Toma lá, minha querida, para ti e para os teus irmãozinhos. Comam, meus filhos. Não é pecado partilhar, pecado é fechar os olhos.
Beatriz tinha só seis anos, mas a vida já lhe tinha posto às costas um peso que outras crianças nem sabem nomear. Vivia numa aldeia pequena, esquecida por tudo e todos, numa casa velha que se aguentava mais à conta das orações da avó que das paredes que a sustinham. Quando o vento soprava forte, as tábuas gemiam como se chorassem, e à noite, o frio entrava pelas rachas sem pedir licença.
Os pais dela trabalhavam à jorna. Hoje havia trabalho, amanhã logo se via. Às vezes, voltavam para casa com as mãos gretadas e o olhar vazio; outras vezes, com os bolsos tão vazios como as esperanças deles. Beatriz ficava a tomar conta dos dois irmãos mais novos e apertava-os contra o peito sempre que a fome doía mais do que o frio.
Nesse dia era dezembro. Um dezembro a sério, com o céu cinzento e o ar a cheirar a neve. O Natal estava a chegar a toda a parte, menos à casa deles. Na panela ao lume borbulhava um guisado simples de batatas, sem carne, sem temperos, mas feito com todo o amor da mãe. Beatriz mexia devagarinho, como quem queria que aquela comida chegasse para todos.
De repente, um cheiro quente, daqueles que fazem crescer água na boca, veio do quintal dos vizinhos. Um cheiro que enchia a alma antes de chegar ao estômago. Os vizinhos estavam a matar o porco para o Natal, e ouvia-se o falatório alegre, risos, tilintar de pratos e o chiar da carne na panela grande. Para Beatriz, aquele barulho era como uma história bonita contada lá longe.
Aproximou-se do muro, os irmãos agarrados à saia dela. Engoliu em seco. Não pedia nada, só olhava. Os olhos dela, grandes e castanhos, enchiam-se de uma vontade calada. Sabia que não era bonito desejar o que não se tem. A mãe sempre lhe dissera isso. Mas o seu coração pequenino ainda não sabia deixar de sonhar.
Ó Deus, sussurrou baixinho, ao menos só um bocadinho…
Como se o céu a ouvisse, uma voz carinhosa fez-se ouvir no frio:
Beatrizinha!
A pequena estremecceu.
Beatrizinha, vem cá, filha!
A dona Manuela, a vizinha velhinha, estava ao lado do tacho, com as faces rosadas do calor e os olhos quentes como uma lareira acesa. Mexia devagar na grande panela de milho e olhava para a Beatriz com uma ternura que a menina já nem recordava.
Toma lá, querida, para ti e para os teus irmãozinhos, disse ela, com aquela bondade simples e natural de gente boa.
Beatriz ficou parada por um momento. A vergonha apertou-lhe o peito. Não sabia se podia sentir-se feliz. Mas a velha acenou de novo, e com mãos trémulas encheu uma caixa com carne quente, douradinha, com aquele cheiro de verdadeiro Natal.
Comam, meus filhos. Não é pecado repartir. Pecado é fingir que não se vê.
As lágrimas de Beatriz caíram, sem as conseguir segurar. Não chorava de fome. Chorava porque, pela primeira vez, alguém a tinha visto. Não como a pobre, mas como uma criança.
Correu para casa com o tupperware junto ao peito como se fosse um tesouro sagrado. Os meninos saltaram de alegria, e, por uns momentos, a casa pequena encheu-se de risos, de calor e de um cheiro que nunca antes ali morara.
Quando os pais regressaram ao anoitecer, cansados e gelados, encontraram os filhos a comer e a sorrir. A mãe chorou baixinho, o pai tirou o boné e levantou os olhos ao céu.
Nessa noite não houve pinheiro. Não houve prendas.
Houve humanidade.
E, às vezes, isso é tudo o que é preciso para não sentirmos que estamos sozinhos no mundo.
Há crianças como a Beatriz, agora mesmo, que não pedem nada. Só olham.
Olham para os quintais iluminados, para as mesas fartas, para o Natal dos outros.
Às vezes, uma refeição, um pequeno gesto, uma palavra doce, tornam-se o melhor presente de uma vida.
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