Uma idosa pobre alimentou dois rapazes famintos durante meses depois, eles desapareceram sem se despedir. Vinte anos mais tarde, a verdade veio ao de cima.
No pequeno mercado do bairro da Madragoa, em Lisboa, uma senhora chamada Dona Filomena Costa vendia batatas cozidas com sal e azeite.
Não ganhava muito, mas o suficiente para viver sossegada no seu modesto apartamento.
Numa manhã, enquanto ajeitava a cesta de batatas, uma delas caiu-lhe ao chão.
Caiu-lhe uma batata, senhora.
Dona Filomena virou-se. À sua frente estavam dois rapazes muito parecidos. Magros, com as faces encovadas e casacos claramente demasiado grandes para eles. Um deles apanhou a batata, limpou-a ao calças e devolveu-lha. O outro não tirava os olhos do tacho onde as batatas fumegavam.
Obrigada disse Filomena suavemente. E vocês, o que andam por aqui a fazer? Já vos vi por cá mais de uma vez hoje.
O que parecia mais velho encolheu os ombros.
Nada só andávamos por aqui.
Filomena conhecia bem esse só andávamos. Era a desculpa dos miúdos com fome a tentar esconder a vergonha.
Sem mais palavra, retirou duas batatas quentes, envolveu-as num pedaço de jornal e juntou um feijão verde avinagrado.
Podem voltar amanhã disse como quem não quer a coisa. Ajuntam-me umas caixas, combinado?
Os rapazes agarraram no embrulho num instante. Não disseram obrigado. Apenas acenaram e afastaram-se.
No próprio dia voltaram. Filomena estava a tentar arrastar um garrafão de água. Antes que pedisse ajuda, os dois carregaram-no lá para trás do banco.
Então, o mais velho meteu a mão ao bolso e tirou duas moedas antigas de escudo.
Eram do nosso pai disse baixo. Era padeiro até desaparecer.
O rapaz estendeu as moedas.
Não podemos dá-las mas pode ver.
Filomena percebeu logo: aquilo era tudo o que tinham.
Guardem-nas sorriu ela. Os padeiros precisam sempre de sorte.
Os rapazes começaram a aparecer todos os dias.
Chamavam-se Tomás e Duarte Pereira.
Filomena dava-lhes comida que trazia de casa: arroz de feijão, broa, por vezes um pedaço de queijo amanteigado. Em troca, eles carregavam sacos de batatas, arrumavam caixas, ajudavam a limpar a banca.
Comiam depressa, calados, como quem teme que lhes tirem a refeição.
Um dia, Filomena perguntou:
E dormem onde?
Numa cave na Rua das Industrias respondeu Duarte. É seca não se preocupe.
Claro que me preocupo rebateu Filomena. Por isso é que pergunto.
Tomás olhou-a nos olhos.
Não somos pedintes disse com dignidade. Vamos um dia ter uma padaria, como o nosso pai.
Filomena anuiu lentamente.
Não voltou a perguntar.
Havia ali algo especial. Uma dignidade serena e uma disciplina maior do que a idade.
Mas no mercado havia alguém que não gostava nada do que via.
O guarda António Mendonça.
A mulher dele tinha uma banca de peixe seco onde quase ninguém comprava. Em contrapartida, diante da banca da Dona Filomena havia sempre movimento.
Sempre que passava, rosnava:
Agora julga-se santa? A dar comida aos vadios
Filomena cerrava os lábios e fingia que não ouvia.
Mas sabia que António podia arranjar confusão. E que, nesse caso, os primeiros a sofrer seriam o Tomás e o Duarte.
Por isso, a partir dessa data, começou a ajudá-los com mais discrição.
Entregava-lhes a comida num saco, como se fossem recados. Outras vezes chamava-os atrás da banca.
Os rapazes perceberam a mudança.
Mas nunca perguntaram.
Numa tarde fria, já quase sem clientes, Tomás tomou a palavra.
É por causa do guarda não é?
Filomena hesitou, depois anuiu.
Não quero que tenham problemas. Há quem não compreenda que se ajude os outros.
Duarte ajeitou o saco ao ombro.
Se começar a ficar perigoso deixamos de vir.
Disse-o com serenidade.
Aquelas palavras pesaram-lhe no peito mais do que qualquer insulto.
Arranjamos-nos.
Palavras que queriam dizer frio.
Fome.
Noites ao relento.
O inverno chegou cedo esse ano.
O mercado começou a esvaziar-se. Cada vez menos fregueses; menos dinheiro.
Tomás e Duarte começaram a aparecer menos vezes.
Nalguns dias via-se só um deles, com as mãos vermelhas do frio. Outros dias não apareciam.
Filomena aguardava, todos os dias, a olhar sem perceber para o fundo da rua.
Até que deixaram mesmo de vir.
Uma semana depois, Filomena foi à Rua das Industrias. Perguntou às pessoas. Disseram-lhe que tinham fechado a cave depois de uma denúncia.
Os rapazes tinham partido nessa noite.
Ninguém sabia o destino.
Filomena sentou-se num banco e ficou muito tempo a olhar o chão.
Sentia um peso no peito.
Depois, foi para casa.
A vida, afinal, nunca pára por ninguém.
Os anos passaram.
O mercado da Madragoa perdeu vida, até fechar de vez. Filomena reformou-se, continuando a viver no pequeno apartamento.
Por vezes, ao descascar batatas só para ela, pensava no Tomás e no Duarte.
Perguntava-se se teriam sobrevivido.
Se estariam juntos.
Se aquele sonho da padaria teria resistido à fome e ao frio.
Nunca falou deles a ninguém.
Mas nunca os esqueceu.
Numa manhã de outono, muitos anos depois, ouviu um barulho estranho debaixo da janela.
Dois carros pretos, topo de gama, estavam estacionados à porta do prédio.
Filomena franziu o sobrolho. Devia ser engano.
Pouco depois, toca a campainha.
Abre a porta prudentemente.
Diante dela, dois homens altos, bem vestidos, e surpreendentemente parecidos.
É a Dona Filomena Costa? perguntou um.
Sou, sim…
O outro sorriu de leve.
Somos o Tomás e o Duarte.
Dois homens elegantes surgiram à porta da Dona Filomena
e ao dizerem os nomes, vinte anos regressaram num segundo.
O que se passou a seguir emocionou-a de tal modo que não conseguiu conter as lágrimas
Parte 2
Durante alguns segundos, Filomena não conseguiu articular palavra.
Não os reconheceu pelo rosto.
Reconheceu-os pelo olhar.
O mesmo olhar sério de quem já passou fome naquele mercado antigo.
Andámos anos à sua procura disse Duarte. Nem sabíamos se ainda vivia aqui.
As pernas de Filomena tremiam, teve de se apoiar à porta.
Abrimos uma padaria contou Tomás. Depois outra e mais outra.
Entraram no pequeno apartamento.
Duarte tirou de um saco um pão acabado de cozer, colocou-o na mesa.
O aroma quente encheu a divisão.
Por instantes, parecia que o tempo recuava vinte anos.
Eu só vos dei umas batatas murmurou Filomena.
Tomás negou devagar.
Não, Dona Filomena.
Deu-nos dignidade.
Duarte prosseguiu:
Tratou-nos como gente, quando mais ninguém tratava.
Sem isso nunca teríamos chegado aqui.
Falaram durante horas.
Relembraram tempos difíceis, trabalhos mal pagos, noites a dormir em arrecadações. Contaram como um padeiro velho lhes dera a primeira oportunidade e como nunca esqueceram a promessa de crianças.
Se algum dia vingassem
voltavam à procura da senhora que lhes matou a fome quando nada tinham.
Quando se despediram, Filomena ficou muito tempo à porta.
Apertava o pão quente contra o peito.
E, pela primeira vez em muitos anos, percebeu algo profundo:
as simples batatas que um dia oferecera no velho mercado
tinham mudado o destino de duas vidas.
E o seu também.







