Vinte anos à procura de pessoas desaparecidas nas florestas e a devolvê-las às suas famílias. Mas, quando encontrei na serra uma filha de 14 anos de um poderoso autarca, pela primeira vez na vida disse no rádio:

Durante vinte anos procurei pessoas desaparecidas nas florestas e devolvi-as a casa. Mas quando encontrei, completamente exausta, a filha de catorze anos de um influente deputado, pela primeira vez na vida disse pelo rádio: Sem pistas. Provavelmente afogou-se. Essa mentira custou-me amigos, a reputação e todo o propósito da minha vida. Mas há alturas em que, para realmente salvar alguém, tens de o enterrar.

No universo dos grupos de busca e salvamento voluntários existe uma regra de ferro, indiscutível: nós não somos polícia. Não somos juízes, nem assistentes sociais ou psicólogos. A nossa missão é clara e mecânicaencontrar quem se perdeu num bosque ou na cidade e entregá-lo aos familiares ou à PSP. Só isso. O que acontece depois, nas suas casas, não é da nossa conta e não fazemos perguntas.

Chamo-me Manuel Matos. Durante vinte anos fui coordenador do maior grupo de busca e salvamento do distrito de Viseu. Sabia reconhecer o cheiro do medo num pinhal húmido de outono, traçar o percurso de um forasteiro assustado a apanhar cogumelos, e comandar trezentos voluntários exaustos numa varredura organizada.

Respeitavam-me muito. Ganhara a alcunha de Galgo porque conseguia arrancar uma pessoa das garras da morte ao quinto dia de procura, quando até a GNR já tinha baixado os braços. Acreditava na missão do grupo e acreditava que trazer alguém para casa era sempre bom.

Até que, em outubro de 2018, começámos a busca pela Leonor.

A vítima perfeita.

Leonor tinha catorze anos. Era filha única de um construtor civil que também era deputado municipal, homem com contactos nos lugares mais altos. Desapareceu durante um passeio com a turma no Gerês. Entrou no mato e não voltou.

Foi a busca mais monumental da minha vida. O pai de Leonor moveu mundos e fundos: chamou a Proteção Civil, a GNR, helicópteros com câmaras térmicas. Todos os dias traziam refeições quentes de restaurantes para o nosso quartel. O próprio pai, de olhos inchados de tanto chorar, pedia aos canais de televisão: Por favor, filha, volta. Dou tudo o que tenho, só quero que a encontrem.

Ver aquilo animava os nossos jovens voluntários, mesmo sob chuva gélida. Estivemos três dias sem dormir, a bater cada ravina.

No quarto dia, a zona de busca aproximou-se de uma antiga serração abandonada. O terreno lá era infernalarvores caídas, lamaçais, e o rio a correr furioso pelos temporais. Entrei sozinho nesse quadrante para inspeccionar uma cabana de caça antiga.

O achado.

Desci ao abrigo escuro, iluminando os cantos com a lanterna potente.

Ela estava lá.

Leonor, encolhida contra o canto mais fundo, protegida com um poncho velho e apodrecido. Tremia tanto que se ouvia os dentes a bater. Os lábios roxos, sinal de hipotermia.

Alcancei o rádio no ombro.

Quartel, aqui é o Galgo. A miúda…

Não diga nada! a voz dela era um restolhar de ave ferida.

Estendeu a mão, e nos dedos sujos segurava um prego enferrujado encostado à garganta.

Se lhes disser… se me levar de volta, espeto isto no pescoço já. Juro.

Fiquei imóvel. Já tinha visto adolescentes cheios de medo de ir para casa por causa de más notas ou discussões, mas nunca assim.

Leonor, tem calma disse eu, num tom sereno de comandante. O teu pai está em desespero. Levantou a cidade inteira. Ele gosta de ti.

Ela soltou uma gargalhada estridentequase assustadora. Depois abriu a camisola e levantou o sweater.

No feixe da minha lanterna vi-lhe as costas. Não havia ali sítio saudável. Cicatrizes amareladas de cinto, marcas recentes e vermelhas de queimaduras de cigarro. Hematomas fundosdo tipo que só aparecem com pancada metódica, cruel.

A minha mãe morreu há cinco anos sussurrou Leonor sem emoção Ele bate-me todos os dias. Porque olhei de lado. Porque sou parecida com a mãe. Porque manda nesta terra e acha que pode tudo. Já me trancou uma semana numa cave, sem água. Se me entregar à polícia, trazem-me de volta, ganham dinheiro com isso, e ele mata-me por o ter envergonhado. Por favor, deixe-me morrer aqui gelada. Peço-lhe.

Fiquei na cabana, no escuro, o rádio a estalar no meu ombro:

Galgo, responde! Novidades? Passa informação!

O ponto de não retorno.

Sabia o que mandava a lei. Tinha de declarar as coordenadas, chamar a PSP e o INEM. Depois escrever uma denúncia de maus tratos à CPCJ.

Mas eu era homem feito, conhecia o mundo real. Sabia bem quem era o pai. Sabia qual o comandante da polícia localiam juntos à sauna, vi-os abraçados em jantares das autarquias. O processo desaparecia. Alegavam que a rapariga era instável, autoagressiva, devolviam-na à gaiola dourada. Às garras do monstro.

Tinha salvo centenas de vidas em vinte anos. Mas ali percebi: só podia salvar verdadeiramente a Leonor se deixasse de ser salvador.

Premi o botão do rádio.

Quartel, aqui Galgo. Engano meu. Cabana vazia. Repito, vazia.

Tirei-lhe o casaco vermelho. Tirei um penso da minha mala e fiz em mim um corte, para ensopar o casaco com o meu sangue.

Vem atrás de mim sussurrei à Leonor.

Saímos juntos. Levei o casaco 300 metros até ao rio, pus numa árvore sobre a corrente, marquei sinais de escorregamento na lama.

Depois conduzi Leonor por atalhos que só eu conhecia, longe dos voluntários e da polícia. Fomos ter à EN2, onde deixara o meu carro.

Cobri-a com um cobertor, aqueci o carro no máximo. Levei-a noite dentro, cruzando três distritos. Conhecia uma amiga antiga, a Maria do Carmo, que dirige um abrigo clandestino para mulheres vítimas de violência, perto de Coimbra. Não me fez perguntassabia esconder pessoas dos maridos, da polícia, até dos serviços secretos.

Deixei Leonor lá. Antes de me ir embora, abraçou-me sem dizer palavra.

O preço da mentira.

Voltei ao quartel na manhã seguinte. Estava coberto de lama, parecia um fantasma.

Levei as equipas ao rio e mostrei o casaco ensanguentado.

Terá caído da ribanceira disse, olhando nos olhos da PSP e dos colegas. O rio leva oito metros por segundo. O corpo ficou preso nas águas. Esqueçam.

Recordo as lágrimas dos voluntárioshomens adultos, raparigas carregadas de coragem, todos a chorar porque achavam que tinham chegado tarde. Pensavam que falhámos.

E eu, ali, a aguentar as consequências. Menti à família que me restava. Traí o código do grupo. Cometi um crime graverapto de menor e simulação de prova.

O pai de Leonor fez um escândalo na televisão. Uma semana depois, enterraram um caixão vazio com uns pertences. O caso foi fechado: acidente lamentável.

Demiti-me um mês depois. Não aguentei o olhar dos voluntários. Não podia comandar ninguém, sabendo o que acabara de fazer.

Ouvi muitos boatosdiziam que o Galgo enlouqueceu, perdeu-se, afundou-se. O grupo ficou nas mãos de outro. A minha vida, e o sentido que nela punhao de salvar e ser heróimorreu.

Oito anos depois.

Agora tenho sessenta anos. Trabalho como mecânico num stand velho de carros em Lisboa. Não guardo títulos, nem diplomas do INEM, nem amigoshá muito riscados dos meus contactos. Vivo sozinho num apartamento a cheirar a óleo.

Mas há uma semana, no correio, sem remetente, havia um envelope.

Dentro, uma fotografia. Uma mulher bonita, saudável, de vinte e poucos anos, de bata branca junto às escadas de uma escola de enfermagem do Norte. Os olhos vivos, alegres. Atrás, uma dedicatória simples:

Estou viva. E agora salvo outros. Obrigada por não me ter salvo pelas regras.

Crescemos a pensar que o bem é sempre limpo, que anda de alma lavada e recebe medalhas. Mas a verdade raramente é bonita. Às vezes, o maior gesto de humanidade faz de ti, por fora, um criminoso. Às vezes, para resgatar uma vida, tens de destruir a tua.

E se voltasse a estar naquela cabana, faria tudo igual. Voltaria a desligar o rádio. Porque a consciência limpa vale mais que qualquer reputação. E nada vale o preço de um só choro de uma criança torturada.

E tu: serias capaz de quebrar a lei, trair os teus, perder o nome limpose soubesses que seria o único modo de salvar um inocente? Onde traças a linha entre a justiça do sistema e a tua própria moral? Fica a questão para quem ler estas linhas.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Vinte anos à procura de pessoas desaparecidas nas florestas e a devolvê-las às suas famílias. Mas, quando encontrei na serra uma filha de 14 anos de um poderoso autarca, pela primeira vez na vida disse no rádio: