A Felicidade Roubada Ana lavrava a terra no seu quintal. A primavera chegou cedo este ano — ainda e…

A Felicidade dos Outros

Amália andava a cuidar das suas couves na pequena horta em Penacova. A primavera, este ano, veio cedo, e apesar de ainda ser março, já não se avistava sinal de neve ou geada. Era cedo demais para confiar no tempo, o frio podia voltar a qualquer momento, mas aquele sol morno convidava a sair e tratar de pequenas tarefas endireitar a vedação que ameaçava cair, remendar o telheiro da lenha.

Pensava, de sorriso trocista, que talvez fosse altura de ter umas galinhas, um porquinho, um cão e um gato. Já chega, riu-se baixinho dos próprios devaneios, já tive a minha dose, chega por agora.

No fundo, o que queria mesmo era sentir nos pés descalços a terra acabada de lavrar, cheirando a infância, correr por entre os canteiros aninhados naquela frescura húmida, com a terra até aos tornozelos.

Ainda cá andamos murmurou ela para o vento, como se conversasse com um velho amigo invisível.

Bom dia.

Amália sobressaltou-se. Junto ao portão, estava uma rapariga, talvez dezassete anos magrinha, vestida com um casaquito cinzento dos que se vêem nos cursos profissionais da vila, collants clarinhos, sapatos fininhos de sola rija, nada adequados ao frio da serra.

Muito nova, pensou Amália. Ainda vai apanhar uma constipação com esses sapatinhos.

A rapariga hesitava, pé ante pé.

Bom dia respondeu Amália, secamente.

Desculpe incomodar, posso usar a sua casa de banho?

Anda lá, segue em frente ali, depois do galinheiro viras à direita.

Ficou a vê-la correr pelo quintal. Menina-desajeitada, sorriu para si. Pouco depois, a rapariga voltou, agradecida.

Salvou-me, a sério. Procuro um quarto para alugar, não arrenda por acaso?

Não pensava nisso. Para quê?

Quero sair da residência, lá é só confusão, andam sempre a fumar, a beber, rapazes de um lado para o outro. Quero calma.

E quanto é que pensas pagar?

Cinquenta euros… não tenho mais.

Então entra, vá, entra em casa.

Posso só ir de novo à casa de banho, por favor?

Vai, vai.

Ao entrar, Amália perguntou-lhe o nome.

Chamo-me Guiomar respondeu, tão baixinho como um sussurro de rato.

Guiomar, então? Que fazes cá? olhou-a fixamente.

Eu… queria mesmo um quarto…

Não me mintas, miúda… porque vieste?

É que… posso ir de novo à casa de banho?

Olha que história, o que tens tu?

Não aguento, está tudo a doer…

Vai lá, menina.

Amália foi espreitar disfarçadamente.

Tens algum problema? Andas sempre na casa de banho…

Guiomar abanava a cabeça, encolhida.

Fala lá, por favor. Não tenho nada que roubar, se é isso.

Ninguém me mandou. Vim procurar… é que… Você… A senhora é Amália Pires?

Eu? Sou sim…

Não me reconheces… mãe? Sou eu, Guiomar… a tua filha.

Amália não se mexeu, sentada com as costas muito direitas. A cara endurecida pelo tempo nem sequer tremeu. Mas os olhos, de repente, brilhavam, e uma lágrima escorria pela face.

Guiomar… sussurrou. filha… Guiomarzinha…

Sim, mamã… sou eu. Nunca me deram a tua morada no lar, diziam que não era permitido, mãe… Mas a minha professora, a Dona Lurdes, ajudou-me, pediu ao registo, e lá apanhámos o teu nome e depois o endereço… e cá estou!

Amália chorava em silêncio.

Guiomar… minha menina…

Mãezinha! gritou Guiomar, atirando-se-lhe ao pescoço Procurei-te tanto, mãe! Escrevia cartas, mas riam-se, diziam que me tinhas deixado, como se eu fosse coisa perdida. Mas eu acreditava, mãe. Sempre acreditei…

Com mãos calejadas, Amália abraçou a rapariga e colou os dedos às malhas grossas da camisola que ela vestia. Ficaram ali, em silêncio, pois tudo já estava dito.

Mais tarde, lembrando os ensinamentos da avó, Amália correu de um lado para o outro, aqueceu água, fez chá de funcho, cuidou da sua filha, da sua Guiomar a razão da sua existência. Afinal, havia motivo para viver. Não estava tudo perdido.

O pensamento fugia de novo para a horta, para os animais, para um casaquinho novo para a filha. Havia algum dinheiro guardado; pensou que já não teria forças para viver muito mais como estava enganada, agora que Guiomar, a filha, voltava ao seu mundo.

***

Mãe…

Diz, filha respondeu Amália.

Mamã…

Então, que se passa, querida?

Guiomar agarrou um pastel acabado de fritar pela mãe, as faces coradas e redondas, bem vestida: Amália trazia-a como uma boneca.

Mamã… insistia ela, manhosa Ai, mãe, estou apaixonada!

Olha a novidade…

Sim! Ele chama-se Tiago, é tão bom, mãe… gostava tanto que o conhecesses…

Amália calou-se. Já acabou o tempo de só nós, pensou. A vida tira o que nos dá em felicidade.

Mãe, o que tens?

Nada, filha. Cresceste tão depressa… Mal aproveitei este tempo, perdoa… oh, Guiomar…

Mãe, não penses nisso, és a melhor mãe do mundo! Eu e o Tiago ainda te vamos dar netos, querida, não penses mais nisso. Eu procurei-te tanto… Quero-te tanto, mamã.

A apresentação correu bem. Tiago, rapaz trabalhador da terra, agradou a Amália, que pensou: Com este posso confiar a minha filha.

Tempos difíceis, havia quem mal comesse, outros alimentavam melhor os cães do que os filhos. Mas Amália, Guiomar e Tiago nunca passaram fome. Ela era exímia costureira, o velho emprego na fábrica já foi, mas no novo trabalho em cooperativa o rendimento era bom, e nem filha nem genro andavam mal vestidos.

Tiago não parava, erguera uma nova vedação, trocou as traves podres da casa com os irmãos, arranjou o velho galinheiro. A casa de Amália parecia ganhar nova vida com Guiomar ali. O coração, antes gelado de Amália, agora derretia-se todos os dias uma vontade infinda de viver, uma esperança que julgava ter perdido para sempre.

Mamã, posso dormir contigo?

Claro Amália encolhia-se para a parede, aconchegando espaço para a filha.

Mãe… Que amor é este, meu Deus, se não o de mãe? Obrigada por me teres deixado sentir isto, pensava.

Casaram-se, os jovens ficaram por ali, e Amália parecia uma papoila cheia de cor. Até no trabalho notavam que a sempre austera Amália Pires agora sorria as bochechas eram duas romãs.

Vou ser avó, sussurrava às colegas.

Que felicidade, Amália, tens uma filha que te adora.

Nasceu o neto! Martim! em homenagem à avó de Guiomar, mãe de Amália, mulher rígida, mas justa.

Nunca tive um bebé ao colo…

Quer dizer, depois de Guiomar, nunca mais, tantos anos sem este aperto no peito…, pensava Amália, segurando o pequeno, sentindo que esse sim, era o verdadeiro sentido da vida.

Martim era tudo, e era dela. Tiago meteu mãos à obra: construiu um rés-do-chão novo, abriu loja com os irmãos uma vida sossegada.

Quando chegou a notícia de uma segunda neta, Amália desdobrou-se em vestidos e fitas para a pequena Inês, a menina mais bonita da aldeia.

O riso das crianças coloria a casa. Mas ultimamente Amália sentia uma queimadura insistente no peito.

Mãe, o que tens? Onde dói?

Estou bem, filha. Vai descansar.

***

É tarde demais, não conseguimos fazer mais nada.

Doutor, não me diga isso… ela… é a minha mãe…

Compreendo. Lamento.

***

Filha… Já chega o meu tempo. Deste-me esperança e salvaste-me naquele dia. Foste tu quem me devolveu ao mundo…

Mãe, não fales assim…

Não interrompas, quero dizer-te isto… Eu não sou a tua mãe verdadeira, Guiomar. Perdoa-me…

Mãe! Nunca digas isso, és minha mãe, só minha! Nunca mais quero ouvir o contrário!

Sim, filha… No armário está um caderno, o meu diário… Desculpa, querida, amo-te muito…

E eu a ti, mamã…

***

Guiomar, devias comer…

Já vou, Tiago. Vai tu…

Guiomar ficava no quarto da mãe a ler o diário, a vida de Amália crua, torta, sofrida e alegre.

Criada por mãe dura, Antonieta Pires, o pai perdido na guerra. Teve uma juventude rebelde, apaixonou-se por gente errada, entrou por caminhos perigosos. Perdeu tudo por amor cego até a capacidade de ter filhos, de tanto sofrer com frio e fome. A casa, herdada da mãe, foi o único abrigo. Um médico disse-lhe que esperasse, talvez pudesse melhorar, pediu ajuda a Deus, foi à missa e, quando menos esperava, veio aquela alegria improvável: uma filha emprestada do destino.

Nunca imaginou encontrar tal felicidade. Guiomar tornou-se o centro do seu universo, e nunca mais sentiu que não merecia ser mãe. Perdoa-me, minha filha, por ter roubado o teu destino; esta felicidade não era minha por direito, mas vivi-a inteira. escreveu.

Mamã, minha querida mamã… espero que me ouças chorava Guiomar. Sempre soube, quase logo percebi. Quando vivi contigo, disseram-me que a Amália que procurava era Ivanilda; encontrei-a, mas ela tinha feito a sua vida, não me quis ofereceu-me dinheiro, pouco lhe importava o resto. Fugi, mãe. Recordas como adoeci então? Mas Deus juntou-nos e tu nunca deixaste de ser a minha mãe.

Que bom foi esse erro, ou nem erro foi lá em cima, alguém escolhe cada caminho. Não sei como viver sem ti agora.

Guiomar, filha…

Deixa-a chorar, Tiago, ela perdeu a mãe.

***

Avó, a avó Amália era boa?

Era sim, querida.

E era bonita?

Muito bonita, minha Inês.

E quem lhe pôs esse nome, avó?

Não sei, talvez o teu bisavô, quem sabe.

Tu deste-me o nome da tua mãe?

Dei, querida, em homenagem a ela. E o teu pai também quis. Ele adorava a avó.

Ela agora vê-me, não vê, avó?

Vê sim, amor. Está sempre a olhar por ti.

Também te amo, bisavó Amália disse a menina, pousando uma coroa de margaridas sobre a campa.

E eu a ti, querida sussurrava a brisa no choupo, e o vento levava-lhe as palavras…

Na vida, aprendemos que a felicidade muitas vezes nos chega de onde menos esperamos. E ainda que por vezes a sorte pareça emprestada, o amor verdadeiro nunca é roubado ele é sempre conquistado dia a dia, com o coração inteiro.

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A Felicidade Roubada Ana lavrava a terra no seu quintal. A primavera chegou cedo este ano — ainda e…