Vou Reunir Todos em Minha Casa

Junto todos aqui em casa

Beatriz Ferreira pousa o tablet e pega o telemóvel:
Avó, como está? Está melhor? E o avô? Ah, se está a fritar batatas quer dizer que está tudo bem. Já terminei o trabalho por hoje, vou buscar o Diogo ao treino, passamos no supermercado e já vamos para casa.

Depois, Beatriz liga outro número:
Salvador, olá, já vou para casa, tu e a Leonor estão a caminho? Já vêm? Ótimo, o avô está a fazer batatas fritas, jantamos todos juntos.

Beatriz levanta-se e põe o essencial na mala. Grita para as colegas:
Tchau, até amanhã!
Tchau, Beatriz, boa noite!

Rapidamente troca os sapatos debaixo da secretária, veste o casaco leve e olha instintivamente pela janela que escurece. Está uma quente noite de outono. As luzes brilham acolhedoras, as pessoas apressam-se para casa depois do trabalho. Beatriz vê o seu reflexo no vidro e sorri nunca pensou que teria uma vida tão comum, tão normal. Que teria uma família, e que seria apenas mais uma a correr ao final do dia para casa, para quem a espera. Ainda há pouco estava certa de que isso nunca aconteceria.

Sim, a família dela é diferente, mas todos são felizes e têm muito amor uns pelos outros.

A mãe de Beatriz abandonou-a logo, fugiu da maternidade. No breve papel do orfanato está escrito: mãe desconhecida, sem documentos, pai ausente. O nome Beatriz foi dado por pessoas que nada tinham a ver consigo. Ferreira, porque nasceu na primavera. Ninguém sabe bem porque lhe deram o nome Beatriz são mistérios da vida. Amizades, teve sempre com rapazes. O melhor amigo chamava-se Salvador, um ano mais velho. Também Ferreira, pelas mesmas razões. Beatriz sempre foi excelente aluna, bem comportada, trabalhadora e sempre pronta a ajudar ansiava tanto por um dia ser adoptada. Via só nos filmes como era viver numa casa com família. Mas ela, alta e desengonçada, nunca agradou a ninguém. Ou simplesmente não teve sorte. Quando Salvador foi adoptado, chorou a noite toda. Não de inveja, mas porque perdeu o único amigo. Ele olhou-a com aquele ar desamparado por trás dos óculos:
Beatriz, queres que eu fique?
És tolo, Salvador? Isso não se recusa! Vai, cada um tem o seu destino.
Eu prometo que te encontro, juro!
Mas Beatriz riu-se: Não faz diferença.

Beatriz acabou o secundário, entrou no curso de Engenharia Civil, vivia na residência de estudantes. Assim que acabou, deram-lhe um pequeno T1, por ser órfã. Fica nos subúrbios de Lisboa, mas não faz mal! Arranjou trabalho numa empresa de projectos, no centro. A vida adulta começou mesmo para ela. Tinha muitas colegas, mas achava cedo para formar família. O seu maior sonho? Uma casa ampla, marido querido, filhos dois, talvez três , a correr, a brincar, sempre a chamar por mãe e pai! Beatriz desejava muito ouvir essas palavras aconchegantes e quase desconhecidas mãe pai Que maravilha abrir a porta e ouvir: Mãe! Pai chegou! como nas histórias encantadas.

Um dia, Beatriz entra no prédio e um rapaz sai de rompante escada abaixo, quase a derruba, mala nas mãos. Ela entra e encontra uma senhora idosa estendida nos degraus:
A pensão a mala ele empurrou-me. Onde estão os óculos? Não vejo nada!
Beatriz saiu a correr, mas já não conseguiu apanhar o rapaz. Ajudou a avó Maria a levantar-se felizmente, a queda não foi grave.
Como é possível, filha, porque me fez isto? chorava a idosa.
Beatriz acompanhou-a ao apartamento, onde o marido, doente, acamado. Começou a ir lá com frequência, levando mantimentos a pensão tinha desaparecido. A polícia foi chamada, mas o rapaz nunca foi encontrado, apesar de Beatriz se lembrar do rosto. Uns dias depois, acharam a mala com os documentos perto do prédio.

Beatriz visita cada vez mais vezes a avó Maria. Chamaram médicos ao avô António, ficou melhor. Os velhotes estavam animados. Começaram a chamar-lhe neta, convidavam-na, pois não tinham família próxima.

Numa viagem de autocarro, Beatriz conhece um rapaz. Nota que ele sorri e olha para ela.
Desculpe, não conheço de algum lado? O seu rosto é tão familiar
Beatriz ri-se.
Não creio.
O rapaz, Alexandre, simpático, vai consigo do terminal até casa, parece já tê-la visto em qualquer lado. Apresenta-se, conta a vida, diz que vive com a mãe, que trabalha parecia um velho amigo. Alexandre começa a ir buscá-la ao trabalho, a acompanhá-la até casa. Certo dia, Beatriz convida-o para entrar. Dá-lhe chá, uns petiscos. De repente, abre-se e fala-lhe do passado no orfanato. Alexandre escuta com atenção, como se tivesse algo a dizer, mas hesita. Talvez tivesse pena dela. Beatriz gostava dele, mas algo lhe deixava dúvidas.

Na visita seguinte, algo inesperado acontece. Alexandre aparece, Beatriz vai à cozinha pôr água a ferver. Ele aproxima-se, envolve-a com os braços. Ela, assustada:
Alexandre, podíamos não apressar as coisas?
Mas ele só aperta mais. Depois Beatriz grita, e Alexandre, com rancor:
Denunciaste-me, sabia que eras tu, maldita. Alguém me disse que eras órfã! Vi o retrato robô, quase me apanharam. Agora, cala-te, percebeste? Ninguém te vai ajudar, ninguém quer saber! Ou então será pior para ti.
Beatriz decide não apresentar queixa tem medo da exposição. Um mês depois, uma ambulância leva-a do trabalho. Gravidez extra-uterina, complicações graves, talvez nunca possa ter filhos.

A avó Maria cuida dela, consola-a, dá-lhe caldos e infusões para recuperar. Quando sai do hospital, Beatriz está perdida, sem saber como seguir. Fala pouco, e um dia as pernas parecem guiá-la até ao convento local. O outono está no fim, o céu alto, azul. As cúpulas reluzem de ouro, ouve-se o soar dos sinos. Os trabalhadores arrumam os jardins, as flores já deram lugar às folhas secas.

Ferreira, Beatriz? ouve, de repente. Vira-se e vê um voluntário a sorrir-lhe com alegria:
Beatriz, procurei-te tanto!
Salvador? reconhece, abraça-o e chora.
Ele limpa-lhe as lágrimas:
Vamos à cozinha, hoje há arroz doce, bolinhos e chá. Depois conversamos.
Ela, sem saber bem como, conta-lhe tudo, e ele também. Como foi adoptado, as tareias do padrasto, a fuga. Agora trabalhava no convento, finalmente em paz.

Beatriz vai para casa e pensa na sorte de ter voltado a encontrar Salvador. Na verdade, depois disso, não quis logo regressar, ficou uns dias no convento. Tudo decidiram então. Já a avó Maria e o avô António queriam há muito deixar-lhe a casa. Mas ela e Salvador surgiram com melhor ideia.

Ficaram todos felicíssimos com a proposta de morarem juntos. Os idosos nunca imaginaram poder viver com alguém, já na idade e com problemas de saúde.

Hoje Beatriz e Salvador Ferreira são casados há cinco anos. Mudaram-se para uma ampla casa nos arredores. Todos têm o seu espaço. A avó Maria e o avô António vivem rodeados de carinho. Agora são mesmo os senhores da casa, os mais importantes. Afinal, já nunca estão sozinhos.

E há dois anos, Beatriz viu o seu sonho cumprido: adoptaram dois irmãos, Diogo e Leonor, do mesmo orfanato onde cresceram.
Salvador, lembras-te como sonhávamos que alguém nos levasse e desse uma casa feliz? sorri Beatriz Agora olha para os nossos filhos, e promete comigo que vamos ser para eles os pais que sempre desejámos ter.

Agora
Mãe, onde está o pai? Avó, vem cá ver o que fizemos com o avô!
Beatriz já não quer recordar o que foi mau. Contudo, a avó Maria contou-lhe um dia em segredo que apanharam o agressor voltou a ser preso por outra maldade. E vai ficar lá muitos anos.

Cada um tem o que merece, nesta vida e na outra.

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