Uma mãe convidaria visitas para a casa da filha!

Imagina que, por um capricho do destino, consegues comprar o teu próprio apartamento numa cidade balnear portuguesa, talvez em Lagos ou Ericeira. Faz dele pequenino, com uma janela virada para o Atlântico, onde o cheiro do mar invade tudo. Mudaste-te para lá, para ficar próximo das ondas azuis e dos barcos que passam vagarosos. Antes disso, ninguém da tua família queria saber da tua vida. Não perguntavam se estavas bem, se tinhas saúde, nem por que trabalhavas há cinco anos sem tirar férias.

Normalmente, os portugueses são gente hospitaleira, sempre prontos a abrir a porta a quem precise de abrigo. O problema aparece quando alguém começa a abusar da generosidade, quando a hospitalidade se transforma em stress. Onde será que fica a linha ténue neste sonho, aquela fronteira estranha que separa a cortesia da vontade súbita de gritar para que todos desapareçam só para te sentires enfim só?

Nem sempre família e amigos aparecem à porta de alguém que, de repente, ganha dinheiro ou compra casa num sítio bonito. Mas, quando se mora ao pé do mar, os peregrinos da família não param de chegar, como gaivotas em redor do pão.

Num desses dias surreais, chegou à minha casa a Bárbara, que tinha dificuldade em respirar. Sentia o peito pesado, como se o interior queimasse em brasa. Foi examinada, claro, mas os médicos não encontraram nada. Descobriu-se que a causa estava escondida, um stress constante que se tinha infiltrado na sua rotina sem que ela notasse. O problema era como um cardume de sardinhas sob as ondas

Tudo começou quando Bárbara comprou o apartamento. Num gesto de confiança, entregou à mãe, Dona Odete, uma cópia das chaves. Na altura, pareceu-lhe a coisa certa a fazer. Dona Odete vivia a quatro horas de comboio, mas não tardou a aparecer frequentemente, sempre com malas e sorrisos de saudades. Bárbara tinha de faltar ao emprego para receber a mãe, interrompendo o trabalho que lhe pagava as contas.

Para evitar esse incómodo, Bárbara deu-lhe as chaves, pensando ter resolvido a situação. Mas logo a mãe começou a vir acompanhada de tios, primos, amigas e até vizinhas da aldeia. No sonho, a sala ficou cheia de vozes e risos estranhos.

“Bárbara, que vida boa tens tu! Deixa-nos ficar contigo, aqui junto ao mar.” “É preciso retribuir a simpatia e abrir o coração,” diziam.

O marido de Bárbara, Tiago, viajava muito a trabalho, quase nunca estava em casa para testemunhar aquela romaria de parentes e conhecidos. E Bárbara achava profundamente que fazia o correto, que ajudava todos como uma santa. O apartamento, apesar de pequeno, parecia expandir-se como se fosse um estranho palácio onde todos cabiam. Dona Odete ajudava todos mas era Bárbara quem pagava tudo: pão, peixe, fruta, luz, tudo em euros cada vez mais escassos. A bondade era feita pelas mãos da filha.

Bárbara tentou acomodar-se, dividindo um quarto com o marido, enquanto o enxame de parentes ocupava os restantes espaços. Preparava refeições, arranjava camas, cuidava de quem precisava. Arranjou até um segundo emprego, pois o dinheiro já não chegava. Depois veio a quarentena, e Tiago acabou por ficar sem trabalho. Mas os visitantes não temiam doença alguma. Apareciam sempre, sem avisar, porque achavam que o mar curava tudo.

O marido farto de noites sem descanso e da constante invasão, disse a Bárbara: Ou tiras as chaves à tua mãe e proíbes que entre e traga gente, ou divorcio-me.

Bárbara ficou entre a espada e a parede. A mãe tinha-a criado para ser uma filha exemplar, mas já não queria perder o marido. Decidiu enfrentar Dona Odete.

A mãe, magoada, acusou-a de falta de coração, fingiu doença, ameaçou com um enfarte provocado pela tristeza. Manipulou como só uma mãe portuguesa sabe, mas Bárbara manteve-se firme.

Dona Odete recusou devolver as chaves e decretou, dramática como numa telenovela, que já não tinha filha. Não queria vê-la nunca mais. Por fim, Tiago mudou as fechaduras. O sonho, agora, tinha uma porta que só abria por dentro. Uns poucos parentes tentaram vir cumprimentar, mas ninguém lhes abriu. Afinal, alimentar parentes e amigos sem fim é tarefa ingrata e cansativa.

Bárbara lamentou, no fundo da alma, a ruptura com a mãe. Sentiu-se leve, porém, com a casa só para si e dinheiro suficiente para viver. Os apertos no peito desapareceram como espuma no mar, e a dor de querer agradar à mãe deixou de a perseguir no sonho surreal onde, finalmente, podia respirar.

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Uma mãe convidaria visitas para a casa da filha!