velhota? brinquei. E ela, calada, a olhar para mim: parecia que, em vez da bibliotecária sem sal, ali estava uma rainha. “Afinal, o amor existe.”

E pronto, que festa, nunca se viu casamento assim na vila! O cortejo de motards, vizinhas, colegas Todos a comentar:

Quem diria, Nadinha da biblioteca finalmente casada! Boa sorte, bem merece.

Três anos depois, o Sérgio a ajudar a Augusta a sair do carro, ela a ralhar “deixa-me, ainda ando sozinha”, e eu de vestido novo feito pela Carminho, a pedir ao fotógrafo “ponha cá todos!” na porta da maternidade, no dia em que o nosso filho nasceu.

A vida, afinal, multiplica-se quando menos esperamos. Rodeada de pessoas boas, percebo: as melhores famílias fazem-se de gente assim, atenta e provavelmente, de muitos gatos e cachecóis.

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