A Fada

Fada

E quando eu crescer, vou ser fada!

Matilde, mas por que fada?

Porque eu quero!

Matilde saltou do colo da mãe, onde recebia felicitações pelos seus cinco anos, ajeitou a saia rodada do vestido cor-de-rosa e firmou os pezinhos no chão.

Mãe, as fadas são todas bonitas e sabidas! E conseguem tudo! Eu também vou conseguir!

Claro que vais! Leonor estendeu os braços para abraçar a filha, mas a pequena afastou-se e deu dois passinhos para o lado.

E o bolo?

Já vem! Vai brincar, minha querida, que eu chamo-te quando for altura.

Está bem!

Leonor não conseguiu evitar o sorriso ao ver os caracóis, cuidadosamente enrolados de manhã, saltarem com cada movimento da filha.

Que miúda decidida está a ficar! E tão perspicaz! Que criança nesta idade diz tão bem o que pensa? Veja-se Eu consigo tudo!

O importante é nunca lhe roubar essa confiança! comentou Mariana, a melhor amiga de Leonor. Muitos pais, ao ouvirem isto dos filhos, dão logo aquele discurso: Tens de ver as coisas como elas são, a vida não é fácil, blá, blá, blá. O que faz falta é acreditar nos miúdos. Eles conseguem mesmo. Eu que o diga! Quando a minha Carolinha entrou na aula de ballet, ninguém acreditava

Sim, sim, a tua Carolinha é um prodígio! Meninas, ajudam-me? O bolo já está pronto a ser cortado. Leonor virou-se nos saltos e foi para a cozinha.

Na casa grande, cheia de luz e com muita gente, a criançada fazia barulho do qual só uma festa de aniversário infantil é capaz. O chão já estava coberto de confetis e pedaços de balões rebentados. Alguém largara um ramo de cravos num canto, o que fez Leonor franzir o sobrolho ao passar. Aqueles cravos tinham sido enviados pela sua mãe, D. Verónica, que não falhava um aniversário da neta, mesmo tendo sempre preferido que as festas fossem na sua própria casa.

Não me siento nada à vontade na tua casa, filha. Parece sempre que vou partir alguma coisa ou sujar o que não posso. É tudo tão requintado aqui para mim

Ó mãe! Snobismo agora? protestava Leonor. Requintado é apenas aquilo que conseguimos. O António trabalha de sol a sol, e eu também. Por isso, se podemos proporcionar-nos um pouco de conforto, por que não?

Ainda assim, prefiro a minha casa.

Tudo bem, mãe. O importante é a Matilde estar bem.

D. Verónica acompanhava a neta desde o nascimento.

Não tenho tempo, mãe. dizia Leonor, enquanto pintava os olhos à pressa antes de sair para mais um dia de trabalho. Se agora parar, esquece lá tudo o que fiz nestes anos. É andar sempre em corrida. E penso sempre primeiro na Matilde e no que o futuro lhe pode trazer…

Achas que ela não precisa mais é da mãe por perto enquanto ainda é tão pequenina?

Não me faças, mãe. Sei o que faço! Quem, a não ser eu, vai tomar conta da minha filha? Quem vai cuidar dela?

E o António?

Mãe, estás a brincar? Claro, o António é pai, mas sabes como é Hoje está cá, amanhã pode já não estar. E aí?

Que ideias são essas, filha? D. Verónica ficava alarmada. Sabes de alguma coisa?

Sei lá, nunca tive tempo para me preocupar com isso. Se calhar tem, se calhar não. A gravidez, o parto Fiquei um tempo fora de jogo. Agora tenho de recuperar, mãe. Vais ajudar-me, não vais?

Claro que sim. E D. Verónica espreitava sobre o berço, olhando para a pequena. Tão miudinha Tu eras mais rechonchuda.

E que é que tem? Cresce com o tempo.

A Matilde sempre foi franzina e adoecia com frequência. As gripes sucediam-se umas às outras e D. Verónica já nem se assustava como da primeira vez, ligava direto ao seu pediatra. Leonor nunca tinha tempo para essas minudências.

Mãe, não tem febre alta. Dá-lhe qualquer coisa, telefone-me se piorar. Agora não posso, tenho reunião.

Matilde agarrava-se ao pescoço da avó com as mãozinhas quentes e aninhava-se, fungando baixinho.

Pronto, meu anjinho. Agora a avó faz-te um chá de limão, descansas um bocadinho e logo passa. Queres que te conte uma história?

Da fada?

Também pode ser.

Sim!

O livro bonito, com ilustrações cheias de cor, tinha vindo de Londres, um presente do pai na última viagem de trabalho.

Ó António, mas isto está em inglês! D. Verónica folheava.

Qual é o problema? É aprender desde cedo. Tu que foste professora muitos anos, não vais ter problema. E assim aprendem as duas.

Bem, logo se vê. Talvez comece mais cedo do que pensava a ensinar idiomas à Matilde.

Ocasiões e pequenas dores da neta preenchiam a vida da avó e sinceramente, D. Verónica dava graças. Tinha finalmente um sentido, um propósito novamente.

Os últimos dez anos, desde que Leonor terminou o curso e casou, foram um nevoeiro para D. Verónica. Mal via a filha, sempre ocupada. Farta de tentar marcar encontros e ouvir respostas secas, deixou de insistir. Tinha saudades de quando Leonor ocupava o pequeno sofá da cozinha, de pernas encolhidas a beber chá de lúcia-lima, e lhe contava tudo Leonor era o seu mundo.

Tinha sido mãe cedo, aos dezanove. O casamento apressado não resultou. Separou-se um ano depois e ficou só ela e a pequena Leonor. Depois, quando Leonor tinha dois anos, a mãe de D. Verónica adoeceu, ficou acamada e assim se passaram doze anos de sacrifício. Nunca foi bonita, pensava D. Verónica. Mas a Leonor, sim, saiu-lhe a beleza toda. Por isso fez por apoiar a filha em tudo: pô-la na escola de música, nos bailados, aprender inglês e francês. Quando Leonor terminou o liceu, D. Verónica podia dizer: Fiz o melhor que podia. Só lhe custava era a dureza da filha sempre a pôr-se em primeiro lugar, sempre sem papas na língua.

Mãe, eu preciso destes sapatos. Não posso ir à entrevista com os antigos. Tenho de estar no meu melhor.

E lá iam as economias do verão, para os sapatos da Leonor. Tanto faz, algarve fica para outra vez.

O casamento com António foi o auge de todo o investimento. D. Verónica chorou de emoção ao ver a filha entrar na sala mais bonita do Porto, de braços dados com o noivo. António nunca lhe caiu no goto, mas confiava: É o que a Leonor quer.

Mãe, este casamento não é só paixão. Há também acordo. E isso é importante.

Mas acordo de quê, filha?

De sermos parceiros. Não mexo nos bens que ele já tinha. Só tenho de dar-lhe um filho. Um rapaz.

Isso parece moderno

É o que se faz hoje em dia, mãe. O mundo muda. O que importa é que seja feliz.

Leonor entregou-se ao negócio que António montou para ela e lutou pelo filho homem que nunca chegou. E a chegada de Matilde foi uma surpresa.

E agora, essas ecografias que nunca acertam! Três vezes me disseram ser rapaz! E agora, olha Achas que tem cara de menino?

Filha, uma menina é uma bênção!

Sim, sim só não era bem o que esperava. Mas enfim

Matilde cresceu, mas Leonor andava entre médicos, laboratórios, clínicas novas como cogumelos nada. Um dia, D. Verónica sugeriu:

Se calhar, está na altura de dares mais atenção à filha que já tens

Mãe!

Matilde vai fazer cinco anos. É uma miúda extraordinária. E quem disse que só os filhos homens é que contam?

Nem houve discussão. Leonor queria Matilde em casa, menos tempo com a avó. Tinha decidido que era tempo de a filha crescer debaixo do seu teto.

Mãe, quero que continues perto dela, claro. Prefiro a avó a uma empregada qualquer. Até podias vir viver connosco! A casa é grande, sobra espaço.

Não, filha, prefiro o meu cantinho. Mas quero continuar a ser muito importante na vida da Matilde.

E quando veio a primeira febre, logo na estreia da mudança, D. Verónica mudou-se temporariamente para a casa da filha.

Aqui tens condições excelentes. E assim a menina está perto de ti.

Ela olhou em volta. Grande, espaçosa, com luz que entrava pelas janelas mas o que importava era a neta.

E Matilde, vivaz, curiosa:

Ó avó, a tua casa é mais pequena, aqui posso pedir um cão?

Querida, esta casa é da tua mãe e do teu pai. Eu só mando na minha.

Portanto, nem podes proibir?

Depende. Se quiseres entornar leite na mesa, posso callar. Agora, trazer um cão, só com autorização deles.

Matilde mirou a avó uns segundos, muito séria. Com aquele ar que só a mãe dela fazia quando decidia coisas difíceis.

Vou falar com o pai!

E assim foi. Entrou no escritório do António, sem bater:

Gostas de mim, pai?

O António ficou baralhado. Raramente estava com a filha, tudo se resumia a um aceno, olá, miúda. E agora aquela pergunta.

Claro, Matilde. Todos os pais gostam dos filhos.

Não quero todos. Quero tu.

Queres alguma coisa? Uma boneca?

Não! Quero um cão!

Um cão de brincar?

Não um cão verdadeiro. Não precisa ser muito grande. Tem é de ser meiguinho.

Bem, se escolheres, diz-me. Arranja-se.

Leonor não achou graça à ideia. Discutiram toda a noite, não sabendo que a filha escutava, sentada junto à porta.

Não é brinquedo, é uma responsabilidade. Quem cuida?

Está cá a tua mãe. Paga-se mais à empregada. Onde mora uma menina, há-de caber um cão.

E os veterinários? E as despesas?

Quantas clínicas há? Se for preciso, até abro uma. E nem precisamos de raça pega-se num que precise de casa. Leonor, ela é nossa filha. Por que não pode ter já um desejo realizado?

Porque aprender a receber tudo sem espera é mau.

Então por que não há-de ser feliz agora?

E Matilde percebeu: ia ter cão. E o resto do sermão já não era relevante.

Passaram dois dias e chegou um canito pequenino, uma bolinha de pelo que encantou Matilde. Dois meses depois, e uma semana após o aniversário, voltaram com D. Verónica para o velho apartamento da avó.

Leonor andava calada, distante. Tomava o café e ia-se, evitando conversas.

Avó, o que tem a mãe?

Não posso dizer, querida. Vais perceber a seu tempo.

Voltamos a viver contigo? Ou é só uns dias?

Infelizmente, não é por uns dias será por muito tempo.

Nem D. Verónica sabia ao certo o que se passava. Quando Leonor, poucos dias depois do aniversário de Matilde entrou no quarto da mãe, trazendo a mala:

Prepara-te, mãe. Vamos sair daqui. Ajuda-me a preparar as coisas da Matilde.

Estupefacta, D. Verónica não pediu explicações, bastou-lhe olhar os olhos da filha.

À noite, depois de pôr a neta a dormir, levou uma chávena de chá à filha.

Não perguntes, mãe. Vamos divorciar-nos.

D. Verónica calou-se, lançando um olhar para a porta, certificando-se de que Matilde não ouvia.

Ele tem outra. E um filho.

Leonor escondeu o rosto. Quando a mãe tentou consolar, percebeu que afinal a filha ria.

Pensaste que eu chorava? Não merece

Nunca percebeu bem porquê, mas o divórcio foi rápido e pacífico. Meses depois, Leonor comprou casa perto da mãe e seguiram vida nova, mais simples mas sossegada.

Matilde crescia viva e teimosa: tudo o que lhe interessava era Lei. Leonor, sempre ausente, aquiescia à filha e D. Verónica, sem força para contrariar.

Leonor, não é assim.

Ó mãe, hoje em dia temos de ser assim. É saber ver primeiro os próprios interesses.

Não concordo. Preocupa-me a Matilde.

Pois eu não. Talvez se tivesse pensado só em mim ainda estivesse com o António. Mas sacrifiquei-me, fui parva as vezes…

Parvoíce é não veres a tua filha! Ela precisa da mãe.

Tem-te a ti.

Felizmente! Mas podia ter as duas.

Leonor encolhia os ombros. Só ouve a ti.

Pois por vezes é preciso dizer não. Tu disseste?

Quero que saiba que pode conquistar o que quiser. Prefiro ser amiga do que carcereira.

D. Verónica desistiu de argumentar. Matilde fazia o seu caminho, a mãe estava sempre do seu lado, a avó amava-a acima de tudo e o resto pouco importava.

Leonor só levava Matilde às compras, incutindo-lhe prioridades: boa aparência, roupas de marca, cosmética cara.

Assim a tua pele agradece, Matilde. Não uses porcarias tirava rímel barato do estojo da filha.

Na escola, as colegas matavam-se de inveja dos batons e dos vernizes.

D. Verónica via tudo, calava e tentava que a neta fosse mais suave com o mundo, sem muito sucesso. A Matilde foi para faculdade, o mesmo curso da mãe e da avó. Fechou-se na vida de estudante, tanto que a avó soube dos seus amores pela última.

Vais casar? Com quem? a surpresa quase lhe tirava o ar.

Com o Vítor Almeida Matilde suspirava, aninhada no sofá.

Quem é ele, Matilde?

Professor. Não um dos meus, calma. Só trabalha na faculdade.

Mais tarde soube-se por Leonor: o Vítor era casado.

E tu encaras isso normalmente?!

Que me importa a esposa dele ou o filho? O que importa é a Matilde, e ela quer este homem.

Meu Deus D. Verónica sentou-se, sentindo o chão fugir-lhe dos pés.

O casamento foi triste. Os pais do Vítor não vieram. António, agora a viver em Lisboa, mandou só a chave de uma casa nova à filha. Leonor escolheu toda a mobília, nem perguntou a Matilde o que queria.

Mãe, vê só! O vestido é lindo! Quero este!

Estavam numa loja requintada, a assistente destapou o vestido.

Chama-se Fada. Sabia? É destino, Matilde! Ainda te lembras do que querias em criança?

Claro! Agora sou uma fada. Vou ter uma vida mágica!

Tudo vai correr bem murmurou Leonor, apertando o tule branco do véu.

D. Verónica, depois de algumas formalidades no registo civil, saiu cedo e apanhou um táxi.

Estou indisposta. Não quero estragar a vossa festa.

Ao afastar-se, viu Matilde sorridente com o noivo, segurando uma pomba branca pronta a largar. Por um instante, viu na neta o mesmo ar assustado da ave: pronta a voar para longe das mãos que a apertavam.

Que posso eu, Deus meu Já pouco. Dá-me força, vai fazer falta.

O casamento durou menos de um ano. Logo depois do nascimento da filha, Matilde apanhou o marido com uma colega de curso, grávida, na faculdade. Saiu em silêncio, mas bateu com a porta tão forte que fez estremecer o prédio.

O que aconteceu?

Uma desinfecção, só isso disse ela, irónica.

Ligou ao pai a pedir ajuda.

Agora vens pra casa? És mulher ou rapariguinha?

Para quê insistir, mãe? respondeu Matilde, fria.

É o que é. Leonor continuava, mas a filha já não escutava.

D. Verónica fazia as malas e cuidava da bisneta, sempre a sussurrar: Aguenta, pequenina. A tua mãe é forte.

Leonor não voltou, ficou com a casa e entregou as chaves à mãe. Cuida de ti.

Anos passaram. Num jardim antigo, uma jovem mulher passeava de mão dada com a filha que, ora corria, ora falava animadamente.

Olha o que fizemos hoje no jardim-de-infância! a pequena bisneta puxou de uma varinha enfeitada com uma estrela de papel de prata esmagada. Oh! Estragou-se

O que é, Leonorzinha?

Varinha mágica! Como as fadas! Só está um bocadinho torta.

E então? Não faz mal! Matilde endireitou a estrelinha e abanou a varinha. Vês? Funciona!

Como sabes? O que pediste?

Pedi que tudo corra bem e toda a gente fique saudável!

Mas não funciona cabisbaixa. A avó está no hospital.

Já não está, está em casa.

Sério? os olhos da menina brilharam.

Sim. Vamos, ela está à nossa espera.

Deixa, agora eu faço um desejo! balbuciou palavras e abanou a varinha.

O que desejaste?

Não digo!

Ai, assim não vale! Matilde riu-se, ajeitando os caracóis da miúda. Mas eu disse o meu.

Está bem, digo um: que estejamos sempre juntos sussurrou a pequenina.

É por causa da avó?

A miúda acenou.

Não posso prometer isso. Eu não sou fada de verdade. Mas podemos ficar juntas o mais tempo possível. E amar-nos mesmo quando estivermos separadas. Quando vais para o jardim, continuo a pensar em ti; quando vou trabalhar, tu pensas em mim, certo?

A pequena sorriu e abanou outra vez a varinha.

Agora vou desejar outra vez: que a avó fique mesmo boa, e que nunca mais nos separemos.

Matilde levantou-se, sacudiu a saia e acenou com solenidade.

É o desejo mais bonito. Vamos mostrar à avó a varinha mágica. Aposto que ela tem outro desejo para fazer. Ela sim, é uma fada verdadeira.

Mesmo?

A melhor de todas!

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