Verónica não conseguia encontrar a sua felicidade. Já se aproximava dos quarenta anos e continuava sozinha. E Deus deu-lhe de tudo: inteligência, beleza, um bom emprego, salário alto… só lhe faltava a felicidade no amor.

Ainda não consigo encontrar o meu verdadeiro caminho para a felicidade. Já estou quase a fazer quarenta anos e continuo sozinha. Deus deu-me tudo: inteligência, beleza. O meu emprego é ótimo, ganho bem mas falta-me aquele tal felicidade de mulher.

A Maria Eduarda e o Manuel Joaquim, os meus pais, preocupam-se muito comigo. Apoiam-me, acima de tudo de forma emocional, pois financeiramente até sou eu que consigo ajudar. Mas nunca aceitam a minha ajuda.

Fica connosco, filha, aqui há espaço de sobra! O dinheiro tu vais precisar quando encontrares o teu verdadeiro amor! dizem-me sempre a Maria Eduarda e o Manuel Joaquim.

Todos os dias me esperam, com pena, quando chego a casa cansada do trabalho:

Quem é que tem pena de ti, pobrezinha, se não formos nós? suspira a mãe.

Quando já cá não estivermos, vai ser-te muito duro ficar sozinha! Não terás sequer com quem desabafar! Tens de encontrar a tua felicidade, filha! acrescenta o pai.

E lá nos sentávamos os três diante da televisão. Dia após dia, ano após ano, a história repetia-se: à procura da felicidade ao lado do televisor! Tédio, daqueles que dão sono!

Sempre achei estranho o meu pai falar assim: quando já não cá estivermos. Fui filha de Maria Eduarda e Manuel Joaquim quando eles só tinham 19 anos. Casaram-se por amor! Ainda me parece muito cedo para essas conversas de ausências.

Também eu, nos tempos de faculdade, conheci um rapaz o Tiago. Era alto, um bocadinho desajeitado. Tinha graça. Onde passasse, derrubava sempre qualquer coisa, fazia trinta por uma linha, partia louças.

A Maria Eduarda gozava com ele, chamava-o de Tiago-trapalhão ou Catástrofe ambulante.

E o Manuel Joaquim imitava-o, de forma divertida, a tropeçar por todo o lado, a tentar agarrar o que caía.

Filha, isso não é homem para ti: tudo o que lhe cai nas mãos, parte-se ou estraga-se! Não é o teu destino! diziam-me, tentando convencer-me, sempre com doçura.

Água mole em pedra dura: acabei por ver, nos olhos dos meus pais, apenas a imagem do Tiago como um desastrado.

Só que estavam enganados: o Tiago terminou o curso, abriu uma sociedade de advogados, casou-se com uma rapariga que achava a sua desajeitadice encantadora. Ele precisava era de espaço agora vivem fora da cidade, numa casa só deles.

A felicidade da nossa filha ainda anda por aí consolavam-se, a mim e a eles próprios, o Manuel Joaquim e a Maria Eduarda.

A verdade é que temos uma família unida! Há uns meses, até fomos todos juntos às Ilhas Baleares de férias. Agora, gostam de rever as fotografias à noite: como descansámos, o que comemos, o sol, os mergulhos. Foram bons tempos!

Durante essa viagem, conheci um homem chamado Renato, natural da Galiza. Mais um pretendente alvo da habitual ironia dos meus pais:

Olha, caiu-nos em cima um romance com o Renato espanhol! brincava a Maria Eduarda.

E o Manuel Joaquim enfiava uma almofada dentro da t-shirt, a fazer-se de gordo, imitando o Renato:

É este o novo pretendente? Olha para ele!

Na realidade, o Renato não era gordo. Era corpulento. E interessante: sabia tanto sobre estrelas! À noite, à beira-mar, apontava-as no céu para mim. Cheguei a contrariar os meus pais e deixei-lhe o meu número.

Quando já tínhamos regressado a Lisboa e perceberam que continuávamos a falar ao telefone, a minha mãe declarou:

Romances de férias dão sempre asneira! Nunca acabam bem!

E, pronto, não importava se nem eu nem o Renato tínhamos famílias atrás. O que importava é que era passageiro, coisa de férias. Um desvio sem saída.

Procura a tua felicidade, minha filha! Podes sempre contar connosco, meu amor! prometia o meu pai.

No verão, lá íamos nós os três passar fins de semana à casa de campo. O rio, o verde, chazadas no jardim debaixo das macieiras. Grelhadas no alpendre, frutas e legumes da horta. Os vizinhos juntavam-se, conversávamos à vontade. Uma vez, vieram os filhos dos vizinhos: o António e o seu filho Filipe, de cinco anos. Ambos loiros, de olhos azulados, cobertos de sardas e orelhas grandes iguais.

Os vizinhos contaram-nos, depois, que a mulher do António o tinha deixado por um empresário. O miúdo, claro, não interessava ao tal empresário era a cara do pai. Se fosse da mãe, ainda vá! Mas não queria uma criança igual ao ex-marido em casa. Resultado: António ficou só com o Filipe pequenino.

Gostei logo deles. Havia ali qualquer coisa tão humana e terna. Entre mim e o António surgiu um brilho imediato e o Filipe colava-se a mim, de alma aberta.

A Maria Eduarda não tardou a ironizar:

O António comeu toda a nossa cenoura e deixou só uma! Aposto que os pais dele o trouxeram de propósito, para te conhecer! Para quê um homem com bagagem?

Só pode ser ums falhado! Achas que uma mulher deixa um homem bom, ainda por cima com filho? dizia o meu pai.

Pela primeira vez discordei:

Mas, pai, uma mulher só deixa o filho a um homem se confia mesmo nele! Se sabe que ele não vai desleixar-se!

Não, não é o teu destino! Queremos é ter netos de verdade, não dos outros! Para lhes pegar na mão, ouvir os pés pequeninos na casa

O Manuel Joaquim e a Maria Eduarda fecharam-se. Cortaram relações com os vizinhos, disseram tudo o que lhes vinha à cabeça. Descobrimos, nessa zanga, coisas muito desagradáveis. E as noites de convívio acabaram.

O verão passou nesse clima de tristeza. E eu, como sempre, amava muito os meus pais e amava o António e o Filipe igualmente. Tinha até vergonha do meu próprio coração. Estava apaixonada pela pessoa errada? Ou só errada aos olhos dos meus pais? Voltámos à cidade, todos juntos. Os pais continuaram a ignorar o assunto.

Um dia, vi um pequeno gato ruivo, encharcado, debaixo de um carro, a fugir da chuva. Miava, sozinho, abandonado. Lembrou-me de imediato o Filipe sem mãe, perdido, a precisar de alguém só para si. O carrinho podia arrancar a qualquer momento, esmagar aquela vida que talvez nem tivesse começado. Instintivamente peguei nele, abracei-o debaixo do casaco, sem me importar com a sujidade ou a água. Só queria oferecer-lhe o meu calor.

Levei-o para casa, sequei-o, pus leite numa tigela. Sentei-me no chão da cozinha a ver como ele lambia, rápido, com a língua pequenina.

Devia estar esfomeado, o pobrezinho pensei.

O Manuel Joaquim entrou com o jornal na mão, seguido da Maria Eduarda. Observavam o gato, mas sem um pingo de simpatia. Antes, perplexidade e desagrado:

E agora, o que é que vamos fazer com isto? diziam-se um ao outro, sem saber como reagir.

Quando, por fim, o pequeno gato fez um xixizinho ao pé do armário, nem tive tempo de limpar, já a minha mãe gritava:

Tira daqui essa coisa nojenta! Ele vai destruir a casa! Arranhar móveis, rasgar papel de parede! Manuel, diz-lhe tu! Não quer animais na casa!

Pois, isto até ficamos a cheirar a gato! Quem é que nos vai visitar depois? apoiou o pai.

Oh mãe, não sejas assim! Compramos uma caixa, ensinamo-lo! Vejam como é lindo! tentei argumentar, sem perceber por que um gato incomodava tanto. Ninguém ali tinha alergias, e o apartamento era enorme.

Não, não e não! Não queremos essa responsabilidade! exclamou a mãe, num entusiasmo tempestuoso.

Filha, estás cheia de pena dele, eu percebo. Mas leva-o a um canil! Eles recolhem animais! E se não aceitarem, ameaças que fazes queixa no jornal! acrescentou o pai, acenando com o jornal.

Sem uma palavra, peguei no gato e saí porta fora, de coração partido.

Dei por mim a perguntar como é que aos quarenta anos não tinha nada só meu: nem filhos, nem marido, nem um teto próprio. Nem sequer podia ter um gatinho. Não! Precisava do meu espaço, nem que fosse uma divisão pequena, onde pudesse ser quem realmente sou.

Em vez de seguir para um canil, entrei na primeira imobiliária que vi. Em pouco tempo, arranjaram-me um T1 simpático, onde os donos aceitavam animais.

Pela primeira vez senti que o espaço era meu. Fui comprar tudo ao gato: areia, brinquedos, comida. O veterinário confirmou que era uma gata, com cerca de dois meses. Chamei-lhe Madalena.

Senti uma alegria que não conhecia. E sempre que via a Madalena, pensava no pequeno Filipe e no António.

Até que um dia recebi uma chamada nada esperada. Afinal, após tantas zangas, o António telefonou-me! Disse, descontraído:

Olá! Como estás? Aqui o Filipe está morto de saudades, quer falar contigo!

Sorri só de pensar nas suas sardas e no brilho dos olhos azuis:

Nica! Temos saudades tuas! Vem cá visitar-nos! Eu e o pai ficamos à tua espera! ouvi na voz fininha ao telefone.

Vou, claro! Mas agora não vou sozinha. Posso levar a gata comigo?

Do outro lado, o António ria:

Podes trazer o circo todo se quiseres! Diz-me só a morada já vamos buscar-te!

E foi assim que encontrei a felicidade. Contra todas as probabilidades, sou feliz com o António, o Filipe e a Madalena. E em breve, o Filipe há de ganhar um irmão. Ou irmã qual a diferença?

Nunca esqueci os meus pais, continuo a amá-los profundamente. E telefono-lhes sempre: só para lhes dizer que está tudo bem, que encontrei, enfim, a minha felicidade.

Não é o que desejavam para mim, mas é a minha.

Talvez, um dia, o Manuel Joaquim e a Maria Eduarda compreendam e aceitem este meu caminho. E então, quem sabe, possam finalmente pegar em mãos pequenas, ouvir passos miudinhos a correr pela casaE, quando a Madalena se enrosca no meu colo, ronronando com uma confiança tranquila, percebo que a felicidade não tem forma pré-definida. Ela surge onde houver lugar para o amor e coragem para abrir a porta.

Às vezes, demorei a perceber, só conseguimos compreender aquilo que realmente precisamos quando nos permitimos dar o próximo passo sozinhos. E foi preciso decidir por mim para poder construir o meu felicidade de mulher, sem me guiar pelo medo, mas sim pela esperança.

Não sei se os meus pais algum dia virão conhecer a casa nova, se brincarão com o Filipe ou farão festas na Madalena. Talvez demore, talvez não aconteça. Mas deixo aberta a janela, para que possam entrar quando quiserem, como só as famílias que se amam muito sabem fazer.

Agora, as manhãs têm gargalhadas infantis e patinhas a correr, partilhas de fruta no alpendre da casa pequenina, e um futuro que cada vez mais é escrito por mim.

E é nessa simplicidade, entre o riso de uma criança, o olhar cúmplice de um homem, e o carinho de um animal resgatado, que finalmente sei: cheguei ao meu próprio destino.

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Verónica não conseguia encontrar a sua felicidade. Já se aproximava dos quarenta anos e continuava sozinha. E Deus deu-lhe de tudo: inteligência, beleza, um bom emprego, salário alto… só lhe faltava a felicidade no amor.