A Casa de Campo Que Mudou Tudo: Como Um Pequeno Terreno no Interior Trouxe Paz e União Para a Famíli…

Quinta, ela resolve tudo

Mas estás maluca, Matilde? Eu disse à Dona Fernanda que tu ias lá! Pedi que te guardasse o melhor naco de carne!

Fiquei parado à porta da cozinha, com o saco ainda nas mãos. A minha sogra estava de braços cruzados e olhava-me como se eu tivesse assaltado o Banco de Portugal em vez de simplesmente comprar carne no supermercado.

Dona Fernanda, simplesmente não consegui ir ao mercado tentei responder sem alterar o tom. Depois do trabalho fui buscar o seu vestido à lavandaria, ainda passei na farmácia…
E não podias sequer ligar? Avisar? A Dona Fernanda ficou à tua espera até fechar! Depois foi uma hora a lamentar-se comigo ao telefone, dizendo que eu a deixara mal!

Pousei o saco na mesa. Senti lá dentro aquela pontada desconfortável.

A carne é boa, é de novilho, fresca abri o pacote e mostrei-lhe. Vê, é vitela do lombo, mesmo…

Dona Fernanda nem olhou. Aproximou-se, empurrando o pacote com as pontas dos dedos.

Carne de supermercado, cheia de porcarias. O Pedro não pode comer isso, que tem o estômago sensível.
Ele comprou carne igual na semana passada saiu-me.

Erro. A sogra corou de imediato.

Pois claro! O marido tem de ir às compras porque a mulher não faz nada de jeito. Três anos, Matilde! Três anos nesta família e nada. Não cozinhas como deve ser, não ajudas em casa, filhos nem pensar…
Dona Fernanda, já está a ser injusta.
Injusta? bufou. Eu beijava os pés à minha sogra, não me atrevia a responder-lhe. E tu? Só ignoras, fazes tudo à tua maneira…

Ela foi até ao hall. Sacudiu a carteira do cabide como quem dá um golpe nas emoções.

Já disse ao Pedro muitas vezes: divorcia-te, enquanto ainda podes. Arranja alguém decente. Que saiba valorizar o marido…

Nem terminou a frase. Calçou os sapatos sem sequer ajeitar os calcanhares.

Fiquei à porta da cozinha, apertando o batente com os dedos.

Até logo, Dona Fernanda.

Nenhuma resposta. A porta fechou-se e lá em casa caiu um silêncio pesado. Desci devagar pela parede até ao chão frio da cozinha. O lombo de novilho ficou abandonado na mesa; nem vontade tive de olhar para ele, nem para a cozinha impecável, nem para aquelas fotos do casamento, onde Dona Fernanda sorria como se lhe tivessem posto uma tachinha no sapato.

Três anos. Três anos de esforço. Aprendi receitas que o Pedro adorava desde pequeno. Aguentei almoços de domingo na casa da sogra, com cada prato seguido de “O Pedro gosta é da batata cortada em cubos, não é em palitos”. Sorria, acenava, pedia desculpas por coisas que nem me diziam respeito.

E mesmo assim sempre insuficiente. Sempre “era melhor que se divorciasse”. Encostei a cabeça à parede, a olhar para o teto. Já precisava de ser pintado, devia avisar o Pedro.

Mas já tanto fazia.

Durante duas semanas vivi a evitar a sogra. Aos telefonemas respondia Pedro, os almoços de domingo foram “adiados” por trabalho, e numa vez que me cruzei com ela foi só um “Olá” e fuga.

Até que ligou o notário.

O meu avô, que vi meia dúzia de vezes na vida, tinha falecido. Afinal deixou-me uma quinta, a uns quarenta quilómetros de Lisboa. Um pedaço de terra num bairro agrícola chamado “Aurora”.

Temos de ver como aquilo está disse Pedro, rodando as chaves com um porta-chaves em forma de morango espremido. Sábado vamos lá?

Acenei que sim. Sábado era sábado.

Não contei com uma coisa.

Oh Pedro, eu vou convosco! irrompeu Dona Fernanda, às oito da manhã, de botas de borracha e uma cesta. Dizem que há cogumelos por lá, a Lurdes contou-me.

Fui calada montar o termo de café. Avizinhava-se um “maravilhoso” dia, claro está.

A quinta estava tal e qual eu imaginara.

Casa quase a cair, mato por todo o lado, vedação presa por graça divina, cheiro a humidade e jornais velhos por dentro.

Pedro puxei-lhe o braço, baixei a voz vendemos isto? Que raio vamos fazer aqui? Vir todos os fins de semana, arrancar ervas… Não é a nossa vida.

Pedro ainda abriu a boca mas não respondeu.

Como vendem?! Dona Fernanda surgiu atrás de nós, como por magia. Estão malucos? Isto é terra! Um pedaço nosso! Eu dava tudo por este privilégio…

Levantou as mãos ao peito, com olhos sinceramente húmidos.

Dêem-me as chaves. Eu ponho isto bonito, planto flores, arranjo a casa. Daqui a um ano hão de agradecer!

Olhei para ela desconfiado. Estava ali, de botas enterradas nas folhas, com uma energia estranha.

Dona Fernanda, isto é trabalho até…
Matilde Pedro apertou-me o braço com doçura. Deixa-a. Ela adora. Vais-lhe negar?

Não neguei. Mas era estranho. E discutir nem pensar. Passei-lhe as chaves do morango descascado em silêncio.

…Dois meses passaram num nevoeiro surreal. Dona Fernanda só ligava por assuntos práticos, não aparecia sem convite e incrível! nunca mais falou do mercado, nem dos filhos inexistentes, nem das batatas cortadas à moda. Ao telefone, alegre, até brincalhona: “Pedro, isto vai ótimo! Tenho muito que fazer, logo falamos!”

Não percebia nada. Mas seria só calma antes da tempestade? Estaria doente e escondia?

Pedro, tens a certeza que ela está bem?
Está ótima Pedro encolheu os ombros. Só mexe na quinta. Diz que tem tanto para fazer que nem dorme.

Na sexta ligou Dona Fernanda pessoalmente.

Amanhã venham cá! Fazemos churrasco, mostro tudo. Tanto fiz! Quando cá chegarem, vão ver!

Pedro, não me apetece disse ao ouvir o convite. Dois meses na paz, e agora tudo outra vez…
Matilde, ela esforçou-se. Vai ficar triste se não formos.
Fica sempre.
Oh, faz-me a vontade ele olhou-me com olhos de cão abandonado. Acabei por ceder.

Sábado então…

Em chegando à quinta, mal reconheci a sogra.

Estava à porta, de vestido de linho, braços bronzeados, cara brilhante de saúde. Não era o sorriso forçado de antes; era sincero, limpo, e pareceu perder uns dez anos.

Chegaram! Que bom! abriu os braços e, sem pensar, deixei que me abraçasse. Cheirava a terra, a salsa e mel.

O terreno estava irreconhecível. Hortas alinhadas, vedação firme, arbustos de groselha, canteiros de flores sob as janelas.

Venham, mostro-vos tudo! arrastou-nos a passear, sem dar tempo. Aqui morangos, são fantásticos, a vizinha Ana ofereceu-me. Para junho já tenho os primeiros. Ali tomates, pepinos. Na época vou fazer conservas, levo tudo para vocês, só guardo uns frascos para mim.

Olhei para Pedro. Estava perplexo como eu.

Mamã, fizeste isto tudo sozinha? ele gesticulou, admirado.
Quem mais? riu-se, leve e jovial. Tenho mãos, tenho cabeça, e as vizinhas ajudam quando preciso. Aqui as pessoas são outra coisa, nada como em Lisboa.

Levou-nos à casa. Lá dentro, cortinados novos, janelas reluzentes, toalha bordada na mesa. O cheiro a mofo acabou; estava a saber a bolos e ervas frescas.

Veja lá pôs na mesa um jarro de leite, embrulho em papel manteiga. A Dona Zina ofereceu-me, mora ali ao lado. Leite de cabra, e carne de vaca criada cá. Levem tudo, ainda tenho requeijão e natas.

Fiquei a olhar para a carne. Criada ali. Sem cobranças, sem reclamações sobre o talho da Dona Fernanda.

Dona Fernanda… está mesmo feliz aqui?

Ela sentou-se no banco e, pela primeira vez, vi um brilho suave no seu olhar.

Matilde, toda a vida desejei isto. Casa, terreno, mãos cheias de terra, cabeça livre. Em Lisboa sufocava, sem perceber porquê. Aqui…

Fez um gesto largo para a janela.

Aqui vivo.

Na volta, ia tudo em silêncio. Pedro guiava, atrás tilintava o leite e o requeijão.

Olha avançou ele agora até podíamos pensar em filhos. Já temos onde os deixar no verão.

Ri-me, mas sorri.

Sabe, eu quis vender isto. No primeiro dia. Achei que era só um estorvo.
Eu sei.
Mas esta quinta… parei uns segundos. Corrigiu tudo. Entre mim e a tua mãe. Em dois meses, fez o que não consegui em três anos.

Pedro parou no semáforo e virou para mim.

A mãe estava só infeliz. Agora não está.

Assenti. Lá fora, as luzes de Lisboa acendiam-se. A nossa casa ficou à espera, com as fotos do casamento, e, pela primeira vez em três anos, voltar para lá parecia leve.

Temos de ir mais vezes à quinta disse, baixinho.

E até me surpreendi: era dito com sinceridade. Daquela genuína.

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