Oh pá, sabes aquela sensação de já não aguento mais? Olha, deixa-me contar-te uma cena que vivi ainda agora se me aperta o peito só de lembrar.
Mariana, mas o que é isto? Foste tu que deitaste fora os pickles que a minha mãe fez?
Claro, Rui, deitei sim. suspirei eu. Aquilo já cheirava mal há séculos E estavam moles, não se comia
Eh pá, que exagero. Se tirasses só os de cima, o resto ainda se aproveitava. Sabes que custam dinheiro, Mariana! Eu e a minha mãe já comemos coisas piores e apanhámos foi resistência!
O Rui, com aquele ar sério e o queixo empinado, passou por mim a resmungar entre dentes.
Suspirei fundo. Noutra altura, ainda achava graça. Veio-me logo à cabeça aquele tempo inocente dos nossos primeiros encontros
Lembro-me tão bem daquele passeio nos jardins de Monsanto. Vinha ele todo sorridente com uma camisa branca e um ramo de flores silvestres mesmo à portuguesa.
Rui! exclamei, espantada. Apanhaste tu?
Apanhei, pois claro! Rosas qualquer um compra, não tem piada nenhuma. Prefiro gastar o dinheiro contigo a andar na roda gigante
Sorri. E lá fui atrás dele.
Hoje olho para trás e percebo: não íamos a cafés e restaurantes porque o Rui era agarrado ao cêntimo, não por preferir passear. E só andámos na roda gigante porque era dos bilhetes mais baratos. Na altura nem me ocorreu
Os anos passaram. Casámos, tivemos dois filhos. Ganhei outra visão das coisas. Fui aguentando, encolhida no meu canto, sem forças para discutir.
Lá em casa, tudo era ao mais simples: arroz, croquetes, salada. Nunca nada de mais.
O que estás a fazer, Rui? perguntei, já sem forças, quando vi que ele dividia os croquetes ao meio.
Eles têm cinco anos, metade chega. respondeu, já a dividir as doses. Isto é carne de vaca, é cara. Não faz bem comerem tanto! Devias cozer em vez de fritar, que a gordura está caríssima
Rui, os miúdos detestam comida cozida!
Vão ter de se habituar. disse ele, enquanto terminava o serviço e se ausentava do olhar. Fiquei a olhar para os pratos, sentindo o limite da minha paciência a estalar
No fim-de-semana apareceu a sogra, a Dona Teresa. E olha, comparando, o Rui era um exemplo de generosidade!
Mariana, amor, vim trazer roupinha nova aos meninos! Comigo nunca falta nada para os meus netos!
Eu, cansada do trabalho, só pensei em suspirar e pegar forças para a receber.
Abri o saco:
Dona Teresa, isto é roupa de menina. São para raparigas
Oh filha, qual é a diferença? O Pedro gosta de gatos, o azul ou cor-de-rosa agora é igual e tira um top com a Hello Kitty estampada. Eles são pequenos, aproveita tudo!
Sorrio de lado e guardo o saco. Mais tarde, já sei que vai tudo directinho para o contentor. Estava tudo estragado, tudo velho.
Rui, quando é que saímos de casa da tua mãe? Juro, já não aguento.
Mariana, por amor de Deus, só quando conseguirmos juntar para comprar casa.
Vamos pedir um empréstimo, senão só temos casa própria lá para a reforma!
Isso é uma escravatura, mulher! E a minha mãe dá jeito: cozinha, limpa
Rui, estamos todos na mesma divisão, até os miúdos! A tua mãe não nos deixa pôr fechadura nas portas porque diz que não é prático!
Anda lá, desliga a luz, olha a conta de eletricidade ao fim do mês!
Só me apetecia desaparecer. O limite chegou no dia seguinte. O Rui não deixou as crianças verem os bonecos à noite porque, imagina tu, gasta mais eletricidade!
Chorei.
Chega! Não quero esta vida! Vou-me embora, levo os meninos comigo para casa da minha mãe! Pelo menos lá têm o seu quarto.
Peguei nos miúdos e no malão, e rebolei dali para fora.
Pedro, Tiago, vamos!
Mariana, estás a exagerar! E a nossa família? Se sempre pareceste feliz!
Seis anos a aguentar isto tudo! Shampoos em garrafões, papel higiénico do mais barato, os brinquedos são restos teus e do teu irmão Quero vida melhor para eles, Rui! Prefiro gastar demais do que viver assim!
A sogra agarrou-se ao peito, dramática:
Oh Rui, ela volta, quem é que a quer com o pacote todo?
E ele ainda acreditava
Na casa da minha mãe, a Dona Lídia olhou para mim ao ver-me a reutilizar três vezes o mesmo saquinho de chá:
Mariana, larga isso e faz antes um chá novo, filha.
Dei por mim a suspirar nem percebia que tinha estes tiques.
Ela olhou para mim, quase a chorar:
Como é que aguentaste? Isso não é vida, Mariana. Isso é sobrevivência! É doença, filha
Bati os olhos no frigorífico: queijo a sério, não queijo fatiado, fiambre, iogurtes
Olha, o melhor mesmo é esconder os bombons antes que os miúdos ataquem
Mas eles que comam, para isso comprei!
Eles não estão habituados ainda justifiquei.
A minha mãe também me fez uma festa nas costas. À noite, fui à cozinha só para abrir o frigorífico. Lembrei-me dos tempos em que o Rui só comprava leite do mais barato, iogurtes era proibido, só kefir. E o queijo para pequeno-almoço, e nunca croquetes a mais.
Fiz um pão com queijo e fiambre, como me apetecia, e foi das melhores coisas que já comi em anos. Que liberdade, que sabor! Peguei num iogurte e bebi, sem cerimónia.
Que parva que eu fui Como resisti seis anos a isto tudo? Viver presa assim, sempre a contar tostões! Como aguentei?
Passaram-se umas semanas e num sábado toca a campainha. Era o Rui.
Mariana, volta para casa. A minha mãe e eu prometemos não ser tão agarrados. Vamos tentar ouvir-te mais, prometo. Eu amo-te, temos uma família!
NÃO! Não volto. Aqui os meninos têm o seu quarto, veem os desenhos quando querem, comem um croquete inteiro. Podem comer um bombom sem ser racionado. E sim, comprei finalmente um roupão a sério! Agora os meus euros gasto como bem entendo. E tu, quando receberes a carta do divórcio, não reclames.
Fechei-lhe a porta na cara e desatei a chorar. Não de tristeza: foi um alívio. Vou ter de trabalhar mais, mas estou pronta. Por mim e pelos meus filhos. Nunca mais volto àquela prisão. Esta, pelo menos, é a minha vida.







