A Leninha cantava de felicidade, claro que sim!

A Leninha cantava de felicidade, e não era para menos! Finalmente tinha o seu próprio apartamento, sem senhora casmurra a desligar-lhe a luz às onze da noite, sempre de olho nela, pronta a cortar o gás assim que a panela começava a ferver. Proibida de usar secador ou alisador do cabelo, que era para não fazer curto-circuito. Tomar banho de banheira, só se fosse em sonhos era duche rápido, uma vez por dia; de manhã ou à noite, dava no mesmo, a Dona Emília ficava sempre junto à porta, a bater, a mandar baixar o som da água.

Um ano viveu debaixo do jugo daquela senhoria, que se achava mentora e até mãe dela! Assim que fez dezoito anos, implorou aos pais para ir morar para a residência universitária. Mas ali, senhor, também foi outra prova de fogo: pulgas e baratas à vontade, coisas dessas nem doíam. Mas a frigideira roubada com as batatas já a fritar, isso sim custava! E as colegas a levarem rapazes para o quarto lá isso era demais. Aguentou um ano, até o pai vir visitá-la e ficar em choque com o desleixo do sítio. Claro que não deixaram Leninha passar lá mais nenhum dia; foi direitinha morar num quarto alugado na casa da avó Rosa.

A dona Rosa era um amor, com suas esquisitices, mas boa pessoa. Quando acabou o curso, Leninha foi trabalhar e continuou a viver com a avó enquanto juntava o dinheiro para dar a entrada num T0, mesmo que fosse minúsculo, mas que fosse só dela. Enquanto as outras raparigas andavam em jantares e gastavam o que ganhavam em roupa e carteiras de marca, a Leninha poupava e poupava. Até a avó Rosa dizia para ela descansar, mas Leninha só pensava no seu objetivo.

Um dia os pais chegaram com a notícia: tinham decidido ajudá-la, juntamente com a tia-avó Lourdes. A tia-avó era parente afastada do pai, professora que nunca casou, de feitio difícil, zangada com toda a família menos com o pai de Leninha, a quem ainda dava ouvidos. E a mãe de Leninha era também professora, por quem a tia-avó tinha um carinho especial.

Numa dessas visitas com compras, a tia-avó pediu ao pai de Leninha que a ajudasse a mudar-se para um lar de idosos. Os pais foram ver o sítio e, sem combinarem, prepararam antes o quarto de Leninha para receber a senhora. A filha vivia noutra cidade, já nada perdia em dividir espaço. Apesar da idade, a tia-avó Lourdes tinha a cabeça no lugar e até lhe disse para não ficar com peso na consciência ela sabia que não era fácil, pois o seu feitio podia estragar a boa imagem que tinham dela. Mas o pai e a mãe insistiram para eles era mais fácil assim. Afinal, tinham também o gato Tobias e o periquito Chico; quando viajavam, ficavam sempre a pedir favores aos amigos, mas assim a tia-avó tomava conta dos bichos e da casa.

Com alguma hesitação, a tia-avó aceitou e viveu, por fim, alguns anos rodeada de pessoas que a amavam. Chegou, enfim, a hora e partiu de mansinho, deixando o apartamento para o tio e passando à Leninha uma joia de família um colar antigo, guardado até nos tempos mais difíceis. Leninha aceitou o presente com amor e carinho, olhando-o muitas vezes e recordando a avó. O pai sugeriu vender o apartamento da tia-avó e comprar-lhe um na cidade onde ela se instalara. E assim Leninha ficou com um T2 só dela. A antiga proprietária do apartamento até lhe assegurou que deixara uma boa energia naquela casa. Leninha pôs mãos à obra, remodelou tudo com a ajuda dos pais, que passavam lá fins-de-semana inteiros. O pai realizava todas as ideias modernas da Leninha, com muita paciência, e a mãe, inspirada, decidiu contratar a filha para decorar a própria casa também.

Já bem instalada, a Leninha afinal habituou-se à cidade nova e até gostava dela. No trabalho, conheceu a Matilde, uma amiga com quem se dava muito bem Matilde fazia muitas visitas e ambas trocavam histórias. Um dia, Leninha contou como, em adolescente, subia ao telhado do prédio com a vizinha Carminda, onde apanhavam banhos de sol às escondidas.

Que giro! disse Matilde. Deviamos experimentar fazer isso aqui

Riram-se, lembrando-se de como, noutro tempo, ela e Carminda tinham ficado presas no telhado porque o senhor António, o porteiro meio surdo, fechou o portão e não ouviu os gritos delas. Esperaram pelo pai da Leninha, que chegou mais cedo nesse dia, com pressentimento, e as salvou.

Foste muito castigada? perguntou Matilde, curiosa.

Nada disso respondeu Leninha, com descontracção. O meu pai sempre me mimou, a mãe é que era mais rigorosa; ele até me protegia das asneiras, muitas delas a minha mãe nem chegou a saber.

Que sorte! Eu era sempre apanhada!

Decidiram pedir ao próprio porteiro do prédio, o senhor Luís, para lhes dar a chave do telhado e fazerem lá banhos de sol. O senhor Luís, no início, hesitou, por via das regras e dos riscos, mas cedeu com o tempo, desde que prometessem juízo.

Passaram parte dos fins de semana assim, a apanhar sol e a conversar. Certo dia ouviram uma porta e, ao espreitarem, viram uma senhora idosa bem-vestida, arrumada, que comia calmamente uma sandes encostada a uma chaminé.

Quem é a senhora? perguntaram as duas.

Eu sou Maria Antónia respondeu ela, um pouco atrapalhada.

A Leninha reconheceu-a.

É a antiga dona do meu apartamento, não é? perguntou, surpreendida.

Pois sou, tu és aquela menina simpática que o comprou disse a senhora Maria Antónia, ficando com os olhos húmidos. Sabem, meninas

Começou a chorar e partilhou a sua história.

Eu criei o meu António sozinha. O meu marido foi-se embora cedo, apaixonou-se por outra. O meu António era um menino doente, nunca casei outra vez, fiz tudo por ele. Estudou, fez universidade, mestrado, trabalho não lhe faltou, sempre em ascensão. Mas com as raparigas nunca teve sorte. Há cinco anos apareceu a Catarina e ele ficou logo encantado. Ela era despachada, tratava de tudo, cozinhava, limpava, tomava conta do António. Fiquei feliz, imaginei que podia finalmente viver um pouco para mim. O António já há muito tinha comprado casa grande, mas estava comigo por comodidade. Quando nasceu a neta Inês, e depois a Marta e finalmente o Simão, os jovens sugeriram-me vender o meu apartamento e morar com eles. Diziam que não valia a pena deixá-lo fechado.

E assim fui parar a um pequeno inferno, como costumo dizer. A Catarina voltou ao trabalho e deixou-me a cargo dos miúdos. Como fiquei doente, com tensão alta, o médico recomendou-me sossego. Mas com três crianças pequenas, algum sossego era impossível. Eu só podia cozinhar, dar banho, trocar-lhes a roupa, brincar, levar ao parque, arrumar tudo mas educar, dar-lhes lições ou ralhar, disso não podia. Depois de deitar os netos e contar-lhes histórias como fazem todas as avós só então tinha um pouco de tempo para mim.

O António só dizia: Ó mãe, mexer é viver! quando eu me queixava do cansaço, dizia que estava velha para tanto corre-corre e tarefas. Ó mãezinha, tu fazes tudo tão bem, nós assim podemos trabalhar e ganhar mais.

Depois, ainda no início do verão, eles foram de férias sem mim. Achei que não ia aguentar. Amo os meus netos, mas esgotei-me. Disse ao António que passava o fim de semana na casa de uma amiga, mas andava pelas ruas: visitava museus, assistia a exposições, dormia em bancos na beira do Tejo.

E hoje vim ver o meu antigo prédio. Subi e pronto, estava aberta a porta do telhado, fiquei a lembrar-me do meu filho pequeno a brincar cá em cima.

Leninha e Matilde revoltam-se; convenceram Maria Antónia a ir a casa da Leninha, acabaram a tomar chá e a conversar. Maria Antónia admirou tudo, ficou tocada. Que pena ter escutado o filho e a nora naquela altura.

E o dinheiro do apartamento, perdoe-me perguntou Matilde, directa. Recebeu?

Dei tudo ao António; ele disse que investia metade para mim e metade ficava dele.

Com esse valor ainda pode comprar um T1 refletiu Matilde.

E nós ajudamos no que precisar animou Leninha.

Mas como é que vou? Não sei

Confie em nós, disse Matilde.

Em menos de um mês, Maria Antónia já estava instalada num novo T1, no mesmo bairro. O que Matilde foi dizer ao António ninguém soube, só que ele resmungou, disse que a mãe podia ter falado, que era só combinar. A Catarina fez birra, nem queria falar à sogra. Mas os netos ficaram a dormir com a avó, revezando-se. Até Catarina acabou por aceitar tudo, meteu os miúdos na creche e a vida correu melhor.

Maria Antónia e Leninha tornaram-se grandes amigas, visitando-se, indo juntas a museus, feiras e exposições. Matilde, a brincar, dizia:

Quando envelhecer, nunca vou sair da minha casa nem que me prometam o céu! Não quero aventuras dessas, nem noites em bancos de jardim, nem telhados!

Bem dito! concordava a Leninha.

Termino este dia com o coração quente: aprendi que só somos verdadeiramente felizes quando ouvimos o nosso coração e estamos rodeados de quem nos ama e respeita. Um grande abraço, fiquem bem!

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A Leninha cantava de felicidade, claro que sim!