A Fada

Fada

Quando eu crescer, vou ser uma fada!

Leonor, porque uma fada?

Porque quero mesmo!

Leonor desceu dos braços da mãe, onde estava a receber os parabéns pelos cinco anos, e ajeitou a saia rodada do vestido.

Mãe, as fadas são todas lindas e inteligentes! E conseguem fazer tudo! E eu também vou conseguir!

Claro que vais! Mariana tentou abraçar a filha, mas ela afastou-se e avançou alguns passos.

E o bolo?

Já vai ser! Vai brincar com os outros meninos. Quando chegar a hora, eu chamo-te, pode ser?

Pronto!

Mariana sorriu ao ver os caracóis da filha saltarem nos ombros. Tinha passado quase meia hora a enrolá-los de manhã.

Determinada Cresce tão cheia de vontade! E tão pequenina e já sabe o que quer. Nem todos falam assim tão bem nesta idade. Vai conseguir tudo!

O importante é não lhe tirar essa fé em si, Mariana afirmou Inês, a melhor amiga dela. Há mães que, quando ouvem isto dos miúdos, respondem logo que têm de ser realistas, que é difícil. Não percebem nada. O segredo é acreditar na criança. Ela faz tudo acontecer, se acreditarmos. Digo-te eu! Quando a minha Matilde entrou na escola de dança

Sim, sim, Matilde é mesmo um encanto! Meninas, ajudam-me? Está na hora do bolo. Mariana rodopiou nos saltos e foi para a cozinha.

A casa grande e luminosa ecoava de vozes infantis. O chão, coberto de confetis coloridos e restos de balões rebentados. Um ramalhete desalinhado de tulipas tinha sido atirado a um canto; Mariana franziu o sobrolho ao passar, sabendo que era oferta da mãe, D. Beatriz, para a neta. Agora já vivia ali, mas antes era raro vir à casa da filha preferindo que Leonor ficasse lá, na sua antiga casa, quando precisava de apoio.

Não me sinto à vontade aqui, filha. Tenho sempre medo de partir ou estragar alguma coisa. Isto é tudo demasiado luxuoso para mim.

Ó mãe! Que disparate! Mariana revoltava-se Luxuoso! É só aquilo que conseguimos ter com o nosso trabalho! O Hugo trabalha muito, eu também. Não há razão para teres pudor.

Ainda assim, na minha casa sinto-me melhor.

Está bem, tu é que sabes. Só quero que a Leonor esteja bem.

Desde o nascimento de Leonor, Beatriz foi quem mais a acompanhou.

Não tenho tempo, mãe Mariana passava o batom antes de sair para o trabalho. Se agora parar, perco o que construí ao longo destes cinco anos. A vida é uma correria. Tenho empregados, responsabilidades, mas tenho de pensar primeiro no futuro da Leonor.

Para ela, será mais importante ter a mãe presente enquanto é pequena, não achas?

Não comeces! Sei o que estou a fazer. Quem mais além de mim vai cuidar dela, mãe? Quem vai assegurar-lhe as coisas?

E o Hugo?

Estás a brincar? Claro que ele ajuda, mas é homem. E se amanhã se for embora? Depois?

Que ideias, filha! Tens motivos para desconfiar?

Sei lá! Não tive tempo de pensar nisso! Pode ser… Pode não ser. Esta gravidez deixou-me de rastos. Mas agora tenho de recuperar tempo perdido, mãe, e conto contigo para isso!

Com certeza Beatriz, inclinada sobre o berço, olhava a neta. Tão pequenina Tu eras maiorzinha.

E então? Vai crescer.

Leonor era frágil, adoecia com frequência. As gripes iam e vinham, mas Beatriz já não se alarmava, só marcava consulta com a pediatra de sempre. A Mariana, sempre apressada, não tinha mesmo tempo para essas coisas.

Mãe, ela não tem febre alta! Tratem-se, tenho reunião.

Leonor agarrava-se ao pescoço da avó, choramingava baixinho.

Pronto, meu amor. Agora a avó faz-te suminho de frutos silvestres, dormes um bocadinho e logo ficas bem. Queres ouvir um conto?

Sobre uma fada?

Claro, se quiseres.

Quero, quero!

O livro com ilustrações brilhantes tinha sido lembrança do pai, que voltou de Londres.

Hugo, mas está em inglês! Beatriz folheava o livro.

E qual é o problema? Assim habitua-se à segunda língua! Deste aulas a vida inteira na universidade, não me digas que não consegues ler um livro infantil.

Eu consigo, mas é melhor começar com ela as línguas mais cedo do que pensava

Toda a dedicação de Beatriz girava agora à volta de Leonor. Encontrava nisto a razão de viver que lhe faltara durante dez anos, desde que Mariana terminou a faculdade e casou, o que tornou os encontros muito esporádicos entre mãe e filha. O tempo da escola de Mariana era recordado com saudade ela sentada na cozinha, pernas em cima do sofá, a beber chá de hortelã e a conversar sobre o dia.

Beatriz tinha sido mãe jovem, acabada de fazer 19 anos. O casamento precipitado com um colega de curso não prosperara, separaram-se passado um ano, ficando Mariana como lembrança preciosa desses tempos intensos. Logo depois, a mãe de Beatriz adoeceu e os anos seguintes foram de dificuldades; uma mãe acamada, uma filha pequena, uma vida posta em pausa.

O que não conseguiu para si, Beatriz quis para Mariana. Inscreveu-a nas aulas de ballet, na escola de música, inglês e francês. Quando Mariana terminou a escola, Beatriz acreditava que tinha moldado a filha no melhor que podia sonhar. Só a rigidez da filha a preocupava: Mariana era intransigente, colocava sempre os desejos em primeiro lugar, mesmo que isso significasse sacrifício para a família.

Mãe, preciso destes sapatos. Não posso ir à primeira entrevista com os que tenho! Tenho de estar bem, é fundamental!

Beatriz dava as economias das férias de Verão à filha. Que se lixe o Algarve, o importante era Mariana ter sucesso.

O casamento com Hugo foi o culminar de anos ao serviço da felicidade da filha. Beatriz chorou de emoção ao ver a filha entrar no salão do restaurante mais elegante de Coimbra de braço dado com o noivo. Não simpatizou logo com Hugo achou-o distante, calculista mas descansou quando Mariana lhe explicou, séria:

Este casamento é uma parceria. Temos um acordo. Não me interessa o que ele tem, só o que vamos construir juntos.

Mas é feliz assim?

Sou.

Não falaram mais do assunto. Mariana afastou-se, focada no negócio que Hugo montou para ela, e nos tratamentos para conseguir o prometido filho.

O nascimento de Leonor foi uma surpresa para Mariana.

Estas ecografias não servem de nada! protestava enquanto enrolava uma mantinha azul comprada a pensar num rapaz. Disseram-me três vezes que era rapaz! Olha para ela parece um rapaz?

Uma menina não é uma bênção?

Claro que é, mãe, mas não era o que eu esperava. E também pelo acordo

Vai correr tudo bem. Terás um filho, também.

Mas o tempo foi passando e nada mudava. Mariana andava de consulta em consulta, impaciente e frustrada.

Já fiz tudo, mãe. Tudo!

Talvez devas dar atenção à filha que já tens.

Mãe…

O que disse eu de errado? Leonor é maravilhosa. Quem disse que ser pai tem de ser só amar o filho homem? És tão inteligente! Muda o teu foco nesse acordo.

Mariana pensou no assunto. Talvez a mãe tivesse razão.

Nesse caso, Leonor deve viver em casa.

Mariana

Mãe, não insistas. Passa tempo demais contigo.

Mas está habituada a mim!

Mas não vai perder-te despachou ela, folheando um álbum de desenhos da filha. Ela até já desenha bem. Tenho de a pôr nas artes.

Anda há um ano com um professor

Não faças dramas, mãe. Claro que vais continuar a vê-la. Antes contigo do que uma estranha. Vai ter motorista e tudo. Se quiseres, vem viver connosco. Há espaço.

Não. Não é boa ideia. Mas quero manter o tempo com ela.

A vida decidiu rapidamente por elas. Logo na primeira semana após comunicarem a Leonor que ficava a tempo inteiro em casa, apanhou logo uma febre, obrigando Beatriz a mudar-se temporariamente.

Vês, mãe? Aqui tem tudo. E tu ficas descansada.

Beatriz, sentada no quarto da casa da filha, suspirava.

Sim Está aqui.

Centrada em Leonor, Beatriz ignorava o que se passava entre Mariana e Hugo. Via, claro, que as coisas não estavam bem, mas preferia não interferir. A menina andava feliz, sempre de cabelo emaranhado a correr pelas divisões.

Avó, aqui há mais espaço do que na tua casa! Agora posso ter um cão?

Não sei, amor. Essa pergunta não é para mim.

Porquê? Não é tua casa também?

Meu amor, esta é a casa dos teus pais. A minha é o meu apartamento, onde mando. Aqui, não.

Então nem podes proibir?

Dependendo do que for. Posso não te deixar partir loiça. Mas cão, não posso.

Percebi!

Leonor sentou-se no chão, absorta. Beatriz reconhecia aquele olhar igualzinho ao da filha quando decidia alguma coisa difícil.

Vou pedir ao pai!

Na mesma noite, Leonor entrou no escritório do pai, sem se deixar intimidar pela cara carrancuda.

Pai, gostas de mim?

Claro, todos os pais gostam dos filhos.

Mas eu quero que sejas tu, só tu.

Queres um brinquedo novo?

Não Leonor franzia as sobrancelhas. Quero um cão!

Um robô?

As sobrancelhas de Leonor subiram até à franja fofa:

Não, pai! Quero um cão verdadeiro!

Hugo esfregou o nariz, visivelmente cansado.

Um cão grande?

Pode não ser Só que seja bom.

Escolhe, depois dizes. Vais ter um cão.

Mariana não se conformou. Discutiram aquela noite com portas fechadas, sem saberem que Leonor estava a ouvir do lado de fora. Beatriz, com a tensão alta, deitou Leonor cedo e retirou-se, sem perceber que a neta nem pensava em dormir.

Não é um brinquedo! Um cão é uma responsabilidade!

Tens a tua mãe, a empregada paga-se mais. Se há filha, pode haver cão. Que mal faz? Passeiam, apanham ar, faz-lhes bem.

E veterinário? E despesas?

Há clínicas em toda a cidade. Ou adota um rafeiro, não se mete em despesas de exposições. Mariana, eu mal vejo a miúda, não tenho tempo. Mas isto posso dar. Porque não?

Porque é uma questão de responsabilidade, de querer tudo e já!

E isso é mau para minha filha? Se ela quer, porque não dar?

Mariana calou-se. Leonor afastou-se da porta devagar, já sabia que teria o cão.

Um spitz anão chegou passados dois dias. Quando Leonor fez anos, passada uma semana, mudaram-se para o apartamento da avó. Mariana, estranhamente silenciosa, bebia o café da manhã calada, saía cedo e evitava falar com a mãe e com a filha.

Avó, o que tem a mãe?

Não posso explicar já, filha. Mais tarde a mãe explica Beatriz acariciava a neta e o cachorrinho.

Porque estamos outra vez aqui? Só por uns dias?

Não, Leonor, vai ser por algum tempo.

Beatriz também não compreendia muito. Poucos dias depois da festa de anos, Mariana entrou no quarto:

Prepara-te, mãe. Vamos sair. Faz a mala da Leonor também, não tenho tempo.

Beatriz, sem entender, ia perguntar algo mas calou-se quando olhou nos olhos da filha.

Faço, filha… Dá-me meia hora.

Ao jantar, Betariz serviu chá à filha e tentou procura-lhe o olhar Mariana, sentada como criança, pernas cruzadas no sofá, desviava o olhar.

Não perguntes, mãe. Vamos divorciar-nos.

Beatriz assustou-se, mas a Leonor não ouvia, entretida com os desenhos animados.

Ele tem outra. E um filho

Mariana escondeu o rosto nos joelhos. Ao perceber que ela, em vez de chorar, ria, Beatriz congelou.

Pensei que estavas a chorar…

Não dou essa alegria! Pronto, mãe, não correu bem comigo.

Ninguém nunca soube exatamente porque o Hugo trocou de família. Beatriz ficou aliviada pelo processo de divórcio ter sido rápido e tranquilo. Meio ano depois, Mariana mudou-se para outro apartamento, perto da mãe, e a vida seguiu, mais apertada, menos dourada, mas ao menos previsível.

Leonor crescia teimosa e arguta. Tudo o que a interessava, era prioritário em casa. Mariana, já cansada de lutar, fazia-lhe todas as vontades, sem corrigir excessos.

Ó Mariana, assim não!

O que queres? Cresce esperta, sabe o que quer e luta pelo que sente que merece, nem que tenha de tirar da boca de outrem! Hoje em dia é preciso pensar em si.

Eu discordo. Fico assustada com a Leonor.

Eu não. Não te lembras? Se eu tivesse pensado em mim estaria com o Hugo. Preferi pensar no que ele queria

É parvoíce não estares com a tua filha! exclamava Beatriz. Ela precisa de ti mais do que tudo. Ela quer a mãe!

Tem-te a ti.

E ainda bem! Mas era melhor se tivesse também a ti!

Para quê? Ela só te ouve a ti.

Porque ainda lhe sei dizer não! E tu não lhe dizes.

Quero que saiba que tudo é possível, se quiser. Não quero ser aquela que lhe nega tudo.

Beatriz encolhia os ombros e suspirava.

E se houver um dia em que não consegue? Se não tiver o que quer?

Isso não vai acontecer, porque ela tem a noção do que quer. E não é burra, mãe. E tu vês tudo.

Vejo também sei que a vida nem sempre deixa escolher. Existem fatores externos Devias saber.

Obrigada, mãe! Mariana cortava a conversa. Eu sei isso muito bem. Não quero é que ela saiba!

Já não discutiam. Não valia a pena nem Mariana, nem Leonor lhe davam ouvidos. Leonor sabia que tinha o apoio da mãe. A avó a avó amava-a, era tudo o que precisava.

Mariana mal via a filha, tão absorvida em trabalho. Às vezes, iam juntas às compras.

Tens de estar à altura das outras. Se não és bonita como elas, compensa na roupa e maquilhagem. Aprende. Vais precisar.

Aqui, Leonor ouvia. Mariana tinha muito bom gosto. O rosto da filha pouco tinha dela, mas o corpo herdara e logo partilhavam o guarda-roupa.

Estas, talvez estas O resto não toques. Mariana passava-lhe as roupas permitidas. Tem de ser sempre com medida.

Na escola, as colegas invejavam a cosmética cara de Leonor.

A tua pele é importante, Leonor. Não uses porcarias. A pele lembra-se! Usa o melhor. Mariana deitava ao lixo a máscara de pestanas barata de Leonor. Que é isto?

Foi prenda.

Agradece mas deita fora. Aprende a gostar de ti, Leonor.

Beatriz observava, já sem tentar interferir. Quando Leonor entrou na universidade a mesma licenciatura dela e da mãe , desapareceu quase de casa, entre festas e atividades. Beatriz raramente as via. Por isso, quando soube das novas da neta, foi das últimas a saber.

Vais casar? Com quem?! as mãos tremiam, deixou cair a chávena cujos cacos voaram pela cozinha.

Duarte Martins Leonor cantou, saltando para o sofá a ver a avó apanhar os cacos. Quer dizer, só Duarte. O meu Duarte!

Quem é ele, filha?

Um professor. Não meu! Não faças olhos. Trabalha na universidade só.

É

Não é velho, avó. É jovem, bem giro.

Se era casado, Beatriz soube pela Mariana.

Como? E tu? E dizes isso assim?

O que me interessa a mulher dele, mãe? A mim interessa-me a Leonor! E ela gosta daquele homem.

Onde foi que falhei convosco? Beatriz apoiou-se à mesa, tonta. Não pode ser assim

O quê?

Separar um pai, um marido…

Ele não é coisa para se levar. Deixa-te disso. Pensa é na felicidade da neta!

Será felicidade? Beatriz bebeu a água num trago, arremessando o copo à parede.

O casamento foi discreto. Os pais de Duarte não vieram, recusaram conhecer a família. Hugo, há muito noutra cidade, mandou um apartamento como prenda. Mariana tratou do recheio, nem perguntou à filha se queria. Mas Leonor não quis saber de detalhes.

Mãe, vê este vestido! É mesmo de fada! Eu quero, eu quero! Leonor rodopiava em frente ao espelho.

Chama-se Fada.

A assistente tirava o véu da caixa e mostrava-o a Mariana. Já percebera quem escolhia ali.

É o destino, Leonor! Lembras-te que em pequena querias ser fada?

Sim! Agora posso! A minha vida vai ser um conto de fadas! Tudo vai correr bem!

Vai sim Mariana murmurava, apertando a renda do véu entre os dedos.

Beatriz resistiu corpo presente ao registo civil e depois chamou o táxi sozinha.

Não me sinto bem. Não quero ser peso na vossa festa.

Beijou a neta e saiu. De dentro do carro, olhou para trás. Leonor saltitava ao lado do marido, esperando o sinal da fotógrafa para largar o pombo branco preso nas mãos. Beatriz estremeceu. Por momento, pareceu-lhe que a neta era como aquele pombo assustado e dócil, desejoso de voar para longe das mãos que o apertavam com força.

O que posso eu fazer agora? sussurrou Beatriz, recompondo-se logo. Dá-me força, Senhor. Ainda vou precisar dela…

Leonor separou-se do marido menos de um ano depois, logo após o nascimento da filha. A nova paixão de Duarte era colega da faculdade. Grávida, Leonor foi lá tratar de papéis e deu com o marido e a amante. Sem dizer nada, afastou-se e, ao fechar a porta com estrondo, ouviu as janelas a tremer.

Que se passa?

Está cheio de baratas. respondeu secamente, apontando para a sala que deixara para trás.

Pegou nos papéis e ligou ao pai.

Arrependeste-te e queres fugir? Mariana observava-a, de braço dado ao embalo do neta.

Para quê, mãe? Ele é que fez a escolha.

Porque é teu! Porque é o correto.

Correto? E o que é correto? Talvez a primeira mulher também quisesse o que eu agora quero: pai para filha, amor E eu apareci, a fada, e acabei com o sonho dela. Agora alguém faz-me o mesmo. É isto o correto, mãe

Que disparate. Nunca pensei ver-te assim derrotada.

Não me entendes. Deixei de ser criança. Cresci A fadinha já não tem asas.

Mariana ainda disse mais qualquer coisa, mas ela já não ouviu.

Beatriz arrumava as roupas entre lágrimas, cuidando da bisneta.

Está tudo bem, meu raio de sol A tua mãe é forte. Vamos ultrapassar isto.

Mariana ficou. Beatriz deixou-lhe as chaves do apartamento para cuidar das flores, pediu-lhe, mas logo desvalorizou:

Deixa estar. Cuida é de ti.

Anos depois, no caminho do velho Jardim da Sereia, lá ia uma mulher jovem. A menina que corria à frente, por vezes de mão dada, era igual a ela a filha, sem dúvida.

Olha o que fizemos na escola hoje! a pequena revirou a mochila, puxando uma varinha com estrela de papel de prata amassado. Oh! Ficou torta

O que é isso, Nídia?

Uma varinha mágica, como a da fada. Só que amassada.

E então? Leonor endireitou a estrela e esvoaçou a varinha. Vês? Funciona! Não faz mal!

Como sabes, mãe? O que pediste?

Que tudo corresse bem e tivéssemos saúde!

Não funcionou Nídia franzia-se. A avó está no hospital.

Não está, já saiu. Vai ver quando chegares.

A sério? Nídia saltou de alegria.

A sério. Ela está à tua espera.

Deixa-me agora! Quero experimentar! arrancou a varinha à mãe e murmurou desejos.

O que pediste?

Não digo!

Não vale! Leonor riu-se, ajeitando os caracóis da filha Eu disse-te.

Pronto! Só um conto. Pedi muitos.

Então diz-me um.

Que fiquemos sempre juntas Nídia murmurou, e Leonor ajoelhou-se.

É sobre a avó?

Ela acenou, séria.

Não te posso prometer. Não sou uma fada de verdade, talvez só um bocadinho. Nem tudo depende de nós. Mas podemos ficar juntas sempre que for possível e amar-nos mesmo quando estamos longe. Quando vais para o colégio ou eu trabalho, continuamos a gostar uma da outra, não é?

Nídia concordou e sacudiu a varinha.

Então vou trocar o meu desejo, posso?

Podes tudo!

Quero que a avó fique mesmo bem e que fiquemos juntas muito tempo. Pode ser, mãe?

Leonor levantou-se, compôs a saia e acenou, séria.

Deve ser, filha. Esse é o melhor desejo. Agora vamos mostrar a varinha à avó. Aposto que ela tem também um desejo para pedir. Porque ela é a verdadeira fada.

Mesmo?

Claro! A melhor fada do mundo.

Hoje, ao rever tudo isto, percebo como as verdades se reinventam de geração em geração. As fadas existem, sim e são as mulheres resistentes da nossa família. E eu, afinal, também sou um bocadinho fada, quando acredito até ao fim nas minhas raparigas.

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