O cuco canta de dia
Não, isto é demais! explodiu Leonor. Hugo, anda cá agora!
O marido, que acabara de tirar os sapatilhas no hall de entrada, apareceu à porta da casa de banho, desapertando o colarinho da camisa.
Leonor, o que foi agora? Acabei de chegar do trabalho, tenho a cabeça a estourar…
O que foi?! Leonor apontou para a borda da banheira. Olha bem. Onde está o meu champô? E a minha máscara de cabelo, aquela que comprei ontem?
Hugo semicerrava os olhos, procurando no alinhamento de frascos coloridos.
Lá estava um enorme frasco de champô de alcatrão, um litro de Raiz de Bardana e um boião pesado de creme de cor castanha escura.
Ah A mãe trouxe as coisas dela. Dá-lhe mais jeito ter tudo à mão… murmurou, tentando não encarar a mulher.
Mais jeito? Hugo, ela não mora aqui! Agora olha lá para baixo.
Leonor baixou-se e puxou um alguidar de plástico debaixo da banheira. Lá estavam os seus caros produtos franceses, a esponja e a lâmina de depilação, todos atirados de qualquer maneira.
Explica-me, Hugo. Ela juntou as minhas coisas a isto, como se fossem tralha, e pôs as dela no lugar de destaque!
Ela acha que as minhas coisas são para estar ao pé do balde da esfregona, mas o Raiz de Bardana é que merece o altar na borda da banheira!
Hugo suspirou, pesado.
Leonor, não comeces. A minha mãe não está nada bem, sabes isso. Eu já ponho tudo como estava, vamos jantar, está bem? A mãe fez arroz de pato, sabes?
Não vou tocar no arroz de pato dela cortou Leonor. E por que razão ela tem de estar cá SEMPRE? Porque é que manda nesta casa, Hugo?!
Sinto-me aqui como uma inquilina a quem fazem o favor de emprestar a casa de banho.
Empurrou o marido e saiu, e Hugo voltou a empurrar o alguidar para debaixo da banheira, a pontapé.
A eterna dor da habitação, que prejudicou tantos, não os atingiu: Hugo tinha um T1 espaçoso numa urbanização nova, herança do avô paterno.
Leonor herdou também uma casinha acolhedora da avó. Quando casaram, escolheram viver na casa de Hugo tinha obras recentes e ar condicionado e alugaram a casa de Leonor a um casal simpático.
Com os pais de Hugo, a relação era de neutralidade armada, que por vezes virava simpatia educada.
D. Graça e o marido, o recatado e sempre calado Sr. Manuel, moravam do outro lado da cidade.
Uma vez por semana havia lanche com chá, perguntas sobre saúde e trabalho e sorrisos educados.
Ó Leonor, estás tão magrinha dizia D. Graça, servindo-lhe mais uma fatia de bolo. Hugo, não dás de comer à tua mulher?
Mãe, só andamos a ir ao ginásio respondia Hugo, a rir-se.
Ficava por aí. Nunca vinham sem avisar, não havia conselhos nem intromissões em casa.
Leonor gabava-se às amigas:
Tive mesmo sorte com a sogra. Uma senhora! Não se mete, não me ensina, não chateia o Hugo.
Tudo desabou numa terça-feira cinzenta: o Sr. Manuel, companheiro de D. Graça há trinta e dois anos, fez as malas, deixou um bilhete na mesa da cozinha Fui para o Algarve, não procures! bloqueou todos os contactos e fugiu.
Afinal, o bicho carpinteiro era a fisioterapeuta jovem do hotel onde o casal ia nos verões.
Para a sexagenária D. Graça, o mundo virou-se do avesso.
Primeiro foram lágrimas, chamadas de madrugada, e a pergunta sem fim:
Como pôde ele? Porquê, minha filha? Como é possível?
Leonor sentia pena. Levava-lhe calmantes, ouvia sempre as mesmas queixas e assentia quando ela amaldiçoava aquele velho dado ao disparate.
Rapidamente se esgotou, porém. O constante queixume da sogra começou a irritá-la.
Hugo, ela já ligou cinco vezes esta manhã disse Leonor ao pequeno-almoço. Pediu para ires lá mudar uma lâmpada do corredor.
Eu percebo, mas quando isto acaba?
Hugo fez-se pequeno:
Ela está sozinha, Leonor. Viveu a vida toda com o marido, e agora ficou… Não te zangues com ela…
Ela que mude a lâmpada ou chame um eletricista. Só quer é que vás lá tu. Nem que seja eu. Preciso disso para alguma coisa?
Depois vieram as dormidas: Hugo começou a ficar em casa da mãe.
Leonor, a mãe tem medo de dormir sozinha desculpava-se, a fazer a mochila. Diz que o silêncio a deprime. Vou só lá dormir dois dias, está bem?
Dois dias? Leonor franziu o sobrolho. Hugo, ainda agora casámos e já foges! Não quero ficar a dormir sozinha metade da semana.
Vai passar, é só agora. Quando estiver melhor, tudo volta ao normal.
Agora arrastou-se durante um mês.
D. Graça queria o filho quatro noites por semana por perto.
Simulava tensão alta, fingia ataques de pânico, até entupia a pia de propósito.
Leonor viu o marido esgotar-se, a correr de uma casa para outra, e cometeu o erro de que se arrependeu amargamente.
***
Tentou falar a sério com a sogra.
D. Graça, disse ela a um almoço de domingo se lhe custa tanto estar sozinha, porque não vem passar os dias cá connosco?
O Hugo está a trabalhar, eu trabalho muitas vezes a partir de casa. Está aqui no centro, pode passear no jardim, ficar por cá. E, ao final do dia, o Hugo leva-a a casa.
D. Graça olhou de lado para Leonor.
Ora, Leonor… Que boa ideia! Tens razão. Porque é que hei de ficar ali fechada?
Leonor pensou em duas visitas por semana, chegaria ao meio-dia e sairia antes de vir o Hugo
Mas D. Graça tinha outros planos apareceu, no dia seguinte, às sete da manhã.
Quem é? murmurou Hugo, ainda a dormir, ao ouvir a campainha.
Foi ele próprio abrir.
Sou eu! respondeu, animada, a voz da mãe do outro lado Trouxe-vos requeijão fresquinho!
Leonor puxou o edredão para cima da cabeça.
Que raio… resmungou. Hugo, são sete da manhã! Onde foi ela arranjar requeijão fresco a esta hora?!
A mãe madruga Hugo já se vestia. Dorme, eu trato disto.
A partir desse dia, a vida virou um inferno. D. Graça não só andava lá durante o dia vivia oito horas na casa.
Leonor tentava trabalhar ao computador, mas ouvia logo junto ao ouvido:
Leonor, não limpaste o pó à televisão? Encontrei aqui um paninho, vou já tratar disso.
D. Graça, estou a trabalhar, tenho uma reunião daqui a cinco minutos!
Oh, que reunião… Estás só a ver bonecos. Já agora, menina, não passas as camisas do Hugo como deve ser. Devem ficar direitinhas, parecidas com uma navalha. Eu mostro-te, enquanto esperas pelos teus clientes.
Nada escapava à crítica.
Os legumes: O Hugo só gosta cortados às tirinhas, não em cubos!
A cama: A colcha deve chegar ao chão, assim fica desajeitado.
O cheiro na casa de banho: Devia cheirar bem, não a mofo.
Não leves a mal, dizia a sogra, a espreitar a panela mas exageraste no sal.
O Hugo é habituado a comida de dieta, o estômago dele é sensível. Queres arruiná-lo? Sai daí, eu corrijo.
A sopa está ótima disse Leonor, os dentes cerrados. E o Hugo gostou. Ontem comeu duas malgas!
Ai, ele não te quer magoar, por isso come calado, pobrezinho.
Ao almoço, Leonor já roçava as lágrimas.
Ia para um café e lá ficava horas, só para não ouvir aquela voz a dar lições.
Quando voltava a casa, ficava pior.
Primeiro foi a chávena favorita da sogra, enorme, vistosa, com a frase Melhor Mãe do Mundo.
Depois, na entrada, instalou-se o seu impermeável de reserva, e, uma semana depois, um espaço inteiro do guarda-roupa ficou para as mudanças de roupa e os dois roupões dela.
Para quê roupões aqui? perguntou Leonor, ao ver uma monstruosidade de felpo rosa junto das suas combinações de seda.
Então, menina? Passo aqui o dia todo. Apetece-me mudar para algo confortável.
Somos família, Leonor, não fiques assim.
Hugo respondia sempre:
Leonor, tem paciência. Ela não está bem. Perdeu o marido, precisa sentir-se útil. Custa-te assim tanto uma prateleira?
Não é a prateleira, Hugo! A tua mãe está a empurrar-me para fora da minha própria casa!
Não exageres. Ela faz comida, limpa Tu própria disseste que odeias passar a ferro.
Prefiro ir amarrotada do que usar roupa que ela passou! gritava Leonor.
Mas o marido ignorava-a.
***
As embalagens na casa de banho foram a gota de água.
Hugo, anda cá chamou D. Graça da cozinha. O arroz de pato arrefece!
Leonor, vem, pus-te menos picante, sei que não gostas.
Leonor entrou de rompante, com a sogra a servir os pratos com todo o à-vontade.
D. Graça, disse, contida porque pôs as minhas coisas debaixo da banheira?
A sogra nem pestanejou. Deixou o garfo ao lado do prato de Hugo e sorriu.
Ah, Leonor, aquelas embalagens? Estavam quase vazias, só ocupavam espaço.
E tinham um cheiro forte, até fiquei com dor de cabeça.
Pus as minhas, que já conheço. As tuas estão lá em baixo, não incomodam.
Não te importas, pois não? Aquilo até precisava de arranjo.
Eu importo-me Leonor aproximou-se da mesa. É a minha casa de banho. As minhas coisas. É a minha casa!
Qual tua, menina? D. Graça sentou-se e suspirou. O apartamento é do meu Hugo.
Tu és a dona de casa, sim, mas… tem de respeitar a mãe do marido.
Hugo, pálido, à porta, interrompeu.
Mãe, para quê isso… A Leonor também tem casa, moramos aqui só
Que casa? atalhou a sogra. Aquilo é velho, um ninho de traças.
Hugo, come. A tua mulher está irritada deve ser fome.
Leonor olhou para o marido. Esperou.
Esperou ouvir: Mãe, chega. Passou dos limites. Faça as malas e volte a sua casa.
Mas Hugo ficou ali, os olhos a saltar entre a mãe e Leonor, e sentou-se à mesa.
Leonor, venha jantar. Falamos a bem. Mãe, também não devia mexer nas coisas dela…
Estás a ver, Hugo compreende. E tu, Leonor, és egoísta. Numa família é tudo partilhado!
A paciência de Leonor quebrou.
Tudo partilhado? Está bem.
E saiu da cozinha.
Hugo chamou-a, mas ela não ouviu. Fez as malas em vinte minutos, espalhou tudo por bolsas.
Nem tocou nas coisas da casa de banho compraria novo.
Saiu ao som de duas vozes: uma a pedir para ficar, outra a lançar indiretas venenosas.
***
Voltar para o marido nunca passou pela cabeça de Leonor pediu o divórcio logo após a sua fuga.
O ex-marido ainda lhe liga todos os dias a pedir para voltar, enquanto a sogra vai transferindo as tralhas dela toda para a casa do filho.
Leonor sabia que, no fundo, era isso que D. Graça queria.
**
As vezes, para não perdermos o chão, temos de ser a própria raiz. E em casa própria, ninguém pode ser hóspede da sua vida. O respeito começa onde termina a invasão.







