Olha, deixa-me contar-te uma que aconteceu cá em casa, parecia saída dum daqueles episódios de novela portuguesa que todos dizem que não vêem, mas sabem tudo ao pormenor.
Foi assim: a ex-mulher do Carlos, a Dona Graça, ligou cá para casa a fazer aquele pedido típico… Sabes como é, aquela voz de quem está habituada a mandar. O Carlos estava na cozinha a cortar pão, eu a mexer o meu refogado para o rancho, mas ouvi tudo ninguém consegue baixar o tom mais do que a Dona Graça. Ela a dizer que a filha, a Ritinha, tinha comprado uma viagem de última hora para o Algarve, daquelas promoções para fugir um bocadinho à rotina, e precisava que alguém ficasse com os gémeos, o Tiaguinho e o Martim, durante três dias. Ela, coitada, dizia que estava toda rota da coluna porque tinha ido à terra capinar batatas, e que o Carlos, como bom avô que é, tinha obrigação de ajudar.
A conversa era de tal modo teatral que até parecia estar a ouvir da sala de jantar. A Dona Graça insistia, “Carlos, tu nunca os vês, os rapazes precisam de um exemplo masculino, não só de miminhos de mulher. Ou será que essa tua nova mulher até o ar te corta?” Aquela expressão espetou-se-me nos ouvidos como um alfinete. Imagina, eu e o Carlos já casados há quase oito anos… Novidade nova é que não era. Só que com a Dona Graça, de tempos a tempos há sempre uma tempestade a rebentar à porta. Ora era mais uns euritos para a Ritinha, ora uma despesa qualquer de saúde, ora até para pintar o carro da filha e o Carlos lá cedia, sempre cheio de peso na consciência, como se fosse o único a ter responsabilidades depois do divórcio (quando ela já era maior de idade e tudo).
Bem, o Carlos tentava explicar que já tínhamos bilhetes para o teatro ao sábado, que íamos à quinta cuidar das flores… E a Dona Graça nem queria saber, “Rafaela, fala lá com ele, são só três dias. Os rapazes são netos DELE!” Imagina, nem se dignava a perguntar se eu podia, já dava como certo.
Cheguei ao ponto de largar a colher, desligar o fogão e olhar mesmo para o Carlos. E ele, aflito, todo a tentar salvar a situação, “Rafaela, ela faz parecer que sou um monstro, mas são só as crianças, coitados…”. Eu até simpatizo com os miúdos, mas sejamos honestos: nunca me chamam pelo nome, aprendem a tratar-me por “aquela senhora”, e cada vez que cá vêm deixam a sala como se tivesse passado um furacão porque a mãe acha que pôr regras é traumático.
E já sabia como ia ser: o Carlos aguentava bem uma ou duas horas, depois caía-lhe a tensão e deitava-se dez minutos, ficando o resto do tempo lá para mim com dois meninos a saltar pelo sofá, a pedir desenhos animados, a espalhar bolachas e a nem ouvirem o meu “não pode”, porque a avó Graça já tinha ensinado que aqui as permissões todas vêm do avô.
Por isso, naquele dia respirei fundo e disse “não”. Sério, disse-lhe com toda a calma deste mundo: “Carlos, não vamos ficar com eles desta vez. Não vou alterar os meus planos, nem devolver bilhetes, nem passar três dias a cozinhar para crianças que depois dizem que o meu caldo verde parece cheirar mal… A Ritinha que se arranje, é adulta, tem marido, tem sogra, pode contratar uma ama. Não pode estar sempre a usar-nos como solução mágica.”
O Carlos ficou bloqueado. Acho que foi a primeira vez em todos os anos juntos que o pus assim entre a espada e a parede. E tens de ver a cara dele! Ele lá tentou aquela desculpa do costume Pronto, Rafa, é só desta vez, eu prometo… Mas eu, desta vez, bati o pé a sério. Disse-lhe que não era minha obrigação, que limpava a casa, fazia comida e tudo o que envolvia os netos e nunca ninguém me pedia autorização para tomar conta da minha vida.
No sábado, veio aquela tensão no ar, cada um de nós na sua sintonia. Eu vesti o meu vestido de linho, pus uns pós na cara e preparei uma malinha, como quem diz “hoje vou cuidar de mim!”. O Carlos estava num oito, à espera dos netos, sem saber o que fazer. Quando tocam à campainha, a Ritinha despeja-lhes as mochilas e baseia-se “Pai, dá-lhes batatas fritas, tablet carregado, qualquer coisa.” E vai-se embora.
E não é que a Dona Graça estava no corredor, toda arranjada? Veio fiscalizar pessoalmente, como quem veio supervisionar os escravos na lavoura. Lança logo recomendações: “O Tiago não pode comer laranja, o Martim não come cebola, não quero telefones mais de uma hora!” e tudo naquele tom arrogante. Olhei-a, arrumei o cabelo, peguei na carteira e disse: “Muito obrigada pelas dicas, Dona Graça. Fale disso é com o Carlos, porque hoje quem trata dos netos é ele. Eu tenho planos, volto mais logo… ou amanhã, logo se vê.”
A mulher mirrou, semicerrando os olhos: “Tu não podes abandonar dois meninos! São netos do teu marido, tens obrigação…” Ao que lhe respondi sem levantar a voz: “A obrigação tenho com quem me faz promessas. Nunca prometi tomar conta de netos alheios, nem me candidatei a ama gratuita. Virou-se logo para o Carlos: “Então não fazes nada? És homem ou és o quê? Manda nela!”
Foi aí que o Carlos lá ganhou coragem para admitir: “A Rafaela avisou que tinha planos, achei que conseguia, mas se calhar não dou conta sozinho”. A Dona Graça desata a dizer que ele vai ficar logo de cama, que ninguém trata dos meninos, e que eu sou uma irresponsável, que a família está em apuros e nem quero saber.
E então olhei-lhe de frente e disse-lhe, baixinho mas bem firme: “Dona Graça, para si família pode ser toda uma aldeia, mas a minha família é só eu e o Carlos. Não estou aqui para limpar problemas que são dos outros. Já me chega aturar os seus pedidos a desoras, as críticas pelas costas e servir de depósito para os seus dilemas. O meu papel de criada acabou.”
A mulher ficou lívida. “És uma egoísta!”, atirou-me. Eu dei-lhe de ombros e saí. Disse ao Carlos: “Tens as chaves, se precisares liga. Eu volto quando isto acalmar.
Passei o dia em Lisboa, fui à exposição no CCB, bebi um café com pastel de nata na Brasileira, sentei-me no jardim da Estrela a ler o meu livro parecia noutro mundo, sem buzinas nem birras nem dramas familiares. Só liguei o telefone depois do teatro, e lá tinha doze chamadas do Carlos, e uma mensagem só: A tua amiga Graça veio buscar os meninos a bufar, eu fiquei. Desculpa-me.
Cheguei a casa e estava em silêncio, tudo limpo. O Carlos estava sentado com uma cara entre cansado e aliviado. Disse-me logo que a Dona Graça tinha feito aquele escândalo habitual, mas acabou por levar os gémeos a ranger os dentes; a Ritinha acabou por conseguir uma ama no Algarve para os levar, e estava tudo resolvido. E sabes o melhor? O Carlos pela primeira vez não só não cedeu como ainda lhe respondeu à letra que eu era a esposa, que a nossa vida era agora outra coisa, que já não havia cheques nem favores grátis por tudo e por nada.
No final, não houve desgraça nenhuma. No domingo, a Dona Graça ligou a pedir dinheiro para os remédios. O Carlos sorrindo respondeu-lhe que o orçamento já estava fechado, que vinham aí obras na casa e até andávamos a ver casacos novos para mim e que desculpasse mas não dava para tudo! Confirma-se, ninguém morreu, o mundo continuou a girar. Até parece, querida, que o céu agora na nossa casa ficou mais leve e azul.
Desde então, as visitas dos netos passaram só quando dava mesmo jeito. O Carlos vai buscá-los, leva-os ao jardim, vai ao Oceanário, depois volta e entrega tudo tratado, tudo combinado, e nem mais uma confusão. Eu, finalmente, sinto que tenho o meu canto tranquilo, o meu tempo e o meu espaço respeitado.
Ainda me rio quando me lembro daquela personagem da Graça a chamar-me má e a garantir que ia contar à vizinhança toda olha, que conte! Importa-se lá o que pensa o mundo, desde que a nossa casa esteja em paz.
Olha, se alguém está a passar por uma destas, acredita: às vezes o segredo é só aprender a dizer não sem gritar, só com firmeza. Vale ouro. E no fim, toda a gente acaba por te respeitar até mais.
Diz-me, já te viste metida numa destas? O que farias tu se fosses eu?







