Vida de Encantar, Parece um Conto!

Era uma vida de conto de fadas

Nessa manhã, Margarida acordou com a sensação de que algo importante estava prestes a acontecer. O sol entrava em cheio pela janela, os pardais chilreavam entre os telhados de Lisboa, e o marido, ao sair para o escritório, beijou-lhe a face e murmurou: És a melhor mulher do mundo. Tudo estava no lugar certo. Perfeito.

Perfeito era essa a palavra que Margarida usava para medir os seus dias. O marido ideal, Henrique, empresário de sucesso, carinhoso, educado. Os filhos perfeitos o Rui, universitário, e a Madalena, quase a acabar o secundário, ambos inteligentes, sem grandes problemas. O apartamento de sonho em Campo de Ourique, a casa de praia na Ericeira, o carro novo. E ela própria: elegante, irrepreensível, aos quarenta e cinco já parecia ter dez anos a menos.

As amigas comentavam: Margarida, tu tiveste sorte! A tua vida é mesmo um conto de fadas. Margarida sorria de leve, convencida de que sim, tinha mesmo sorte embora soubesse, no fundo, que o segredo estava mais no que ela era do que propriamente na sorte. Sempre soubera como se devia estar no vestuário, nas conversas, no lar, no apoio ao marido, na educação dos filhos. Dava-se inteira àquela perfeição. Sem reservas.

Henrique era o centro do seu universo. Conheceram-se no quarto ano na Faculdade de Economia ele bonito, impecável, de família bem situada. As raparigas todas suspiravam por ele, mas foi Margarida quem conquistou o seu coração. Durante semanas nem acreditou: era felicidade a mais.

Casaram-se ao fim de um ano. Primeiro a ascensão dele nos negócios, a progressão dela até chegar a diretora financeira numa empresa multinacional , depois os filhos. Tudo encaixado, planeado, quase como uma partitura perfeita.

Por vezes, porém, Margarida percebia pequenas estranhezas. Henrique ficava pensativo a olhar pela janela, distraía-se enquanto ela falava, viajava em trabalho e telefonava menos do que antes, olhava para ela com uma tristeza longínqua.

O que se passa contigo? perguntava.

Nada respondia ele. Só cansado, sabes como é. Os negócios…

Ela não dava grande importância. Estava cansado, era só isso. O mundo dos negócios era mesmo uma guerra de nervos.

***

Naquela terça-feira, Margarida foi ao escritório de Henrique assinar uns papéis, ele tinha pedido com alguma urgência. A secretária, nova ali, atrapalhou-se: O senhor Henrique está ocupado, pode aguardar um pouco? Margarida acenou: Oh filha, não te preocupes, sou de casa.

E entrou, sem bater.

Henrique estava ao computador, fixado num ecrã com a fotografia de uma mulher. Jovem, bonita, cabelo louro caído em ondas, olhos tristes. Margarida só vislumbrou de relance mas o bastante para pensar: estará mesmo ali a ver fotografias de outra mulher na frente da secretária?

Henrique, vim pelos papéis disse ela.

Ele sobressaltou-se, fechou apressado a janela do computador, mas já era tarde para disfarçar. Margarida sentiu-se agulhada por dentro.

Sim, sim disse ele, procurando as folhas numa pressa. Está tudo aqui, assina e deixa aí, depois recolho.

Quem era aquela mulher? perguntou Margarida, estranhamente serena. Só mulheres que sentem o perigo sabem perguntar assim.

Quem? Ah, ninguém fingiu-se surpreendido, mas os olhos do marido traíram-no. É uma colega, temos um projeto em comum.

Costumam analisar retratos em tamanho completo durante o trabalho?

Margarida, por favor… estás a exagerar torceu o rosto. Foi só impressão tua.

Ela anuiu, recolheu os papéis e saiu. Mas a dúvida já tinha metido raízes.

***

É claro que Margarida iniciou uma investigação. Não queria as mãos agiam por si. Aproveitou quando ele foi para o banho, abriu o telefone. Encontrou mensagens em conversa escondida, num aplicativo protegido por código mas ela sabia: era o aniversário da Madalena. Henrique nunca mudava palavras-passe.

«Sinto saudades», lia-se.

«Eu também. Falta pouco para nos voltarmos a ver.»

«E ela? Nem desconfia?»

«Não. Está tudo bem.»

Margarida lia. Custava a acreditar. Cinco anos. Cinco anos de relação extraconjugal. Cinco anos de vida dupla. Enquanto ela dava jantares, educava os filhos, recebia o marido com um sorriso, partilhava festas e férias ele era de outra.

Percorreu as conversas para trás. Havia fotos, juras, planos a dois. E de repente, uma frase que lhe gelou o sangue:

«Tu sabes que és a única. Desde os tempos da faculdade. Se não fossem aquelas circunstâncias, nunca teríamos deixado de ser nós. Margarida é uma boa mulher, mas a vida foi assim.»

Margarida leu, releu.

«A única.» «Desde a faculdade.» «Circunstâncias.»

Então, sempre fora a segunda escolha. Fora apenas… uma solução prática. A que estava por perto enquanto a verdadeira paixão se esfumaçava no passado.

Nessa noite, ficou sentada na cozinha a olhar o crepúsculo de Lisboa, a pensar: e agora? O que se diz aos filhos? Que se faz a tantos anos que afinal eram uma ilusão?

Henrique entrou, viu-lhe o rosto. Percebeu logo tudo.

Já sabes… murmurou, sem perguntar.

Sei. Quem é ela?

Ficou calado muito tempo. Sentou-se, escondeu a cara nas mãos.

Margarida, perdoa-me. Nunca quis que o descobrisses assim.

E como preferias? a voz dela tremeu. Que nunca eu soubesse? Que passasses a vida a pensar noutra enquanto vivias comigo?

Não estou sempre a pensar nela tentou justificar-se, sem convicção.

Não mintas. Eu li tudo: Tu és a única. Desde a faculdade. Diz-me a verdade, pelo menos uma vez.

E ele contou.

Ela chamava-se Vera. Conheceram-se no primeiro ano da faculdade, amor à primeira vista, estiveram prestes a casar. Mas os pais de Vera eram contra o Henrique não era do mesmo meio, nem fortuna nem contactos. Mandaram-na estudar para o Porto, trancaram-na em casa, providenciaram-lhe um noivo adequado. Vera escreveu cartas, chorou, mas não venceu os pais.

Henrique esperou dois anos. Depois conheceu Margarida bonita, inteligente, família conceituada. Por que não?, pensou. A vida segue.

Casaram-se, nasceram os filhos, criou empresa própria. Até a escolha do ramo, admitiu, foi para provar aos sogros da Vera que era capaz. E a Vera permaneceu, sempre, na sua memória.

Há cinco anos encontrámo-nos por acaso disse ele, em voz rouca. Estava divorciada, vive sozinha, sem filhos. Tudo reacendeu. Não consegui lutar contra.

E contra mim, lutaste? Margarida perguntou. Foram quase vinte anos de luta, foi?

Eu respeito-te começou ele. És extraordinária. Deste-me tudo.

Tudo menos amor cortou Margarida. O amor não aceitaste de mim. Querias conveniência, não paixão. E o amor, esse, ficou lá, na faculdade.

Ele baixou a cabeça. Porque era verdade.

***

As malas foram feitas depressa. Margarida sabia: quando se vai embora, é sem hesitar. Nada de discussões, dramas, vamos tentar de novo. Tinha amor-próprio demais para ser figurante em tragédia alheia.

Aos filhos disse-o sem lágrimas, com calma. O Rui ainda tentou pôr-se entre os pais, ela atalhou: Deixa, Rui. Isto é entre nós. Não te metas.

A Madalena chorou: Mãe, como vais aguentar sozinha?

Tenho-me a mim respondeu Margarida. E acredita: isso é muito.

Arrendou um apartamento em Alvalade.

Os primeiros meses foram infernais. À noite, insónias atrás de insónias. De dia, trabalho, tarefas, risos fingidos. E perguntas. Lembrava-se de cada jantar, cada beijo, cada Natal e entendia: nada daquilo era real. Fofo, confortável, sim mas mentira.

O que custava não era nem a traição em si. Era perceber que, tão esperta, tão íntegra, tão perfeita, nunca viu sinais. Porque não quis ver. Porque precisava daquela imagem perfeita.

***

Um ano depois, encontrada ao acaso com antiga colega dos dois.

Ouviste? diz a amiga. O Henrique casou de novo. Com a tal Vera. Dizem que se amaram desde os bancos da faculdade, e que os pais os separaram. Parece filme!

Margarida sorriu. Educadamente, como só ex-esposas perfeitas sabem.

Imagino disse. Que romântico.

Em casa, sentou-se sozinha, perdida no silêncio da cozinha, e chorou. Primeira vez em doze meses.

Já não era dor a dor já passara. Era mágoa. Era entender que todos aqueles anos tinha sido… pano de fundo. Um cenário confortável para um homem que nunca esqueceu outra. Durante anos, foi ela quem educou os filhos, ergueu a casa, apoiou, cuidou, criou laços com a família dele, fez festas para amigos. E ele guardava outra no coração. E não havia nada que ela pudesse fazer: não se obriga a amar. Não se pode ser protagonista se sempre se foi mero apoio.

***

Mais dois anos.

Agora, Margarida já sabia viver sozinha. E, surpreendentemente, gostava. Ninguém exigia jantar às oito em ponto. Ninguém resmungava se o trabalho se prolongava. Ninguém fitava a janela com saudade do que não era ela. Os filhos estavam crescidos: Rui casado, Madalena no mestrado. Viam-se muito, eram companheiros.

Às vezes as amigas punham-se a brincar: Margarida, então e os homens? Bonita, jovem, por que andas sozinha? Margarida encolhia os ombros. Não tenho pressa. Ainda estou a saborear esta liberdade.

Mas sabia: o medo era maior. Medo de tornar a ser apenas conveniente. Que por trás do charme todo só estivesse indiferença. Que voltasse a ser usada enquanto outro amor é esperado.

Antes só, que mal acompanhada dizia. Prefiro ser a protagonista da minha própria história.

Numa noite, mexendo em caixas, Margarida topou com o álbum de casamento. Ficou ali, folheando, a rever-se nos olhos brilhantes da miúda que pensava, naquele dia, que era amor para toda a vida.

E agora?

Agora fechou o álbum e guardou-o bem no fundo do armário. Não deitou fora a memória não se apaga , mas não quis mais vê-lo todos os dias.

Cá fora, o sol de Lisboa entrava pela janela. Do lado, batucava uma obra. A vida seguia.

Margarida olhou-se ao espelho. Enrugada mas elegante, olhar sereno, sorriso sincero.

És uma mulher de força disse ao reflexo. Ultrapassaste tudo.

E era verdade. Superou não por encontrar melhor, mas por encontrar a si mesma.

Aquela que quase perdeu, corrompida pela ilusão da vida perfeita. Aquela que consegue estar só sem nunca se sentir solitária. Aquela que conhece o seu valor.

E isso vale mais do que tudo.

Às vezes, Henrique ainda lha ligava. Perguntava dos filhos, dava-lhe os parabéns. Margarida respondia cordial, breve, ponto final.

Não havia rancor. A mágoa evaporara-se. Só restava a certeza tranquila: fora uma ótima esposa. Mas ele nunca fora o seu homem. Só ambos perceberam isso tarde demais.

Vera… agora vivia na que fora a sua casa, com o seu antigo marido. Margarida soube que eram felizes. Fosse. Pelo menos aquela história teve final feliz ainda que não para ela.

Hoje, Margarida vai à aula de yoga. Depois, café com a Lurdes. À noite, jantar com o filho e a nora num restaurante novo no Bairro Alto.

A vida está cheia. Porque foi ela própria que a encheu.

Por vezes, antes de adormecer, imagina: como seria se tudo tivesse sido diferente? Se tivesse sido verdadeiramente amada, se tivessem envelhecido juntos, recebido netos, passado fins-de-semana na Ericeira…

Depois vira-se, fecha os olhos e dorme. Porque não vale a pena perder tempo com o que podia ter sido. Houve o que houve. E, disso tudo, Margarida saiu vencedora.

Não por ter batido alguém, mas porque não perdeu a si mesma.

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