“A Babá do Irmão: Quando a Responsabilidade Familiar Bate à Porta — O Conflito entre Ajuda aos Pais,…

Ama para o irmão

O que se passa, Margarida? Ainda não responde?

Não responde! Margarida atirou o telemóvel para cima da bancada. Não responde desde as seis da tarde! Por causa dela não fui à casa da mãe Tenho que cozinhar aqui, lá em casa também, e o Simão ficou sem ninguém Criámos uma ajudante para isto!

Nesse momento, ouviu-se o estalido da porta.

Ah, ainda não foram dormir? exclamou Beatriz por cima do ombro, sem tirar os auscultadores, dirigindo-se sem olhar para os pais para o seu quarto.

Mas a mãe não a deixou escapar assim.

Beatriz! Pára já aí! o grito da mãe fez Beatriz parar, mas nem sequer se virou. Onde é que vais? Sabes a que horas são? Estás atrasada… quanto? Seis horas! Não tens nada para me explicar?

Beatriz retirou os auscultadores com um suspiro.

Qual é a fita agora?

Tu prometeste! lamentou Margarida Disseste que ias ficar com o Simão!

Beatriz, que só queria atirar-se para a cama e apagar, murmurou:

Olha, não deu. Ninguém morreu. Tu estavas em casa.

Eu avisei-te há uma semana que hoje tinhas de ficar com o teu irmão! O teu pai faz turno da noite, não chega a tempo, eu tinha que ir à mãe. Não tens pena do teu irmão, nem da tua avó! Nem da tua mãe, já agora!

A verdade é que Beatriz não conseguiu. Ficou a conversar com os colegas, depois o Tiago sugeriu que fossem todos para casa dele curtir Quando deu por si, já era tardíssimo. Perdeu-se nas horas.

Assim Beatriz se desculpava, pelo menos para si própria.

Porque o telemóvel não ficou sem bateria, ela desligou-o de propósito.

Prometi, mãe, mas depois as coisas mudaram.

Deixa-me cheirar-te, aproximou-se a mãe.

Então, isto é uma prisão agora? ironizou Beatriz.

Bebeste, confirmou a mãe, As festas são mais importantes do que a família.

E Beatriz explodiu.

Pois são! Eu não sou vossa ama e não vou ficar mais com o Simão. Façam isso vocês! Resolveram ter outro filho à beira da reforma, aproveitem. Eu tenho a minha vida.

O pai, que nunca tinha gritado com Beatriz, nem ralhado, ouviu tudo e decidiu intervir.

Não te estamos a fazer de ama. Raramente te pedimos nada! Mas hoje era mesmo importante e tu prometeste Beatriz, estás seis horas atrasada. Desligaste o telemóvel. E atiras tudo para cima de nós?

Não atiro nada, mas o Simão é vosso. Fui sair com amigos, todos foram, ia ser eu a pior?

Sempre tentaram não encher Beatriz de tarefas domésticas. Ainda há pouco tempo era estudante de liceu; agora andava numa faculdade prestigiada e um curso difícil. Os pais sabiam e tinham pena.

Mas Beatriz não sentia muita pena de ninguém.

Achas, filha? exclamou a mãe Por tua causa não fui à tua avó. Não se consegue mexer muito, nem cozinhar! Não é fácil andar sempre a correr entre um miúdo de três anos e uma mãe doente!

Beatriz, a desfazer o penteado complicado que uma colega lhe tinha feito, atirou friamente:

A responsabilidade é tua, mãe. Fostes tu que quiseste outro filho. Ocupa-te. Eu não vos devo nada.

Soou tão cruel, que até o pai estremeceu.

Beatriz, agora já chega!

Porquê? Ando a estudar. Preciso de estar com pessoas da minha idade. Fazer amigos. Procurar companhia para o futuro, sei lá! Não ficar presa em casa com o vosso filho!

O pai puxou uma cadeira, sentou Beatriz.

Fica sentada, filha Ouve-me. Ninguém te pediu para seres ama a tempo inteiro. Só que ajudasses, como irmã, em família. Só isso, tu disseste que sim.

Beatriz, sem vontade de recuar, respondeu áspera:

Disse, mas agora já não quero. A vida muda os planos.

A vida muda, mas foste tu que mudaste o teu, sem avisar. Eu percebo que estudes. Que tenhas amigos. Mas, filha, fazes parte desta família. Ninguém te prende aqui. Só que todos precisamos de ajuda às vezes. Não podias, ao menos, ficar com o Simão umas horas por semana para irmos ao médico, ou, como ontem, ver a avó?

Beatriz nem deixou o pai acabar. Riu-se, atirou a cabeça para trás, e os ganchos do cabelo caíram ao chão.

Não.

Porquê?

Porque não é a minha responsabilidade, pai. Não tenho de renunciar à minha vida pelas vossas escolhas.

Por dentro, Beatriz preparava-se para uma discussão monumental. Achava que os pais iam voar em cima dela

Muito bem, surpreendente calma do pai Ouvi-te.

Hem. Ouviu? Mas onde estavam os gritos? O drama? O telemóvel confiscado? E aquela velha ameaça de quando morrermos vens chorar de remorsos?

Então, fica assim? perguntou Beatriz.

Fica. Hoje, por mim, está fechado.

Beatriz, confusa por ser tão fácil, correu para a casa de banho tirar a maquilhagem e, depois, dormir, dormir, dormir. O dia foi cansativo, e ainda levou com os pais em cima!

Os pais, no quarto, continuaram à conversa.

Rui, como é possível ela ser tão fria? agora já triste, Margarida desabafou Demos-lhe tudo, criámos normal. Não fomos maus pais. E parece que não gosta nada de nós E agora? Vamos implorar para ela ficar com o irmão, se for preciso?

Não, Rui abanou a cabeça Implorar, nunca. Se ela acha que não nos deve nada, então nós a ela também não devemos nada. Pelo menos até perceber o que é realmente uma vida independente.

***

O dia seguinte não começou com café, mas com a sensação estranha de que a discussão não tinha acabado.

Beatriz foi a primeira a entrar na cozinha. Bebeu água. Petiscou umas sandes mal amanhadas guardadas no frigorífico da noite anterior. Quando a mãe chegou, trazendo o Simão, Beatriz pegou logo no telemóvel, para não levar mais sermões. Mas a mãe tomou o pequeno-almoço em silêncio. Depois veio o pai e até cumprimentou:

Bom dia, atirou ao ar, para Beatriz.

Uau, ainda falam comigo, ironizou ela.

O pai tirou um dossier, onde estavam apontadas receitas e despesas da família.

Beatriz, quero falar contigo.

Ela revirou os olhos.

Novamente a conversa da responsabilidade? Já disse que não

Não, não é isso, interrompeu-o, Bem, também é, mas sobretudo é sobre dinheiro. A partir deste mês, queremos que contribuas para a comida e as contas da casa. Ou seja, a tua parte das despesas.

Beatriz sorriu, pensando ser uma piada paterna, o castigo matinal pelo que lhes tinha feito à noite. Afinal, equilíbrio.

Boa, pai. Não tens graça nenhuma. Não vou cair nisso.

Só que Rui já tinha tudo estudado durante a noite.

Não estou a brincar, Beatriz. A partir de agora, como adulta, começas a pagar as tuas despesas. Todas.

Até o Simão, que lambuzava o pão pela mesa, olhou espantado para o pai. Ainda não percebia bem aquelas contas todas, mas o tom assustava-o.

O quê? soprou Beatriz.

Disseste que nada nos devias. Muito bem. Já não dependes de nós para a vida. Este mês começas a pagar comida, luz, água e, principalmente, a universidade.

Então Beatriz percebeu não era brincadeira, estavam mesmo magoados.

Pai, ouve bem: não querem dar de comer à filha, mas a universidade é sagrada. Nem tu aguentas não pagar; conheço-te.

Aguento sim, respondeu, Já fazes dezanove. És adulta. Adultos pagam as próprias coisas. Sempre te dissemos que te apoiávamos enquanto estudasses e vivesses connosco, mas com respeito e alguma ajuda à família. Recusaste ajudar, recusaste o nosso apoio. Em tudo.

Margarida fitou o marido Não estaremos a exagerar?

Beatriz, com um pedaço de queijo na mão, atirou-o ao prato, levantou-se de rompante e disparou:

Acho que já nem tenho apetite! Não vá eu ficar cheia de dívidas, não é!

O resto comeram os três. Beatriz vestiu-se barulhentamente, saiu para a faculdade aulas ainda estavam pagas.

Não exagerámos? murmurou Margarida.

Rui mordeu o queijo, mesmo sem vontade.

Mas respondeu seco:

No ponto certo, Margarida. Se ninguém deve nada a ninguém, então é adulta, que pague. Dói, mas é preciso. Ou bem que aprende agora, ou vai deixar que outros façam tudo por ela.

Agora, Beatriz quase não se cruzava com os pais. Saía cedo, voltava tarde. Já nem jantava em casa. Margarida, mesmo proibida por Rui, arriscou perguntar se a filha estava a comer, ao que Beatriz lançou aquele olhar magoado e seguiu caminho.

Arranjou trabalho num café. Um dia substituiu uma amiga, que acabou por sair, e Beatriz ficou a servir às mesas quatro horas por dia, depois das aulas pelo menos assim tinha dinheiro.

Os pais, preocupados, mantinham-se firmes.

Outra vez sem jantar, Rui. E se está a passar fome? Educar é importante, mas a rapariga ainda se faz mal a ela própria

Que passe. Vai perceber que família é entreajuda, vai ver. Está só a mostrar orgulho.

Ao terceiro mês de silêncio, Beatriz entregou-se:

Pronto, podem dar-se por satisfeitos. Não dá para sair das aulas e ainda aturar clientes, aquilo paga misérias Aceito ficar com o Simão. Duas ou três vezes por semana, três horas. Faço disso o meu trabalho aqui em casa. Ganharam. E aqui está o dinheiro que consegui juntar para a renda.

Pousou cem euros na mesa. Não dava para mais. Os pais recusaram o dinheiro.

Beatriz nunca quisemos magoar-te. Não é chantagem dizia a mãe Cuidámos de ti não porque a lei obriga, mas porque te amamos. Só queremos que retribuas, nem que seja com atenção.

Percebi desculpem-me lá, e, pela primeira vez, Beatriz abraçou os pais.

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