Quando comecei a namorar a Marina, a Leonor tinha seis anos. Tinha crescido sem pai e, com tanta sede de carinho, entre nós dois nunca houve qualquer barreira. Vivíamos em plena harmonia, até que… chegou a adolescência!
Tu não és meu pai! gritou, um dia, a Leonor.
Como não sou teu pai? Quem, ao longo destes anos, te ouvindo as queixas sobre colegas e te defendendo nas reuniões de encarregados de educação? Quem é que escondia o último chocolate lá de casa só para te oferecer quando estavas em baixo? Quem guardou contigo o segredo daquele dia em que roubaste a boneca à chatinha da Filipa do prédio ao lado? E quem andou, de noite, escondido pelas traseiras do bairro para devolver a boneca para não seres apanhada? Além disso, não tínhamos nós combinado, há uns anos, que quem chama pai desde pequena, não pode agora virar costas e fingir que nunca foi assim?
Dói ouvir a palavra enteada, ainda mais partindo de quem sempre vi como filha. Só que, ali, aguentei o embate. Em primeiro lugar porque sou homem e, em segundo, porque magoar-me com a Leonor não resolvia nada aliás, só complicava.
Argumento aceite fiz continência de propósito, para arrancar-lhe um sorriso. E então, vamos conversar sobre este novo estatuto de não-pai e não-filha? Que achas?
Dizia aquilo enquanto sentia o peito apertado. Era a forma mais sensata: pôr alguma liberdade nas suas mãos, mas dentro do que ela própria pudesse aceitar. Mas a Leonor surpreende-me e responde, toda resmungona: Não quero. E pumba, fechou-me a porta na cara.
Nem em pequena era assim ela explicava sempre o porquê das coisas, até de não querer comer as papas.
Não gosto destas! dizia, e eu perguntava porquê.
Têm pouca canela e estão com grumos.
Perfeito, explicação recebida! Então que se faça uma nova papa ou, vá, que se ofereça o tão cobiçado éclair.
Fiquei ali um bocado, a olhar para o desenho da madeira da porta como quem procura respostas, mas nada. O tempo dirá.
A Marina, por sua vez, sempre calma com as mudanças da filha, dizia que também ela, na mesma idade, fazia o pai desejar vê-la fora de casa o mais depressa possível. Jurava-me que, quando as hormonas se acalmassem, tudo voltaria ao normal. Só que voltas dessas não têm prazo, cada um faz a sua viagem. E eu, confesso, sentia falta da Leonor. Faltava quem visse futebol comigo ao serão, ou gozar comigo da Susana, a amiga colorida da Marina, que muda mais vezes de cabelo do que chove em novembro.
Às vezes, a Leonor saía do seu casulo e voltava a ser como antes só que depois, explodia com a mesma rapidez. Esses momentos eram só dela, só ela sabia a lógica. Mas, nessas alturas, eu sentia uma alegria infantil.
E que tal irmos acampar no fim de semana? propus. Fazem bom tempo, levamos canas e tendas!
Olha que boa ideia! animou-se a Marina.
Eu não vou a lado nenhum convosco! Levem vocês as vossas canas e montem a vossa tenda, pescadores do raio! Portas a bater, olhares trocados em silêncio. Há minutos estava sol, agora tempestade.
Pronto, agora até da pesca ela desgosta… sacudi os ombros.
A seguir, num desses dias loucos, a Leonor desapareceu. Não apareceu em casa depois das aulas e o telemóvel, desligado. Ligámos às amigas todas, até que, sem saber o que fazer mais, fui procurá-la. O primeiro sítio onde passei foi a casa do Tiago, que era dos melhores amigos dela, mas já não o via há tempos.
Não faço ideia onde para! rosnou o rapaz.
Nem ideias, nada?
Desde que ela me chamou de chato, quase nem falamos…
Sabes, ela agora diz que não sou o pai, mas continuo a preocupar-me. Amizade antiga é o que é.
Estava a caminho das escadas já, quando…
Espere lá, talvez esteja com o Miguel.
Quem é esse?
Da turma ao lado. Mas não se assuste, não é um bom partido; se calhar não vai gostar do que encontra…
Agora é que tenho mesmo de ir lá. Vais comigo, mostras onde é.
Não, obrigado…
Tiago, às vezes é nas horas difíceis que conhecemos quem é forte de verdade.
Pronto, vou…
Chegámos a uns armazéns, música alta a rebentar. Ofereci ao Tiago ficar no carro se tivesse medo. Nem pensar, disse logo.
À porta, uns miúdos e uma miúda. Nada da Leonor. Perguntei, aos gritos, por ela.
O quê, agora procuram-na de lanterna? riu-se um.
Foi então que a Leonor apareceu, irritada:
O que te passou pela cabeça de vires aqui?
Vim por tua causa.
Eu conheço o caminho de volta!
Eu sei, mas está tarde. Não quero ir buscar-te ao posto da polícia, princesa! Bora, tens o taxi à porta.
Resmungou, entrou no carro e atirou ao Tiago: Traidor!
A partir daquele dia, Leonor desaparecia vezes e vezes sem conta. Eu, teimoso como um touro, ia busca-la sempre ao tal armazém, ouvindo gozações daqueles miúdos sobre o taxista privado da Leonor. Mas, numa noite, a minha filha recusou vir comigo.
O que queres afinal? Que me deixes em paz, ouviste? Já sou crescida!
Reclama disso à Assembleia da República… Está tudo na Constituição sobre direitos e deveres dos menores.
Vai lá para o sítio que eu cá sei! E virou-me as costas.
Olha, eu não saio daqui sem ti, nem mesmo para onde me mandaste.
Bem queria que nunca tivesses conhecido a minha mãe! Antes tu não existisses! disse enquanto, afinal, entrava no carro.
Aquilo doeu. O caminho até casa foi um aperto no peito, quase a desistir de tudo. Mas, e se ela cair e precisar de alguém que lhe estenda a mão? Prefiro ser insultado mil vezes do que desistir dela.
Eventualmente, Leonor e a turma mudaram de esconderijo. O velho armazém fechou, música calada e eu, perdido, andava feito tonto pela cidade. Tiago lá debicou mais opções, mas nada. Agora, Leonor aparecia em casa quando lhe apetecia, até três da manhã. A Marina já não dormia, por muito que tentasse mostrar-se serena. Eu igual. Só descansávamos ao ouvir a fechadura.
Numa dessas noites longas, tocou o meu telemóvel. Mãos a tremer, atendo.
Sr. Rui, é o Tiago. A Leonor ligou. Está presa numa casa na Avenida da Liberdade e não sabe como sair.
Sabe o número do prédio?
Só o descreveu, mas acho que percebi.
Então vamos lá os dois.
Olhei para a Marina. Tinha os lábios trémulos, olhos de desespero.
Fica calma, amor. Prometo que trago a Leonor a casa. E, por favor, faz panquecas para mim! Não aguento estas noites sem uma coisa doce, depois conto tudo. Não me deixes morrer de fome! beijei-a no nariz, sentindo lágrimas, mesmo que tentasse sorrir.
Com o Tiago a bordo, lá fui pelo Porto, rua acima rua abaixo, a fugir dos carros, dos turistas e dos taxistas a passear por ali. A dada altura, passei quase por cima de dois bêbados que, incomodados, ainda me deram um pontapé no carro.
Chegados ao prédio, disse ao Tiago para se manter de vigia no carro nunca se sabe quando é noite de lobisomens.
Entrei, subi os andares, bati a portas. No terceiro, uma senhora idosa, ávida de conversa, garantiu-me:
Há três apartamentos suspeitos aqui, meu senhor! E aposto que todos têm droga!
Mesmo? pousei a mão no coração, por brincadeira.
Ai filha, vi tudo com estes olhos!
Ela pode exagerar, pensei, mas mais vale não facilitar.
Desbocado, anotei os números dos apartamentos suspeitos. No primeiro, só um bebedolas e uma cadela rafeira muito mais sabida que o dono. O segundo não abriu. No terceiro, ao chegar, dou de caras com uma rapariga, parecidíssima com a Leonor, mas com uns olhos vazios que metiam medo. Tremi por dentro, e entrei na casa cheio de pressa.
Leonor! gritei, empurrando gente, tropeçando em pernas e garrafas.
De repente, ouvi:
Pai! Pai!
Vinha de uma casa de banho fechada. Arrombei a porta e lá estava ela, sozinha, encolhida e a chorar, morta de medo.
Quando descíamos as escadas, encontramos a polícia, avisada pela senhora da noite.
A sua filha estava a ser mantida à força? perguntou um agente.
Sim, sou só padrasto respondi.
É o meu pai, é sim senhora! gritou a Leonor.
Mais tarde, em casa, devorámos panquecas com natas e um travo de lágrimas salgadas da Marina, mas sabiam a céu. Falei de tudo e de nada. Expliquei à Leonor que, mesmo que me corresse à vassourada da vida dela, nunca desaparecia porque as amo às duas. Sem elas, a minha vida não fazia sentido, e quem cai, tem de saber levantar-se. Balelas, filosofias, e elas ali, sentadas de mãos na cara, a sorrir para mim. Tão minhas. Tão nossas.







