Madalena lavava a loiça na cozinha quando Manuel entrou. Antes de entrar, apagou a luz do teto.
Ainda está claro lá fora. Não é preciso gastar eletricidade à toa, resmungou Manuel.
Eu queria pôr uma máquina de roupa a lavar, disse Madalena.
Pões à noite, respondeu Manuel secamente. Quando a eletricidade é mais barata. E não abras tanto a torneira, que gastas muita água, Madalena. Demais. Assim não pode ser. Não percebes que é como deitarmos dinheiro pelo cano abaixo?
Manuel fechou mais a torneira. Madalena olhou pesarosa para o marido. Depois fechou a água, limpou as mãos e sentou-se à mesa.
Manuel, alguma vez já te observaste de fora? perguntou ela.
Estou sempre a observar-me, todos os dias, resmungou ele.
E o que é que vês? insistiu Madalena.
Como pessoa? perguntou Manuel.
Como marido e pai.
Sou como qualquer um, respondeu Manuel. Nem melhor nem pior. Normal. Porque é que insistes?
Achas mesmo que todos os maridos e pais são como tu? continuou Madalena.
O que é que queres? Queres discutir? devolveu ele.
Madalena sabia que não havia volta a dar, e este era um daqueles diálogos que precisavam de acontecer. Era preciso continuar até que ele percebesse que viver com ele tinha-se tornado um tormento.
Sabes porque é que ainda não me deixaste? perguntou Madalena.
Porque é que havia de deixar-te? ripostou Manuel com um sorriso torto.
Pelo menos porque já não me amas, disse Madalena. Nem sequer gostas dos nossos filhos.
Manuel ia interromper, mas Madalena não deixou.
E nem vale a pena dizeres que não é verdade. No fundo, tu não amas ninguém. Não vamos discutir isso para não perder tempo. Queria só dizer-te isto: sabes por que razão não nos deixaste ainda?
Então, porquê? perguntou Manuel.
Por pura mesquinhez, respondeu Madalena. És tão forreta que separar-te de mim é para ti uma enormidade em termos de perda financeira. Quantos anos estamos juntos? Quinze? E o que fizemos em quinze anos? Se não contarmos o casamento e os filhos, o que conquistámos?
Ainda temos a vida pela frente, murmurou Manuel.
Não temos, Manuel. Não toda, pelo menos. Só o resto dela. Estes anos todos juntos e nem uma vez fomos de férias ao Algarve. Nem uma ida à praia, que seja cá em Portugal. Férias, só passadas na cidade. Nem sequer vamos ao campo apanhar cogumelos, que tu dizes que é caro.
Porque poupamos dinheiro para o futuro, disse Manuel.
Poupamos? Talvez tu poupavas. Para quem? Para mim e para os miúdos? Quinze anos a juntar os teus e os meus salários numa conta para mim e para eles?
Claro! E sabes quanto já temos no banco, graças a mim?
Nós? Talvez tu tenhas. Mas no meu nome não está nada. Olha… se calhar não percebi, mas vamos confirmar: dá-me dinheiro para comprar roupa nova para mim e para os miúdos, porque já lá vão quinze anos a usar o que vestia quando casei e o que a tua cunhada me passa. O mesmo para os nossos filhos, sempre com roupa herdada dos primos. O mais importante: vou finalmente alugar um T2 para mim e para os meninos, porque estou farta de viver na casa da tua mãe.
A minha mãe deu-nos dois quartos, respondeu Manuel. Mais não se pode pedir. Quanto à roupa, para quê gastar nessas coisas? Se os teus sobrinhos deixam boas roupas, é só aproveitar para os nossos pequenos.
E eu? insistiu Madalena. Eu vou usar roupa velha da tua cunhada?
Para que te vais arranjar? disse ele. Francamente, é ridículo. Tens dois filhos. Já tens trinta e cinco anos! Não devias era pensar nessas futilidades.
E em quê, então?
No sentido da vida, respondeu Manuel. Há valores mais altos, coisas mais dignas de atenção do que roupas, casas e tralhas de mulher.
Estás a falar de quê, afinal?
Do desenvolvimento espiritual, do que conta de verdade. Devias elevar-te acima dessa confusão de roupas, casas e essas coisas todas.
Então é por isso que guardas o dinheiro na tua conta e não me dás nada? Para o nosso futuro espiritual? Estou a perceber?
Porque não posso confiar em vocês, gritou Manuel. Se vos desse, vocês gastavam logo tudo. E se um dia nos faltar alguma coisa? Pensaste nisso?
Em quê? Em como viver se um dia faltar dinheiro? É engraçado isso, Manuel! Só me falta saber quando é que vamos… isso mesmo… viver? Nem percebes que vivemos já como se a tua catástrofe tivesse acontecido!
Manuel calou-se e lançou-lhe um olhar fulminante.
Tu poupas até no sabonete e no papel higiénico! continuou Madalena. Trazes sabonete e creme das mãos da fábrica onde trabalhas, porque lá dão. Nós nunca compramos nada melhor.
Grão a grão enche a galinha o papo, respondeu Manuel. Tudo começa nas pequenas coisas. Comprar coisas caras como sabonete, cremes ou papel é absurdo.
Então diz-me um prazo, ao menos. Quanto tempo mais tens para poupar? Dez anos? Quinze? Vinte? Quando é que vamos finalmente poder viver com dignidade? Quero saber se aos trinta e cinco anos já sou muito nova para papel higiénico bom, ou só aos quarenta começa?
Manuel continuava em silêncio.
Deixa ver então, prosseguiu Madalena. Quarenta anos? Já posso viver quando lá chegar?
Manuel continuava mudo.
Não… faz sentido… Só aos cinquenta, talvez? Isso é que é… não vá a gente estragar tudo a gastar em papel higiénico de qualidade! Tu tens razão, Manuel, aos cinquenta é cedo. E sessenta? Com a fortuna que vais ter no banco, talvez aí? Aí posso comprar roupa nova para mim e para os miúdos?
Manuel nada dizia.
Olha, Manuel, disse Madalena, já com a voz a tremer, e se nós nem aos sessenta cá chegarmos? Não achas possível? Com a má alimentação a que poupas, até comemos em excesso, mas só porcarias baratas, enchendo o estômago. Alguma vez pensaste que isso faz mal à saúde? Mas mais grave ainda é vivermos sempre de mau humor. Vida assim não dura muito.
Se sairmos de casa da minha mãe e comermos bem, não conseguimos poupar nada, disse Manuel.
Não conseguimos, concordou Madalena. E é por isso que vou embora. Estou farta de poupar. Já não quero mais isso na minha vida. Se tu gostas, fica com a tua mania das poupanças.
Mas como vais viver? chocou-se Manuel.
Vou viver! respondeu Madalena. Não pior do que vivo agora. Vou arrendar um apartamento só para mim e os meninos. O meu ordenado é tão bom como o teu. Chega para a renda, roupa e comida. E principalmente, não tenho de aturar a tua conversa sobre eletricidade, água e gás. Vou usar a máquina de lavar quando me apetecer, não só à noite. Se esquecer a luz ligada no WC, não faz mal. E comprarei o melhor papel higiénico. E terei guardanapos de papel todos os dias na mesa. E, nas compras, levarei o que me apetecer, sem esperar pelas promoções.
Mas assim nunca conseguirás poupar! exclamou Manuel.
Quem disse? respondeu Madalena. Até posso, se quiser. As tuas pensões de alimentos para os meninos é que vou pôr de lado. Ou talvez não. Não vou nada. Não porque não possa, mas porque já não quero. Vou gastar tudo, até ao último cêntimo. Vou viver do ordenado ao ordenado. E todos os fins-de-semana, levo os meninos a vossa casa, a ti e à tua mãe. Imagina bem: que poupança para mim! E eu, nesses dias, vou ao teatro, a restaurantes, a exposições. No verão? Vou à praia. Ainda não sei bem para onde, mas irei de certeza. Quando me libertar de ti, logo decido.
Manuel sentiu-se tonto. O medo apertou-lhe o peito. Não pelas crianças. Nem por Madalena. Por ele próprio. Rapidamente fez contas de cabeça: quanto lhe sobraria depois das pensões de alimentos e com as despesas dos meninos aos fins-de-semana. Mas o que mais lhe doeu foi imaginar Madalena a gastar dinheiro em viagens ao mar. Isso, para ele, era pior do que dinheiro deitado ao lixo. Eram os seus euros a desaparecer.
Ainda não disse o melhor, continuou Madalena. O dinheiro da tua conta bancária, vamos dividir.
Dividir como? perguntou Manuel.
Metade para cada um, respondeu Madalena. E eu vou gastar tudo. Seja lá quanto for o que juntaste nestes quinze anos. Vaio tudo ser aproveitado. Não vou amealhar para a vida, Manuel. Vou viver já.
Manuel mexia os lábios, tentando falar, mas o susto paralisava-o, deixava-o sem palavras ou pensamentos.
E sabes o que sonho, Manuel? disse Madalena. Sonho que, quando chegar o meu dia de partir, a minha conta bancária esteja a zeros. Só assim saberei que vivi plenamente, que aproveitei tudo até ao fim nesta vida.
Dois meses depois, Manuel e Madalena estavam divorciados.
Viver apenas a guardar para o amanhã, esquecendo o valor de sentir e construir o presente, pode transformar a vida numa espera infinita. Não se deve perder a alegria do hoje com o medo do amanhã, pois a verdadeira riqueza encontra-se em viver com equilíbrio e coração aberto.







