Uma cadela quase sem forças protegia com seu corpo um pequeno filhote, enquanto as pessoas passavam ao largo, indiferentes

Meia-viva, a cadela abrigava com o corpo um pequeno amontoado, e as pessoas passavam ao lado, desviando o olhar

Miguel andava em passo apressado, como era seu costume. Sempre a correr contra o tempo, prometendo-se a si próprio que começaria a planear melhor os seus dias, mas caía na mesma rotina de atrasos. Hoje atrasar-se era impensável Patrícia esperava-o num restaurante em Lisboa, e a paciência dela para esperas era igual a zero.

A paragem não ficava longe, o autocarro podia chegar a qualquer instante. Miguel tirou o telemóvel do bolso, conferiu as horas e suspirou: mais cinco minutos de atraso. Patrícia ia ficar de mau humor, já via na mente o seu olhar reprovador, como quem diz: não te importas comigo.

Então, estão a empatar o caminho porquê? Avancem! reclamou um senhor impaciente atrás dele.

Miguel virou-se. Juntava-se uma pequena multidão à paragem de autocarro, todos contornando qualquer coisa no chão, uns com ar de desagrado, outros fingindo nem ver. Ele avançou um passo e parou.

Ali sobre a calçada, rente ao banco, uma cadela grande, de pêlo cor de caramelo mas já sarapintado de sujidade, jazia enrodilhada. As costelas saltavam à vista, os olhos fechados, a respiração tão fraca que mal se percebia. E debaixo dela um minúsculo cachorrinho negro, encolhido todo a tremer, protegido pelo calor do corpo da mãe, como quem se esconde debaixo das mantas. As últimas forças da cadela eram gastas ali, a protegê-lo.

Mexam-se, pá! soou outra voz. Então, vão ficar aí parados?

Miguel continuou sem se mexer. Olhava a cadela, o cachorro, as pessoas que passavam como se fossem invisíveis, como se ali no alcatrão não estivesse um ser vivo a morrer de fome e frio, mas, sim, lixo.

O autocarro apareceu, portas abriram-se com um sopro aflito.

Então, vai ficar ou entra? perguntou o motorista de má vontade.

Miguel olhou para o autocarro, voltou a olhar para o relógio e depois para a cadela.

Não, disse ele baixo. Não vou.

A multidão entrou no autocarro, alguém resmungou, as portas fecharam e o autocarro partiu. Miguel agachou-se junto ao animal estendido.

Olá, sussurrou. Aguenta só mais um pouco.

A cadela ergueu levemente a cabeça, fitou-o com um olhar amarelo tão humano, repleto de dor e resignação. O cachorro soltou um gemido baixinho.

Miguel engoliu em seco, puxou do telefone e ligou à Patrícia.

Estou? Miguel? Onde estás? Já estou há séculos à espera!

Patrícia, vou-me atrasar. Aqui está uma cadela, está a morrer, e com cria. Não consigo ignorar.

O quê?! Estás a brincar? Por causa de um rafeiro?! Miguel, já mandei vir os pratos!

Eu entendo, mas

Nada de mas! Liga pra Câmara ou para o canil e vem já! Não estou para isto!

Desligou-lhe na cara.

Miguel pousou o telefone, olhou para a cadela e o cachorrinho, e marchou até ao supermercado mais próximo. Voltou dali a três minutos com um pão e uma embalagem de fiambre, e estendeu um bocado à cadela.

Vá, come um pouco, tens de ganhar forças.

A cadela não reagiu estava exausta demais. O cachorro chorava quase em silêncio. Miguel tentava convencê-la a comer, quando uma voz lhe falou por trás:

Precisa de ajuda?

Virou-se. Ao seu lado, uma rapariga de ar simples, vestida com uma gabardina cinzenta, rosto cansado mas bondoso, segurando um saco de compras. Agachou-se, afagou a cadela com delicadeza.

Pobrezinha, está muito mal. Precisa de ir já ao veterinário.

Não conheço nenhum, nem sei como lhe pegar admitiu Miguel. Nunca tive cães.

Tenho uma amiga veterinária mesmo aqui ao lado. Pode ajudar tirou o telemóvel. Mas isto vai ser complicado, ela mal respira.

Miguel despiu o casaco, estendeu-o no chão, e juntos pousaram ali a cadela, com o cachorro embrulhado num cachecol da rapariga.

Eu sou a Inês apresentou-se.

Miguel respondeu ele.

Como a vamos chamar?

Caramela respondeu simplesmente.

O telefone voltou a tocar. Patrícia. Miguel ignorou.

Foram para casa da veterinária. Esta examinou rapidamente a cadela, pôs-lhe uma via e deu-lhe uma injeção.

Está desidratada, com pneumonia e muito malnutrida. Por pouco não aguentava. Mas vão conseguir ajudá-la disse a médica.

Quando ficaram sozinhos, Miguel sentou-se no chão junto à Caramela. O cachorro encostou-se à mãe, dormindo entre suspiros. Inês fez café e sentou-se com ele.

A minha namorada esperava-me num restaurante confessou Miguel, cabisbaixo. Agora já deve ter desistido.

Ela ficou furiosa? arriscou Inês.

Ficou. Disse que estraguei a noite por causa de uma cadela. Mas eu não podia ignorar isto. Ela deu tudo para salvar o filho, e as pessoas passaram como se fosse nada.

Inês assentiu.

Quando me divorciei, também achei que ninguém se importava. Cada um segue a sua vida. E pensei: será que é tudo assim?

O telefone voltou a vibrar. Patrícia, a décima chamada da noite. Miguel atendeu.

Tu és doido?! Três horas sem apareceres nem responderes! Ou vens já ou acabou!

Miguel olhou para Caramela, para o cachorro, para Inês. E percebeu.

Então acabou disse, sereno. Desligou.

Inês ergueu o rosto:

Tem a certeza?

Tenho, sorriu Miguel. Nunca tive tanta.

Ela sorriu de volta, sincera, tímida. Caramela suspirou fundo, como quem larga um peso, e finalmente conseguiu adormecer em paz.

A noite foi longa. Caramela respirava com dificuldade, por vezes parecia parar mesmo, e Miguel escutava aflito estaria viva ainda? Às vezes chorava baixinho, às vezes ficava em silêncio absoluto. Ele e Inês revezaram-se toda a noite. Miguel queria cuidar sozinho, insistiu que não precisava de ajuda, mas Inês abanou a cabeça:

É mais fácil a dois. Vamos ficar juntos.

E ficou.

Às três da manhã, Miguel foi à cozinha: Inês estava a aquecer leite para o cachorro. Pelo seu olhar, percebeu tudo.

Está pior?

Não sei murmurou. Respira cada vez mais fraca. Tenho medo que não chegue à manhã.

Inês aproximou-se.

Sabe de uma coisa? disse ela Ela já venceu.

Como assim?

Poderia ter desistido lá na paragem. Deitava-se ali e morria. Mas ficou. Aguentou-se, protegeu o pequeno, esperou acreditou que alguém ia ajudá-la. E apareceu você.

Miguel ficou em silêncio.

Agora está aqui, com a cria, quente, alimentada, consigo. Mesmo que não resista, hoje é mais feliz do que alguma vez foi. Compreende?

Miguel olhou para Inês.

Como é que sabe isso tudo?

Ela sorriu de tristeza.

Também já estive nessa situação pensar que ninguém precisa de nós. Depois do divórcio, vivi meses sem falar com ninguém: casa-trabalho, trabalho-casa. Até um dia, encontrei um gatinho abandonado na rua. Primeiro segui caminho. Pensei: não é problema meu. Mas voltei atrás, levei-o comigo E pela primeira vez, em meses, senti que tinha alguém que precisava de mim. Ele não quis saber se eu era bem-sucedida ou desastrada só queria que eu estivesse ali.

Miguel acenou, começando a compreender.

Acho que percebo Minha vida sempre foi agradar: aos pais, ao patrão, à Patrícia. Fiz sempre o que esperavam de mim, planeava tudo ao minuto. E de repente, esta cadela, a morrer E todos os planos perdem sentido. Ela dá o que resta para salvar a cria, e as pessoas passam sem olhar. E tu podes ser mais um ou podes parar. E tudo muda.

Ficaram na cozinha, em silêncio, à meia-luz.

Obrigado por ter ficado disse Miguel baixo. Sem si, não teria conseguido.

Inês tocou-lhe levemente na mão.

Eu também precisava de lembrar-me: ainda há quem se importe, não estou sozinha.

O cachorro soltou um pequeno som, e ambos foram voltar a ver Caramela. Estava de olhos abertos, olhando-os. Miguel sentou-se ao lado, acariciou-a com cuidado.

Aguenta, ouviste? Falta pouco agora.

Caramela abrandou a cauda. O cachorro aproximou-se, aninhou-se ao pescoço dela. E Miguel sentiu, de repente, uma mudança interior: anos de vida planejada, sem espaço para o imprevisto, anos de relações sem compaixão, a necessidade de ser sempre o certinho. Tudo ruía, dava lugar a algo novo e verdadeiro.

De manhã, os primeiros raios de sol entravam pelas cortinas. Caramela dormia a respirar calma. Crise passada sobreviveu.

Uma semana depois, Patrícia apareceu à porta. Tinha cara de arrependida.

Miguel, pensei melhor Fui dura. Salvar animais é nobre. Eu estava cansada, zanguei-me. Achas que podíamos recomeçar?

Miguel ficou à porta. Dentro, ouvia-se o latir: o cachorro brincava com Caramela, já forte, percorrendo a casa.

Sabes, Patrícia, respondeu calmo não estou zangado. Apenas somos diferentes. Muito diferentes.

Por causa de uma cadela?! Um ano a fazer planos juntos!

Não é só isso. Quando liguei, podias ter dito: vem, tratamos disto juntos. Mas preferiste o restaurante. Foi uma escolha tua.

Patrícia ficou sem palavras, virou as costas e desceu as escadas.

Miguel fechou a porta, e voltou à sala. Inês estava sentada no chão, a fazer festas à Caramela. O cachorro dormia-lhe no colo.

Foi-se embora? perguntou ela, sem olhar.

Foi.

Arrependido?

Miguel sentou-se ao lado dela.

Nem por isso. Estranhamente, não. Se não fosse pela Caramela, continuava igual: trabalho, jantares com a Patrícia, fins-de-semana combinados. E não via que tudo isso era vazio.

Caramela ergueu a cabeça, olhou-os e deitou-se, contente, outra vez suspirando. O cachorro sonhava em paz. E, pela primeira vez em muito tempo, Miguel percebeu: estava em casa, com quem importava.

Inês apertou-lhe a mão. Ambos sorriram.

Lá fora fazia frio, era inverno, Lisboa continuava indiferente. Mas naquela pequena casa, onde uma cadela encontrou abrigo e duas pessoas se encontraram, reinava a verdadeira primavera.

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Uma cadela quase sem forças protegia com seu corpo um pequeno filhote, enquanto as pessoas passavam ao largo, indiferentes