Uma senhora portuguesa adotou um cachorro de raça Pastor da Ásia Central. O cão cresceu e ficou muito protetor: comia uma bacia de comida em segundos, arranhava tanto as costas na vedação que a entortou, e até tentou arrastar a dona com um puxão só.

Hoje resolvi escrever no meu diário sobre uma história que aconteceu na nossa família em Vila Nova de Gaia, cidade onde cresci e vivi quase toda a vida. Tudo começou com a minha tia-avó, a Dona Etelvina, uma daquelas mulheres que nunca teve medo de nada. Depois de tantos anos sozinha, já com idade avançada, decidiu adotar um cachorro nada menos do que um imponente Cão da Serra da Estrela. O cachorrinho, que ela batizou de Gaspar, crescia assustadoramente rápido e parecia ter tirado a sorte grande: devorava uma travessa de comida em segundos, arranhava tanto as costas no muro que os vizinhos diziam que mais umas semanas e ia abaixo, e quando a minha tia-avó passava pela corrente, o danado ainda tentava puxá-la com um tranco!

Gaspar era daqueles cães a quem era preciso dar utilidade ou, pelo menos, entretê-lo de vez em quando para não perder noção do que era brincar.

O tempo passou e, infelizmente, a Dona Etelvina acabou por nos deixar antes dos 90 anos. Nada teve a ver com o Gaspar, foi a vida a acontecer. Com a notícia, a família juntou-se toda na sua velha casa de campo, para tratar dos assuntos e organizar tudo. Chegámos lá e, claro, o Gaspar estava preso à corrente, a guardar a casa como sempre. Pelo olhar dele, conseguíamos ler tudo: não era todos os dias que aparecia tanta gente com cara de bons petiscos e cheiro de iguarias diferentes. Começámos logo a discutir sobre o que fazer com o Gaspar. Não tínhamos coragem para o sacrificar. Ninguém queria ficar com ele por perto, era demasiado imponente. E soltá-lo no mundo, assim, sem mais? Não parecia coisa cristã nem correta.

A decisão foi tentar encontrar alguém com coração e coragem para adoptar o Gaspar. E, se fosse preciso, até oferecíamos um subsídio de adopção em euros, porque ninguém queria que o novo dono ficasse de mãos a abanar ao receber o nosso feroz amigo.

Demorou, mas lá apareceu alguém: o senhor Artur, um daqueles apaixonados pelos cães de raça grande desde rapaz, que sonhava ter um bicho robusto ao lado. Cada um com as suas pancas! Tratámos logo de chamar o veterinário do bairro.

Aqui é que a verdadeira aventura começa. O plano era simples: sedar o cão, soltá-lo da corrente e transportar o Gaspar rapidamente para sua nova casa. Até planeámos acender uma velinha pelo sim, pelo não, não se perde nada.

O veterinário apareceu à hora marcada, com um tranquilizante daqueles para animais de porte grande. Com um tiro de seringa certeiro, Gaspar foi ao reino de Morfeu. Desligaram a corrente, deitaram-no numa lona e arrastaram-no até ao carro. Puseram-no no porta-bagagens, junto ao banco de trás, e seguimos caminho. O veterinário decidiu sentar-se à frente profissional é profissional, merece conforto. O senhor Artur ia ao volante, e atrás, encavalitada, toda a família: primos, tios, sobrinhos.

No caminho, a meio das conversas nervosas, Gaspar começa a acordar da anestesia. Levanta a cabeça, olha com curiosidade à volta. Pessoas por todo o lado, sentadas e a olhar para ele de volta. Olhares de espanto do veterinário e do senhor Artur, que nem conseguia tirar os olhos do espelho mais valia nem ter mãos ao volante!

Gaspar, claro, resolveu juntar-se à festa, atravessou-se por entre os bancos e começou a lamber toda a gente: a família da tia-avó, o senhor Artur afinal, provável futuro companheiro e até o veterinário, pelo que duvido que ele algum dia tenha recebido tal agradecimento genuíno, mesmo tendo-lhe espetado a seringa.

Foi nesse momento que todos ali perceberam que tinham errado sobre Gaspar: não era nenhum monstro. O resto da viagem fizemos encharcados de lambidelas do Gaspar. Molhados por cima, de tanto carinho, e por baixo, porque naquele momento todos estavam completamente emocionados.

Hoje, quando olho para o terreno da velha casa de família, dou por mim a sorrir. Aprendi, com esta história, que muitas vezes o medo nasce daquilo que não conhecemos de verdade. Por vezes, basta um pouco de afeição para o mundo parecer um lugar melhor, mesmo quando toda a gente espera o contrário.

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Uma senhora portuguesa adotou um cachorro de raça Pastor da Ásia Central. O cão cresceu e ficou muito protetor: comia uma bacia de comida em segundos, arranhava tanto as costas na vedação que a entortou, e até tentou arrastar a dona com um puxão só.