A amiga do meu marido vivia a pedir-lhe favores, até que precisei intervir: como finalmente pus limi…

Ó Gonçalo, por amor de Deus! A sério, não sei o que fazer, a água está a jorrar por todo o lado, vou inundar a vizinha de baixo, aquela víbora, sabes bem! Ela ainda me põe no olho da rua! Estou a tremer tanto que nem encontro a torneira! A voz do outro lado do telefone era tão aguda e dramática que a Leonor, mesmo sentada do outro lado da mesa, sem o altavoz ligado, ouviu perfeitamente.

Leonor pousou o garfo no prato devagar. O tilintar do metal na porcelana ecoou pela cozinha como um gongo a anunciar o início de mais um round luta esta que ela travava há já três anos. À sua frente, o marido, Gonçalo, mordia o lábio, dividindo a atenção entre o assado caseiro, que arrefecia a olhos vistos, e o ecrã iluminado do telemóvel.

Calma, Matilde murmurava ele ao telemóvel Qual torneira? Debaixo do lava-loiça ou atrás do autoclismo? Fecha a geral, pá.

Não faço ideia onde fica! Gonçalo, vai lá, imploro! Estou cheia de medo! E se aquilo é água a ferver? Estou sozinha, estou a entrar em pânico!

Gonçalo olhou para a Leonor. No seu olhar via-se bem a mistura de súplica e derrota que já se tornara rotina.

Leo, estás a ouvir, não estás? Aquilo vai inundar, pá. A Matilde é um zero à esquerda com estas coisas, mais perdida que uma pomba na autoestrada. Tenho de ir.

Claro, tens de ir disse Leonor, com toda a calma, engolindo o turbilhão por dentro. Afinal, hoje nem é o nosso aniversário de casamento, nem planeámos este jantar há semanas, nem andei três horas à volta dos tachos. Vai, Gonçalo. Salva a Matilde. Ficava mesmo perdida sem ti, coitada.

Não comeces, pá! saltou o Gonçalo, num ápice com as chaves do carro na mão. Somos amigos crescidos, alguém em apuros. Eu vou lá, troco a junta, volto já. Põe o assado no forno, não deixes arrefecer.

Estrepolinou a porta e Leonor ficou sozinha no apartamento, perfumado de jantar festivo e com aquele travinho agridoce de deceção. Espreitou pela janela e viu o carro do marido acelerar e desaparecer pela noite lisboeta.

Matilde. Aquele nome tornara-se o terceiro elemento no casamento deles. Amiga de infância, colega de liceu, ganda maluca já a tinha ouvido descrever de todas as maneiras. Tão depressa se divorciou, Matilde apareceu subitamente e fixou-se ali, entre eles. Inicialmente eram pedidos inocentes: mudar o router, ir buscar móveis à casa da mãe. Gonçalo, alma boa e sempre pronto a salvar o mundo, fazia tudo sem pestanejar.

Mas o apetite faz o monge e logo a Matilde desatou a pedir mais. Um dia era o carro parado em plena Ponte 25 de Abril, no outro uma estante caída, ora era um armário novo porque as camisolas estão uma confusão, nem dá para viver assim!. Sempre que grande coincidência em ocasiões em que Leonor e Gonçalo tinham planos a dois.

Leonor não era ciumenta de ataques até achava graça à louca de Matilde. Mas havia aquele sexto sentido de mulher, a sussurrar-lhe que aquilo já nada tinha a ver com canalizações avariadas. Matilde era vistosa, bem tratada, com um olhar de gata e um talento invulgar para conversar com os homens como se estivessem num altar ela, a sacerdotisa, em perigo mortal. Jogava a cartada da menina desamparada como ninguém, e Gonçalo caía que nem patinho, todo inchado como cavalheiro de armadura branca.

Apetite para jantar? Passou num estalo. Arrumou a comida no frigorífico e deixou-se estar, escutando os ponteiros. Gonçalo só chegou quase três horas depois, sujo, com ar destruído, mas satisfeito.

Bolas, salvei aquilo por um triz! Estava quase em inundação declarada. O sifão saltou. Fui a correr ao AKI buscar material. A Matilde estava com um fanico, tive de lhe dar chá de camomila.

Ao menos ofereceu chá ao bombeiro? perguntou Leonor secamente, folheando um livro.

Deu, sim senhora! E até fez tarte de maçã. Mandou cumprimentos e desculpas por estragar a noite.

Tarte de maçã, pensou Leonor. Com água a jorrar, mas a tarte não queimou. Muito interessante.

Calou-se. Barracos não serviam de nada Gonçalo saltava logo para a defensiva, acusando-a de insensibilidade e ciúmes infundados. Era preciso agir com mais jeito. Na próxima vez, ela já sabia: ia com ele.

Não demorou muito. Sábado de manhã, tudo preparado para um passeio ao Alentejo sol de maio, pimentos e bifanas alinhados no porta-bagagens, e Leonor já se via, de copo de vinho na mão na varanda.

Toca o telemóvel de Gonçalo enquanto ele atirava o carvão para o carro. Leonor afinou logo as antenas: aquele toque especial Matilde.

Sim, Matilde? O quê? Está a deitar faísca? Muito? Cheira a queimado? Não toques em nada, corta a luz do quadro, rápido! Estou a caminho.

Desliga e olha para Leonor, que já carregava as petúnias.

Pá, é daquelas começou Gonçalo.

Tomada? atalhou ela.

Pior. O quadro está a deitar faíscas e um cheiro a plástico. Ela acha que vai pegar fogo à casa. Electricistas ao sábado nem vê-los e os privados só vão lá depois de nos comerem vivos à conta.

Ok, Leonor pousou as flores no chão. Portanto cancelamos o passeio?

Não! Só damos um saltinho a casa dela, vejo o problema, se for grave chamo a EDP, se for só um fiozito arranjo eu. É quase a caminho! Uma horita, máximo.

Está bem. Vou contigo.

Gonçalo ficou em estado de choque.

Para quê? Nem percebes nada de electricidade. Fica sossegadinha, eu já volto.

Não, Gonçalo. Vamos os dois. Vamos à Matilde, resolves e seguimos. Não fico aqui feita amélia. Já agora, quero ver a Matilde, já não a vejo há bué.

Sem espaço para protestos, lá foram. Gonçalo, todo tenso ao volante, batucava nervosamente no tablier. Leonor estava serena exteriormente. Por dentro, mais nervos que um tacho de arroz queimado.

Matilde recebeu-os num robe de seda, daqueles envergonhadamente curtos, e maquilhagem irrepreensível. Ao ver Leonor sair do carro, tremeu-lhe o sorriso. Frustração nos olhos, boca semi-torta, mas rapidamente puxou a pose.

Leozinha! Que surpresa! Eu toda descabelada, de robe, assustada! Entrem, entrem. Gonçalinho, salva-me, bora lá que o quadro faz barulhos!

Entraram. Cheirava a plástico queimado, mas, digamos nada de Londres em chamas. Gonçalo foi logo para o quadro, já com a chave de fendas à mão.

Leo, não fiques aí, vem à cozinha beber um café, deixa os homens tratar disto chilreou Matilde, tentando despachar Leonor.

Prefiro ficar aqui, às vezes é preciso segurar uma lanterna, nunca se sabe.

Lanterna? desatou Matilde a rir. Gonçalinho é um ás, nem precisa de luz nenhuma! Não é, Gonçalo?

Gonçalo metido nos fios, resmungou qualquer coisa.

Ó Matilde, e porque não ligaste para o condomínio? Têm piquete de emergência.

Achas? Aqueles tratam-me mal, vêm cá todos sujos, deixam pegadas! O Gonçalinho é de confiança, mãos de ouro. Só nele confio.

Pois, as mãos de ouro do meu marido hoje deviam estar a fazer espetadas no Alentejo. Era esse o plano.

Mil perdões, estrago sempre tudo! encenou a Matilde. Viver sozinha é horrível, Leo Tu és uma sortuda, tens sempre quem te proteja.

Quinze minutos depois, Gonçalo acabou.

Foi só um fio solto, desencaixei e reapertei. Mas tens de mudar o disjuntor, está velho.

Gonçalinho, querido, podes tratar disso? Compras o que for preciso e mudas tu, sim?

Não vai dar Leonor apressou-se Vamos de viagem e só voltamos tarde. Fim-de-semana que vem, teatro. Liga a um electricista, Gonçalo escreve-te a referência num papel.

Os olhos de Matilde assassinaram Leonor, mas dirigiu-se logo a Gonçalo:

Ao menos bebam um café! Trouxe uns pastéis de nata.

Obrigada, estamos cheios Leonor pegou no marido pelo braço. Bora, Gonçalo. Temos horários.

Já na rua, Gonçalo respirou fundo mas tentou defender a amiga:

Foste seca de mais, Leo. Ela pediu de coração!

Coração ela tem, mas olha que o que precisa mesmo é de plateia. Aqueles robes, aquele olhar Ela quer é atenção, não canalizações.

Bah, deixas-te disso! Somos amigos desde a primária, sou um irmão para ela!

Ah pois, irmão desenrascado: eletricista, psicólogo e com dores de costas, de tanto carregar móveis, aposto.

Foram ao Alentejo, mas Leonor sabia: estava longe de acabar. Matilde não desiste fácil.

Duas semanas depois, finalmente o gran finale. Gonçalo estava em trabalho pelo Porto, devia chegar na sexta ao fim do dia. Leonor punha a mesa para o jantar romântico, toda contente. Às seis, o telefone toca.

Leo, vou chegar mais tarde, já estou a entrar em Lisboa, mas a Matilde ligou está em apuros.

O quê agora? Veio aí um meteorito?

Não, comprou um varão daqueles pesados para as cortinas, tentou pô-lo sozinha (enfim) e deixou-lhe cair no pé. Está a chorar baba e ranho. E o varão bloqueia a sala toda. Pede para eu ir lá pôr o varão e comprar pomada. Eu vou e volto já.

Leonor respirou fundo.

Gonçalo, faz assim: vai para casa. Vou eu a casa da Matilde.

TU? Para quê?

Porque sou mulher e escolho melhor a pomada. E ajudo-a com o pé. Tu estás cansado da viagem. Vai para casa, aquece o jantar. Eu trato disso em meia hora.

Pronto mas não te pegues com ela, sim? Está a sofrer.

Leonor desligou. Lançou-se ao computador: pesquisa Marido de Aluguer Lisboa, escolheu o mais robusto, serviço cinco estrelas, e marcou. Depois pediu pomada e ligadura à farmácia com entrega. Saiu.

Quando chegou ao prédio, apanhou o estafeta das mezinhas a tocar à porta de Matilde. Subiu. A porta estava destrancada Matilde devia querer entrada triunfal do salvador. Leonor entrou sem cerimónias.

Na sala, luz baixa, velas acesas, vinho no balde, dois copos na mesa. Matilde deitada no sofá, com o tal robe e um ar trágico no rosto. O varão de cortina, no chão, mas mais parecia ali pousado que em cenário de acidente.

Ao ouvir passos, Matilde suspirou dramaticamente:

Gonçalo? Trouxeste a pomada? Entra, anda cá

Leonor acendeu a luz. A cena perdeu imediatamente o ar novelesco.

Matilde quase saltou do sofá, qualquer dor evaporada.

Leonor?! O que é que fazes aqui? Onde está o Gonçalo?

O Gonçalo está em casa, a descansar do Porto. Trouxe-te pomada e ajuda.

Ajuda?! Preciso do Gonçalo! Ele é forte, mete o varão no sítio!

O varão mete o profissional disse Leonor.

Soou à campainha. Leonor abriu a porta. Ali estava, em toda a sua glória, um senhor da manutenção, de fato-macaco e estojo de ferramentas.

Marcaram-me para pôr um varão de cortina?

Força, senhor. Está ali. A dona vai indicar sorriu Leonor.

O homem entrou, examinou, sacou o berbequim.

Preciso de escadote e buchas. Trate disso, por favor.

Matilde corou como um tomate. Olhou com ódio para Leonor.

Tu fizeste isto de propósito? sussurrou, tentando abafar o som do berbequim.

Eu? Só vim ajudar. Tens mestre, tens remédio. Não te preocupes, fica tudo pago. O Gonçalo agora tem a agenda cheia e a família em prioridade. Ou precisavas mesmo do meu marido?

Matilde pôs-se de pé, firme.

Vai-te embora! Julgas-te muito esperta! O Gonçalo cedo ou tarde cansa-se dessas tuas regras, ele quer é diversão, não uma chata de serviço!

Talvez. Mas volta sempre para mim. E tu ficas a inventar dramas para lhe roubar tempo de vida, só para te sentires o centro das atenções. Não achas que já chega? Até és bem jeitosa, arranja um single e larga a asa dos casados.

Rua! berrou Matilde.

O técnico acaba em vinte minutos. Tudo pago. Melhora esse pé, que para quem diz que não anda, mexe-se depressa.

Leonor saiu a sentir-se leve, leve. Tinha resolvido sem gritaria, sem dramas. Apenas pôs as cartas em cima da mesa.

Chegou a casa, Gonçalo veio logo ansioso:

E então? Magoo-se a sério? Eu liguei, ela não atendeu.

Sentaram-se. Leonor serviu chá e olhou-o de frente.

O pé está óptimo. E o varão já está no sítio. Mandei um técnico. E tu, marido, precisas de descanso e de aprender a reconhecer o velho conto do menino perdido.

Um técnico? Mas eu podia

Gonçalo, senta-te. E ouve com atenção: nunca reparaste nas velas, no vinho, no robe, nos convites só por acaso sempre nos nossos dias? Por favor

O vermelho subiu-lhe ao rosto. Desfez um pedaço de pão sem olhar.

Eu talvez mas não queria acreditar. Somos amigos, custava-me dizer que não. Fiquei a fazer de conta

Pois é. E enquanto fazias de conta, roubavas tempo nosso para lhe massajares o ego. Hoje vi tudo. Ela só estava à tua espera.

Desculpa. Fui burro.

Um bocadinho sorriu Leonor mas és um burro querido. E olha, a partir de hoje, a Matilde tem o contacto do Marido de Aluguer. Se se sentir sozinha, que chateie outra pessoa. Tu não és bombeiro particular. Combinado?

Combinado! Obrigado, Leo. Salvaste-me. Juro. Se eu vejo aquelas velas

Nunca mais Matilde ligou. Orgulho ferido, talvez ou porque alguém finalmente lhe pendurava as cortinas (e não só) em regime legal.

Uns meses mais tarde, Leonor cruzou-se com Matilde no Colombo de braço dado com um sujeito de fato, sacos de lojas caras, um sorriso no rosto. Trocaram olhares: Matilde ergueu o nariz, bufou e fingiu não reconhecer.

Leonor só sorriu. Por fim alguém lhe trocava a junta do autoclismo sem segundas intenções. E Leonor e Gonçalo? Agora só as urgências domésticas deles interrompem jantares. Já ninguém toca à campainha por um cano partido.

Hoje, Leonor saboreia tranquilamente o chá com o Gonçalo, fazem planos sem sobressaltos, e sabe que, para proteger o lar, às vezes basta mostrar que o ninho não é hotel nem pronto-socorro sentimental.

Se gostaram desta história e também acham que amizade é amizade, mas cada um no seu lugar, deixem um gosto e subscrevam e nos comentários, digam: o que fariam no lugar da Leonor?

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

A amiga do meu marido vivia a pedir-lhe favores, até que precisei intervir: como finalmente pus limi…