O Quintal do Pai
Foi num daqueles momentos totalmente inesperados que Olívia descobriu que a sua quinta com o pai tinha sido vendida. Estava a ligar para a mãe de um posto dos CTT, noutro concelho, e pimba: aparição súbita de uma terceira voz na linha, como só acontece em filme antigo. Um erro cósmico, talvez obra da telefonista, que sem querer juntou Olívia à chamada entre duas outras pessoas. Dois concelhos, duas pessoas, e entre elas, a notícia mais importante: já não havia quinta, o pai vendeu bem e agora até podia ajudar um bocadinho a Olívia com algum dinheiro!
A mãe de Olívia e a sua tia Inês, vozes familiares e tão próximas, mesmo a cento e vinte quilómetros, atravessando fios e sinais elétricos. Física nunca foi o forte de Olívia; o pai bem tentava obrigá-la a estudar.
***
Pai, porque é que o sol de setembro é sempre assim?
Assim como, Olívia?
Sei lá não sei explicar. A luz parece mais suave. Está bom tempo mas não é aquele brilho agressivo de agosto.
Tens de estudar física! Em setembro a posição dos astros é outra. Apanha o maçã! O pai riu e atirou-lhe uma maçã enorme, avermelhada, brilhante e cheirosa a mel.
Reineta?
Nada disso! Ainda estão verdes. Esta é Malápio, das listas castanhas.
Trincou a maçã e quase rebenta de doçura; a boca cheia daquela espuma branca que guardou o verão. Maçãs, tal como a física, não eram o ponto forte de Olívia. E isso tornava-se um problema! Afinal, Olívia da Silva, oitava ano, estava num estado de encantamento pelo professor de física há já dois anos. Parecia que o mundo parava e as leis físicas fugiam dos limites dos cadernos de capa preta. O pai ele já sabia tudo só pelos olhos ausentes e o apetite de passarinho da filha. Olívia tinha contado, ainda no ano passado. Chorou a noite inteira no colo do pai, como se fosse criança. A mãe estava no balneário de termas, a irmã mais velha estudava em Lisboa.
Na quinta, o pai ficava outro homem; assobiava melodias, todo contente, coisa que nunca fazia em casa. Lá, em casa, era sempre a mãe e a irmã a dar música. A mãe era um monumento: alta, elegante, bibliotecária dos militares, com aquela cabeleira ruiva pintada com henna. Uma vez por mês, saía da casa de banho com um turbante gigante, cheiro a ervas e chuva. Repare-se: a beleza da mãe não passava despercebida. O pai era mais baixinho, quase dez anos mais velho, discreto. A mãe uma vez disse:
O nosso Jorge é discreto. Mas um homem não tem que ser bonito.
Discreto ao lado da cabeleira flamejante e da energia incontrolável da mãe, com pratos a voar e feitio difícil. A mãe gostava de conforto e ordem. Tinha de habituar-se a receber os “soldados” como o pai chamava aos antigos colegas da tropa que às vezes dormiam no chão da sala minúscula. Enquanto esteve na tropa, o pai costumava acolher quem precisasse. Os soldados do pai! Em 1960, apanhou a grande limpeza de tropas decretada e saiu como major. Depois foi mecânico-chefe do telégrafo em Évora. Foram esses soldados que ajudaram o pai a construir a quinta; trabalhavam só pelo convívio. A casinha simples tinha uma varanda por cima, onde Olívia adorava ler; o pai subia com taças de groselhas ou morangos. Era felicidade pura.
A mãe detestava a quinta, ia lá pouco, poupava as mãos; tão lindas, cuidadas, unhas grandes. Olívia admirava-as e o pai beijava-as:
Mãos assim só para entregar livros, não para mexer na terra dizia ele, a piscar o olho e rir
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As primeiras gotas de chuva de setembro tocaram animadas na varanda. Olívia fechou o livro.
Olívia, desce. A mãe e a Inês chegam daqui a nada, é preciso preparar o almoço a voz do pai soava diferente ali na quinta.
Mas Olívia demorava-se, cabeça para cima a espreitar o céu inchado, cinzento mas sereno. Sentiu o rosto molhado, abraçou-se para se aquecer. Só ali na varanda tão perto do céu que se sentiam os feixes de luz a furar as nuvens todas as fórmulas de física eram esquecidas. No primeiro ano de Jornalismo, já em Lisboa, a vida tornou-se outra coisa.
Olívia ficou logo no alojamento estudantil, mas a primeira semana de setembro teve de viver num quarto alugado, com a dona da casa, dividindo o apartamento com outros estudantes. Nas aulas, mergulhava a fundo na literatura e no idioma. Professores tão carismáticos que toda a turma se apaixona. Depois das aulas, batia uma saudade escura da casa ainda não tinha amigos.
Comia pouco na cantina, andava sem rumo pelas ruas. A beleza da cidade grande era estranha, deixava-a gelada e solitária. Tão só, parecia que não era ela a descer a Rua dos Ferreiros junto à faculdade, pelas travessas mal iluminadas, não ela a tropeçar nos sapatos apertados e novos.
Na cozinha, aquele cheiro às maçãs do pai, que ele levara à dona da casa como agradecimento. Cheiro doce, quase a apodrecer, que fazia Olívia engolir lágrimas e sentir a alma remexer.
No alojamento, tinha como colegas dares estudantes alemãs Viola, Maggie, Marion. Até lhe dava dores de cabeça só de ouvir alemão à noite; saía para arejar no pátio, onde fumavam. As alemãs pediam-lhe cigarros e depois devolviam sempre o dinheiro, o que espantava as portuguesas. Já as estrangeiras adoravam os pickles da mãe de Olívia, sobretudo os tomates, que devoravam com batatas fritas. Ficando sem provisões, Olívia via-as sacar das salsichas coisas com as quais só se sonhava cá mas nunca ofereciam! Em maio, quando acabavam o estágio e voltavam para a Alemanha, largavam ao pé do lixo montes de botas de inverno, que compravam para sobreviver ao frio português (qual frio…). As portuguesas rapinavam tudo em segredo.
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Olívia, vai ralando a couve que eu trato das cenouras. O caldo já ferve!
Na cozinha pequena, as janelas pingavam vapor do caldo a cozer. Um grande repolho verde parecia rendilhado de folhas na tábua. Olívia trincou uma folha sempre bom, o sabor da terra. Dizia ela, animada, cortando cenouras em modo maluco, o perfume enchia o ar. Abriu a janela, entrou cheiro a folha molhada, fogueira e maçã. Via o pai de costas, a pá a enterrar-se na terra devagar; sabia que ele tinha dores nas costas. Largou a faca, correu ao jardim e abraçou-o por trás. Ele voltou-se sem dizer nada, apertou-a e beijou-lhe o alto da cabeça.
A irmã Inês, nesse dia, veio sozinha, porque a mãe ficou de cama com dor de cabeça.
***
Depois disso vieram: faculdade, casamento estudantil, o início no jornal “O Inovador” da fábrica de aviões, o primeiro enfarte do pai, o nascimento da filha e até o divórcio. Em cinco anos, aconteceu de tudo. O marido de Olívia fugiu com outra e ficou ela, sozinha, com a pequena Mariana de dois anos num apartamento alugado. O pai ia de quinze em quinze dias, levava compras e entretinha a neta.
Olívia, não te zangues com a mãe, ela não pode viajar tanto como eu. Fica sempre enjoada de carro E olha, acho que ela até tem um namorado novo
Pai! Já não têm idade para essas coisas
O pai riu, mas foi um riso triste. Ficou em silêncio. Olívia viu nesse instante, com um nó no estômago, que ele estava completamente grisalho e acabrunhado. Deixou até de assobiar.
Pai, porque é que não tiras férias comigo, já na segunda? Vamos os três para a quinta enquanto ainda está calor?
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A quinta estava semeada de folhas, última semana quente de outubro, quase verão de São Martinho. Acenderam o fogão, prepararam chá com folhas de groselha; Olívia fritava tortas à pressa. O pai reunia folhas, Mariana ajudava, depois espalhava-as de novo, aos gritos de riso. O óleo chiava e saltava. Lá do pomar vinha o assobiar do pai.
À noite, fizeram uma fogueira. A rua vazia, quintas vizinhas caladas. O pai espetava pedaços de pão em varas de cerejeira, ajudava Mariana a tostar no lume. Olívia aquecia as mãos; o fogo sempre a fascinara.
Recordou o primeiro grupo de estudantes em Trás-os-Montes, canções à viola, o embalo daquela paixão por tudo, até sem objecto de amor só a paixão pelo infinito de noite estrelada, silêncio esmagador do campo, acordes trocados, caras diferentes. Cada rosto ao lume tinha seu segredo. Foi lá que conheceu o futuro marido. E, nessa semana, em reunião de partido no emprego, propuseram Olívia para comunista. Passou a noite a decorar estatutos, teses. Depois vieram as perguntas sobre o divórcio, quem era culpado, onde faltou estabilidade Olívia atrapalhou-se, quase chorou. Um colega intercedeu, levantando-se a gaguejar:
Isto parece uma assembleia de energúmenos, não de camaradas!
Anos depois ia, claro, rir-se disto tudo.
Quando caiu a noite, apagaram a fogueira. Ouviu-se um carro à porta porta a bater alto. A mãe! Linda, de sobretudo em tons vivos, vinda directamente do trabalho, trazida por um colega. Mariana correu a abraçá-la; o pai franziu o sobrolho e deu-lhe um beijo tenso.
Quem é esse colega?
Ó Jorge, que importa, só deu boleia. Nem deves conhecer
Ao jantar, a conversa tropeçava, Mariana já birrenta, a mãe a perguntar da vida de Olívia enquanto pensava noutra coisa qualquer. O pai só olhava para a mãe, cada vez mais calado e de ombros caídos. A noite perdeu-se…
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Um ano depois, o pai partiu. Infarte fulminante, levou-o em dois dias, logo no início de outubro de sol e calor. Depois do funeral, Olívia tirou férias, foi para a quinta. A Mariana ficou com a sogra.
Tudo lhe caía das mãos. Nunca houve tantas maçãs! Olívia distribuía baldes às vizinhas, fazia compotas por tachadas, como o pai gostava, com hortelã e canela. Veio ajudar um amigo antigo do pai, colega de idas ao viveiro em Mafra buscar mudas.
Fico uns dias, Olívia, trato da horta, podo as árvores, se não te importas.
Ó Ivan Oliveira, ora essa obrigado!
O “Olívia” dito por Ivan quase fê-la desabar, sentiu pela primeira vez aquela dor insuportável de saber: nada voltaria. Antes, parecia que o pai ia aparecer, que tudo era um pesadelo. Nos primeiros dias, entre sono e vigília de manhã cedo, Olívia não conseguia lembrar logo porque tinha aquele peso no peito bastava acordar bem que vinha em onda negra: o pai não estava.
Depois caiu-lhe a culpa, de não o conseguir segurar cá mais tempo.
Olha, não vendas a quinta, venho sempre que puder ajudar. Sabes Olívia, a Reineta que ali está foi comigo e o teu pai que a escolhemos na estrada para Mafra, tu ainda eras pequena. Ele falava sempre mais de ti do que da irmã, achava-te divertida, perspicaz. Gostava de ver as mudas com calma, irritava-me a demora
O Ivan ficou três dias, lavrou, podou, adubou; antes de sair, plantou três tufos de crisântemos amarelos à porta.
Deveriam ser plantadas antes, mas este outono está quente, vão pegar! Em memória de Jorge As roseiras cuido delas para a próxima.
Despediram-se, Morreu a chuva. Olívia ficou à porta, olhando Ivan a afastar-se. Ele virou-se, acenando: anda para dentro! A chuva batia firme no telhado, o vento fechou a porta com estalido, o chão coberto de pétalas amarelas. Aquilo era tudo do pai e seria sempre. A chuva, os frutos, os cheiros, a terra. Ele estava ali, de algum modo, e ficaria. Olívia aprenderia tudo. Continuaria a vir, com Mariana, até ao frio. Só duas horas de autocarro. E na primavera, quando derretesse a neve, tentaria pôr aquecimento. Era preciso poupar uns euros. E também, na primavera, bem que queria ir ao viveiro de Mafra com Ivan, comprar groselhas brancas o pai sempre quis
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Seis meses depois, em abril, quando ainda havia neve, a quinta foi vendida. Olívia soube por acaso, pelo telefone dos CTT, quando ligava de regresso de Mafra. Na cabine apertada, no chão, um saco com raíz embrulhada num velho camisolinha húmida: o tal pé de groselha branca.







