Viajo agora até outra cidade portuguesa para ver o meu ex-noivo, três meses depois de ele me ter deixado. Parece impossível, eu sei. Mas na altura fui guiada pelo coração e não pela razão. Levo o anel de noivado comigo, escondido na mala, as nossas fotos guardadas no telemóvel, e aquela esperança tola de que, se ele me visse frente a frente, talvez se arrependesse.
Sei onde trabalha. Ele é médico no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Cheguei sozinha, com uma mala pequena e um nó no estômago que não me larga. Sento-me no átrio e finjo que espero notícias de um paciente qualquer. Quando o vejo a passar no corredor, sinto o ar desaparecer dos meus pulmões. Igual como sempre: bata branca, rosto cansado, passos apressados.
Aproximo-me e digo que precisamos conversar. Olha para mim, surpreendido. Caminhamos lado a lado pelo corredor. Tento falar decidida. Explico-lhe que estou ali porque não quero que tudo entre nós acabe assim, que ainda o amo e queria tentar salvar o que tínhamos.
Ele nem vacila. Diz-me que já tomou a sua decisão, que está focado na carreira e que eu devo seguir com a minha vida. Não levanta a voz, mas as suas palavras são frias… frias demais.
Mordo os lábios para não chorar na sua frente. Assinto, tiro o anel do fundo da carteira, devolvo-lho e despeço-me apressada. Saio, sento-me num banco de cimento à porta do hospital e… não aguento mais. Escondo o rosto entre as mãos e choro como já não chorava há largos meses. Choro pela viagem, pela ilusão, pela rejeição, pelo amor não correspondido.
Nem reparei que, uns bancos mais afastados, estava sentado outro médico, de folga. Ele ouve-me chorar durante uns minutos. Quando começo a acalmar-me, aproxima-se devagar e pergunta:
Desculpa interromper, mas… se precisares de alguma coisa, estou aqui. Está tudo bem contigo?
Baixo a cabeça e lá consigo murmurar:
Não… partiram-me o coração pela segunda vez… pela mesma pessoa.
Ele olha-me com preocupação genuína. Pergunta se pode sentar-se ao meu lado. Senta-se. É uma conversa rara, inesperada, estranha e, ao mesmo tempo, tão humana. Oferece-me água, pergunta se tenho alguém em Lisboa, se estou sozinha. E eu conto-lhe tudo que viajei só para tentar recuperar o meu ex-noivo, que tivemos planos de casamento, que há três meses me deixou e eu ainda não consigo aceitar.
Não me julgou. Apenas ouviu. Falou comigo com calma. Disse-me que não devia implorar por amor. Que é natural sentir-me destroçada neste momento… mas não posso ficar assim para sempre. Não foi um tom de quem flerta, mas sim o de alguém que quer realmente ajudar uma desconhecida.
Falámos mais um pouco… depois trocamos contactos. Disse-lhe que não queria ficar muitos dias em Lisboa, que preferia partir depressa. Ele pergunta quando volto ao Porto. Respondo com sinceridade ainda não comprei bilhete, porque vim cheia de esperança de que as coisas se resolvessem. Então ele sugere:
Fica ao menos uns dias. Anda jantar comigo e com os meus amigos. Não te feches no hotel a chorar.
Aceitei. Fomos jantar, passeámos pela cidade, conheci os colegas dele do hospital. Permaneci em modo “coração partido”. Entre nós, não aconteceu nada. Nem beijos, nem flirt. Só conversas longas e sorrisos tímidos, que por instantes me faziam esquecer a dor.
Uma semana depois regresso ao Porto. Pensei que ficaria por ali. Mas continuámos a falar. Todos os dias. Durante seis meses. Mensagens longas, chamadas tardias, gravações de voz pequenas partilhas do quotidiano. E sem perceber… começámo-nos a aproximar.
Certo dia, sem me avisar, ele aparece no Porto. Escreve-me:
Estou aqui. Preciso ver-te.
Está à minha espera no aeroporto Sá Carneiro. Vou ter com ele e, ao vê-lo de mala na mão, não percebo nada. Abraça-me e diz sem rodeios:
Estou apaixonado por ti. Não quero falar contigo só por videochamada. Vim olhar-te nos olhos e perceber se sentes o mesmo.
Chorei. Mas não de tristeza. Chorei de receio, surpresa, emoção… tudo ao mesmo tempo. Disse-lhe que sim também eu me apaixonei, quase sem dar conta. E a partir desse dia, começámos realmente a namorar.
Hoje comemoramos três anos juntos. Estamos noivos. Casamos em agosto. Vamos começar a distribuir os convites. Por vezes penso: se não tivesse viajado até Lisboa à procura de quem me rejeitou… nunca teria encontrado o homem que hoje é o meu marido.
E embora tudo tenha começado com lágrimas numa banca de hospital… acabou por se transformar na mais improvável história de amor da minha vida.







