A Esposa Invisível
Lurdes! ouvi um grito animado, e a amiga, sacudindo as gotas do seu casaco vermelho vivo, sentou-se com um suspiro na cadeira em frente. Desculpa, o trânsito em Lisboa está um caos. Já pediste alguma coisa?
Só pedi um café respondi, tentando sorrir. Estava à tua espera.
A Joana pousou o casaco, fitou-me dos pés à cabeça e soltou um assobio.
Ó mulher, até já custa olhar para ti! Veste-se ao menos de cor, Lurdes. Só cinzento? Camisola cinzenta, calças cinzentas. Estás deprimida ou focada em te camuflar?
É confortável encolhi os ombros. Já tenho cinquenta e dois, Joana. A vaidade não me diz tanto agora.
Pois, pois Joana pediu um galão e um pastel de nata com um gesto habituado. E o teu António? Já foi outra vez à pesca?
Assenti, espreitando pela janela a chuva que ensopava os eléctricos.
Saiu sexta ao final do dia. Só volta no domingo, depois do almoço. Como sempre.
Como sempre repetiu ela, com uma voz brincalhona. E tu, nessa rotina: casa, televisão, a dar voltas às meias do homem Diz-me lá, há quanto tempo o António não te convida para nada? Restaurante, teatro, cinema? Vá, faz força à memória!
Senti um rubor subir-me ao rosto.
Na verdade fomos à casa de campo em julho. Juntos.
A casa de campo! Joana soltou uma gargalhada sonora. Onde tu capinaste a horta e ele arranjou o telhado. Uma paixão, não haja dúvida. Lurdes, o tempo está a passar. Já não somos raparigas, mas também não somos velhas. E tu estás a esconder-te do que te resta da vida.
Não digas disparates dei um gole no café, amargo como os pensamentos. Temos um casamento normal. Vinte e oito anos juntos. Isso não conta?
Vinte e oito anos de costume cortou ela. Olha para ti: tornaste-te transparente. Para o António és como a máquina de lavar ou o banco da cozinha. Está ali, funciona, pronto. Quando foi a última vez que ele te disse algo bonito? Ou perguntou como te sentias?
Quis contestar, mas as palavras engasgaram-se-me. Era verdade: as nossas noites passavam em silêncio. O António lia no tablet sobre iscos de pesca, eu fazia crochet ou via novelas. Às vezes ele perguntava o que era o jantar, eu lembrava-lhe das contas a pagar. E pronto, era isto.
Mexi contigo, não foi? Joana inclinou-se na minha direção, os olhos a brilhar. Olha, conheci um fotógrafo, chama-se Rafael. Interessante, sabe conversar e ouvir. No sábado abre uma exposição dele na galeria da Calçada da Estrela. Vais comigo? Precisas de sair um bocadinho de casa.
Joana, não sei se
Não há cá desculpas cortou. Vais arejar ideias, vestir-te de forma decente, eu ajudo-te. Vais ver como faz diferença sermos vistas, sermos gente, não só donas de casa.
Suspirei. Ninguém vencia a Joana. E a verdade é que a ideia de sair de ver pessoas, de ser vista parecia menos absurda do que eu queria admitir. A verdade é que, em casa, tudo era demasiado vazio.
***
Naquele sábado, preparei-me como não fazia há meses. Joana trouxe-me um vestido bordô, discreto mas elegante, com um cinto fininho. Maquilhei-me um pouco e arranjei o cabelo com algum cuidado.
Olha para ti! disse baixinho ao espelho. E eu que já me imaginava acabada
Acabada quê? Joana soltou um risinho triunfante. Ainda tens muito para dar, rapariga! Só tens de te lembrar.
A galeria era pequena, acolhedora, paredes brancas, tetos altos. Fotografias a preto e branco: velhos bairros de Lisboa, rostos desconhecidos, estações abandonadas. Uns trinta visitantes, copos de vinho na mão.
Joana levou-me direta ao fotógrafo, um homem alto, cabelo grisalho, olhar atento.
Rafael, esta é a minha melhor amiga, Lurdes. Lurdes, este é o Rafael, o autor desta maravilha toda.
Ele fitou-me, olhos cinzentos, sorriso sereno, uns vincos simpáticos no rosto. Estendeu-me a mão.
Muito prazer. Espero que goste.
Não percebo grande coisa de fotografia admiti, ao cumprimentá-lo; a mão dele era firme e quente.
Não é preciso perceber, importa sentir sorriu ele. Venha, mostro-lhe a minha fotografia favorita.
Levou-me a um canto. Diante de nós estava uma mulher idosa à janela, a luz a esculpir as rugas como linhas de vida; uns olhos que olhavam longe, muito além da lente.
É a minha vizinha aqui do bairro. Tem oitenta e três anos. Fotografei-a há perto de dois anos. Contou-me sobre a infância, os tempos de guerra, perdeu o marido, criou três filhos sozinha. O impressionante? Nunca a ouvi lamentar-se. Só uma tristeza digna, sem autocomiseração.
Olhei a fotografia, sentindo algo apertar no peito.
É muito bonita, esta mulher murmurei.
Há muitos tipos de beleza concordou Rafael. Jovialidade, pele lisa, isso passa. O que fica é o que se sofreu e, apesar disso, permanece-se inteiro. E voltou-se para mim, observando-me com calma. Também tem essa tristeza nos olhos. Um silêncio cheio de qualquer coisa que nunca diz.
Embaraçada, desvieio olhar. Ninguém me observava assim há anos. O António olhava mas já não via. Aquele estranho conseguia ver mesmo.
É só cansaço, talvez.
Cansada de quê? perguntou ele, numa voz simples, próxima.
Quis rir, inventar uma desculpa, mas de repente saiu-me tudo:
Da rotina. Dias iguais atrás de dias iguais. Levantar, tomar café, tarefas, casa. O António vai trabalhar ou pesca. Os filhos cresceram, saíram. E eu ali, na sala, a pensar: onde está a rapariga que queria viajar, que sonhava alto?
Parei, envergonhada da minha honestidade.
Desculpe, nem sei o que me deu.
Não peça desculpa disse Rafael, tocando-me de leve no braço, gesto calmo e compreensivo. Isso chama-se sinceridade. Sabe, tenho um pequeno grupo: todas as quartas encontramos-nos, falamos sobre fotografia, lemos, às vezes vamos sair para pintar ou fotografar fora. Venha na próxima semana, vai gostar. Prometo.
Quis recusar, dizer que não podia tantos compromissos, não era uma mulher livre Mas ouvi a minha voz responder:
Vou sim.
***
No domingo, o António voltou, cheiro a rio e fumo da fogueira. Recebi-o à porta.
Que tal correu?
Uns quantos robalos respondeu ele, largando o saco na cozinha. Correu bem. E tu? Tudo bem?
Tudo, sim. Fui a uma exposição com a Joana.
Ah, está bem disse ele, mais focado no frigorífico, à procura de chouriço. Fazes bem em sair. Ficas demasiado fechada em casa.
O tom era ausente, os olhos já noutra coisa. Um pequeno incêndio irrompeu em mim.
António, que achas de irmos juntos a algum lado? Sei lá jantar fora, teatro?
Ele olhou-me, surpreendido.
Para quê? Isso é caro. Além disso, estou cansado da viagem. Fica para outra altura, está bem?
Outra altura, sempre o depois. Acenei, saí da cozinha. Mandei mensagem à Joana: Manda-me a morada do clube. Vou na quarta.
***
O clube reunia-se numa cave remodelada, cheia de sofás, estantes, máquinas fotográficas. Uns quinze presentes, quase todos com mais de quarenta. Rafael recebeu-me à porta.
Que bom que veio disse, acolhedor. Sente-se onde quiser.
A noite passou num sopro. Discutíamos fotógrafos franceses, depois leram-se poemas do Pessoa, depois a conversa derivou para a vida. Eu mantive-me em silêncio, mas nunca me senti tão bem-vinda. Ninguém ali queria saber de contas ou de jantar. Vi, pela primeira vez em muito tempo, que ainda existia em mim algo além de dona de casa.
No final, Rafael acompanhou-me à paragem do elétrico.
Gostou?
Muito. Nem imaginava. Parece outro mundo.
E é outro mundo, Lurdes. Sabe eu olho para si e vejo alguém que vive para os outros há demasiado tempo: marido, filhos, casa. Quando foi a última vez que fez alguma coisa só para si?
Tentei lembrar-me, mas não consegui.
É essa a armadilha desta idade continuou ele. A certa altura, já não sabemos quem somos. Mas nunca é tarde para descobrir.
As palavras dele aqueceram o meu coração cansado. Subitamente parou.
E que tal uma escapadela no sábado? Conheço uma quinta velha, tem uma luz fantástica para fotografias de outono. Vem comigo? Prometo que vale a pena.
Fiquei hesitante. O António, como sempre, iria pescar. Eu ficaria sozinha. Como sempre.
Não sei bem se
Não é nada de mais tranquilizou, com um sorriso tímido. Só um passeio, respirar, viver.
Está bem disse, quase sussurrando.
Encontramo-nos em Santa Apolónia, às dez. Leve roupa quente.
Segui para casa com o coração palpitante, como se voltasse a ter vinte anos.
***
Na sexta à noite, como sempre, António preparava as tralhas da pesca.
Volto domingo ao almoço anunciou ao apertar o fecho da mochila. Se precisares, liga.
Ok observei. António posso ir contigo, desta vez?
Ele espantou-se.
Para quê? Tu detestas pesca: lembras-te do frio, das picadas dos mosquitos
Só queria estar contigo murmurei.
Ó Lurdes, estamos sempre juntos! Aproveita, descansa, vê as tuas novelas.
Deu-me um beijo rápido na face e saiu. Fiquei, imóvel, vendo a porta a fechar-se.
Estamos sempre juntos, ecoou-me. Éramos mesmo juntos? Ou só presentes?
No sábado, vesti jeans, camisola quente, casaco. Fitando-me no espelho, quase não me reconheci. Parecia mais viva, mais leve.
É só um passeio, repeti. Com um novo amigo. Não é crime.
Rafael aguardava-me, dois cafés nas mãos.
Pronta para a aventura?
Fomos no carro antigo dele, música calma, histórias de viagens. Fui ouvindo, rindo, sentindo uma leveza quase esquecida.
A quinta era um lugar quase abandonado, mas magnífico: colunas, jardim despido, lago escuro. Rafael fotografou, eu vagueei, apanhando folhas douradas.
Fique ali, junto à coluna, olhe para longe. Isso disparou algumas vezes, depois mostrou-me o resultado no visor.
Vê? Tem uma beleza profunda. A tristeza que há em si dá-lhe uma luminosidade própria.
Olhei a fotografia: uma mulher desconhecida, cabelo ao vento, olhar sonhador. Era eu aquilo?
O dia passou, e acabámos num café de aldeia, a comer bolinhos e falar cada vez mais intimamente.
Casada há muito? perguntou ele.
Vinte e oito anos.
E feliz?
Calei-me. O que é ser feliz? Rotina? Segurança? Não sabia responder.
Sinto que ando a dormir acordada. Tenho tudo, mas falta-me esse fogo de estar viva.
Falta-lhe paixão sugeriu Rafael. Não ser um utensílio na vida dos outros, mas uma protagonista da sua própria história.
Pousou a mão por cima da minha.
Lurdes, é uma mulher extraordinária. Merece ser feliz. Felicidade de verdade.
Fiquei a olhar para as nossas mãos, de coração aos saltos. Devia retirá-la? Levantar-me e ir-me embora? Mas não consegui nem queria.
***
As semanas seguintes passaram num ritmo vertiginoso. Encontros com Rafael: clube, exposições, passeios. Ele dava-me atenção, pequenos elogios, conversas profundas tudo o que o António já não oferecia.
Com António, tudo igual: trabalho, pesca, notícias. Os nossos diálogos tornaram-se simples monosílabos.
Compraste azeite?
Comprei.
Ótimo. Onde estão as minhas meias?
Na gaveta do costume.
Mais nada. Rafael, pelo contrário, queria saber sempre como me sentia. E eu, quase sem me dar conta, ia florescendo com ele.
Joana, claro, percebeu logo.
Então, apaixonada? riu quando nos encontramos na Café das Amendoeiras.
Não digas isso corando. Só amizade.
Pois sim, amizade Mas olha, só te digo: mereces. Vê-se que brilhas. Já não te via assim há décadas.
Mas sou casada murmurei.
E então? O António nem dá por ti. Porque não hás-de viver para ti também?
As palavras dela entravam fundo: Eu só quero viver. Só quero um pouco de alegria.
A viragem foi em novembro. Rafael convidou-me para um festival de fotografia em Évora.
Dormimos lá, reservo dois quartos. Vai ser giro.
Precisei agarrar-me a esse detalhe dois quartos.
Ao António disse que ia com a Joana ver lojas a Setúbal.
Não gastes muito murmurou sem tirar os olhos do noticiário.
Na pousada, Rafael cumpriu a promessa dos dois quartos. Andei o dia todo de exposição em exposição. Jantámos vinho e falámos sobre sonhos, sobre aproveitar a vida. No fim, ao despedirmo-nos à porta do quarto:
Lurdes, já conheci muitas mulheres. Mas há em si qualquer coisa única: uma tristeza limpa, uma profundidade que me faz querer tudo de si, que desapareça essa dor.
Aproximou-se de mim, pegou na minha mão.
Não quero pressionar. Só quero que saiba: é realmente importante para mim.
Fiquei tonta: do vinho, das palavras, do olhar longo e quente.
Na cama, tentei dormir, mas era impossível. Estou casada. Tenho marido há vinte e oito anos. Não posso fazer isto, pensei.
Mas será traição, quando o outro há muito deixou de ver quem sou?
Às duas da manhã levantei-me e fui bater-lhe à porta.
Ele abriu de imediato.
Lurdes
Entrei.
***
O dia seguinte nasceu cinzento uma dor de cabeça que não vinha do vinho. O mesmo quarto, um homem ao meu lado. Era eu aquilo?
Vesti-me em silêncio, regressei ao meu quarto e sentei-me na cama, zonza.
O que fiz eu? Que fiz eu?
Na viagem de regresso, Rafael foi terno, dizendo palavras doces, segurando-me a mão. O remorso começava a perder espaço para uma nova sensação: estranha, mas doce.
Sinto-me viva, pensava. Pela primeira vez em muitos anos.
Chegada a casa, António recebeu-me como sempre.
Trouxeste muita coisa?
Só uma ou outra peça, nada especial.
Fui pescar enguias. Tenho fome, que é o jantar?
O mundo voltou ao normal. Durante o dia, era esposa, fazia o que sempre fizera. À noite, escrevia a Rafael, encontrávamo-nos secretamente. Ele mostrava-me novas ruas, dava-me livros, lia-me poesia.
Com António, era só logística.
Temos de ver a caldeira da casa no campo.
Depois da primavera.
Pronto.
Silêncio longo.
Joana exultava.
Estás a viver, finalmente. Era o que te faltava.
Eu tentava justificar-me a mim mesma: O António é que se afastou primeiro. Eu também mereço alegria.
Mas, à noite, deitada ao lado dele, a dúvida e o vazio despedaçavam-me.
***
Chegou dezembro com frio e chuva incessantes. Cada semana encontrava-me mais em segredo com Rafael dizia ao António que ia a Workshops discutíveis.
Ele assentia, alheado.
Rafael era fascinante, mas eu começava a perceber que talvez não me dissesse tudo. Os gestos pareciam ensaiados, as palavras belas mas repetidas. Eu sabia que já não podia recuar.
A meio do mês, aconteceu o inevitável.
Fui à farmácia comprar o xarope do António. Na caixa, caiu-me da mala uma caixa minúscula o perfume Noite de Lisboa, oferta recente do Rafael.
Nem reparei. Só dei conta à noite, quando o António entrou mais cedo, larga a caixinha em cima da mesa da cozinha.
Isto é teu?
Virei-me e vi, de repente, que tudo ia ruir.
É meu Encontrei na rua.
Na rua, pois Perfume daqueles, caro. Na rua.
Cheirou. O olhar dele era estranho.
Lurdes, não sou parvo. Achas que não reparei? Estás diferente. Estás sempre ausente, faltas a casa. Já nem me olhas nos olhos.
Fiquei, colada ao balcão.
António, eu
Quem é? interrompeu. Quem?
Ninguém é só um amigo.
Não me mintas! cerrou os punhos. Traíste-me, não foi?
O silêncio caiu pesado. Percebi-lhe a transformação no rosto.
Sim António, desculpa. Não era intenção
Não era mas aconteceu, já vi.
Virou-me costas.
Espera, António Fica, deixa-me explicar
Explicar o quê? voltou-se, dor a inundar-lhe o olhar. Que fui pouco atento? Que a culpa é minha? Pode ser. Talvez tenha vivido demasiado do meu mundo. Mas eu, Lurdes, nunca te traí. Porque te amei. E tu destruíste tudo.
Por favor, não vás Podemos tentar, por favor?
Não posso cá estar. Vou para casa do Manel. Preciso de pensar.
Fez a mala num instante. Segui-o com o olhar vazio.
E tu não me deixaste já, Lurdes? Quando preferiste outro?
Saiu. Não bateu a porta. E, no vazio que ficou, não era só silêncio era ausência.
***
Andei perdida pela casa, telefonei, mandei mensagens: Desculpa. Volta. Nenhuma resposta.
Liguei a Rafael.
O António descobriu tudo, foi-se embora. Que faço eu?
A voz de Rafael era compassiva.
Que pena, Lurdes. Encontremo-nos para conversar? Apoio-te no que precisar.
Encontrámo-nos na sua pequena sala estúdio. Chorei, desabafei, senti o seu abraço e consolo.
Vai correr tudo bem dizia ele. Agora tens a oportunidade de seres livre, de refazeres a tua vida.
Nova vida? olhei-o aflita. Qual vida?
Ora és livre. Faz o que te apetecer: viajar, criar, ser tu mesma.
E tu? Estás comigo? Podemos estar juntos?
Rafael hesitou, coçou a cabeça.
Ó Lurdes, eu não sou de me prender, já te disse. Vivo o momento. Ofereci-te bons momentos, não é suficiente?
Olhei-o, compreendendo tudo. Palavras belas, mas para muitas, talvez. Eu fora mais uma.
Era só passatempo?
Não digas isso, não era só isso. Foste importante, sim. Mas não sou homem de construir vida a dois, nunca fui.
Levantei-me, voz estranhamente serena.
Tens razão. Senti-me viva e agora arruinada. Por culpa minha.
Saí, nevava. As lágrimas misturavam-se com o frio cortante.
***
Em casa, no silêncio régio, liguei à Joana:
Preciso de falar contigo.
Encontrámo-nos no Café das Amendoeiras, onde tudo começara. Quando terminei o relato, ela sorveu o galão.
Ficou a faltar emoção, não ficou?
Olhei-a incrédula.
A minha vida desmoronada e tu
Ó Lurdes, cada um faz as suas escolhas. Eu apresentei, o resto foste tu. Também merecias mais!
Foste tu que me instigaste sempre: O António já não te liga, vive para ti.
E não era verdade? Se calhar agora ele percebe o que perdeu, ou se calhar não. A vida não é um conto.
Levantei-me.
Sempre pensei que eras minha amiga. Hoje percebo: estavas invejosa da minha rotina. Querias que ficasse como tu: sempre à procura, sempre sozinha.
Não dramatizes Joana revirou os olhos.
Adeus, Joana despedi-me, saindo.
***
Passou uma semana. António não voltou. Liguei, escrevi: Dá-me uma oportunidade. Só respondeu: Preciso de tempo.
Fiquei sozinha num T3 vazio. As memórias saltavam de uma ponta à outra da casa: o António a arranjar a torneira, a trazer chá, a plantar a macieira no quintal. Pequenas coisas banais que dariam tudo para ter de volta.
Na véspera de Ano Novo, fui bater à porta do Manel, onde António estava.
Só cinco minutos.
O Manel foi avisar, voltou, trazendo António.
Parecia um homem cansado, mais velho.
O que queres, Lurdes?
Só pedir perdão, António. Fui parva, louca. Ele era ilusão. Tu eras és tudo. Dá-me outra oportunidade.
Não sei, Lurdes. Dói muito. Olho para ti e vejo-te com ele. Não sei se algum dia isto me vai passar.
Se calhar com o tempo
Talvez ou talvez não. Ainda não sei perdoar.
E eu? Destruí tudo. Não sei quem sou.
Ficámos, sem saber, muito tempo calados. Duas pessoas separadas pela própria história.
Tenho de ir rematou ele.
Saiu. Fiquei à porta, embrulhada na minha solidão.
Não havia volta.
***
Passei o Ano Novo sozinha a televisão ligada, champanhe no copo.
À nova vida murmurei. Como será?
Logo em janeiro, Joana ligou:
Lurdes, não fiques a carpir mágoas. Anda comigo à aula de ioga de um amigo meu, vais gostar. Vê se animas um bocado.
Segurei o telefone em silêncio.
Lurdes, ouves-me? Vens?
Oiço disse baixinho.
Então, o nosso café do costume?
Fechei os olhos, sentindo o círculo a querer recomeçar.
Não, Joana. Não posso.
Não podes?
Não.
Engoli o desculpa e desliguei.
Dias depois, voltei sozinha ao “Café das Amendoeiras”. Pedi um café, olhei a rua: chuva, gente apressada.
Entrou Joana, sentou-se à minha frente.
Aqui estás! Então, o tal professor de ioga é mesmo interessante. Acho que devias conhecer.
Olhei-a, reparei na energia inquieta e, pela primeira vez, só vi solidão. Não era só minha.
Então, que dizes? Vais conhecê-lo? insistiu Joana.
Olhei-a longamente. E naquele silêncio, doía tudo: as perdas, o erro, a dor de procurar resposta nos outros. A consciência amarga de que destruí o que tinha de mais precioso por um sonho fugaz.
Dizes alguma coisa? apressou-se Joana.
Fitei-a. E compreendi que, finalmente, já não tinha resposta para dar. Nem à Joana. Nem ao mundo. Só ao tempo, e a mim mesma.







