Vais encontrar o teu destino. Não é preciso pressas, tudo chega na sua hora Polina tinha uma tradi…

Sabes, é importante confiar que tudo acontece a seu tempo. Não vale a pena apressar nada. Cada coisa no seu momento, mesmo que nos pareça que estamos a ficar para trás.

Olha, vou-te contar sobre a Inês ela tem uma tradição muito engraçada, mas um bocadinho fora do comum. Todos os anos, antes do Ano Novo, lá ia ela visitar uma cartomante. Como vivia em Lisboa, arranjar uma cartomante nova era como ir até à Baixa apanhar o elétrico: em cada esquina há uma diferente.

O problema é que a Inês sentia-se sozinha. Por mais que tentasse, conhecer um rapaz decente parecia missão impossível. É como se todos os bons rapazes tivessem desaparecido dos mapas de Portugal…

Este ano vais encontrar a tua sorte! exclamou a cartomante, de olhos escuros e profundos, enquanto fitava um cristal reluzente.

Mas onde? Onde é que eu o vou encontrar? Inês já estava impaciente. Dizem-me sempre a mesma coisa ano após ano. O tempo passa e o destino nunca aparece.

Diziam que tu eras a melhor cartomante de Lisboa. Exijo que me digas o sítio exato! Ou então vou espalhar a palavra de que isto é tudo tanga… ameaçou Inês.

A cartomante revirou os olhos, já sabia com quem estava a lidar: não ia ser fácil livrar-se dela. Se não dissesse alguma coisa, a Inês ficaria ali o dia inteiro, a atrasar todas as outras clientes.

Vais encontrar o teu destino num comboio! disse, fechando os olhos Estou a ver… um rapaz alto, loiro, muito bonito. Parece um príncipe daqueles das histórias…

A sério? animou-se a Inês. E em que comboio, e quando?

Antes do Ano Novo! continuou a cartomante, já meio divertida. Vai até à estação do Oriente. O teu coração vai-te dizer para que lado comprar o bilhete…

Muito obrigada! sorriu a Inês, cheia de esperança.

Assim que saiu do prédio da cartomante, Inês apanhou um táxi até à estação e, quando chegou ao guiché, já estava menos entusiasmada. Ficou a olhar para o painel de partidas perdida nos seus pensamentos, sem saber para onde comprar bilhete…

Então, minha senhora, diga lá! a voz impaciente da funcionária interrompeu-lhe a viagem mental.

Porto para trinta e um de dezembro. Queria um lugar num compartimento individual lá conseguiu dizer a Inês.

Imaginava-se já no comboio, a beber chá e, de repente, alguém entrava pela porta do compartimento o tal, o seu príncipe encantado…

Voltando para casa, Inês começou a arrumar as poucas coisas, porque a sua viagem já era naquela noite.

Nem pensou nas consequências; sobre o que ia fazer na passagem de ano, numa cidade onde nem conhecia ninguém. Só queria que a profecia se tornasse realidade o mais depressa possível.

É que, sabes custa muito sentir que não és importante para ninguém. Principalmente na época das festas, quando está tudo reunido, de família e de amigos, a comprar presentes e a encher o frigorífico para a ceia do Ano Novo. Só ela estava sozinha

Algumas horas depois, lá estava Inês sentada no compartimento, com um copo de chá na mão, tal e qual como tinha imaginado. Só faltava o tal príncipe aparecer pela porta

Olá, minha querida! saudou uma senhora já com uns bons anos, entrando com uma mala gigante no compartimento. Onde é o outro lugar?

Aqui disse Inês um pouco atrapalhada, apontando para o lugar em frente. Tem a certeza que este é mesmo o seu compartimento?

Claro que é, menina respondeu a senhora, sentando-se com um sorriso simpático.

Com licença, deixo-me só passar balbuciou Inês. E aí percebeu que tudo aquilo era uma grande tontice. Quero sair Já não quero ir!

Espera aí, deixa só guardar a mala foi dizendo a velha senhora sem perceber o que se passava.

Pronto o comboio já arrancou e Inês soltou um suspiro pesado. E agora?

Porque é que de repente quer sair? Esqueceu-se de alguma coisa? perguntou a senhora.

Inês não respondeu, virando-se para a janela. Sabia que a senhora não tinha culpa de nada; foi ela própria que se meteu nesta aventura.

Entretanto, a Dona Lurdes tirou da mala uns rissóis ainda morninhos e começou a oferecer à sua companheira de viagem.

Fui visitar a minha filha explicou Lurdes. Agora estou a regressar a casa porque o meu filho vem passar o Ano Novo connosco, com a namorada. Vamos estar todos juntos.

Que sorte Eu, se calhar, vou passar o Ano Novo na estação, sozinha disse Inês, meio triste.

Pelas conversas, Inês acabou por contar-lhe toda a história da cartomante e as suas esperanças.

Ai rapariga não te metas nessas coisas! disse a senhora, abanando a cabeça. Vais encontrar o teu caminho. Não apresses nada. Tudo acontece quando tem de acontecer

No dia seguinte, Inês desceu na plataforma de uma cidade que nunca tinha visto. Ajudou a senhora Lurdes a sair do comboio, depois ficou parada, sem saber o que fazer, completamente às aranhas.

Obrigada, Inês! Bom Ano Novo para ti! agradeceu Dona Lurdes.

Igualmente respondeu Inês, um pouco desanimada.

A senhora olhou para ela, sem saber bem como a animar. A verdade é que passar a passagem de ano na estação de comboios não é a maneira mais bonita de começar um ano

Inês, porque não vens lá para casa comigo? sugeriu Dona Lurdes de repente. Decoramos a árvore, preparamos uma mesa bonita

Não quero incomodar hesitou Inês, um pouco embaraçada.

E estar à espera na estação não incomoda? disse Dona Lurdes com um sorriso. Vá lá, não se fala mais nisso!

Inês acabou por aceitar o convite da senhora. Afinal, ela tinha razão. Estava um frio de rachar na rua e não fazia sentido ficar ali perdida.

O Ricardo e a Sofia já devem estar em casa sorriu Dona Lurdes.

O Ricardo viu a mãe chegar de táxi pela janela. Correu até ao elevador para ajudar com a mala pesada.

Ricardo, olá meu amor. Hoje não venho sozinha, trouxe uma hóspede. Esta é a filha de uma amiga minha dos tempos antigos, a Inês e piscou o olho à Inês, para ela entrar.

Que bom, seja bem-vinda, Inês! cumprimentou Ricardo, todo sorridente.

Inês olhou para o rapaz alto, loiro, bonito tal e qual como tinha imaginado no comboio. Destino, ou apenas ironia do acaso?

E a Sofia, mãe? perguntou Ricardo.

Ricardo, a Sofia já cá não está e nunca mais vai voltar. Não quero falar sobre isso. Está bem? respondeu ele, com o olhar triste.

Está bem disse a senhora Lurdes, também sem saber o que dizer.

À noite estavam todos à mesa, a despedir-se do ano velho.

Inês, vais ficar cá uns dias? perguntou Ricardo, servindo-lhe salada no prato.

Não estou a pensar ir-me embora amanhã cedo respondeu Inês, um bocadinho triste.

Não lhe apetecia mesmo nada sair daquele ambiente tão acolhedor. Sentia que conhecia a Dona Lurdes e o Ricardo desde sempre.

Não percebo porque tens tanta pressa ralhou Dona Lurdes. Fica mais uns dias, Inês.

Sim, Inês! Fica cá A nossa pista de gelo é fantástica, amanhã à noite podíamos ir lá. Não vás já, pediu Ricardo.

Pronto, convenceram-me sorriu Inês. Fico com muito gosto.

No Ano Novo seguinte, já estavam a celebrar juntos: Dona Lurdes, Ricardo, Inês, e o pequenino António…

E tu? Acreditas em milagres de Ano Novo?

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