Uma mulher chamada Matilde, de cinquenta e seis anos, começou a notar os primeiros sinais da idade. Nada de extraordinário afinal de contas, ninguém ficou imune ao tempo, não é? Só que Matilde deu-se conta de que estava a envelhecer com uma velocidade que mais parecia resultado de concurso: cada dia parecia que alguém lhe roubava um bocadinho de juventude e caprichava-lhe com uns pós de envelhecimento no rosto.
Há pouco tempo ainda dava nas vistas! O senhor Evaristo, um velhote que passava as tardes no banco do jardim do bairro, faça chuva ou faça sol, não deixava de lhe lançar um piropo: Ó menina, que bem que lhe fica esse sorriso! Parece uma moça!
Matilde sorria e apressava-se para o emprego, e por onde passava choveram elogios. A verdade seja dita, ela de facto estava ótima!
Um dia, Matilde reparou que já há muito tempo não via o senhor Evaristo. Nenhum sinal dele, nem no banco do costume. Foi perguntar à vizinhança: o senhor tinha sido levado para um lar de idosos. Os familiares viviam espalhados pelo país e não havia ninguém para cuidar dele. Noventa anos e uns quantos achaques obrigaram-no ao descanso assistido.
Por uns tempos, Matilde esqueceu-se das suas rugas e ficou só a pensar no senhor Evaristo olha que nome! Descobriu onde era o lar, encheu um saco com bolachas, rebuçados e umas revistas de passatempos, e lá foi ela, num domingo, meter conversa e fazer companhia ao velhote.
Lá estava o Evaristo: sentado na poltrona, a atacar um pratinho de papas de leite como se fosse a coisa mais de luxo do mundo. Quando viu Matilde, alegrou-se todo: Ah minha menina, que surpresa boa! Olhe que continua linda! Uma verdadeira jovem!
E, com isto, não só Evaristo foi puxando conversa, como vieram outras senhoras e senhores da casa, prontos a distribuir elogios. Cada um mais simpático que o outro. Matilde, quando chegou a casa, lançou um espreitadela ao espelho E o que viu? Bochechas coradas, olhos vivos, cabelo com uns caracóis novos e, jura que não está a exagerar, até as rugas pareciam mais leves. Resultado? Uma mulher jeitosa e com ar de quem tem energia de sobra para dar e vender. Parecia até mais nova do que o cartão de cidadão dizia. Um verdadeiro milagre, para quem acredita nisso!
E foi assim que Matilde passou a ir ao lar de idosos todos os domingos. A dar uma mãozinha, a dançar com quem quisesse levantar da cadeira, a ouvir histórias e fazer companhia. Não era vaidade pura, não senhor. Era mesmo porque coração agradece o que faz sentido ajudar, alegrar, ser para alguém quase como filha ou neta. E sabe que mais? Recebia tanto carinho e tantos sorrisos que até se emocionava.
Dizem que as pessoas são espelhos. Mas não desses que mostram só as rugas e os cabelos brancos. Existirão, felizmente, os outros: os que nos devolvem juventude, nos endireitam as costas, nos enchem de energia e fazem com que os olhos voltem a brilhar. Claro, há também aqueles que nos encolhem, que nos tiram força. Por isso mesmo, é preciso cuidar dos espelhos mágicos, das pessoas boas que só sabem dizer o que é sincero e de coração. E tratar bem os mais velhos. Enquanto existirem, continuamos jovens e ainda temos muito para dar.
Assim pensa Matilde, mulher renovada pela generosidade dos outros. E ela, meus amigos, está redondamente certa.






