Há seis anos, eu e o meu marido comprámos uma casa de campo acolhedora no interior de Portugal. Renovámos tudo com as nossas próprias mãos, plantámos árvores e flores, tratámos do terreno, e tentávamos ir para lá todos os fins de semana, ou pelo menos de duas em duas semanas.
Não investimos numa grande horta; cultivámos só o suficiente para termos pepinos, tomates, ervas aromáticas, cebolas, curgetes e pimentos. Nada em excesso, só para nos dar prazer.
A casa já tinha uns belos arbustos de framboesas, groselhas de várias espécies e até alguns morangueiros a despontar do solo. Muitas vezes, levava fruta para o trabalho e partilhava com os colegas. Todos ficavam contentíssimos.
Este ano, uma mulher chamada Fabiana foi transferida para o nosso departamento. Parecia amável, delicada, sempre sorridente. Um dia, trouxe-lhe alguns morangos frescos do campo. Dei-lhos de bom grado.
Ela comeu-os, maravilhada pelo sabor, e logo se pôs a elogiar a qualidade dos morangos. Depois, ficou muito curiosa sobre a casa. Perguntou-me tudo: de onde vinham, como tínhamos conseguido aquela casa de campo. Eu, orgulhosa, contei-lhe cada pormenor.
Uns dias depois, Fabiana apareceu junto à minha secretária e pediu-me as chaves da nossa casa de campo. Explicou que a filha queria levar os netos para lá passar umas semanas, apanhar algum ar puro, aproveitar o verão enquanto estava de licença de maternidade. Argumentou que não íamos lá nessa altura e que devíamos ser compreensivos, afinal não custaria nada.
Neguei de imediato. Percebi que se sentiu ofendida, mas não insistiu.
Passadas duas semanas, a Mariana, colega do nosso departamento, abordou-me discretamente e perguntou-me o caminho para chegar à minha casa de campo. Fiquei surpreendida e questionei o motivo.
Ela contou-me que a Fabiana tinha convidado vários colegas para uma festa de aniversário na nossa casa de campo; cada um teria de se orientar para lá chegar, pois a festa estava marcada.
Fiquei atónita.
Encarei Fabiana nesse dia, firme e magoada:
Explica-me lá o que é que se passa perguntei-lhe, com o coração aos saltos.
Ela, com um sorriso ingénuo nos lábios, respondeu:
Ora, não custa nada! Só íamos festejar o meu aniversário na vossa casa. É só um dia, ninguém ia dormir lá. Não te importas, pois não?
Mas claro que me importo. Importo-me com o esforço que eu e o meu marido pusemos naquela casa, com o que pode acontecer ao jardim, às flores, aos arbustos, e à minha própria casa.
Além do mais, nem se deu ao trabalho de me convidar, nem sequer me pediu autorização.
Disse-lhe que não, e vi nos seus olhos que ficou magoada, talvez ultrajada.
Que assim seja. Não me afecta. Durante anos, partilhei fruta com os meus colegas e ninguém alguma vez foi tão atrevida ou descarada como ela.







