«Vou embora para ficar com uma jovem» — declarou o avô de 65 anos ao arrumar a mala, mas uma hora depois voltou para casa em lágrimas.

Vou-me embora para a jovem! anunciou o meu avô, aos sessenta e cinco anos, enquanto tentava enfiar num pequeno trolley aquele velho cobertor de quadrados que sempre odiou sair de casa.

Disse-o como quem revela que vai embarcar para os Açores ou que acabou de descobrir uma nova ilha perto da Madeira. Alto, teatral, esperando arrebentar ali mesmo uma granada emocional.

Mas não houve espetáculo. Nem um pio.

A minha avó, Maria do Carmo, estava junto à tábua de engomar, passando a ferro a camisa domingueira do avô. O vapor crescia à volta dela, sibilando, interrompendo o silêncio do apartamento em Benfica.

Já ouvi, Manuel respondeu, sem desviar os olhos da camisa. Levaste as cuecas de flanela? Estamos em novembro, e a tua ‘jovem’ não te vai tratar das constipações.

O avô parou, a meia de lã na mão suspensa no ar. Esperava tudo: loiça pelo chão, um ataque de nervos, súplicas ou ameaças de chamar o meu pai.

Mas não um comentário tão prático sobre roupa interior.

Mas Carmo! As cuecas? Estou a falar de amor, de uma nova vida, de… renascer!

Finalmente, o cobertor coube, e ele trepou em cima da mala para a fechar. Ouviu-se um estalido: a mala protestava tal como as costas do avô.

Só pensas nessas coisas do chão, tão terra-a-terra…! respirou fundo. E ali, ali vou voar! Ali é energia!

Já agora, como se chama essa energia? perguntou a avó, pendurando a camisa impecável e estendendo-lha. Ou é só Docinho no telemóvel?

Chama-se Leonor! endireitou-se o avô, orgulhoso. E não é só mulher, é musa!

A Maria do Carmo soltou uma risada suave. Sabia que a única poesia que o Manuel gostava era a dos brindes nos almoços dos amigos do bairro.

Leonor, portanto. Que nome bonito. E que idade tem a tua musa?

Vinte e oito anos! disparou o avô num tom de desafio.

A Maria largou o ferro e olhou-o de cima a baixo. Como quem olha para um armário antigo que acabou de perder uma porta.

Manuel disse num tom macio, mas com firmeza. Têm sessenta e cinco anos. Ganhas lombalgias só de estares tempo demais na casa de banho e já te passaram para a dieta sem gordura por causa do fígado.

Respirou fundo e acrescentou:

E o que vais tu fazer com uma Leonor de vinte anos? Ler-lhe poesia?

Isso já não te interessa! atirou ele, agarrando a mala. Vamos viajar! Passear ao luar! Viver a vida! Ainda estou aí para as curvas!

Tentou levantar a mala, mas ela pesava como chumbo. Uma fisgada nas costas, mais ignorou.

Não posso mostrar fraqueza pensou o Manuel.

E não te esqueças dos comprimidos para a tensão, Don Juan atirou a avó, voltando-se para a tábua. Estão na gaveta de cima, junto à pomada das articulações.

Não preciso disso para nada! mentiu, embora o coração já lhe batesse na garganta. Perto dela, sinto-me com trinta!

Fica com o apartamento, Maria. Sou magnânimo.

Obrigada, provedor respondeu, seca. Deixa lá as chaves na mesa. E vá, leva o lixo, já que sais.

Aquilo matou-o. Nada de drama. Só “leva o lixo”.

Pegou no saco ao lado da porta. Queixo levantado, pôs-se a caminho. Porta fechada suavemente atrás dele.

Na escada do prédio cheirava a esperança perdida de gato e batatas fritas vindas do vizinho. A mala puxava-lhe o braço, as costas gemiam e o telefone vibrava.

Leonor, a sua musa, estaria à espera.

Chamou o elevador. Tirou o telemóvel e o coração saltou-lhe: Querido, vens depressa? Já reservei mesa. Uma coisinha: Preciso de transferir 300 euros à minha mãe, remédios, mas o meu MBWay está bloqueado. Depois dou-to, sim?

O Manuel franziu o sobrolho. Trezentos euros. Ontem tinham sido oitenta para o Uber. Anteontem, cinquenta para o pacote de dados. Ainda na semana passada, enviara-lhe quinhentos para um curso de motivação.

Entrou no elevador. O espelho devolvia-lhe um homem já entrado nos anos, de rosto vermelho e olhar perdido.

Vou para a jovem repetiu para si, mas já não soava tão heróico.

Lá fora, o tempo estava péssimo. Chovia, o vento levantava as folhas mortas. Manuel arrastou a mala até à paragem, porque Leonor vivia no Parque das Nações.

Sentou-se num banco molhado. Ia transferir dinheiro. Os dedos gelados não ajudavam. A pensão só chegava para a semana. Tinha 260 euros na conta.

Raios! murmurou para si.

Escreveu: Leonorzinha, só tenho pouco na conta. Vou levar em dinheiro, tenho guardado cá em casa.

Resposta imediata: emoji de olhos a revirar. Manel, és um homem ou quê? Empresta de alguém! É para minha mãe! Se me amas, desenrasca-te!

Manel. Nem Manuel, nem querido. Como o cão do vizinho.

Alguma coisa súbita lhe gelou o peito. Não era amor, era uma desconfiança pegajosa.

Lembrou-se que nunca falara por vídeo com Leonor. Sempre era câmara avariada ou net em baixo. Mas que belas fotos, sempre com filtro.

Resolveu ligar. Chamou, chamou… Desligaram. Mensagem: Não posso falar, estou a chorar!

Manuel ficou sentado na paragem. Carros passavam, salpicando-o de água suja.

O frio entrava-lhe nos ossos, camisola fina, casaco de meia estação. As costas a doer tanto já só lhe apetecia deitar.

Leonor sussurrou alto. O nome soou-lhe a plástico.

De repente, o telemóvel voltou a vibrar: Então? Já transferiste? Se não, nem venhas. Não quero um homem que não resolve nada!

As letras dançaram-lhe nos olhos molhados.

Pensou na Carmo. Ontem à noite, ela tinha-lhe posto a pomada nas costas, em silêncio, quando ele ficou preso. Cozinhara-lhe almôndegas ao vapor, que detestava, mas comia por causa do fígado.

A Carmo sabia sempre onde estavam as meias e os cartões dele.

Não quero um homem…

Imaginou-se no T1 de Leonor. Sofá estranho, cheiros estranhos, regras ainda por inventar. Uma exigência permanente de ser jovem, de ser alguém que já não era.

E o dinheiro? Sempre a pagar, sempre.

Imaginou as costas a cederem ali, com Leonor. Ela haveria de o ajudar? Ou blhec! e afastar-se para o outro quarto?

Manuel levantou-se com esforço. Olhou para o autocarro que chegava com destino ao Parque das Nações, mas não se moveu.

O autocarro partiu e a nuvem de gases engoliu-o.

Ainda ficou a olhar para o vazio. Depois, ajeitou o trolley e, com o coração apertado, voltou atrás. Para casa.

A subida parecia eterna. Nem elevador. Três andares a arrastar a mala, a parar em cada patamar para lhe bater o coração de esforço, não de paixão.

Chegou à porta do apartamento. A mala pousada, tocou à campainha. Silêncio.

O medo agarrou-o. E se ela tivesse ido? Se tivesse mudado a fechadura? Ele deixara as chaves em cima da mesa!

Tocou de novo, tempo longo.

Carmo! gritou, num fio de voz. Carmo, abre-me!

O trinco rodou suavemente. Maria do Carmo apareceu, calma como sempre, de robe.

Manuel entrou, encharcado, sujo, o boné pingando chuva. Escorriam lágrimas-lhe pelas faces verdadeiras, grossas, de vergonha e de arrependimento.

Eu… tentou dizer. O autocarro… A chuva… E pensei…

Não conseguiu confessar que a Leonor era um embuste. Era humilhante.

A Carmen olhou-o, depois à mala, suspirou.

Levaste o lixo?

Olhou para a mão livre. Nada. Tinha esquecido o saco na paragem.

Esqueci-me… balbuciou.

A avó abanou a cabeça e afastou-se, abrindo espaço.

Anda, Romeu. O chá está frio. E vai lavar as mãos, estás imundo.

Entrou no corredor, arrastou a mala. O cheiro de casa: roupa lavada e algum medicamento. Melhor perfume não havia.

Descalçou-se, foi lavar as mãos, esfregou a cara gelada, tentando apagar a vergonha.

Na cozinha, Maria já servia chá na sua caneca favorita. Almôndegas ao vapor, aliás, em cima da mesa.

Carmo, desculpa lá… Fui um velho tolo.

Come respondeu ela, sem virar a cara. Arrefece.

A sério… A Leonor… Que musa? Sem ti, nem sei onde estão os papéis do seguro.

Estão na pasta azul, na gaveta de cima atirou, sentando-se. Faz-me um favor: não me peças para aturar isto de novo. Voltaste, pronto.

Mastigou a almôndega insípida, mas soube-lhe a manjar dos deuses.

E a Leonor…? arriscou inventar para salvar face. Afinal fumava. Imagina! E ainda por cima, boca suja.

Maria do Carmo olhou por cima dos óculos, os olhos a brilhar de ironia canalha.

Que tragédia disse com ar sério. E tu, sensível, não conseguiste.

Evidente! Disse-lhe: Minha senhora, a sua linguagem não condiz consigo. E ela…

Fez um gesto largo:

Percebi logo. Um deserto no coração, Carmo. Um vazio absoluto.

Pois, ainda bem que te fez o favor na paragem, não no tribunal.

Levantou-se, pegou no tubo da pomada e pôs-lho à frente.

Aposto que as costas te estão a matar com a mala.

O Manuel corou.

Um pouco…

Vá, tira lá a camisa. Passo-te a pomada.

Despido, sentiu as mãos habituadas da Maria espalhar o bálsamo. Ardia, mas sabia bem.

Carmo? murmurou.

O quê?

Tu sabias que eu voltava?

Claro que sim.

Porquê?

A Carmo bateu-lhe de leve no ombro bom.

Porque deixaste na mala só o cobertor e o meu velho casaco de pêlo. Nem cuecas, nem meias, nem remédios levaste. Até a shuba, que te pedi para lavares na lavandaria, meteste aí.

O Manuel congelou, confuso.

O casaco de pêlo?

Sim. Vi-te de manhã a empurrá-lo para dentro. Pensavas que eu não reparava? Tu sem óculos nem vês o teu próprio nariz.

Silêncio na cozinha. O Manuel digeria aquilo: ia começar vida nova com a shuba dela e um cobertor.

De repente, riu-se. Baixinho, depois mais alto, até tossir.

A Maria deixou escapar um sorriso.

És um velho pateta disse, com ternura envolvida na secura habitual. Anda, acaba a almôndega. Amanhã temos de ir à terra à cave buscar os frascos. Vais ter exercício e ar puro.

Vamos, Carminho. Claro que vamos acenou ele, limpando as lágrimas de tanto rir.

O telemóvel voltou a vibrar. Leonor: Onde estás? A minha mãe está a morrer!! Envia nem que seja dez euros!!

Manuel carregou sem hesitar em Bloquear contacto. Depois apagou a conversa e pousou o telemóvel virado para baixo na mesa.

Carmo, e se largássemos os frascos amanhã? Fazemos antes uns grelhados lá no quintal. Eu trato da carne como tu gostas, com cebola.

Maria do Carmo olhou-o com espanto, ele que não tocava no grelhador há dez anos.

Grelhados? E o teu fígado?

Que se lixe sorriu ele. Vive-se só uma vez.

Agarrou-lhe a mão, calejada e áspera, e beijou-a desajeitado, mas sincero.

Obrigado por me abrires a porta, Carmo.

Ela recuou a mão devagar, quase tímida.

Anda, come, Don Juan. Senão arrefece e temos outra tragédia.

Lá fora, a chuva engrossava e o vento batia nos vidros mas, na cozinha, havia calor e luz. A camisa domingueira secava, cheirava a chá e pomada.

Esse era o melhor cheiro do mundo.

O Manuel olhou a mulher e pensou: Vinte e oito anos, sim, é bonito.

Mas quem mais saberá que ele é capaz de pôr por engano a shuba dela na mala, e aceitá-lo sempre de volta a casa?

Carmo chamou ele.

Diz lá.

Vou levar o casaco à lavandaria amanhã, prometo.

Leva, sim. Mas primeiro arruma a mala. E tira-me de lá o cobertor, que os meus pés gelam.

O Manuel acenou, já abocanhando outra almôndega.

A vida seguia, e era, caramba, muito melhor do que ele pensara.

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«Vou embora para ficar com uma jovem» — declarou o avô de 65 anos ao arrumar a mala, mas uma hora depois voltou para casa em lágrimas.