A Esposa Ideal: O Segredo para a Harmonia no Lar Português

Esposa Prática

Olívia, estás a ouvir-me? a voz do Eduardo soava calma, quase burocrática, como se apenas estivesse a anunciar que acabaram-se os pastéis de nata.

Olívia estava encostada à janela, a olhar para o pátio. Lá crescia uma oliveira antiga, que plantara vinte e três anos antes, quando se mudaram para aquela casa. A oliveira cresceu, ficou robusta, com tronco largo e folhas seguras. Não sabia bem porquê, mas pensou nisso precisamente naquele momento.

Estou, sim respondeu ela.

Quero que percebas uma coisa, percebes? Isto não é nenhuma tragédia. Só aconteceu.

Ela virou-se. Eduardo estava sentado à mesa, mãos cruzadas à frente como se estivesse numa negociação qualquer. Tinha sessenta e um anos. Forte, sempre de roupa impecável, com aquele porte de homem a quem o dinheiro há muito deixou de incomodar. Vinte e seis anos a olhar para esta cara. Conhecia-lhe o franzir de sobrolho antes das conversas pesadas, o dedilhar nervoso dos dedos na mesa. Hoje nem isso fazia. Estranho.

Só aconteceu ecoou ela. É só isso?

Olívia, poupa-me.

Poupar? Como assim?

Ele levantou-se. Passeou-se pela cozinha. Era espaçosa, luminosa, com móveis italianos que escolheram juntos oito anos antes. Olívia insistira no bege, mas Eduardo quis branco. Acabou por ceder. Cedia tantas vezes.

Não te devo explicações disse-lhe. Mas explico. Porque te respeito.

Respeitas.

Sim. Tivemos uma boa vida. Temos tudo o que precisamos. Os nossos filhos já cresceram. Eu não quero confusões.

Olívia sentiu um peso no peito. Não doía. Era quase como um bloqueio de quem percebe algo gigante, mas ainda não teve tempo de digerir.

Vais embora disse ela. Não perguntou. Disse apenas.

Vou. Por uns tempos. Preciso de espaço.

Espaço repetiu ela, sem querer, reparando que era a terceira vez que repetia uma palavra dele, como se transferi-la a tornasse mais fácil de aceitar.

Eduardo aproximou-se, quis pegar-lhe na mão. Ela recuou, apenas um passo discreto. Mas ele percebeu.

Não fiques chateada.

Não estou chateada.

Olívia.

Não estou, Edu. Estou só a pensar.

Ele ficou ao lado dela mais um pouco, fez um aceno de cabeça e saiu. Ela ouviu-o no quarto, portas de armário a fechar, malas a serem feitas não tudo, só um bocado. Por uns tempos, dissera ele. Olívia ficou a olhar para a oliveira. Os pardais já andavam a depenar as azeitonas dizia a mãe que isso era sinal de inverno cedo. Sete anos que a mãe partira. Por vezes ainda se apanhava no impulso de lhe ligar.

Tinha cinquenta e oito anos.

***

No dia seguinte, a amiga Rita apareceu sem avisar, só ligou do portão.

Abre lá, estou à porta.

Rita, nem me arranjei.

Então despacha-te, que eu espero.

Rita Tavares era amiga de Olívia desde os tempos na Universidade de Lisboa. Trinta e sete anos de amizade, para ser exata. Era barulhenta, direta, pouco dada a cerimónias. Três anos antes divorciara-se do Carlos, chorou algum tempo, depois parou de chorar e abriu uma lojinha de retrosaria perto do Campo Pequeno. A loja dava para as despesas e Rita dizia que estava melhor do que há dez anos.

Sentaram-se na cozinha. Rita abraçou Olívia no hall daqueles abraços que fazem os olhos picar. Mas não chorou.

Conta-me tudo disse Rita, servindo chá.

Já sabes do básico.

Quero ouvir de ti.

Olívia contou. Sem grandes detalhes. Eduardo ia embora. Por uns tempos. Precisa de espaço. Não perguntou para onde. Não porque não desconfiasse, mas porque perguntar tornava tudo mais real. Enquanto não dissesse nada, a confusão era suportável.

E nem perguntaste a quem vai? Rita olhava-a, atenta.

Não.

Lívia…

Diz.

Tu sabes, não sabes?

Silêncio. Lá fora alguém ria no pátio. A vida a andar, sem se incomodar com dramas alheios.

Suspeito admitiu Olívia. É a assistente dele. Inês. Tem trinta e dois anos.

Rita ficou calada. Depois disse, cautelosa:

Há muito tempo?

Não sei. Talvez um ano? Ou mais. Eu… percebia pistas. Mas não me deixava pensar nisso.

Porquê?

Olívia olhou para a chávena. Era bonita, do serviço que trouxeram de Praga dez anos antes. Viagem boa aquela. Eduardo ainda fazia piadas, segurava-lhe a mão na Ponte Carlos.

Porque se pensares, tens de agir disse, por fim. E eu não sabia o que fazer. Não trabalho há vinte e seis anos, Rita. Percebes? Primeiro os miúdos, depois a casa e depois foi só assim.

Ele sempre te deu tudo.

Sim, dava. Eu trata da casa, dos filhos, dos pais dele quando precisaram. Eu era hesitou no verbo uma parte da vida dele. Uma parte importante, achei eu.

E agora já não achas?

Acho que era uma parte prática. Disse isto sem mágoa. Fui uma esposa prática. Não fazia ondas. Concordava. Cozinha branca em vez de bege. Férias nas serras, não no Algarve. Jantar às oito, não às sete. Tudo como ele queria.

Rita limitou-se a olhar para ela. Raro, vindo da Rita.

Estás zangada? perguntou por fim.

Não. Acredito que não. Talvez lá mais à frente. Agora estou só sei lá.

Olívia pensou. Lá fora o pátio sossegado. A oliveira imóvel.

Estou a tentar lembrar-me do que gosto murmurou sem ser desta casa, da vida dele. Das coisas que são só minhas. Não vem logo à cabeça. É estranho.

Rita apertou-lhe a mão. Não disse nada. Às vezes isso é tudo o que importa.

***

A filha ligou daí a três dias. Mariana vivia no Porto, com o marido e dois filhos pequenos. Prática, direta, sempre mais para o lado do pai.

Mãe, o pai falou comigo. Como te sentes?

Bem.

Mãe, bem não é resposta.

Mariana, a sério, estou bem. Estou a pensar.

A pensar em quê? Na voz dela o tom de quem já escolheu um lado, calada à espera.

Em várias coisas.

O pai diz que é só fase, que vocês só precisam

Mariana interrompeu Olívia, tranquila mas firme , não quero discutir isso por ti. Nem por ti, nem pelo Afonso. Isto é entre mim e o pai. Está bem?

Pausa.

Está bem disse Mariana, mais suave. Estás sozinha?

Sim. E estou bem.

Queres que vá aí?

Não é preciso, digo-te se precisar.

Desligaram. Ficou uns minutos sentada a olhar para o nada. O Afonso, o filho, vivia em Coimbra. Nem sequer ligou. Sempre esquivou conversas difíceis desde criança, refugiando-se numa agenda ocupada mãe, agora não posso, tenho um projeto.

Ela percebe também.

Olívia deu uma volta pela casa. Quatro quartos, dois WCs, tudo arrumado, cortinas trocadas consoante a estação. Sempre cuidou do lar. As plantas eram sempre naturais, mantinha tudo asseado. O cheiro de lavanda vinha dos saquinhos que ela mesma fazia.

A casa era bonita. Era dela? Não era sequer hostil era só como um museu, onde as coisas estavam organizadas mas não diziam nada sobre quem as usava.

Parou em frente à estante. Na prateleira do meio, os seus livros. Poucos. Quase todos oferecidos. Livros de receitas, uns romances, um antigo de Sophia de Mello Breyner, gasto dos tempos de estudante. Pegou-lhe, abriu ao acaso. Leu umas linhas. Sentiu um arrepio lento, quase tímido.

Não lia poesia há uns vinte anos. Nunca havia tempo.

***

Eduardo ligou uma semana depois. A voz ligeiramente tensa, mas daquele jeito de quem já decidiu tudo.

Olívia, temos de falar.

Então fala.

Preferia conversar cara a cara.

Quando te dá jeito?

Hesitou, provavelmente esperava outra coisa. Lágrimas, acusações, perguntas. Ela não lhe deu uma única.

Amanhã às duas. Passo em casa.

Está bem.

Chegou pontual. Sintomático. Eduardo era excessivamente pontual, a sua grande virtude. Olívia pôs água para o chá, não por rotina acolhedora, mas por ter de ocupar as mãos.

Estás elegante comentou ele, sentando-se.

Obrigada.

Olívia, não quero que tu penses…

Edu, vai direto. O que queres dizer?

Piscou os olhos, hesitante perante o tom dela.

Quero o divórcio. Formal. Já não faz sentido adiar.

Está bem.

Está bem? Assim?

Sim. Não vou impedir-te.

Olívia… olhou-a, com aquele olhar que ela outrora confundia com carinho e agora via diferente , fico a garantir que não te falta nada. Fica-te a casa. Passo dinheiro. Não te vai faltar nada.

Passo-te dinheiro repetiu ela, notando nesta mania recente de fazer eco às palavras dele.

Pois, não trabalhaste, precisas de subsistir.

O chá fervia. Olívia levantou-se, fez o serviço à inglesa, cada gesto sereno.

Edu disse, servindo as chávenas , lembras-te de quando a tua mãe esteve doente? Fui eu que estive lá todas as semanas. Era eu quem lhe fazia as injeções, comprava comprimidos, falava com os médicos. Tu tinhas sempre reuniões.

Lembro-me, claro.

E quando a Mariana teve o segundo filho e estava cheia de enjoos? Fui eu que praticamente mudei-me lá para casa, tratei do neto mais velho, da comida, da roupa.

Olívia, para quê isto?

Para que percebas que dizer passo-te dinheiro soa a esmola. Como se eu estes anos todos só tivesse sido um peso em cima de ti.

Ficou calado, boca aberta.

Não era isso…

Eu sei o que querias dizer. Querias sentir que és generoso. Que vais cuidar de mim. Mas não me vou pôr a fazer de conta que me fazes um favor. Ambos sabemos que não é assim.

Olhou-a demoradamente. Depois o rosto perdeu convicção.

Mudaste disse.

Em uma semana?

Nesta semana, sim.

Ela sorveu um gole de chá. Lá fora, uma velhota de casaco azul alimentava pombos Olívia via-a todos os dias mas nunca soube o nome.

Quanto ao dinheiro disse , não rejeito o que me cabe. Quatro trambolhos cheios de bagagem moral. Mas não quero que dês como se me estivesses a conceder qualquer coisa. Isso é degradante.

Olívia.

Espera, deixa-me acabar. Passei vinte e seis anos a cuidar de tudo. Nunca te fiz cobranças, nunca exigi. Aceitava o que havia. Perdi a minha carreira porque tu disseste para quê o teatro, eu sustento-te. Aceitei. Não me arrependo. Mas, sejamos sinceros, isto é trabalho. E fiz bem.

Silêncio. Eduardo olhou para o tampo da mesa.

Não disse que fizeste mal.

Disseste que ias cuidar. Como a um filho. Eu não sou criança, Edu. Tenho cinquenta e oito anos.

Levantou-se, foi até à janela, esteve ali algum tempo. A oliveira, lá fora, tranquila.

Tens razão murmurou. Tens razão, Olívia.

Foi estranho ouvi-lo. Levou um instante a encaixar.

Então combinamos com os advogados. Sem drama.

Concordo.

Pegou no casaco. Virou-se à porta.

Olívia, eu…

Não digas nada, Edu. Vai.

Saiu. Ela ficou muito tempo sentada. Depois pegou no telefone e mandou mensagem à Rita: Falei com ele. Vou-me divorciar. Tá feito.

A resposta veio logo: Orgulho em ti. Amanhã passa na loja. Chegaram fios novos para bordares.

Olívia esboçou um sorriso. Realmente, gostava de bordar. Na juventude, há umas três décadas.

***

As semanas seguintes foram estranhas. Nem boas, nem más. Só fora da rotina. Como quem é retirado de um quadro e posto encima da mesa, sem moldura mas sem saber para onde ir a seguir.

Foi à loja da Rita. A loja chamava-se Ponto de Encontro, no rés-do-chão dum prédio. Cheirava a tecido, madeira, lã. Motas de crochet, bastidores, linhas mil. Olívia andava pelo meio dos novelos, tacteando algodão e mohair, fios de seda de bordar. Alguma coisa descongelava por dentro.

Olha aqui Rita mostrou-lhe um bastidor. Para principiantes. Podes tentar algo mais complexo, claro.

Eu sei bordar.

Sabias. Há trinta anos.

Não se perde o jeito.

Vamos ver Rita piscou o olho.

Comprou tecidos, linhas e agulhas. Sentou-se em casa, à janela. Passou muito tempo só a olhar para o esquema. Depois começou. Primeiro ponto torto. Desfez. Recomeçou, devagar, mais focada. As mãos começaram a lembrar.

Três horas nisto. Nem deu pelas horas.

Estranha sensação. Boa. Curiosamente simples.

***

O Afonso ligou no fim de outubro, passado já quase mês e meio desde a conversa final.

Mãe, tudo bem?

Sim. E tu?

Normal. Olha, falei com o pai.

Afonso…

Não, espera. Eu não tomo partido. Mas ele disse que recusaste a ajuda dele. É verdade?

Não propriamente. Não recusei a minha parte. Recusei que ele me desse dinheiro, como quem estica uma esmola.

Mas mãe, é prático. Não trabalhas, precisas de viver!

Afonso, tenho cinquenta e oito anos, não oitenta. Sou capaz de trabalhar.

E o que vais fazer?

Boa pergunta. Pensava muito nisso também. O conservatório ficara algures no passado, abandonado no terceiro ano para casar. Mas sempre gostara de línguas, sabia francês em miúda. Ia vendo filmes franceses, agora sem perceber tudo, mas percebia.

Não sei. Mas vou descobrir.

Se precisares, diz.

Digo, prometo. Mas filho, não tenhas pressa de salvar-me. Não me estou a afogar.

Silêncio curto.

Ok, mãe. Beijinho. Liga se precisares.

Depois disso foi buscar cadernos antigos. Num deles, cheio de capas amarelecidas, estavam palavras francesas escritas à pressa letra jovem, convicta, como se outra mulher a tivesse escrito.

Talvez fosse mesmo.

***

O advogado era um senhor tranquilo, chamado António Fernandes. Ouviu Olívia, fez perguntas, acenou.

Os seus direitos, dona Olívia, estão salvaguardados. Tudo deve ser dividido à justa: casa, contas, poupanças… Falta decidir o quê, a quem.

Quero esta casa. Habituei-me. E foi ele que sugeriu.

Então fica para si, o resto para ele. Pode ser a casa do Algarve

Pode ser. Já falámos, sem confusões.

O advogado mirou-a por cima dos óculos.

Isso é raro, sabe?

Eu sei.

Pronto. Daqui a um mês trato dos papéis.

Saiu para a rua. Era um daqueles dias tímidos de novembro, céu macio, ar denso. Caminhou devagar, bairro fora, sem rumo.

Cidade portuguesa como tantas outras. Estava em Setúbal, onde tinha nascido, crescido, casado. Conhecia aquelas ruas de olhos fechados. Sabia onde se comprava o melhor pão, onde havia laranjeiras bravas, onde se abrigavam os melros no inverno.

Isso também era dela. Pequeno, mas real.

Entrou num café pequenino, cheio de luz, mesas de madeira. Pediu um galão e uma fatia de tarte de maçã. Ficou a olhar pela janela. Não pensava em nada limitava-se a estar. E percebeu que há muito não fazia isso. Só estar. Sem listas, sem planos de ninguém.

Na mesa ao lado, duas mulheres da idade dela riam alto. Uma exibia um xaile cor-de-rosa. Outra uns óculos catitas. Olívia observou-as: assim era viver. Rir, usar xailes coloridos.

Bebeu o galão, deixou gorjeta, saiu.

***

Em dezembro, Mariana voltou a ligar. Voz tranquila desta vez.

Mãe, vou a tua casa no fim de ano. Sozinha. Os pequenos ficam com o Pedro. Pode ser?

Claro que sim. Eles ficam?

Vão aos pais dele. E eu disse que preciso de ir a casa da minha mãe. Pausa. Fui injusta contigo, no início. Achei que devia tentar arranjar as coisas entre vocês, que dependia de mim. Depois percebi não era comigo.

Mariana

Deixa-me falar. Achei que te ias perder. Sempre foi o pai a decidir tudo, tu sempre Calou-se a meio.

à sombra? sugeriu Olívia.

Pois. Só que afinal não estavas perdida. E isso mudou algo cá dentro.

O quê?

Comecei a pensar mais em mim. No que eu quero. Não só no Pedro, nos miúdos. Em mim. Parece egoísmo, mas

Não parece não.

A sério?

A sério. Isso chama-se autonomia, filha.

Conversaram quase uma hora sobre tudo e nada. Os netos, o emprego. Mariana quis aprender a pintar há anos, mas nunca arranjava tempo. Olívia ouvia e sentia um calor bom não tanto orgulho, mas reconhecimento. Como se se visse em Mariana, não quem era, mas quem lhe apetecia ser.

***

Mariana chegou a vinte e nove de dezembro. Trouxe vinho, queijo e chinelos felpudos. Decoraram a árvore com músicas antigas do YouTube, com Mariana a rir das tentativas desajeitadas da mãe a mexer nas aplicações. Riram as duas.

Foi bom. Mesmo bom.

No réveillon convidaram Rita, que trouxe empadas e um frasco generoso de picles caseiros. Sentaram-se à mesa, vinho na mão, a falar de tudo menos do Eduardo. Dos sítios a visitar. Rita queria ir aos Açores. Mariana sonhava com praias tropicais. Olívia atirou-se: queria ir a Paris.

Paris? Rita arregalou os olhos.

Aprendi francês em miúda. Quero ver o que ficou.

Sozinha?

Talvez. Ou com alguém. Logo se vê.

Mariana fixou o olhar nela, depois sorriu.

Mudaste, mãe.

És já a segunda pessoa a dizer-me isso.

O primeiro foi o pai?

O mesmo. Mas da boca dele soou a acusação, como quem diz que desrespeitei as regras.

E agora?

Agora soa a elogio.

Rita ergueu o copo.

Às mulheres que partem com as regras todas.

Tinham começado a ouvir foguetes. Ano Novo, barulhento e iluminado. Olívia olhava para a rua e pensava: há anos que não sentia este início verdadeiramente só seu.

***

Em janeiro, inscreveu-se no curso de francês. Escola pequena, cinco minutos a pé. Grupo variado: dois jovens, uma quarentona a preparar-se para emigrar, e um senhor de sessenta e tal que queria ler Flaubert no original.

Louvável disse o professor, Miguel, novo e divertido, surpreendido com o grupo.

Louvável é tudo o que alguém faz para si explicou o mais velho, D. Álvaro.

Olívia, em silêncio, concordava.

Não era fácil. A memória puxava expressões, mas baralhava os artigos, as frases fugiam-lhe. Já não errava há muito, não recomeçava nada do zero. Agora errava e começava outra vez.

À terceira aula, Miguel comentou à saída:

Tem boa pronúncia, Olívia. De onde vem?

Estudei em jovem.

Continue. Isso vale mais do que julga.

Foi para casa a pensar nisso. Boa pronúncia. Estava nela. Sempre esteve. Só ninguém dava por ela.

***

Os papéis do divórcio assinaram-se em fevereiro, no escritório do advogado. Eduardo parecia cansado. Olívia, pelo modo dele, diferente do esperado.

Como estás? perguntou ele no corredor.

Estou bem.

A sério?

A sério.

Ele fitou-a. Algo estranho no olhar não pena, nem remorso. Mais como quem está perdido. Esperou outra coisa e enganou-se.

Inscreveste-te noutra coisa? A Rita comentou.

Francês. E aquarela.

Pintura? Tu nunca pintaste.

Agora pinto.

Ele assentiu. Vestiu o casaco. À saída hesitou.

Olívia, eu

Edu, foste importante na minha vida. Mas já não pertenço a essa história. Sê feliz.

Olhou-a ainda um momento, e saiu.

Ela ficou no hall. Do outro lado da porta a vida corria. Fevereiro, pessoas apressadas, neve bem, em Portugal, chuva. Tantos anos de casamento desmanchavam-se assim, num dia calmo. Tinha que ser distinto? Ali, foi só sossegado.

Saiu. Cheirava a chuva fresca, a final de inverno. Levantou o rosto ao céu os pingos mal tocavam a pele e evaporavam logo.

Foi devagar para casa, pelo parque.

***

Pintar foi mais difícil que francês. Aquarelas fugiam, manchas, papéis ondulados. A professora, Dona Sofia, mulher de mãos manchadas de tinta, observava-a sem julgar.

Não tente comandar, Olívia. Está a tentar controlar a tinta. Ela não gosta disso.

Então o que gosta ela?

Gosta que confie nela. Dê-lhe espaço.

Ela tentou. No início nada saía. Depois, aos poucos, melhorou. Guardava os papéis numa pasta. Eram imperfeitos. Mas eram seus pinceladas dela.

Certo dia, Sofia parou ao lado. Olhou para o esboço uma oliveira à janela, frutos e troncos, o céu cinzento.

Isto é verdadeiro disse a professora.

Mas está torto.

O torto e o real não são opostos.

Olívia olhou para a oliveira, assim, da janela. No papel não era igual à do pátio. Era a dela.

Era importante, isso.

***

Na primavera, Mariana veio visitar, com família toda. À noite, Olívia e Mariana conversavam na cozinha Pedro a ver bola, miúdos a dormir.

Estás feliz, mãe? perguntou Mariana.

É difícil responder.

Porquê?

Antes achava que sabia o que era felicidade. Casa, família, tudo certinho. Agora não sei. Sinto-me bem. O que não é o mesmo.

O que é então?

Olívia meditava.

Acordar e o dia ser meu. Não do calendário dos outros. Isso faz sentido?

Faz respondeu Mariana baixo.

E tu? Pensas em ti?

Mais. Inscrevi-me em pintura. Como tu.

A sério?

Sim. Aquarela. Ao domingo. O Pedro achou estranho, depois aceitou.

Olívia olhou-a. Trinta e quatro anos. Inteligente, sempre um pouco à sombra do marido, como a mãe estivera à sombra do dela.

Mariana disse , não precisas repetir a minha história.

Não repito. Aprendo contigo.

Comigo? Olívia espantada.

Foste capaz de coisas que eu nunca imaginei. Não te tornaste amarga, não vieste morar connosco à espera que te carregássemos ao colo. Simplesmente… começaste nova fase. Aos cinquenta e oito anos.

Longo silêncio.

Nunca pensei que parecesse assim por fora.

É assim mesmo.

E por dentro? Sentes-te igual?

Assusta. Depois passa. Percebes que metade de nós nem nos conhecíamos. Trinta anos sem saber o nosso tom favorito.

E agora?

Azul. O das minhas aquarelas.

Mariana sorriu. Depois abraçou a mãe, forte, como Rita fizera meses antes.

Orgulho em ti, mãe.

E eu em ti.

***

No verão, Rita sugeriu irem as duas aos Açores. Dez dias, grupo pequeno, programa flexível.

Nunca viajei sem o Eduardo disse Olívia.

Eu sei. Por isso mesmo estou a propor.

Não sou pessoa de mochilas e tendas.

Há casas. Com duches e tudo. Vamos?

Pensou três dias. Depois disse sim.

Os Açores eram outro planeta: lagoas onde o céu cabia inteiro, criptomérias que tocavam as nuvens. O silêncio de lá estava cheio de sons.

Levou as aquarelas. Pintava sempre de manhã. Os seus trabalhos continuavam imperfeitos, mas tinham vida. Sabia-o sem dúvidas.

Ao quarto dia, junto de uma lagoa, percebeu algo novo: já não pensava em Eduardo. Não era esforço ou castigo. Simplesmente, já não havia história para ruminarem. Só o fim de um capítulo e o princípio de outro.

Era bom.

Rita aproximou-se, espreitou.

Bonito.

Achas mesmo?

Juro. Punha na parede.

Olívia sorriu-lhe.

Talvez pendure.

***

Fez cinquenta e nove em setembro. Organizou um jantar simples. Rita, a vizinha Irene com quem criou laço inesperado , e duas colegas do curso de pintura. Mariana ligou em vídeo, mostrou os netos cada um com cartão de aniversário pintado à mão.

Olívia olhava para o telefone, para os risos da filha e netos, e pensava: é isto. Não certinho é ruidoso, caótico e real.

Afonso mandou dinheiro e SMS: Mãe, parabéns. Vou aí em breve. Sorriu. São eles.

Rita brindou:

À Olívia, a mulher que finalmente é ela mesma.

Eu sempre fui, ora!

Não, agora é que és.

Ela não respondeu. Talvez fosse verdade.

***

Em outubro pendurou a melhor aquarela dos Açores na sala. Emoldurada. Antes tinha ali uma reprodução insípida que o Eduardo escolhera. Guardou-a, pôs a sua obra.

Olhou para a parede: não era perfeita. Mas era dela. Feita pelo seu pulso. Sentida.

Isto sim, era valor. Não a perfeição. Mas o que era da gente.

Ficou à frente da aquarela um tempo. O telefone tocou. Número desconhecido.

Estou?

Dona Olívia? É o Miguel, da escola de línguas. Estamos a criar grupo de conversação às quartas. Só conversa em francês, nada de gramática. Interessa-lhe?

Olhou para a aquarela. Azul lagoa, neblina de frescura.

Interessa. Pode inscrever-me.

Em novembro, saía das aulas de francês, sacola na mão com um romance que comprara ao acaso.

À porta do prédio estava o Eduardo.

Nem o viu logo. Só ao chegar perto.

Olá cumprimentou ele.

Olá respondeu, sem surpresa, sem medo.

Posso falar contigo?

Pousou o casaco, ofereceu chá. Ele recusou, sentou-se no sofá, fitou a aquarela.

Tu pintaste isto?

Pintei.

Está bonito.

Obrigada.

Ficou ali calado. Depois lá desabafou:

Olívia não correu bem para mim.

Esperou. Não ajudou nem puxou conversa.

A Inês achei que precisava de outra vida. Afinal só estou cansado. Não de ti. De mim. Tu nunca perguntaste porquê.

Não era comigo.

Se calhar não. Olhou-a . Mudaste. És outra pessoa.

Sou.

Nunca pensei que Só agora percebo que eras tudo. Achei que ficavas ali, sempre.

Edu, o que é que procuras nesta conversa?

Ele demorou a responder, baixou os olhos.

Não sei. Só queria que soubesses que estava enganado. Que não dei valor.

Silêncio.

Lá fora, outono. Oliveiras nuas. Os pássaros já comeram tudo, mas a árvore estava firme.

Eu ouvi-te disse Olívia. Obrigada por me dizeres.

Só isso?

Olhou para ele. Este homem, antes constante ao lado dela, estava agora, finalmente, longe.

Edu pegou no livro francês , agora leio em francês, devagar mas leio. Pinto. Visitei os Açores. Vou ao grupo de conversa. Durmo com a janela aberta porque gosto. Como o que me apetece. Não guardo raiva. Deste-me muita coisa. Mas também aprendi contigo que vivi tempo demais sem vida própria. É igualmente importante.

Podes voltar? perguntou, muito baixinho, ele próprio estranhando talvez a pergunta.

Olívia olhou-o. Depois olhou a aquarela.

Edu, tenho cinquenta e nove anos e, pela primeira vez, sinto que estou viva de verdade. Põe água para o chá, se quiseres. Eu já venho.

Dirigiu-se à cozinha. Ouvia-se a oliveira lá fora, a velhota do casaco azul a dar pão aos pombos.

Atrás, silêncio. Depois rangido do sofá. Passos.

Edu na porta da cozinha.

Olívia chamou.

Ela voltou-se.

Diz-me só isto: és feliz?

A chaleira a ferver, o início de um silvo. A oliveira firme para lá do vidro.

Estou a aprender respondeu ela. Aprender a ser feliz. Mais difícil do que parece. Mas estou nesse caminho.

Ele olhava para ela. Ela olhava para ele. Dois adultos, numa cozinha que já fora dos dois e agora era só dela.

Isso é bom disse ele. Isso é mesmo bom, Olívia.

A chaleira apitou.

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