Uma idosa pobre alimentou duas crianças famintas durante meses… depois desapareceram sem dizer adeus. Vinte anos depois, a verdade veio finalmente à tona.

Uma velhota pobre alimentou dois miúdos esfomeados durante meses depois desapareceram sem dar cavaco. Vinte anos depois, a verdade veio ao de cima.

Num pequeno mercado do bairro de Alfama, em Lisboa, uma senhora chamada Dona Idalina Correia vendia batatas cozidas com sal e azeite e um fio de vinagre.

Não ganhava lá muito, mas chegava para viver descansada no seu modesto T1.

Numa manhã, enquanto ajeitava o seu cesto de batatas, uma escorregou e foi parar ao chão.

Caiu-lhe uma batata, senhora.

Dona Idalina virou-se. À frente dela estavam dois rapazes iguaizinhos. Magros, bochechas fundas e casacos visivelmente emprestados e bem grandes. Um deles apanhou a batata, limpou-a com cuidado nas calças e devolveu-a. O outro não tirava os olhos da panela das batatas, a fumegar.

Obrigada… disse Idalina em voz meiga E vocês, o que andam por aqui a fazer? Já vos vi aqui hoje umas quantas vezes.

O mais velho encolheu os ombros.

Nada… só a passar.

Dona Idalina conhecia demasiado bem esse só a passar. Era o que diziam os miúdos com fome, a tentar disfarçar a vergonha.

Sem mais palavras, pegou em duas batatas bem quentes, embrulhou-as num pedaço de jornal e juntou um picles de pepino.

Amanhã voltem cá disse, com naturalidade Ajudam-me a arrumar umas caixas. Que tal?

Os miúdos agarraram o embrulho num instante. Nem disseram obrigado. Só acenaram com a cabeça e foram-se embora.

Ainda nessa tarde regressaram. Idalina tentava empurrar um garrafão de água pesado. Antes que conseguisse pedir ajuda, os dois já tinham pegado nele e levaram-no para trás da banca.

O mais velho meteu a mão ao bolso e tirou duas moedas antigas de escudo, de cobre.

Eram do nosso pai disse baixinho Era padeiro… até deixar de ser.

Estendeu as moedas.

Não as podemos dar… mas pode vê-las.

Dona Idalina percebeu logo: era tudo o que tinham no mundo.

Fiquem com elas sorriu Os padeiros precisam sempre de sorte.

Os rapazes começaram a ir lá todos os dias.

Chamavam-se Martim e Dinis Figueira.

A Dona Idalina dava-lhes comida caseira: feijão, broa, às vezes um naco de queijo. Eles, em troca, carregavam sacos de batatas, arrumavam caixas, limpavam a banca.

Comiam depressa e calados, como se alguém lhes pudesse tirar a comida da mão.

Um dia Idalina perguntou:

Onde é que dormem vocês?

Num cave ali na Rua dos Sapateiros respondeu Dinis Não se preocupe, é seco.

Tenho de me preocupar, claro retorquiu Idalina, com firmeza É por isso que pergunto.

Martim ergueu os olhos.

Não somos pedintes disse com orgulho Vamos crescer e ter uma padaria. Como o nosso pai.

Idalina acenou lentamente.

Nunca mais perguntou.

Havia qualquer coisa naqueles miúdos: uma dignidade calada, uma disciplina pouco comum para a idade.

Mas havia no mercado alguém a quem aquilo não agradava nada.

O segurança, Nuno Marçal.

A mulher dele tinha uma banca de bacalhau seco, mas, verdade seja dita, quase ninguém comprava. Já à frente da banca de Idalina, havia sempre uma fila.

Cada vez que passava, resmungava:

Agora és santa? A dar de comer à malandragem…

Idalina fazia-se de surda.

Sabia, contudo, que o Nuno podia arranjar encrenca. E, se acontecesse, Martim e Dinis é que pagavam.

Desde esse dia, começou a ajudá-los com mais cuidado.

Entregava a comida em sacos, como se fossem encomendas. Às vezes chamava-os para trás da banca.

Os miúdos notaram a diferença.

Mas nunca perguntaram.

Numa tarde fria, com o mercado quase deserto, Martim disse pela primeira vez o que sabia:

É por causa do segurança, não é?

Idalina hesitou, depois assentiu.

Não quero que se metam em sarilhos. Há gente que não percebe porque é que se ajuda os outros.

Dinis, com um saco ao ombro, respondeu baixinho:

Se ficar perigoso… deixamos de vir.

Disse-o tão calmo, que o coração da Idalina ficou apertado.

“Nós desenrascamo-nos”.

Isso queria dizer frio.

Fome.

Noites ao relento.

O inverno chegou cedo nesse ano.

O mercado foi esvaziando. Menos clientes, menos euros no bolso.

Martim e Dinis começaram a aparecer menos.

Às vezes aparecia só um deles, de mãos vermelhas do frio. Outras vezes, nem um.

Idalina esperava-os cada manhã, sem dar por isso, a olhar para o fundo da rua.

Até que deixaram de aparecer.

No dia a seguir, também não vieram.

Nem no outro.

Ao fim de uma semana, Idalina foi à Rua dos Sapateiros. Perguntou aos vizinhos. Disseram-lhe que tinham trancado o cave depois de uma denúncia.

Os miúdos foram-se nessa noite.

Ninguém sabia para onde.

Idalina sentou-se num banco a olhar o chão durante muito tempo.

Peso no peito.

Regressou a casa.

A vida, afinal, não para por ninguém.

Anos passaram.

O mercado de Alfama foi definhando até fechar. Idalina reformou-se e continuou no seu T1.

De vez em quando, a descascar batatas só para ela, pensava em Martim e Dinis.

Será que sobreviveram?

Ficaram juntos?

Teriam eles mantido o sonho da padaria, apesar do frio e da fome?

Nunca falou deles com ninguém.

Mas nunca esqueceu.

Numa manhã de outono, muitos anos depois, ouviu um estardalhaço debaixo da janela.

Dois Mercedes pretos e brilhantes estavam estacionados à porta do prédio.

Idalina franziu o sobrolho. Tinha a certeza que devia ser engano.

Minutos depois, tocaram à campainha.

Abriu a porta, desconfiada.

À frente estavam dois homens altos, vestidos de fato, incrivelmente parecidos.

É a Dona Idalina Correia? perguntou um.

Sou… sou eu.

O outro sorriu, meio emocionado.

Somos o Martim e o Dinis.

Dois homens elegantes bateram à porta de Idalina…
e quando disseram os nomes, vinte anos de passado vieram à tona.
O que se seguiu deixou a velha senhora em lágrimas

Parte 2

Durante uns segundos, Idalina não conseguiu falar.

Não reconheceu os rostos.

Reconheceu-lhes o olhar.

A mesma seriedade dos miúdos do mercado.

Andámos anos à sua procura disse Dinis Não sabíamos se ainda vivia aqui.

As pernas de Idalina tremeram, precisou de se encostar à ombreira da porta.

Abrimos uma padaria continuou Martim Depois outra… e mais uma ainda.

Entraram no T1 apertadinho.

Dinis tirou da saca um pão ainda quente e pousou-o na mesa.

O cheiro espalhou-se pela casa.

Por um instante, o tempo voltou vinte anos atrás.

Eu só vos dei umas batatas… murmurou Idalina.

Martim abanou a cabeça.

Não, Dona Idalina.

Deu-nos dignidade.

Dinis continuou:

Tratou-nos como gente, quando ninguém mais o fazia.

Sem isso… não tínhamos chegado a lado nenhum.

Ficaram horas na conversa.

Relembraram os tempos duros, os biscates mal pagos, as noites a dormir onde calhava. Contaram como foi um padeiro velho que lhes deu a primeira hipótese… e como nunca esqueceram a promessa de criança.

Se algum dia conseguissem vingar na vida…

voltariam a encontrar a mulher que lhes deu de comer quando não tinham nada.

Quando se despediram, Idalina ainda ficou muito tempo à porta.

Apertava o pão quente junto ao peito.

E, pela primeira vez em muitos anos, percebeu uma verdade funda:

Aquelas batatas simples que deu, no velho mercado,

mudaram o destino de duas vidas.

E o dela também.

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