Uma enorme ursa bateu à porta do guarda-florestal: o velho abriu, sem imaginar por que razão o animal selvagem o procurava e o que iria acontecer a seguir 😨

Muitos anos atrás, vivia um velho chamado António na orla de uma grande mata perto de Viseu. Em tempos idos, sua casa à beira do lago era repleta de risos: amigos chegavam de longe, familiares vinham passar semanas e carros ocupavam o pequeno terreiro. Conversas animadas enchiam a sala até tarde. Mas tudo se esfumou aos poucos. Dona Beatriz, sua esposa, foi-se cedo, e o filho, Manuel, partiu para Lisboa e quase não escrevia. O velho solar tornou-se calado e vazio, habitado apenas pelo som do vento a passar entre os pinheiros-mansos.

Com o tempo, António habituou-se à solidão. Todas as manhãs, abria a porta e sentava-se na varanda, a contemplar a neblina que pairava sobre a mata e a ouvir a brisa deslizar pelas árvores. De vez em quando via ao longe um javali ou uma raposa atravessar o campo, mas nenhum animal selvagem ousava aproximar-se de sua morada.

Num inverno rigoroso, António acordou ainda antes de o sol dourar o horizonte. Primeiro, pensou que um galho do sobreiro batera à porta por causa do vento. Em seguida, escutou um ruído surdo e firme, como se algo poderoso pressionasse o soalho da varanda.

Colocou o velho casaco de burel e abriu a porta cautelosamente, sentindo o coração acelerar.

Na soleira, jazia uma ursa imensa, o vapor do seu hálito fundindo-se com a brancura da geada. O que mais surpreendeu António foi que a fera segurava delicadamente, entre os dentes, um pequeno ursinho.

A ursa, ao contrário do que imaginaria, não rosnava nem mostrava os dentes. Limitava-se a observá-lo, com olhos cheios de súplica e preocupação, não de fúria.

O instinto de António era fechar a porta e refugiar-se, mas havia algo naquele olhar que o fez ficar. De mansinho, avançou um passo. A ursa repousou então o filhote sobre a neve, muito devagar.

Nesse momento, António percebeu o motivo da visita: a patinha do ursinho estava presa por uma fina armadilha de metal, daquelas que caçadores sem escrúpulos escondem na floresta. O pequeno mal conseguia respirar, de tão fraco e dorido.

Com gesto paciente, António libertou o animal da cruel armadilha, depois o levou para dentro e deitou-o perto do fogão de lenha, cobrindo-o com uma mantinha de lã e esfregando-o com ternura para reacender-lhe o calor.

Durante todo esse tempo, a ursa permanecia sentada na varanda, imóvel, vigiando através da porta entreaberta.

Horas depois, o ursinho moveu-se devagar e abriu os olhos. António pegou-o nos braços e foi ao encontro da mãe.

A ursa ergueu-se, recolheu cuidadosamente o filhote e, antes de se embrenhar no mato, tocou de leve a mão gasta de António com o focinho.

Na manhã seguinte, António saiu para o bosque. Encontrou quatro armadilhas iguais perdidas na vegetação e, um a um, desmontou-as.

Desde esse dia, tornou hábito caminhar nas trilhas da mata, como outrora fazia quando a vida era cheia de cor e companhia. E cada dia, ao olhar para o fundo dos pinhais, sentia afinal que já não estava tão só, e que naquela floresta todos os seres dependiam do cuidado uns dos outros assim como ele cuidara do pequeno urso e sua mãe.

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Uma enorme ursa bateu à porta do guarda-florestal: o velho abriu, sem imaginar por que razão o animal selvagem o procurava e o que iria acontecer a seguir 😨