A Inesperada Julinha

Não tão Benedita

Benedita! Outra vez?! Meu Deus, tu não és uma criança normal, és uma trapalhada pegada! Como é que é possível?!

Mãe, eu não sei… aconteceu…

A minha mãe arrancava-me o casaco cheio de nódoas, as botas alagadas e o gorro já sem pompom.

Todos têm filhos normais, só eu é que… Benedita! Quando é que isto acaba?

Eu olhava para o vestido rasgado, suspirando.

E até estava a ser giro! A nossa locomotiva ficou o máximo! Pena foi o Gonçalo puxar tanto o meu vestido. Rasgou-se. A dona Catarina, a educadora, disse logo que não tinha maneira de coser aquilo e que isso tinha de ser tarefa da minha mãe. Tem razão, claro. Só que tive de passar o resto da tarde sentada num canto. Não havia maneira de andar à mostra, como dizia a minha avó. Não se mostre roupa interior à frente dos rapazes! Ela sim, percebe de vida.

Por exemplo, que eu sou assim. A mãe não admite, mas a avó fácil.

Deixa de implicar com a miúda, isso lá é jeito de educar?

Mãe, tu fizeste igual comigo! Agora não venhas dizer que não é correto! Se eu não educar a Benedita, o que é que ela vai ser?

Uma mulher esperta e bonita como tu, não te chega?

Ai, larga isso! Não tenho tempo para disparates! Benedita, vai-te vestir, já!

Eu, aliviada, fugia para o meu quarto, e logo a discussão entre as duas mulheres que mais amo continuava sem mim, porque no fundo nem eu interessava para o assunto. Só servia de pretexto.

Certa vez perguntei à avó o que era um pretexto e ela riu-se.

Andar aos gritos só porque sim não tem graça, menina. Se tiver razão é outra conversa!

Eu sou a vossa razão?

A mais importante! Tu és a nossa única Benedita. Por isso tanto nos preocupamos. Cada uma à sua maneira. A tua mãe com mais rigor, acha que é assim que tem de ser. Eu já gastei o meu rigor todo com ela. Para ti só restam mimos e rebuçados.

Não gosto de rebuçados!

Então fica uma bolacha, pode ser?

Isso já é outra coisa! Avó, a mãe gosta mesmo de mim?

Mais do que tudo, até mais do que eu. Não duvides!

Então por que me ralha sempre?

Por isso mesmo…

Amor estranho esse Avó, tu gostas de mim mas não me ralhas…

Eu sou tua avó, ela é tua mãe. Ela tem mais responsabilidade. O amor dela exige outro tipo de cuidado, percebes?

Não.

Ainda não é altura. Depois percebes.

Só que esse depois nunca chegava.

Eu esperei, esperei E a cada ano, a mãe mais exigente ficava.

O que faço contigo? Fico à espera que tragas desgraças?

Eu ouvia isto tantas vezes, mas só me lembrava do vestido rasgado da infância. Até me apetecia perguntar como é que alguém pode trazer alguma coisa num vestido com um buraco Mas piada dessas a mãe não ia achar graça nenhuma, e o mais certo era levar outra descasca desnecessária.

Os receios da mãe, na verdade, não tinham fundamento nenhum.

Desengonçada, a minha Benedita, apesar de fofa, achava-se bem normalinha. Tanto fazia o que dizia a avó, o espelho era bem mais sincero.

E eu via lá nada de especial! Olhos pequenos, cabelo escuro e apanhado num rabo-de-cavalo, borbulhas no nariz glamour? Zero.

Aceitei a verdade da vida cedo e nunca liguei ao aspeto. Mais simples para mim, e para a mãe também. Menos roupa da moda, menos sapatos. Sapatilhas velhas serviam perfeitamente. Só para ir ao teatro com a avó é que tinha de pôr algo apresentável.

Adorava teatro. Pena só irmos de vez em quando, porque não havia dinheiro. A avó punha de parte do pouco que recebia da reforma, mas mesmo assim demorava a juntar. Por isso, desde o sétimo ano, comecei a ajudar a vizinha com os filhos dela e a ganhar os meus primeiros trocos em euros. Os gémeos eram irrequietos, mas divertidos, e eu, filha única, aproveitava para brincar e aprender.

Era muito melhor assim! Brincar, dar-lhes a papa, e depois ir para casa. Sem confusão, sem dividir o quarto. Que maravilha!

Não era egoísmo, era realismo. Só para educar dois filhos já era preciso dinheiro. Com o que tínhamos o ordenado da mãe, enfermeira num serviço difícil, e a reforma da avó não dava para luxos. E faltava ainda mais: nunca conheci o meu pai, nem estava muito interessada nisso.

Nunca conversei sobre o assunto com a minha mãe. Não era preciso mexer onde dói. Já basto eu, Benedita, para lhe dar dores de cabeça. Mais a avó, que já baralhava tudo, nem o próprio nome acertava muitas vezes.

Ainda bem que do meu pai pelo menos ela se recordava. E contou-me tudo. Da mãe apaixonada, do pai que não quis saber mais, e de todo o sofrimento.

A tua mãe não fez falta para ele.

Porquê?

Era namoradeiro, mulheres não faltavam. Disse-lhe e ela não quis saber. Apaixonou-se, acreditou que se ia casar. E casou. Mas só soube que ia ser pai, fugiu. Nem sabemos por onde anda. Só deixou um bilhete.

E dizia o quê?

Não interessa, filha. Deixa que fiquem eles com essa tristeza. Só te digo: eras tão desejada pela tua mãe, que andou nove meses em pulgas para que nada te magoasse. Ainda hoje é assim. E ralha contigo porque tem medo, muito medo. Não dorme muitas noites, a olhar para ti, e vejo-a a rezar baixinho e chorar. Pergunto-lhe ela amua. Mãe tem as suas coisas. Ama-te, como consegue. Percebeste?

Mais claro não podia Avó, tu fazias igual?

Todas as mães são assim. Fazem disparates de medo e depois arrependem-se.

Porquê tanto medo?

Pelos filhos? Não dá para explicar. Quando fores mãe vais sentir e talvez percebas.

Fiquei calado, mas pensei. Pensei que com os meus filhos nunca seria assim. Educaria de outra forma. Que ingenuidade a minha. Mas quem não é inocente com essa idade?

Claro, filhos não era coisa que esperasse ter. Quem ia querer alguém como eu? Pequena, feiosa, teimosa. Se alguém gostasse, teria de me aturar.

Acabado o curso, fui trabalhar para o mesmo hospital que a mãe. Aí começaram as chatices!

Tudo estava errado! Ou era demasiado despachada, ou dava demasiado pelos doentes. Temos de ser mais frios, senão ninguém te respeita! E esforças-te à toa, ninguém te pede isso! Hoje vai-se um, amanhã entra outro. Não te desperdices!

Só que eu nem queria saber. Os doentes, coitados, sofriam. Sentia pena. Era só fazer uma injeção, ajeitar a cama, dar uma palavra, isso faz sempre diferença. A mãe avisava:

Filha, olha que não gostam dessas manias aqui. Vão meter-te de lado, quem é que fica a ganhar? Precisamos todas do teu ordenado, não é altura de arranjar problemas. Como é com a avó? Não quero pôr ela num lar A cuidadora custa caro. Tens de trabalhar e aprender, e cá em casa és tu que a olhas.

Mãe, não consigo fazer diferente! Gritam com doentes, tratam mal…

É um trabalho duro. Nem todos têm paciência. No vosso serviço só há três assim como tu. E já não é mau! Mas a chefe pediu para te acalmares um pouco. Não vale a pena tentar mudar tudo de repente. Pelo exemplo, devagarinho, talvez consigas.

Isso demora!

Ó Benedita! Em quem é que tu saíste?

Em ti, pelos vistos.

Benedita!

O quê?

Nada. Faz antes o que digo!

Uhum

Discutir não me apetecia, mas ouvir a mãe… só às vezes. Ela pode ter razão, mas logo havia a dona Emília, rabugenta como só ela, que sorria sempre para mim de manhã. Queixava-se das outras, mas de mim não.

E não era só ela. Havia muitos a sofrer, sozinhos, a discutir por tudo e por nada com a família. Eu via. E ouvia. As visitas só pensam na herança ou em assuntos sem importância. E os doentes choram depois… E quem é que não percebe isso?

Mas a mãe só queria saber se eu estava bem. E como é que alguém pode estar bem se à volta está tudo mal?

Sim, não dá para ajudar todos, mas pelo menos um isso já conta.

E podiam rir-se de mim na enfermaria, dizer que nasci para freira. Problema delas! A avó sempre dizia: O que interessa é seguir caminho, custe o que custar.

E lá ia eu, Benedita, a caminhar, a esgotar forças, por vezes sem saber para quê.

Não que precisasse desesperadamente da aprovação de alguém. Já estava habituada a viver sem palmadinhas nas costas. Mas desde que a avó enlouqueceu de vez, nem com quem falar tinha. Mãe suspirava, mandava-me sair, mas eu sabia que não valia a pena. Ia tornando-me numa solteirona, sem grande vontade de ouvir falar de amor ou de casamentos.

Oh mãe, se quiseres netos, diz. Faço dois, que hoje em dia é fácil.

Benedita! Que disparate!

Príncipes há poucos, mãe, não chegam para todas. É a lei da vida! Que mais esperas de mim?

Só queria que fosses feliz

Então para de falar da minha vida amorosa. Não tenho jeito nenhum para isso. Adapta-te! Já me incomoda bastante

E a mãe calava-se, a pensar em todos os filhos das amigas que já estavam casados, e ficava sem saber o que fazer, exceto esperar que a sorte me batesse à porta.

Veio, mas não como eu esperava.

Imaginava sempre que aparecia alguém e esperava pacientemente por mim, até eu me apaixonar, mas correu tudo de maneira diferente.

E quem pôs a reviravolta foi mesmo a dona Emília, a tal teimosa, que era internada todos os anos, a dar cabo do juízo de todos.

Benedita, a tua protegida! Vai lá tu receber a peste da dona Emília!

A dona Emília renascia ao ver-me no corredor.

Ah, menina, até que enfim um rosto amigo!

Ora, temos todos bons corações, dona Emília.

Tu és muito novita, não percebes nada disto. Mas eu sei Não discutas!

Não vou discutir, vou deixá-la no quarto, a ver se sossegam os outros.

Que fiquem assustados, faz-lhes bem!

Você é terrível, dona Emília!

Mas meiguinha, não sabes a minha gata! Aquela sim, é do demónio!

E eu ria, esquecendo logo o que ela dizia devia ter prestado atenção, porque acabei mesmo por conhecer a tal gata.

Aconteceu que a dona Emília, num internamento, apareceu calada, sem aquela energia de costume. Não discutia nem protestava. Simplesmente seguiu-me até ao quarto e virou-se para a parede. Nem respondeu às perguntas. Só disse:

Vai sossegada, menina Benedita… mais tarde

Claro, em poucas horas soube o diagnóstico, e até que tinha pedido para vir para o hospital por vontade própria.

Que desatou aos gritos com os filhos, agora sofre sozinha. Também ela Não se deve ser frio com filhos depois ninguém traz um copo de água na velhice!

Ignorei o comentário. Não se pode julgar de fora as desavenças dos outros. Cada um tem a sua verdade.

No fim do turno, fui ver como estava.

Precisa de alguma coisa?

Ela olhou-me com atenção. Ia sair, mas ela falou.

Benedita, queria pedir-te um favor mas nem sei nunca gostei de pedir nada. A minha mãe era cá uma mulher de armas, ensinou-me sempre a lutar sozinha. Mas ninguém nos ensina a pedir apoio, pois não?

Diga, não tenha vergonha.

Vê, tenho família, mas confio em ti. A vida foi só problemas e pouco para recordar de bom. Trabalho, responsabilidades, o resto igual. A alegria foi sempre pouca, já as chatices sempre em cima. Pensei que ia fazer melhor para os meus filhos, mas só os estraguei. Deram-me os netos, ajudei em tudo, dei a casa à minha filha e ao meu filho para não terem trabalhos comigo… Vendi até a casa dos meus pais depois da minha mãe morrer, dei tudo. E agora não faço falta. A mim, nem à… Benedita, fica com a minha Pipa!

Quem?

A minha gata! É um bocado turrona, mas inteligente! Compreende tudo! Hoje, quando fui sair de casa para o hospital, ela atirou-se a mim! Não me queria largar! Compreende tudo

Fiquei atrapalhado.

Sempre gostei de bichos, mas nunca tivemos em casa. A avó fazia alergia, e cuidar de um animal também custa dinheiro.

Mas recusar aquele pedido era impossível. O olhar da dona Emília era mesmo de súplica. A gata devia ser a única companhia verdadeira. Não me cabia julgar, não se conhece o coração dos outros. Se podia dar algum consolo, então dava, sem mais.

No fim da noite, foi falar com a minha mãe, ouvi a sua opinião e fui buscar a Pipa.

Eu fico com ela, só até estar melhor, dona Emília! Depois a levo de volta.

Claro, Benedita, claro

Ela acenou tão pequenina na sua cama, pela primeira vez igual a tantas outras velhinas, e não à bruxa má que fingia.

Chegada à porta do prédio, hesitei. Tinha as chaves, mas não queria ir sozinha. Fiquei a matutar nas escadas, e bati à porta da primeira vizinha que apareceu.

Quer alguma coisa? uma rapariga nova, bebê ao colo.

Desculpe. A dona Emília pediu-me para ir buscar a gata. Pode esperar aí só um minuto, enquanto a agarro?

Não gostas de entrar sozinha, não é? sorriu. Fazes bem, ela é ranzinza, cuidado com ela.

Oh, é uma velhota boa pessoa no fundo, todos temos os nossos defeitos!

Isso é verdade! anuiu, divertida. Vai lá, nós esperamos.

O bebê balbuciou, e comecei a missão resgate da Pipa!

Mal abri a porta, uma sombra preta voou por entre as minhas pernas, pelas escadas abaixo! Nem a vi!

Fecha essa porta, senão nunca mais apanhas a bicha! gritou a vizinha, e nem hesitei em saltar pelas escadas atrás do bicho.

À entrada do prédio estavam homens a carregar móveis de uma carrinha.

Viram uma gata?

Um dos carregadores apontou por entre as árvores.

Subiu àquela árvore!

Todos se riram ao ver-me correr debaixo de chuva, já escuro, tentando chamar a Pipa que rosnava de cima dos galhos.

Pipinha, miauuu!

Só rosnado de volta. Ai, que bicho!

Tinha mesmo de subir à árvore. Não vinha outra solução, nem pensar! Cumprir a promessa era sagrado.

A noite caía, a chuva aumentava… O melhor era mesmo estar debaixo da manta, com um chá e os fones. Mas pronto. Dei um jeito à mochila, agarrei na primeira rama, e lá fui:

Primeira, segunda, mais uma… O barulho da Pipa cada vez mais perto, um safanão e quase apanho uma unhada na cara.

Ai, Pipa, pareces um diabo!

Mudei de estratégia e, com jeito, consegui agarrar a trouxa de pelo molhado pela cernelha.

Pronto, sossega, já passou…

Meti a gata debaixo do casaco e tentei olhar para baixo, mas sentia só vertigem.

Mãe do céu…

Estava alto, mais do que pensava.

Apegar ao galho nem se fala, e o chão já longe. O telemóvel tocava sem parar, mas nem mexer me atrevia. Gritar? Nem penses. Ia mostrar que estava encalhada por causa duma gata?

Olha, isso é confortável aí?

Uma voz masculina, divertida, soou do nada. Quase caí.

Segura-te bem! Eu já te tiro daí!

O rapaz falava como se eu fosse fugir.

Claro, claro, eu espero…

Gozei, não conseguindo evitar. Ele riu e foi buscar uma escada, não percebi bem onde. Montou-a na árvore:

Então, desces, ou ficas aí para a noite?

Eu acenei a cabeça, sem coragem para largar o galho.

Tenho medo…

Nem acabei de dizer, ele puxou-me ligeiro por uma perna e lá desci, com ele a amparar-me.

Mal pus os pés no chão, a Pipa ainda quis fugir, mas já estava alerta. Meti logo a gata outra vez sob o casaco.

Fica quieta! Prometi à tua dona que cuidava de ti!

És de ideias fortes…

O rapaz esguio, com um ar meio desajeitado, olhava para mim a rir.

Queres que te acompanhe?

Não é preciso resmunguei, e logo me critiquei mentalmente.

Céus, ele trouxe a escada, ajudou-me, apanhou chuva, e sigo a responder torto? Nem obrigada!

Desculpa A sério, obrigada. Ia ficar lá até de manhã se não fosses tu!

Porquê?

Tenho medo de alturas…

E subiste à árvore?

Pela gata! Olha, desculpa, preciso ir. A minha mãe está à espera.

Tratas-me por tu, por favor. Salvou-se já o teu rabo, posso ser o Martim. Vamos, levo-te ao metro ou em casa. É longe daqui?

Pouco

E de repente, senti-me quente. Caminhamos juntos, e estranhamente sorria a cada piada do Martim. E a Pipa, sossegadinha, parecia aproveitar o embalo do nosso passeio calado.

Assim começou. Martim passou a esperar-me à porta da enfermaria, ajudou-me a ir comprar ração decente para a Pipa, que não comia qualquer coisa.

Fiquei com a gata só uma semana, até a filha da dona Emília aparecer.

Dê-me a minha Pipa? A mãe sente tanto a falta dela Mesmo a resmungar, quer cá-la.

Vai levar a sua mãe para casa?

Claro. A minha mãe é uma resmungona, mas nunca quis morar comigo. Agora não tem hipótese. Muito obrigada por tudo.

Fiquei ali, a ver as duas irem, e a pensar, como a família dos outros é sempre um mistério. E não vale a pena inventar histórias sobre os outros, porque se até para uma gata faz falta a dona, tudo é mais difícil do que parece de fora.

No fim, percebi o mais importante: o que interessa é construir o nosso próprio caminho, quando aparece alguém com quem se queira fazê-lo. Não importa quem confessa os sentimentos primeiro, importa é outra coisa.

É ele, quem para ti arranja tempo e uma escada, quando todos os outros se vão embora. Alguém que nunca vai dizer que tu não és normal, porque para ele, melhor que Benedita, não existe no mundo.

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