A INQUILINA
Numa tarde de inverno luminosa, uma mulher alta caminhava pelo passeio de um bairro residencial de Lisboa. Ainda havia luz e o entardecer brindava com uma temperatura amena. Um friozinho suave tornava o ar fresco, mas o sol tinha brilhado em todo o seu esplendor durante o dia. Agora, já perto do pôr do sol, os raios dourados brincavam nas flocos de neve cintilantes ao frio.
A mulher sentia-se bem naquele clima, caminhava devagar. Ao olhar, destacava-se: porte elegante, sapatos de salto e um vistoso casaco de vison. O rosto, marcado por uma antiga beleza e um leve traço de altivez, mostrava que era uma senhora vaidosa e com autoestima. Tinha pouco mais de sessenta anos e, apesar de o tempo dos grandes romances estar distante, Matilde Barbosa sabia como aproveitar as alegrias da vida.
Ficou viúva há dez anos e teve de aprender a lidar com a saudade. O marido foi o seu companheiro uma vida inteira; juntos criaram um filho exemplar.
O filho partiu para o Porto para estudar e por lá ficou. Casou-se e fez de Matilde duas vezes avó. No entanto, a avó vê os netos poucas vezes; o filho trabalha muito e não consegue visitar Lisboa com frequência.
Nem assim Matilde Barbosa se deixava abater. Em qualquer idade, a vida tem o seu encanto. Reformada, com o filho e os netos longe mas contactáveis por videochamada, vivia confortavelmente. Era dona de dois apartamentos. Tinha uma reforma modesta, mas suficiente. O filho, de vez em quando, depositava-lhe alguns euros extra, embora ela recusasse sempre que podia.
No último Natal, o filho e a família estiveram com ela e deram-lhe um presente digno de uma rainha: o luxuoso casaco de vison que agora ostentava enquanto caminhava devagar, orgulhosa. Sabia que estava maravilhosa para uma mulher da sua idade.
Naquele dia, Matilde não passeava ao acaso; ia recolher a renda da inquilina. Morava num T2 e alugava o outro, um T1, a um jovem casal com um filho pequeno. Quando aceitaram o contrato, o bebé ainda não tinha nascido, mas cinco anos passaram e agora havia lá um menino de bochechas redondas e ar bem-disposto, com dois anos. Na sua bolsa, Matilde levava um chocolate especialmente para o miúdo.
A experiência ensinou-lhe que encontrar bons inquilinos não era tarefa fácil. Já tinha passado por dissabores: dívidas de água e luz, móveis estragados. Por isso, passava sempre pessoalmente ao início de cada mês, para levantar a renda e verificar o estado do apartamento. Com este casal, no entanto, até já relaxava um pouco. Eram jovens mas organizados, especialmente a Margarida, com quem tratava diretamente.
Margarida parecia uma rapariga frágil, mas Matilde, que conhecia a sua idade pelos documentos, sabia que tinha 24 anos. Era magrinha, rosto claro, olhos azuis luminosos dificilmente se acreditaria que fosse mãe daquele bebé tão enérgico.
Sempre amável, Margarida pagava as contas todas a tempo. O marido, por outro lado, Matilde via pouco e falava menos. Por vezes parecia-lhe que ele estaria sob efeito do vinho, mas como inquilino não havia queixas. Limitava-se a responder com um bom-dia e mantinha-se alheio. O importante era que nunca faltavam à palavra.
Ao subir o elevador do prédio de nove andares e parar no quinto, ia já pensando em que petisco se deliciaria mais tarde com o dinheiro da renda. Era assim que Matilde complementava as despesas dos seus próprios consumos e, de vez em quando, sabia-se presentear com um pouco de bacalhau ou marisco prazeres a que, na sua idade, não via razão para se negar.
Perdida nestes pensamentos sobre se ainda apanharia a peixaria aberta para comprar um pedaço de polvo, Matilde tocou à campainha. Tinha chave, claro, mas nunca entrava sem avisar. Os bons inquilinos merecem respeito.
Desta vez demoraram um pouco a atender. Já pensava que talvez não estivessem ninguém em casa, quando finalmente a porta se abriu. Era Margarida, mas tão descomposta que Matilde ficou em choque: os olhos vermelhos e inchados, as mãos a tremer, rosto muito pálido.
Margarida afastou-se para o hall, cruzando os braços, tentando controlar-se.
Aconteceu alguma coisa, Margarida? Pareces doente… Está tudo bem? perguntou Matilde, entrando.
Enquanto fechava a porta, pensou se não seria ressaca, talvez dos longos festejos do Ano Novo. Porém, logo Margarida respondeu, trémula:
Não, dona Matilde, não está nada bem suspirou, caminhei vacilante até à sala.
Matilde seguiu-a e logo percebeu que o marido não estava. E a casa, sempre tão arrumada, parecia desfeita: roupa espalhada, o pequeno Tomás a brincar no meio da confusão, o armário aberto e despido em metade das prateleiras.
Margarida estendeu-lhe as contas pagas com mãos a tremer.
Aqui está tudo pago. Mas este mês não tenho como dar-lhe a renda. Posso ficar a dever? Amanhã mesmo eu e o Tomás saímos. Só preciso de forças para arrumar tudo.
A cara de Margarida distorceu-se na luta para não chorar. Matilde percebeu: aquilo não era álcool era pura tristeza. Margarida chorara tanto que a pele inchara e já não restavam lágrimas.
O que se passou? Porquê tudo isto? E o teu marido, onde está? exclamou Matilde.
Sentada na ponta do sofá, Margarida tapou o rosto com as mãos e falou num fio de voz:
Fiquei doente, dona Matilde. Sinto-me mal há meses, mas como sempre estou com o Tomás, nunca fui ao médico. Agora que ele entrou para a creche, fui fazer análises. Descobriram que tenho cancro.
Margarida ficou em silêncio. Só ao fim de alguns segundos continuou:
Quando o André soube, foi-se embora. Gritou comigo como se eu tivesse culpa da doença. Disse que não queria passar pelo sofrimento que viu com a tia dele, também às voltas com o cancro. Pegou nas coisas e saiu. Vai pedir o divórcio. E eu… fiquei sem nada. Recebo uma ninharia no subsídio de maternidade, tudo foi para as contas. Não tenho dinheiro para a renda nem para viver. Amanhã vou para casa da minha avó, numa aldeia do Alentejo. Ela criou-me… Não tenho outra saída. Só lá na aldeia, talvez, consiga algum apoio. Lá há um pequeno posto de saúde… não posso ir para o hospital oncológico porque não tenho ninguém em Lisboa com quem deixar o Tomás.
Matilde sentou-se ao seu lado e pousou-lhe a mão no ombro.
Olha para mim, Margarida. Chega de lágrimas. Tens um filho pequenino. Tens de ser forte por vocês os dois. Já trataste do que fazer quanto ao tratamento? O hospital indicou o plano? Podes fazer a biopsia amanhã, não podes?
Margarida olhou para Matilde e respondeu, desanimada:
Amanhã deveria internar-me no IPO para biopsia. Mas não posso, não tenho onde deixar o Tomás nem dinheiro para ficar aqui. Só se for mesmo embora.
Larga essas ideias cortou Matilde. Em Lisboa há gente que ainda se preocupa. Fica descansada, amanhã tomas conta da tua saúde e eu fico com o Tomás. Não te preocupes com a renda. Voltas quando puderes, casa aberta para ti e para o Tomás. Faz o tratamento, não penses nisso. A gente desenrasca-se.
Margarida não conseguia acreditar no que ouvia. Achava Matilde distante, fria, senhora de si. Nunca teria esperado tamanha solidariedade.
Então? Não fiques a olhar para mim! Toca a limpar as lágrimas e compôr a casa. Amanhã cedo cá estou. Ensinas-me para que creche levo o Tomás e vai tratar de ti.
Matilde despediu-se e foi às compras, mas já não à procura de delícias, apenas do essencial: frango para sopa, arroz, carne… tudo o que fosse preciso para cuidar do menino durante aquele período.
Tomás era um encanto e deu pouco trabalho. Sentia falta da mãe, mas alegrava-se facilmente. Matilde preocupava-se com Margarida a sua fragilidade tocava-lhe o coração.
Margarida fez a biopsia e passados dois dias regressou, aguardando ansiosa os resultados. Quando finalmente lhe ligou, o tom da voz fazia ecoar a esperança:
Dona Matilde, afinal é só o início da doença. Vão operar-me, mas disseram que tenho grandes hipóteses de recuperação!
Estás a ver? suspirou Matilde. E querias desistir… O teu marido perdeu uma mulher valente. Agora, concentra-te em ti e no Tomás.
A cirurgia foi só dali a um mês, período que Margarida passou entre Lisboa e a aldeia. Matilde recusava-se a cobrar-lhe a renda. Margarida sentia-se incomodada, mas Matilde dizia-lhe sempre: Tens um caminho longo, força!
* * * * *
Um ano e meio depois, o restaurante mais requintado de Lisboa recebia uma animada festa de casamento. Matilde, elegante de fato bege, estava sentada junto à noiva em lugar de destaque. Os convidados a julgavam mãe da noiva e ela sentia-se assim, como se entregasse a filha ao altar.
Margarida estava deslumbrante de branco, com tiara e cabelos em caracóis. Saudável e com o brilho da felicidade. Ia casar com o médico que há pouco tempo atrás lhe salvara a vida.
Ao início, Margarida chegou a desconfiar: era jovem demais. Achou que precisava de um médico mais experiente, mas o destino não lhe deu escolha. Com o tempo, o médico foi-se aproximando, mas Margarida, desiludida pelos homens, só confiava verdadeiramente em Matilde.
Veio a operação, depois reabilitação, exames sem fim. Só passado meio ano pôde retomar o emprego e pagar, mesmo a custo, alguma renda a Matilde, que já quase se sentia sua mãe. Tomás e Margarida mudaram-se para a casa do médico.
A Matilde caberia encontrar novos inquilinos. Entretanto, cuidava do seu peixe preferido, vibrava com a alegria de ver Margarida e Tomás felizes, e percebeu: nenhum bem material substitui o que tinha ganho. Não era filha de sangue, mas era como se fosse. Agora, não estava só.
No auge da festa, Margarida levantou-se, emocionada:
Quero agradecer a uma pessoa especial, sem a qual eu não estaria aqui. Dona Matilde, a senhora foi e é a mãe que a vida me trouxe. Obrigada por tudo. Que Deus me guiasse até si!
Matilde quase deixou escorrer uma lágrima, mas sentiu no coração a certeza: tudo o que fazemos pelos outros permanece connosco para sempre. E é na generosidade e na coragem para nos darmos que se constrói a verdadeira felicidade.







