A Felicidade Está nos Pequenos Detalhes

Felicidade nas pequenas coisas

Hoje foi dia de reencontro dos antigos colegas de curso do Instituto Superior de Artes no famoso restaurante Solar da Sé, bem no coração de Lisboa. Já tinham passado dez anos desde a entrega dos diplomas dez anos cheios de sonhos, inseguranças, promessas, planos. E agora, cada um seguia o seu caminho, mas o entusiasmo de rever os rostos que partilharam tantos momentos era quase como o de outros tempos. Uns vieram de fora, outros traziam consigo os parceiros, alguns apareceram sós, mas traziam no olhar aquela expectativa tímida do reencontro.

No pequeno camarim reservado para os convidados, a minha melhor amiga, Carolina, ajudava-me a ultimar os últimos detalhes. Sentia-lhe os dedos ágeis ao abotoar o último botão do meu vestido azul-claro de crepe, a garantir que nada fugisse ao rigor. O vestido caía-me suave no corpo, a dançar comigo cada vez que me mexia.

Sinceramente, Mafalda, surpreendes-me com esta tua coragem comentou a Carolina, franzindo o sobrolho. Afinal de contas, não são as tuas melhores recordações de curso. Só o Tomás e as suas tentativas incansáveis de te conquistar Ele vai mesmo aparecer!

Sorri, ajeitando uma madeixa de cabelo castanho que insistia em cair-me na cara. Havia brilho no meu olhar tinha verdadeira vontade de reencontrar aqueles anos, perceber como todos mudámos, por onde foram as nossas vidas. E o Tomás? Tantos anos depois certamente deixara para trás a fase das paixões adolescentes. Provavelmente seria até estranho para ele rever-me.

E por que não, Carolina? respondi, passando a mão pela leveza do vestido, sentindo a calma que o toque me trazia. Gostava mesmo de rever toda a gente. E olha que o Diogo bem insistiu está curioso para conhecer os meus colegas dos tempos de estudante.

A Carolina revirou, divertida, os olhos antes de ir buscar uns sapatos de salto baixo, enfeitados com pequenas pérolas. Analisou-os, pondo-se de perfil, e depois apontou-me o olhar.

O teu Diogo é mesmo um homem de ouro, não é? disse, com aquela ironia cheia de ternura. Um diamante.

Ri-me, peguei nos sapatos e calcei-os com cuidado. Bastou isso para me sentir logo uns centímetros mais confiante, pronta para o mundo.

Ele é uma pessoa boa admiti, fitando a minha amiga, sentindo-me grata. Ama-me. A sério, entende?

Então anda daí. Vamos a isto ou ainda ficamos sem ouvir as melhores histórias brincou ela.

Seguimos pelo corredor, a cumprimentar caras conhecidas que iam surgindo. No peito sentia um formigueiro nervoso já não via muitos deles desde o dia da cerimónia, e imaginava como teriam crescido: alguns agora conhecidos encenadores, outros donos das suas escolas, uns casados e com filhos, outros certamente iguais aos de antes o brincalhão sem papas na língua ou a miúda tímida sempre agarrada ao caderno de desenhos.

Ao longe, avistei de imediato outra amiga, Inês. Estava junto a uma mesa no canto, ao lado de um espelho dourado, a gesticular com entusiasmo e a sorrir abertamente. O seu vestido reluzia à luz, e só de olhar se sentia a felicidade do reencontro.

Mafalda, até que enfim! exclamou a Inês, abraçando-me com força. Preparada? Isto está uma loucura, nem sei para onde me virar!

Abrindo os braços, ficou atenta a mim como quem receia que eu desapareça. Assinalou discretamente a porta.

Vê só quem chegou

Olhei e vi Tomás. Entrou com a pose de quem já conhece o sítio, seguro, de passo descontraído. O fato escuro parecia-lhe feito à medida, realçando uma elegância que nunca o recordava ter. No pulso, um relógio caro brilhava, e ao lado caminhava uma loura altíssima, num vestido cintilante de uma marca grã-fina.

Tomás fez um olhar de reconhecimento pela sala. Quando me encontrou, por um segundo quase pareceu que o tempo abrandava vi o esboço de um sorriso, antes de se aproximar.

Mafalda disse, parando ao meu lado, com um tom tão equilibrado que apenas quem reparasse bem perceberia a tensão. Que bom ver-te.

Tomás retribuí o sorriso, sentindo dentro de mim uma mistura estranha de curiosidade e alguma reserva. Igualmente. E tu?

Ele sorriu, ajeitando quase de propósito o blazer, revelando a sigla bordada que só um olho atento reconheceria como exclusiva como se quisesse mostrar a toda a gente o corte perfeito do tecido.

Estou óptimo. Trabalho numa empresa grande, a minha mulher é modelo, temos casa no Chiado Vida conseguida disse, enfatizando aquelas palavras com um sublinhado silencioso.

A mulher loira levantou ligeiramente uma sobrancelha, olhando-me de cima a baixo com aquele olhar de quem não avalia pessoas, mas sim etiquetas.

Parece-me bem disse eu, sem ceder a provocações. Fico contente por ti.

Tomás tentou decifrar o que havia para além da minha resposta, ou curiosidade, ou desinteresse, ou apenas a reacção de sempre.

E tu? Continuas na escola de música? A voz dele tinha uma inflexão difícil de decifrar, entre a condescendência e o verdadeiro interesse.

Sim sorri, iluminando-me por dentro. É o que gosto de fazer. As crianças são fantásticas, a equipa é uma família. Montámos agora uma peça: O Quebra-Nozes. Foram meses de ensaios, a costurar figurinos, a aprender papéis. Não é fácil, mas depois, quando os vejo no palco com tanta paixão compensa tudo!

Tanta sinceridade surpreendeu Tomás, que ficou uns instantes calado.

E o teu marido Diogo, não é? perguntou, saboreando o nome de forma ligeiramente amarga. Continua treinador?

Continua. Treina miúdos na escola de desporto. Tem agora um grupo de pequenotes adoram-no, fazem tudo para lhe agradar, e ele é uma paciência com pernas! Nunca levanta a voz, mesmo quando fazem asneiras.

Disse-o com orgulho e, ao notar a surpresa nos olhos de Tomás, senti que ele nunca entenderia bem aquele tipo de realização. Falei do que tenho mais precioso, com alegria pura, sem desejo de me exibir.

Pois ele inclinou a cabeça, avaliando-me, à procura de alguma falha. Não deve ser fácil viver assim.

Senti apenas um aperto pequenino, não por me sentir inferior, mas pela sensação de estar a ser avaliada por alguém que não entende outro tipo de felicidade. Esbocei, então, aquele sorriso que sempre entendeu tornar tudo à volta mais leve.

Olha, Tomás, somos felizes disse apenas. O Diogo é a melhor pessoa que conheço. Cuida de mim, ajuda-me, apoia-me sempre. Ama-me verdadeiramente! Ouve: todos os anos, assim que aparecem os primeiros jarros, traz-me um ramo só porque sabe que adoro. Ao domingo, mesmo de rastos depois do treino, prepara pequeno-almoço panquecas, ovos mexidos, torradas E quando adoeco, fica a meu lado a ler-me ou traz chá com limão.

Tomás calou-se, desapontado pela resposta. Parecia aguardar que eu dissesse algo que lhe desse razão, mas não cedi.

Então não arrependes-te? murmurou, quase num tom de quem revela algo pessoal. Nunca pensaste que podias ter escolhido alguém melhor?

Olhei-o de frente. Não. Nunca me arrependi.

Poderia falar-lhe das noites de risos, da nossa casa minúscula cheia de calor, de todos os gestos cúmplices. Da alegria que não precisa de grandes provas, mas dos sinais do dia a dia, os pequenos rituais. Em troca, deixei-lhe o olhar firme, de quem já não duvida.

Queria dizer qualquer coisa, mas nesse instante chegou o Diogo. Simples, de camisa clara e jeans, sem vontade de impressionar ninguém. O sorriso aberto, os olhos cheios daquele brilho quente que tanto amo, mesmo depois destes anos todos.

Olá disse ele, abraçando-me suavemente pela cintura. Importam-se que a leve um bocadinho para mim?

Tomás comprimiu a mão, mas manteve-se calmo. O Diogo conduziu-me até outra mesa, junto à janela. Senti-lhe a mão quente, o gesto que me dizia estou aqui, está tudo bem.

Tomás ficou, parado, meio perdido. Um vazio meio magoado cresceu-lhe dentro, não raiva, nem inveja brilhante, mas uma espécie de dor indefinida. Olhou-nos mais uma vez: ria-me, genuína, e nos meus olhos apenas havia aquela felicidade sem hesitação, de quem está, simplesmente, feliz.

Tomás recordou-se dos seus esforços anos antes para me impressionar. Mensagens compridas, flores dispendiosas, convites para restaurantes da moda. Eu agradecia, sempre educada, mas não me entregava. A minha resposta era sempre igual: Desculpa, Tomás. O meu coração já tem dono. Ele zangava-se, achava que eu me enganava, que um treinador de crianças não tinha nada a ver com ele. Apostava que, mais cedo ou mais tarde, eu ia lamentar uma escolha tão normal, tão simples.

Agora estava ali: fato de alfaiate, mulher linda, respeito profissional, bom nível de vida. E sentia-se vazio. Uma elegância oca, tão bonita por fora, tão solitária por dentro.

Estás bem? a mulher perguntou-lhe, pousando-lhe a mão no braço, mas ele sentiu-lhe a frieza nos dedos, apenas anéis e relógios caros.

Sim murmurou, sem alma. Só estranho.

Voltou a olhar dançávamos. Ríamos da velha cumplicidade, sabíamo-nos entre olhares e gestos. Eu não precisava de provar nada a ninguém. Tinha a vida discreta que sempre quis.

Nesse instante, Tomás percebeu finalmente: não foi status que escolhi. Foi ternura. São os pequenos-almoços ao domingo, os sinais de afeto, a compreensão. E ele nunca quis acreditar que era nisso que reside a verdadeira felicidade.

*********************

A noite decorreu, trazendo ao Solar da Sé a música dos copos, das conversas despachadas, das gargalhadas. Respirava-se o passado académico: recordações de noites sem fim nos ensaios, histórias de aventuras, fotos de filhos, projetos novos, experiências pelo mundo.

Tomás tentava participar, sorria, fazia perguntas, mas era como se a alma lhe fugisse para outro lado. O olhar escapava-lhe sempre para o canto onde eu estava. Seguia-me, espreitava até os meus movimentos e, acima de tudo, a minha relação com o Diogo.

Observava-nos a dançar. Diogo sussurrava-me ao ouvido e eu ria com um riso espontâneo, cristalino, que enchia a sala de alegria. O ciúme não era só do que eu tinha, mas também do modo como acontecia sem exigências nem exibicionismos. Eu tocava-lhe no ombro, deixava-me embalar, serena e segura.

“Porque não fui eu?”, questionava, incapaz de aceitar o motivo real. Dei-lhe tudo o que podia: viagens, conforto, prestígio. Porque preferiu aquele rapaz simples?” As respostas eram muitas, mas nenhuma o convencia. A verdade era dolorosa: não são as coisas grandes que enchem os dias.

No fim, começou a despedida. Tomás ficou à porta, a observar: Diogo ajeitava-me o lenço, eu aninhava-me-lhe no ombro. Uma cumplicidade tão natural que doía ver sem esforço para agradar a terceiros. Ali estava felicidade, não porque alguém queria mostrar ao mundo, mas apenas existir assim, a dois.

Murmurava perguntas para dentro. Passava a mão pelo fato caro, consciente que nunca esse tecido lhe seria tão valioso quanto a tranquilidade do nosso amor.

Tomas, vens? a mulher chamou-o.

Hesitou. Olhou para o vidro da porta, viu-se refletido: aparência perfeita, postura tranquila, mas os olhos os olhos vazios de quem não encontrou o que buscava.

*********************

Já na rua, Lisboa adormecia sob os candeeiros. O brilho amarelado desenhava sombras e pequenos segredos pelo passeio. Eu deixava-me ir, sustentada pelo braço do Diogo, respirando Maio e o conforto de sermos dois.

Está tudo bem? perguntou ele, voz terna.

Melhor que bem sorri-lhe, olhos quentes no reflexo das lâmpadas.

Nada do que acontecera me inquietava já. A noite com os ex-colegas já era só passado. O importante era agora: a cidade tranquila, a nossa paz. O presente.

Aquele Tomás parecia que queria provar-te algo disse Diogo, em jeito de quem se preocupa mas não quer parecer ciumento.

Ele só não aguenta ver-me feliz sem ele respondi, com doçura. Não percebe que a felicidade não se mede por cargos ou euros, nem por marcas nos sapatos. Está nos pequenos gestos as conversas de manhã, os passeios, a tua atenção às minhas manias.

Diogo parou, virou-me para si, fez-me uma festa no rosto. Nunca precisei de palavras bonitas dele, bastava-me aquele toque para me lembrar onde quero estar.

Amo-te, Mafalda disse suavemente. Não importa o que os outros pensam. Importa é tu estares aqui.

Abracei-o, reconfortada pelo cheiro do seu aftershave, pelo calor do seu corpo. Tudo o resto se dissolveu: perguntas, inseguranças, mágoas. Ficámos só nós e aquele silêncio bom de quem encontrou tudo na vida, mesmo que seja pouco visto de fora

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Tomás chegou tarde ao apartamento amplo de Campo de Ourique. A casa estava silenciosa, só as luzes brancas das luminárias que ele escolhera pelo design sóbrio. Frieza. A esposa dormia já, enrolada em lençóis de algodão egípcio, a respiração regular, distante.

Foi para o escritório, acendeu apenas o candeeiro da secretária, serviu-se de um cálice de Porto, que nem chegou a tocar. Olhou para uma foto antiga, pousada entre papéis.

Era a turma do Instituto a Mafalda, no centro, descontraída, num vestido simples, o sorriso aberto a iluminar toda a gente. Ele, um pouco ao lado, já de blazer, ar esboçado. Lembrava-se bem: sempre à procura de chamar-lhe a atenção, e ela sempre à espera de outro.

Passou-lhe o dedo pela imagem. Ficou ali, nostálgico, a murmurar:

O que fiz mal?

Reviu os bilhetes caros, os gestos grandiosos, os planos que nunca a tocaram onde interessava. Tudo poderia ter resultado mas não com ela.

Não havia resposta nada na fotografia, nem no copo, nem no silêncio do apartamento bem decorado. Só o reflexo de um homem de posse, mas olhos cansados, incapazes de reencontrar a alegria da rapariga que ele perdera.

Devolveu a fotografia à secretária, sentou-se na cadeira, sem tocar no vinho. Cá fora, Lisboa continuava a acender janelas, mas nenhuma fazia parte do seu verdadeiro mundo interior.

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