A Libertação

Libertação

A Catarina despertou subitamente, arrancada do sono pelo toque insistente do telemóvel. O som invadiu o quarto, fazendo com que se sobressaltasse e tentasse abrir os olhos pesados, como se tivessem sido selados com chumbo. Dentro do quarto imperava ainda a penumbra as cortinas grossas não deixavam passar os primeiros raios do amanhecer, e só o ecrã do telemóvel brilhava, frio, no escuro, a marcar as horas: faltavam quinze minutos para as seis. Catarina esticou-se, ainda a esfregar os olhos, para ver quem a ligava. Os dedos encontraram finalmente o telemóvel, que levou ao ouvido sem ainda perceber bem o que se estava a passar.

Sim, mãe? murmurou, ainda meio adormecida. O que foi desta vez?

Do outro lado, a voz da mãe, trémula e falhada, percorreu-lhe a espinha num calafrio:

Catarina, o teu pai foi levado para o hospital! Ataque cardíaco!

Catarina sentou-se de rompante na cama, agarrando o telemóvel com tanta força que quase deixou os nós dos dedos brancos. O sono desapareceu num instante, como se lhe tivessem desligado um interruptor da cabeça; ficou com um vazio gelado no peito e um zumbido estranho nos ouvidos.

Percebi respondeu seca, esforçando-se por soar calma, embora por dentro tudo se tivesse apertado num nó sufocante.

Vens cá? a voz da mãe estava cheia de uma esperança quase infantil, quase como quem pede por piedade. Ele está nos Cuidados Intensivos, o estado é complicado… Eu… tenho tanto medo

Não sei, mãe. Não sei se quero. murmurou enfim, depois de uma breve pausa. Até se surpreendeu ao ouvir a própria voz, tão plana, tão distante, como se não fosse ela a falar. Tu sabes como estão as coisas entre mim e ele.

Seguiu-se um silêncio longo, pesado. Catarina só ouvia a respiração abafada da mãe do outro lado, um silêncio mais duro do que qualquer palavra. Enfim, a mãe murmurou, quase num sussurro:

Catarina, continua a ser o teu pai

E isso importa? retorquiu, surpreendida ainda com a frieza do seu próprio tom. Isso nunca o impediu de transformar a minha infância num inferno. Porque é que haveria agora de ter pena dele? Desculpa, mas se lhe acontecer alguma coisa, não vou chorar.

Carregou no botão de desligar chamada, atirou o telemóvel para cima da cama e ficou a olhar para o teto. Pai palavra grande essa. Mas ela, ao longo de toda a infância, não conheceu nada de bom por parte desse homem. E, quanto mais crescia, maiores eram os problemas.

Quando foi que passou mesmo a odiar o pai? Esse dia ficou-lhe marcado para sempre.

Ela tinha dez anos. Voltou da escola cheia de alegria, com um desenho na mão: na aula de Trabalhos Manuais tinha desenhado a família, com todos de sorriso, pintados de cores vivas. Queria mostrar ao pai, ouvir-lhe um elogio. Ele já estava em casa e já ia maldisposto, como passava a ser habitual. O cheiro a vinho velho encheu-lhe o nariz mal atravessou a entrada.

O pai, de camisola rota, afundado na poltrona com uma garrafa na mão, deixou-a aproximar-se com timidez e, mal olhou para o desenho, bufou e atirou a folha para cima da mesa.

Tu não tens juízo nenhum? a voz saia-lhe rouca, já com raiva a crescer. Trabalhei o dia todo e tu com os teus bonecos?!

Tentou explicar, tentou dizer-lhe que era para ele Mas não deixou. O pai levantou-se de rompante, agarrou-a pelo ombro e empurrou-a para a porta.

Fora daqui enquanto não aprendes a respeitar o pai! e o grito percorreu toda a casa.

Catarina foi parar ao patamar do prédio, só de uniforme fininho, lá fora já chovia e fazia frio de Inverno. Nem sentia verdadeiramente o gelo; apenas batia à porta, chorava, chamava por ele. Do outro lado só ouvia:

Vai-te embora! Não és minha filha!

A miúda passou mais de uma hora no patamar, até que, finalmente, uma vizinha voltou do trabalho, empalideceu ao vê-la roxa de frio e a levou para aquecer. As consequências foram graves Catarina passou mais de um mês internada num hospital de Santa Maria com pneumonia. O caso foi abafado depressa. A mãe defendeu o pai, dizendo às assistentes sociais que a filha fugiu sozinha, que a porta bateu com o vento

Tinha catorze anos quando regressou da escola com um diploma: vencedora da olimpíada de matemática da freguesia. Apertou a folha brilhante ao peito quando subiu a correr as escadas para casa, já a imaginar o sorriso da mãe, o abraço, o Parabéns, filha. Deixou o saco na entrada, ajeitou o cabelo e foi mostrar ao pai, estendido no sofá com uma cerveja à mão.

Vens tão contente porquê? lançou ele, a esboçar um sorriso de desprezo. A mãe não estava em casa.

Ganhei o concurso de matemática respondeu Catarina, já a querer fugir para o quarto, evitar conversa.

Antes ficavas era a pensar em casar, não nessas parvoíces! Quem é que te havia de querer? o escárnio cortou a sala. Onde é que foste buscar a feiúra?

Catarina enrugou o diploma, fechou-se no quarto e ficou a olhar o papel agora inútil. O que terá feito para merecer aquelas palavras? Porque é que ele a ofendia sempre, por tudo e por nada? E porque é que a mãe se calava sempre, desviando o olhar?

Aos dezasseis, tentou defender a mãe. Mais uma noite igual: o pai chegou amuado, a mãe fez o jantar a tentar agradar, mas as batatas vieram queimadas. Foi o pretexto.

Inútil! atirou ele o prato. Não serve para nada!

Pegou-lhe nos cabelos com uma mão, puxou do cinto com a outra.

Catarina levantou-se da mesa:

Chega! Ela esforçou-se

O cinto desceu-lhe nas costas antes que acabasse a frase. O pai sussurrou-lhe ao ouvido:

Se te metes, ainda levas mais.

Teve muitos episódios desses. Por isso deixou de aparecer em casa. Dormia em casa de amigas, tias, muitas noites ao cuidado da professora, que tinha pena dela. Mas ninguém podia de facto fazer nada, apesar das queixas à Segurança Social

Passada uma hora, decidiu que tinha de ir ao hospital. Vestiu umas calças de ganga, um casaco de malha, penteou-se mecanicamente. Se não fosse pela mãe era só por causa dela, que não conseguia enfrentar aquilo sozinha.

Caminhou pelo corredor frio das urgências, olhando as portas com nomes de médicos. Quando viu a mãe, esta estava sentada num banco de plástico, o lenço nas mãos todo molhado pelas lágrimas. Mal Catarina se aproximou, a mãe ergueu-se e correu para ela:

Filha agarrou-se ao ombro dela, a chorar. Que bom que vieste.

Catarina abraçou-a, sentindo que dentro de si tudo se irritava. Não com a mãe, mas com o esforço de fingir tristeza, de representar uma filha devota em vez de ser simplesmente sincera.

Como está? afastou-se, olhando os olhos inchados da mãe.

Está crítico O coração soluçava a mãe. Ele nem sempre foi assim, filha. Já teve outros dias

Sorriu com amargura. Lembrava-se, sim. Tinham sido poucos, como sombras perdidas na memória: o pai jovem, a levantá-la até ao teto, a rir, a cantarolar uma canção parva, ela a achar que ia voar. Ou aquele dia em que ele corria ao lado dela, segurando a bicicleta, a dizer Vai, que eu seguro, tu consegues!. Mas essas memórias ficaram para trás, apagadas pelo peso dos anos, do álcool e da crueldade, imagens lavadas pela chuva do tempo.

Por favor agora não, mãe murmurou Catarina, respirando fundo. O que dizem os médicos?

A mãe apertou o lenço, já empapado.

Mandaram esperar. E rezar.

Sentaram-se lado a lado, nos bancos duros do corredor. As horas arrastavam-se, densas. Catarina observava a mãe, que estremecia cada vez que via médicos a sair, tentava ler a expressão deles, só para voltar a sentar-se, desapontada. As mãos ora eram punhos, ora cruzadas no colo, lutando para controlar as emoções.

Por fim, surgiu um médico jovem, olhar cansado, bata amarrotada.

Familiares? perguntou, baixo.

A mãe ergueu-se de tal modo que quase caiu do banco.

Somos nós! Como está ele? perguntou, cheia de esperança.

Está estável, mas grave. É cedo para dizer alguma coisa. Será preciso muito tempo de recuperação.

Podemos vê-lo? arriscou a mãe, quase a sorrir.

Só por minutos. Um de cada vez indicou.

Entrou primeiro a mãe; ela ficou à espera. Ao entrar, viu o pai na cama, pálido, de olhos fechados, monitorizado, dependente dos fios e máquinas ruidosas. Parecia pequeno e fraco, tão diferente do homem temível de outrora.

Catarina parou junto da cama, ficou sem saber o que fazer. Poderia pegar-lhe na mão, murmurar uma frase, mas não lhe saíam gestos nem palavras. Apenas olhou-o por instantes, vazia por dentro.

Cá estamos murmurou, quase para si, embora honestamente, não saiba se queria mesmo isto.

O pai nem mexeu uma pálpebra. Catarina suspirou, sentou-se na cadeira dura junto à cama.

Sempre tentei entender porque foste assim. Talvez tivesses razões, talvez o mundo tenha sido injusto contigo. Mas as tuas razões nunca justificaram o que me fizeste. Talvez em tempos tenhas sido o pai que me segurava; mas para mim ficaste aquele que me ensinou a odiar.

A voz fraquejou, mas manteve-se firme.

Cresci, pai disse, com um sorriso doloroso. E sabes qual é a pior parte? Foste capaz de me quebrar. Não quero relações, não acredito em amor, não sonho com filhos. Viste-me crescer num ambiente só de dor e humilhação. Obrigado por isso.

Calou-se. Por dentro, apenas um lampejo de pena como sombra de ave a passar ao sol mas logo se dissipou, ficando só a certeza gélida.

Não sei se sobrevives continuou, a voz neutra. Francamente, não me interessa. Vim só por causa da mãe, porque ela acredita ainda que podes mudar. Eu só quero que ela seja feliz, mesmo fingindo que está tudo bem.

Ergueu-se, lançou-lhe um último olhar:

Adeus, pai. Ou não Nem sei.

Ao sair, viu a mãe à porta, mexendo nervosamente na ponta da blusa, sempre a olhar para a porta.

E então? perguntou ela, esperançada.

Está igual, mãe. Não mudou nada nestes minutos respondeu Catarina com um encolher de ombros. Sinceramente, gosto mais de o ver assim calmo do que barulhento.

A mãe choramingou, procurou um sorriso.

Não digas isso! Ele só queria o melhor para ti, filha.

Catarina só acenou, sem força para discutir. Conhecia aquele olhar: a mãe ia continuar a acreditar, agarrar-se a cada pormenor, convencer-se que este susto seria uma oportunidade, que o marido ia mudar. Não quis desiludi-la. Só queria que o dia acabasse depressa.

À saída do hospital abrandou o passo. A luz forte do dia feriu-lhe os olhos habituados à meia-luz hospitalar. Parou à máquina de café, aproximou o cartão, escolheu um expresso… Enquanto escutava o som da máquina, puxou do telemóvel. Os dedos ainda tremiam, mas mais pela ansiedade do que pelo frio. Procurou o número do Afonso.

Afonso era colega de trabalho, mas nos últimos tempos tornaram-se amigos de verdade, daqueles que conversam ao café, partilham piadas no chat do escritório e até jantavam juntos ocasionalmente. Catarina sentia que com ele podia ser ela própria, sem máscaras.

O telefone tocou duas vezes antes de ser atendido:

Estou.

Afonso disse, e a voz traiu-a, posso ir até tua casa? Só… estar. Falar. Ou ficar calada. Só não quero ficar sozinha.

O silêncio do outro lado durou só um instante; Catarina imaginou se não estaria a pedir demais. Mas ouviu logo a resposta dele:

Vem à vontade. Estou em casa. A porta fica aberta.

Desligou e apertou o copo de café, que já arrefecera. Bebeu um golo; o sabor amargo aqueceu-lhe um pouco a alma. Por entre a carapaça de indiferença, sentiu um frágil fio de esperança: ainda podia haver algo bom a acontecer. Quem sabe…

No caminho passou por uma pastelaria pequenina que ele adorava. Lá dentro, cheirava a massa fofa e baunilha. Comprou croissants de amêndoa os seus favoritos e um par de queques de chocolate. Enquanto esperava ser atendida, viu-se ao espelho por trás do balcão: a cara estava cansada, mas já não havia aquele vazio frio no olhar.

Não sabia o que ia dizer a Afonso, não queria chateá-lo com dramas familiares, nem procurar conselhos. Só ansiava ficar perto de alguém que não magoasse, não levantasse a voz, não desiludisse.

Chegando ao prédio dele, viu que a porta estava mesmo encostada. Catarina bateu levemente, mesmo sabendo que podia entrar. Logo apareceu Afonso, em calças de fato-treino e t-shirt larga, com ar sonolento mas sorriso aberto.

Olá disse, avançando para lhe dar um abraço. O que se passa?

Ela ficou um instante nos braços dele, absorvendo aquele calor simples e bom, consciente de que ali não seria julgada. Apoiada no ombro dele, murmurou:

O meu pai está no hospital. Ataque cardíaco.

Raios Afonso afastou-se um pouco para lhe ler a expressão, tentando perceber como aquilo a afetava de verdade. E tu, como estás?

Nada encolheu os ombros Catarina. Nem sei. E assusta-me mais do que tudo.

Anda, faço-te um café. A sério, nada desses da máquina sugeriu ele, encaminhando-a para a cozinha.

Sentaram-se os dois à mesa junto à janela. O cheiro do café fresco e dos croissants enchia a cozinha. Afonso não fez perguntas, não tentou puxar conversa, apenas estava presente. Catarina agradeceu esse silêncio: parecia um cobertor quente no peito.

Sabes disse ela, olhando a chávena sempre tive pavor de me tornar como ele.

Afonso voltou a encher-lhe a chávena, sem apressá-la, sem tentar colmatar o silêncio com conselhos.

Sempre vivi assustada de me transformar nele continuou Catarina, como quem formula um pensamento para si própria. Assustada de um dia ter a mesma raiva, a vontade de magoar Mas acho que fiquei diferente. Só aprendi a fugir de tudo. Tenho medo de me aproximar, de confiar, medo de me tornarem frágil

A voz dela parecia calma, mas trazia décadas de exaustão.

Afonso pousou-lhe a mão sobre a dela. O toque era tão leve, mas carregado de sinceridade, que Catarina estremeceu.

Tu não és ele. És completamente outra pessoa afirmou com convicção.

Como é que sabes? ela fitou-o, olhos húmidos, não de tristeza mas de surpresa por falar assim tão abertamente. Não viste como sou quando perco a paciência. Às vezes só me apetece gritar com os colegas por pequenas coisas!

Sei porque te vejo todos os dias respondeu Afonso olhando-a nos olhos. Vejo-te a ajudar os novos, com paciência, mesmo com perguntas parvas. Vejo-te a preocupar-te com cada projeto, a dares tudo, quando podias só fazer o mínimo. Vejo como sorris quando falas da tua gata, como brilhas a contar as coisas de que gostas Isso não é de quem magoa os outros. Isso é de quem sente e cuida.

Catarina devolveu um sorriso breve, mas verdadeiro.

A gata é a única que me ama mesmo tentou brincar.

Não és só tu a pensar isso respondeu ele baixinho. És querida entre os teus colegas, tens amigos a sério, até as vizinhas te adoram!

Ela ficou calada, olhando o café. A cozinha cheirava a conforto: café acabadinho, croissants de amêndoa quase intactos.

Sabes o que é estranho? voltou ela, brincando com a chávena. Não sinto culpa por não me preocupar com o meu pai. Se ele não voltar para casa, não sinto nada…

É normal assentiu Afonso. Tens direito aos teus sentimentos. E mais ninguém pode dizer como deves sentir-te.

A mãe espera que lhe faça companhia, que fiquemos as duas lá, a cuidar, a rezar Mas eu não consigo. Nem quero fingir.

E isso também é válido garantiu-lhe ele. Não tens que perdoar ninguém nem seguir um guião de filha perfeita. É a tua vida.

Catarina respirou fundo, sentindo o corpo perder um pouco daquela tensão inicial.

Quando era pequena, acreditava que ele um dia pediria desculpa. Imaginava que veria o quanto me magoou Agora sei que nunca vai acontecer. Mesmo se sobreviver, será igual.

Mas tu já não és mais essa miúda respondeu Afonso, firme. Já não ele te pode magoar. És muito mais forte do que pensas. Aprendeste a defender-te.

A mãe ainda crê que ele pode melhorar murmurou Catarina.

Talvez precise de acreditar nisso para conseguir seguir em frente refletiu ele, enchendo-se de café novamente. Cada um tem a sua maneira de aguentar as coisas. Ela escolheu essa esperança, tu escolheste encarar de frente e cuidar de ti.

Ela surpreendeu-se com a delicadeza do que ouviu.

Tens sempre palavras certas sorriu, ainda triste.

Nem sempre, devolveu ele, só tento ouvir. E não julgar. O mais importante é dar espaço ao outro para ser ouvido, sem querer remendar tudo de imediato.

Acabaram o café e os croissants. Catarina sentiu o peso do cansaço. Entre o acordar, o hospital, o desabafo, sentia-se esgotada. Piscava os olhos devagar, as ideias abrandavam.

Posso ficar aqui esta noite? perguntou de repente, surpreendida com o pedido. Não consigo ir para casa, não quero estar sozinha

Fica à vontade, respondeu Afonso, sem hesitar. A cama é tua, eu fico no sofá.

Obrigado. És o melhor amigo

Ele sorriu com serenidade e ligou a televisão, onde passava uma comédia ligeira, de cenas cómicas exageradas e piadas toscas. Mas nenhum deles dava grande atenção ao ecrã. Conversavam pontualmente ou ficavam simplesmente juntos em silêncio, um silêncio natural, confortável.

Perto do fim da tarde, Catarina resolveu ligar à mãe. Olhou para o ecrã, ganhou coragem e fez a chamada.

Mãe, estás bem? Desculpa ter saído assim.

Estou filha, vai-se andando. Ainda tenho esperança a voz saía exausta mas sem amargura. Não fiques aflita, diz o médico que está estável, a tensão e o coração estão melhor.

Ainda bem respondeu Catarina, sentindo-se genuinamente aliviada, mas mais porque não teria de voltar já ao hospital, nem fingir sentimentos.

Vens amanhã? perguntou a mãe, cheia de esperança na voz.

Não sei, mãe. Falamos amanhã. Preciso de um tempo para pôr as ideias no lugar.

Pronto, querida. Cuida de ti. despediu-se ela.

Catarina largou o telefone, suspirou, ficou alguns segundos parada. Depois passou a mão pela cara, como a tentar arrancar um véu que a tapava.

Tudo bem? perguntou Afonso, olhando de soslaio. Só queria mesmo ouvir, se ela precisasse.

Sim. Ela aguenta-se respondeu Catarina. Mas eu Eu não sei. Sinto vazio, mas também tristeza, raiva, culpa. Tudo misturado como numa chávena com várias ervas.

Basta viver um dia de cada vez disse Afonso, suave. Não tens que arranjar soluções para tudo. Só tens que passar por hoje. O resto vem depois.

No dia seguinte, Catarina decidiu voltar ao hospital. Precisava pôr, finalmente, um ponto final naquilo.

O recanto era silencioso. O pai parecia um pouco melhor: pele menos pálida, respirava melhor, olhos abertos. Olhou para ela, sem reconhecer ou talvez não quisesse. Catarina parou junto à cama, cerrou os punhos para não tremer.

Olá disse simplesmente. É a última vez que venho. Sobreviveste, espero que aprendas algo.

Pausou, à espera de qualquer reação uma palavra, um gesto, um simples olhar. Mas não aconteceu nada. Ele continuava a olhar o teto como se ela não existisse. Essa ausência de resposta, percebeu, era um alívio.

Não te perdoo afirmou, calma. Mas não quero odiar-te para sempre. Quero só largar tudo, libertar-me desse peso só assim serei livre.

Virou-se devagar e saiu. Cada passo ressoava, como se custasse. Parou já ao sair, olhou para trás. Ele mantinha-se imóvel, a olhar o teto.

Adeus sussurrou.

Lá fora, o sol batia forte, aquecendo-lhe a pele. Ao fundo ouviam-se gargalhadas de crianças, pessoas apressadas cruzavam a rua, umas com sacos, outras sorrindo ao telemóvel. A vida seguia; fugaz, rotineira, cheia de pequenas alegrias. E Catarina percebeu, com uma clareza nova: a vida dela também podia seguir. Sem medo, sem o peso do passado, sem esperar um milagre que nunca viria.

Pegou no telemóvel, hesitou um segundo, e escreveu mensagem a Afonso: Posso voltar aí? Preciso de falar contigo.

Uma hora depois estava na cozinha dele. Ele colocou-lhe chá à frente, sentou-se, não apressando nada, só ficando ao pé.

Catarina contou tudo. Primeiro devagar, a escolher palavras, depois cada vez com mais facilidade. Falou da infância, dos anos de mágoa, do medo de repetir o pai, e de como se afastou das pessoas. Dessa vez, não chorou: só sentiu leveza, por finalmente poder falar.

Acho que preciso de ajuda de um psicólogo disse olhando o fumo do chá. Quero aprender a viver sem vergonha do passado, sem culpa por não sentir o que devia. A confiar em mim e nas minhas emoções.

Acho muito bem respondeu Afonso, tranquilo. Conheço um bom especialista, posso dar-te o contacto.

Obrigada sorriu, desta vez com algo novo: sinceridade, calor genuíno. É a primeira vez que falo assim dele. Sempre escondi, achando que, se dissesse, era fraca ou ingrata.

Não tens que te envergonhar afirmou Afonso, firme. Não tens culpa do que viveste. Nem tens que justificar o que sentes.

Catarina anuiu. Ainda não acreditava por completo, mas estava a dar os primeiros passos para aceitar. Começava a ver mais além, como se o nevoeiro sumisse pouco a pouco.

O que vais fazer agora? perguntou ele.

Não sei bem admitiu, olhando pela janela. Mas sei o que não vou fazer: não vou esperar que ele mude. Não vou culpar-me pela ausência de sentimentos. Não vou temer a felicidade, nem me esconder. Chega de viver entre sombras.

Parece-me um excelente plano sorriu Afonso, transmitindo-lhe força.

Sim, disse ela, olhando para o céu dourado do entardecer sobre Lisboa. Soa como um começo. O meu primeiro passo em direção ao novo.

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