A Vera apressava-se a regressar a casa com os sacos de compras pesados nas mãos.
Naqueles tempos, os seus pensamentos andavam sempre ocupados: precisava preparar o jantar, dar de comer aos rapazes, e ainda estudar os trabalhos da escola com o mais novo.
Ainda a alguma distância, Vera reparou numa ambulância parada diante do prédio. Ficou aflita e acelerou o passo o marido andava fraco, não fosse acontecer-lhe algo grave a ponto de chamarem emergência.
Vai para o décimo quinto andar? perguntou, num fio de voz nervoso, ao condutor.
Não, vamos ao décimo quarto, uma senhora idosa ali passou mal respondeu o motorista.
Vera sentiu-se aliviada. Não era para os deles. Tinha de ser para a vizinha, a Dona Nídia Alexandrina. Também era mau, claro, pois a senhora estava sozinha no mundo e já se aproximava dos oitenta anos.
Ai, a Dona Nídia tem a Mimi Se a levarem para o hospital, alguém há de tratar do gato murmurava Vera, subindo as escadas velhas do prédio.
A entrada do apartamento da vizinha era um rebuliço: porta escancarada, a marquesa posta, e o marido de Vera, Alexandre, a ajudar o enfermeiro a conduzir a idosa.
Vai subir já já o condutor ajudar, a ver se conseguimos juntos assegurava o enfermeiro.
Ao avistar Vera, Dona Nídia sorriu francamente:
Verinha, vão levar-me para o hospital. Fica aqui a chave da minha casa, peço-te que cuides da Mimi. A ração está na cozinha, a areia já lhe pus, por favor muda uma vez ao dia. Espero regressar antes das Festas e entregou-lhe a chave trémula.
Com certeza que cuido dela, a senhora é que tem de melhorar depressa! Vera cobriu com carinho as mãos trêmulas da vizinha.
Fique quietinha, não pode mexer-se tanto ralhou o enfermeiro. Pronto, todos prontos, vamos indo
Espera pediu Dona Nídia. Vera, peço-te mais um favor. No móvel do corredor está um papel com um número. Se me acontecer algo, liga por favor. É da minha filha, Ermelinda. Desentendemo-nos faz anos, não falámos mais
Vera prometeu-lhe que tudo ficava bem; assim que o silêncio voltou ao corredor, pegou no papel com o número, conferiu a Mimi e fechou a porta com um suspiro.
Imagina, tantos anos porta com porta, e eu não sabia que a Dona Nídia tem filha comentou mais tarde com o marido, Alexandre.
Também nunca vi ninguém lá em casa respondeu ele. Então, jantamos hoje?
Vera suspirou e atirou-se às rotinas domésticas. Quando finalmente pôde sentar-se, com os filhos já deitados, recordou a filha da vizinha. Olhou o papel arrancado de um bloco, com o número meio apagado, e ficou pensativa.
Já era tarde; mesmo que ligasse agora, não deixariam Ermelinda entrar na enfermaria.
No dia seguinte, enquanto repunha comida para a Mimi, Vera lembrou-se outra vez do pedido da velha. A gata, já saciada, saltou para o seu colo e ronronou contente, mas Vera não sabia se devia ou não telefonar à tal Ermelinda.
Por fim, arriscou.
Boa tarde, Ermelinda? disse, assim que ouviram a sua voz. Daqui Vera, sou vizinha da sua mãe. Ela foi levada ontem para o hospital. Talvez pudesse visitá-la
Olhe, a mim essa senhora não me diz nada respondeu friamente a Ermelinda. Há muitos anos que não tenho mãe, para mim acabou.
Mas isso faz sentido, minha senhora?! exclamou Vera, perdida de espanto. Seja lá o que se passou, Dona Nídia pode não regressar viva Não tem vontade de lhe falar? Nem um último adeus?
Não se meta! Isso não é da sua conta retorquiu a voz fria.
Não tem coração! Se eu hoje pudesse ver a minha mãe mais um segundo, daria metade da minha vida para isso!
Acredite, o tempo muda tudo. Cuidei da minha mãe seis anos, em todo o estado houve alturas em que pensei que não aguentava mais
É duro cuidar de alguém acamado. Mas agora, que já lá vão quase dez anos desde que partiu, penso: melhor teria sido tê-la mais dez anos comigo, mesmo deitada
No fim, Vera desligou o telefone, ainda furiosa.
Que te parece, Mimi disse, dirigindo-se à gata , se a tua dona não ficar boa, levo-te cá para casa. Espero que tu e o nosso Gasparino se dêem bem. Liguei ao hospital hoje, mas a Dona Nídia continua igual
Chegava o Natal. Vera regressava das compras com Alexandre; ele levava um pinheirinho fofo nas mãos.
Segurem a porta, por favor! Vera correu atrás de duas mulheres que iam a entrar no prédio.
Alexandre, despacha-te!
De súbito, olhou para as mulheres e ficou paralisada.
Ai, é mesmo a senhora?! arfou num misto de surpresa e alegria. Dona Nídia, já teve alta?!
Sim, insisti tanto que me libertaram, fiquei melhor deixaram-me voltar para celebrar cá o Natal. Conheça, esta é a minha filha, Ermelinda! e o rosto de Dona Nídia abriu-se num sorriso luminoso.
Já nos conhecemos riu Ermelinda. Pelo telefone!
Todos subiram juntos. Ermelinda segurava o braço da mãe com carinho e, logo a seguir, sussurrou a Vera:
Obrigada por me abrir os olhos a tempo. Posso ir ter consigo daqui a pouco?
Claro acenou Vera, intrigada.
Meia hora depois, Ermelinda apareceu à porta de Vera e Alexandre, com um bolo na mão. Sentaram-se à mesa para chá, enquanto Ermelinda explicava:
Eu e a minha mãe zangámo-nos há dez anos, por coisa parva nem me lembro qual. Ela sempre professora, sempre a corrigir, e nesse dia decidi que bastava resmungou e eu resmunguei de volta.
Deixámo-nos de palavras. Um ano sem conversar, ambas teimosas de mais. Depois só nos falávamos pelo Natal, e só por telefone.
Cheguei a dizer-lhe que era melhor nem estar cá a aturar-me.
Quando recebi a sua chamada, Vera, fiquei mais aliviada do que esperava mas as suas palavras sobre a sua própria mãe fizeram-me pensar. Se a minha mãe desaparecesse, era o meu passado, a minha infância, tudo iria, e eu ficava órfã neste mundo
Disse que passou dois dias a pensar nisto. No fim, venceu o orgulho e foi ao hospital.
Nem acredita, após a minha visita ela começou logo a sentir-se melhor. Nunca mais deixarei a minha mãe! despediu-se calorosamente e apressou-se a regressar a casa da mãe.
O que lhe disseste para a comover tanto? perguntou Alexandre, surpreendido, assim que Ermelinda partiu.
Disse-lhe a verdade, apenas. Só a verdade faz despertar um coração teimoso respondeu baixo Vera. Vá lá, querido. Não te esqueças de ligar à tua mãe hoje. Ou vamos lá todos passar o Natal com ela? Afinal, agora já temos só uma mãe para os doisAlexandre sorriu, um brilho suave nos olhos.
Vamos, sim. Afinal, o Natal é para isso disse, acolhendo Vera num abraço tranquilo.
Enquanto arrumavam os sacos, ouviu-se pela escada uma música ténue: Dona Nídia, já recomposta, dedilhava uma velha caixa de música, e a Mimi espreitava à porta, como se já soubesse que a casa agora era cheia de gente, de palavras trocadas, de reconciliação.
Lá fora, enroscado entre os galhos do pequeno pinheiro, um fio de luzes tremeluzia contra a janela. O bairro, por um instante, parecia abrigar todos os reencontros do mundo.
Vera sorriu para Alexandre: Às vezes basta uma palavra certa para mudar o Natal todo de alguém.
E enquanto preparavam ceia e novas memórias, sentiu que essa noite, mais que os presentes e que o pinheiro, era feita das segundas oportunidades que o coração sabe dar e do calor imenso de finalmente estarem todos juntos.







