Não! Não insistas, mãe! Eu vou fazer isto de qualquer forma!
Mariana, porquê?! Explica-me, por favor, para que é que precisas disto?
Porque ele entra no quarto sempre um minuto antes de mim! Porque já nem consigo olhar para mim ao espelho! Porque sinto que nunca vou conseguir viver bem a minha vida! Nunca vou ter marido, filhos, nada! Mãe, pelo amor de Deus! Será que não compreendes?! e desabei a chorar, atirando a escova de cabelo contra o distraído Tico.
A almofada que ele tanto arranhava com as garras, sempre atento à discussão lá em cima, tinha sido bordada por mim, com todo o carinho. Era para ser oferta para a avó, mas a grande zanga que dividiu a nossa família em dois campos opostos não permitiu que o presente chegasse às mãos dela. Agora, as rosas bordadas no veludo eram só minhas e, por vezes, vítimas dos ataques do atrevido gato cá de casa.
O Tico apareceu na família por minha causa e achei que era minha obrigação educar aquele ser indomável, resgatado de um grupo de miúdos do prédio. Estavam quase a magoar o bicho, convencidos de que, por não ter dono, ninguém o defenderia. Quando lhes perguntei, educadamente, o que estavam a fazer, nem me levaram a sério.
Enganaram-se comigo. Eu, com as minhas partituras debaixo do braço, parecia frágil e doce, como a mãe sempre desejou. Só que o meu pai tinha outras expectativas. Por isso, desde cedo, tirei o cinto preto em karaté e ganhei uma dezena de troféus, agora todos juntos numa estante que só me irrita de cada vez que limpo o pó. Sempre odiei arrumações, e a poeira que insiste em aparecer nas relíquias das minhas grandes conquistas deixa-me à beira do desespero. A mãe nunca deixou que os guardasse, dizendo que me ajudavam a ter autoestima.
A verdade: o karaté foi útil, e aquela cambada levou um susto e foi cuidar do ego magoado, e eu ganhei um gato escanzelado e maltratado, com uma cauda despida. Mas não durou: logo o Tico se tornou um felino atrevido e peludo, convencidíssimo de que me pertencia e, portanto, não havia razão para stressar. Podia viver tranquilamente, deixando-me por vezes o privilégio de lhe coçar atrás da orelha.
Naquele dia em que o Tico foi verdadeiramente adotado, voltava eu desanimada da Escola Superior de Música. Os preparativos para o concurso em que ia participar corriam pelo avesso. Os dedos, que habitualmente executavam tudo na perfeição, deixavam de me obedecer assim que o André, o meu colega de curso, entrava na sala de ensaios.
O André era-me familiar desde quase sempre primária, conservatório, tudo mas, ao reencontrá-lo após meses sem nos vermos, parecia-me agora alguém diferente e distante. Nas férias de verão, ele esteve longe, e o reencontro deixou-me envergonhada. Quando ele, como sempre, me abraçou a contar qualquer coisa aos colegas, eu fiquei paralisada por uma felicidade estranha e irresistível, saboreando o momento silenciosamente. Noutra ocasião teria fugido, talvez lhe desse uma palmada, mas desta vez só queria ficar ali, a sentir aquela mão grande e quente no meu ombro.
Quando o André desapareceu na sala, a agitar folhas de partituras e a anunciar a chegada em voz alta, interiormente chamei-me de tola. Mas aquela sensação nova recusava-se a abandonar-me; eu dava por mim a seguir com o olhar a silhueta despenteada do meu príncipe e a baixar as pestanas sempre que percebia que ele olhava para mim.
Era uma tortura doce. Por um lado, queria, desesperadamente, ser sincera com o André. Por outro, só de pensar nisso sentia um frio paralisante e os dedos gelavam-me.
Sofria em silêncio.
Contar à mãe era impossível. Achava que ela não entenderia ou talvez fosse só impressão minha, mas era indiferente. Confessar-lhe a minha primeira paixão era impossível para mim.
A relação com a mãe era complicada. Amávamo-nos profundamente, mas Cada uma sabia bem a força do carácter da outra. A consequência era que, sempre que uma se excedia, voltava-se costas. Não havia gritos, nem pratos partidos; apenas uma porta fechada suavemente e um silêncio denso instalava-se na casa.
É um autêntico apagamento mútuo, muito à portuguesa dizia a avó antes da família se dividir. Uma estupidez fenomenal!
Concordava com ela, mas não sabia como escapar da tradição. Normalmente, era eu a dar o primeiro passo para fazer as pazes e restaurar, por pouco firme que fosse, a harmonia.
Sabia que a mãe me amava um pouco demais, até um ponto que roçava o doentio. Para a Albina Rodrigues, não havia nada nem ninguém mais importante na vida que eu, filha única. Sabia igualmente que, para proteger essa sua preciosidade, faria de tudo até fechar-me num mundo à parte.
A mãe protegia-me como sabia e podia. O que, no fundo, resultava em eu viver entre casa, escola, aulas de música e, às vezes, umas idas ao campo nada mais. Nem uma vez fui ao acampamento, nunca saí com colegas fora da escola e de amigos só tinha os filhos das amigas da mãe, previamente aprovados e entediantes. Lídia implicava sempre comigo, inventando nomes ofensivos, e o Simão era um malandro à primeira oportunidade, arrancou a cabeça do meu urso de peluche favorito dizendo: Bem feito!. Nunca percebi o que queria com isso e chorei todas as vezes que o via à porta do meu quarto.
Que pena as crianças não se entenderem! Faziam um belo par! lamuriava a mãe do Simão, tentando consolar-me. Mas eu sentia o quão falso era o seu tom.
Albina, não prendas a criança! a avó ralhava com a minha mãe enquanto eu me encolhia no colo dela. Dá-lhe opção! Se lho tiras agora, Mariana vai crescer a sentir-se incompleta!
Margarida, não me compliques a cabeça! A Mariana é ainda uma menina. Que escolhas pode ela fazer? Enquanto for eu a responsável, escolho eu.
Só espero é que esse momento não se prolongue tanto que acabes a pensar que a tua filha te pertence.
Porquê guardei aquela conversa? Nem sei. Mas ficou-me gravada. Sempre que a mãe era demasiado insistente, repetia-lhe: Mãe, eu não sou tua propriedade!
Isto tirava-a do sério.
Não repitas o que ouves! Tens de ter juízo teu!
Mas eu tenho! respondia magoada, e o silêncio voltava a pairar.
Fui forçada a deixar de falar com a avó depois do grande escândalo familiar. Não quis pensar mais em quem tinha razão ou culpa. Estavam todos errados.
Tanto a avó, que antes de saber todos os factos, acusou a mãe: Devias ter sido mais cuidadosa durante a gravidez! Sensibilidade psicológica Balelas! Deviam pensar mais nos outros! Sabendo das tuas maleitas, ainda assim arriscar assim! Em que pensavas, Albina?
Como a mãe, que sofreu de birras e crises durante a última gravidez, arrastando toda a casa em noites de lágrimas e gritos: Vocês não têm compaixão nenhuma! Isto é desumano!
O que se pretendia da tal compaixão, nem eu nem o pai percebíamos. Evitávamos stressar a mãe, mas nada resultou. O bebé perdeu-se tarde de mais, depois de uma terapia mal prescrita. Procurar culpados era inglório. Só a avó enfrentou a mãe: Se quiseres tentar novamente, arranja um bom médico! Porque não falaste comigo? Orgulho? Estupidez? Fazes tudo à tua maneira. Olha o resultado E não és só tu que perdes. Também eu perdi o neto tão desejado
O discurso custou-lhe caro: saiu de casa do filho direita ao hospital por causa da tensão alta. A mãe nunca lhe perdoou.
O pai tentou ser o pacificador, até perceber que era impossível vencer duas mulheres teimosas. Resignou-se e esperou que a fervura passasse.
Nunca passou. Senti tanto a falta da avó que me doía, mas nunca ousei desafiar a mãe. Sofrera muito e agarrava-se a mim com unhas e dentes, como o seu último alento.
Perguntei-lhe uma única vez se não queria tentar novamente, já que tanto desejava um filho ela olhou-me de tal forma que percebi que era tema interdito.
A avó foi provavelmente a única pessoa a quem conseguiria confiar o meu maior segredo, mas ela partiu. Decidiu ajudar o filho, vendeu o apartamento, comprou uma casinha no Algarve e mudou-se para lá.
Vai ser melhor assim, filho para todos será.
Soube sempre que o pai a visitava duas vezes por ano, com aceitação resignada da mãe mas recusa sempre deixar-me ir junto.
Não quero que te virem contra mim!
Isto não me agradava nada. Sentia pena da mãe, amava o pai e tentava evitar ser mais um obstáculo à felicidade deles.
Guardei a foto da avó no meu romance favorito. De vez em quando, quando a mãe não via, tirava-a para a ver.
A arte do fotógrafo impressionava-me. Como é possível conseguir captar a avó de tal forma que, ao olhar-me no espelho depois, desatasse a chorar?
O nariz. De família. Destacado e escandalosamente bonito
Só concordava com destacado. De bonito, não via nada.
É mesmo enorme! Lídia, que não via desde garota, há uns dez anos, exclamou ao reencontrar-me, passando o dedo pelas unhas perfeitas, quase tocando o meu nariz. Desculpa, mas é engraçado! Pareces o Pinóquio! E dá para beijar? Não acredito! Nunca beijaste ninguém? Ai, que vergonha, com a tua idade e nunca teres namorado! Que horror!
Não sei como não lhe arranquei metade dos cabelos. Que direito tinha de dizer aquilo? Não era minha amiga, nem sequer colega vivia em Barcelona e só vinha a Portugal de visita. Ainda por cima, a mãe arranjou o encontro à última da hora, sem eu querer.
Filha, não pode ser! Foram tantos anos sem se verem!
E podiam ser muitos mais, mãe Para quê?
Mariana! Porque tens de perguntar? Acredita, vai fazer-te bem! Vais agradecer-me!
Agradeci-lhe muitas vezes, em pensamento, mas com palavras pouco simpáticas. Por causa daquela conversa com a Lídia, tomei a decisão mais adulta da minha vida.
Vou fazer uma cirurgia plástica!
Nem penses! a mãe ficou branca ao ouvir-me. Não permito! Porquê?!
Para quê discutires, mãe? O pai já concordou. A decisão está tomada!
Tu não vais… murmurou, tão baixo que eu mal ouvi.
A discussão acabou com ambas a chorar, ela fechada no quarto. Correu de um lado para o outro até decidir, já perto da noite, fazer o mais óbvio: pedir ao pai o contacto da avó Margarida.
No dia seguinte, fui enviada pela mãe para Faro.
Ela própria levou-me ao aeroporto e, antes de embarcar, sussurrou-me ao ouvido:
Fazemos tanta asneira na vida, filha Perdemos tanto onde podíamos ganhar Não repitas os meus erros! E lembra-te: espero por ti, amo-te muito, mesmo quando não pareço. Amo-te mais do que a mim, mais do que tudo.
Só me restava assentir, abraçar a mãe e seguir viagem. Lá, a avó esperava-me isso era tudo o que importava.
A avó recebeu-me com tanto carinho que consegui falar sem chorar só ao fim do segundo dia, já mais calmas.
Mariana, o que é que levou a tua mãe a tornar-se de repente uma verdadeira mulher?
Não sei Talvez o facto de eu querer cortar o nariz fora.
Que disparate! Estás ótima assim e, com um pouco de maquilhagem, ainda ias melhor!
Avó, por favor! Pareço o Pinóquio!
Quem foi que te disse tamanha asneira?
Houve quem dissesse
Mordi o lábio para não me desfazer a chorar enquanto me lembrava da imagem perfeita da Lídia, sempre rodeada de admiradores. Para ela, nunca faltariam pretendentes.
Quem desvaloriza os outros por causa do aspeto não é gente, filha. São falhas que Deus esqueceu de corrigir. Não há mulheres completamente satisfeitas com a aparência! Se existisse uma, o Guinness fechava logo! Maior raridade não se encontrava!
Queres ver que eu podia candidatar-me? Para o nariz mais notório Não ficava em segundo lugar!
Espera! a avó levantou-se da poltrona e saiu, voltando com um álbum pesado forrado a veludo azul.
Aqui está.
O que é?
São as pessoas que, apesar da joia de família, não deixaram de ser felizes. São teus antepassados. Não estão cá todos, muitos retratos perderam-se. E há quem não chegou a fugir da tragédia da nossa história, mas alguém sobreviveu. Vês esta senhora aqui a tia Fátima? Só escapou porque a mãe, num ato de desespero, entregou todas as suas joias à vizinha em troca de a esconder, e essa senhora generosa devolveu tudo à menina. E ainda se tornou cirurgiã e salvou vidas! Ela pedia sempre uma máscara especial para operar por causa do nariz. Olha só!
Mostrou-me a fotografia de uma mulher alta, de chapéu largo, a rir-se na praia ao lado de um homem bonito.
É o tio Miguel?
Sim! Jovens, felizes, apaixonados. Fátima deixou tudo quando ele adoeceu, passou dois anos a cuidar dele, sem um lamento. Quando ele morreu, ela não resistiu muito tempo e foi atrás dele, meses depois. Nunca se perdoou por não terem partido juntos
Que história
E ela não foi a única. Nunca mudámos de apelido e todas as mulheres da família conseguiram ser felizes, amadas, com filhos, netos e até bisnetos. Parece pouco?
Depois, a avó voltou ao aparador, de onde tirou uma pequena caixa de madeira entalhada.
Chegou o teu momento. Isto é para ti. São os brincos que a Fátima quis que tivesses. Todas nós recebemos uma recordação de quem veio antes.
Os brincos eram tão belos que o fôlego me faltou. As minhas mãos tremiam como quando via o André.
São obra do trisavô, Mariana. Era um ourives talentoso, via beleza onde ninguém via nada. Adorava lírios, fez estes para a mulher, Lília, e elas vão passando de mãe para filha.
Mesmo lírios? olhei as flores cravejadas de pedrinhas.
Sim. Agora são teus.
Avó! Isto é mesmo uma joia de família!
Como o teu nariz, minha filha! E imagina que eu achasse que esta peça era fora de moda, e a mandasse derreter para encomendar uma moderna, sem alma e sem história? Seria correto?
Fechei o punho sobre os brincos, negando com a cabeça.
Isso seria impensável!
Então não insultes Deus recusando aquilo que Ele te deu. Tudo é como tem de ser. Conta-me agora sobre o rapaz que virou o teu coração ao avesso de que família é, o que faz?
Avó! Como sabes?! fiquei toda vermelha, olhos baixos.
Achas que nunca fui jovem? riu-se.
Falámos noite dentro. Senti o peito aliviar-se, ganhei força para o concurso e para enfrentar o futuro, sem aquele medo pegajoso que me tolhera antes. Agora, podia partilhar segredos com alguém que compreendia.
De manhã, surpreendi a avó a fazer a mala.
Vais aonde?
Chegou o tempo de juntar peças, Mariana. Cometi muitos erros, o maior foi deixar cortar o laço com a tua mãe. Preciso vê-la.
A determinação era tal que nem tentei impedir. Ajudei-a em silêncio e chamei um táxi até ao aeroporto.
Mais tarde, sentada no quarto, abraçada ao Tico, ouvi os murmúrios na cozinha. Desejava tanto sentar-me à mesa, pegar na mão de cada uma e perguntar se, finalmente, se entenderam Mas sabia que não devia. Faltava muito para a paz total, mas o primeiro passo estava dado. Agora, o mais importante era não interferir, não assustar aquela frágil felicidade acabada de nascer. Fácil de destruir, mas tão difícil de reconstruir Um verdadeiro trabalho de ourives.
Um ano depois, a mãe já com uma nova gravidez a despontar ajeitou-me a flor na orelha enquanto a maquilhadora acabava o penteado, prendeu-me o véu com esmero e perguntou:
Pronta?
Só falta um retoque nesta joia de família! disse, virando-me para o espelho.
Olhei para mim, assenti aos meus pensamentos e lembrei-me daquele dia em que perguntei ao André se havia algo que ele mudaria em mim.
És perfeita, Mariana! Porque perguntas?
O espanto dele era tão sincero que fechei os olhos de felicidade.
Um meio sorriso, o olhar tímido, e as minhas mãos envolveram o pescoço do meu músico despenteado, vencedor de prémios, que agora era meu.
Por nada, meu amor. Por nada.







