Acabei de colocar o último prato sobre a mesa e dei um passo atrás para conferir tudo. Doze conjuntos de talheres. Doze copos de vinho. Doze guardanapos de pano dobrados em triângulo exatamente como a mãe me ensinou. Lá para as oito devem chegar os Pereiras, depois talvez a Francisca e o marido. Casa cheia, como a mãe gostava. A toalha branca com flocos de neve bordados nos cantos ainda do enxoval dela. Alisei uma dobra teimosa e pensei que já é o terceiro Réveillon que preparo esta mesa sozinha. Sem ela.
Avó Leonor, e a décima terceira cadeira?
Levei um susto. Matilde estava encostada à porta da cozinha, segurando um monte de pratos contra o peito. As bochechas, vermelhas devia ter estado no quintal enquanto eu organizava tudo.
Que cadeira, Matilde? tentei fingir que não entendia.
A bisavó sempre punha uma cadeira a mais. Para o convidado inesperado.
Virei-me e olhei pela janela. Lá fora caía neve grossa, lenta e esvoaçante, parecendo algodão próprio para enfeite. A mãe adorava neve assim. Dizia que trazia visitas. Nunca perguntei que visitas eram essas. Achava que era só mais um dos seus ditados. Uma mania de família.
A bisavó já nos deixou há três anos, querida.
Por isso mesmo.
A minha neta olhava-me intensamente, daquele jeito como só ela sabia direta, sem censura, mas cheia de perguntas. Aos dez anos, era a única da família que verdadeiramente escutava as histórias da mãe. Que lhes dava valor, ao contrário do resto, que só assentia por educação. Eu deixara isso de lado há anos. Sempre preocupada com trabalho, contas, os relatórios do gabinete. Agora que a mãe já cá não está, não existe como perguntar-lhe nada.
Pronto cedi. Vai buscar à despensa. Está lá no canto, a cadeira de madeira.
Matilde sorriu e desapareceu. Eu fui até ao aparador e abri a gaveta de cima. Dentro da caixa de veludo estavam os brincos da mãe gotas de âmbar em prata. As únicas joias dela que uso. O Henrique diz que me ficam bem, mas não é por isso que os uso. Uso-os porque, sempre que toco na prata fria junto ao lóbulo da orelha, parece que sinto a mãe ali ao lado.
Coloquei os brincos e olhei-me ao espelho. Cinquenta e dois anos. Rugas junto aos olhos, cabelos brancos a despontar nas têmporas. A mãe, com a minha idade, parecia mais jovem. Ou seria impressão minha?
A décima terceira cadeira apareceu junto à ponta da mesa, posta por Matilde de frente para a porta principal. Fiquei a pensar em dizer que era pouco prático, que o convidado ia ficar de costas para a janela, mas calei-me. Era assim que a mãe fazia. Sempre.
A bisavó contava disse Matilde, ajeitando o guardanapo daquele novo lugar que tinha um irmão. O tio Alberto. Foi-se embora quando ela tinha vinte e sete. Nunca mais voltou.
Fiquei imóvel, com a travessa do bacalhau entre as mãos.
De onde tiraste isso?
Ela contava. Quando eu era pequenina e dormia em casa dela. Deitadas às escuras, falava-me dos velhos tempos. Da casa, da infância, do irmão. Dizia que um dia ele aparecia. Por isso punha sempre uma cadeira a mais.
Quarenta anos. Quarenta anos a mãe manteve o ritual da cadeira vazia e eu nunca percebi. Achava que era só tradição. Só educação portuguesa. Uma mania de velhos. E, afinal, ela esperava. Todos os Natais e Passagens de Ano, esperava alguém. Alguém especial.
Porque nunca me disse nada?
Matilde encolheu os ombros.
Se calhar, queria que perguntasses tu.
Nunca perguntei. Nem uma só vez, em cinquenta e dois anos. Nunca me interessei pelo que levou a mãe a insistir tanto na cadeira extra. Nem pelo passado, pela família, pelo que havia antes de mim. Tomei-a como garantia mãe é mãe. Agora não está cá, e sei tão pouco dela.
Alguém entrou batendo a porta do hall. Henrique entrou, sacudindo neve dos ombros. Atrás dele, Luís e Joana. A casa encheu-se de gargalhadas, vozes, tilintar de pratos. Joana trouxe empadão quentinho, Luís, espumante. Henrique abraçou-me, deu-me um beijo na testa.
Está tudo lindo, Leonor.
Sorri, recolhendo casacos, servindo chá, escutando as conversas sobre engarrafamentos e chuva. Mas os olhos voltavam sempre à décima terceira cadeira. Aquela solidão à espera de alguém.
A mãe esperava alguém. Alguém concreto. Quarenta anos, e eu sem saber.
Às seis em ponto, toca a campainha.
Tínhamos acabado as entradas. Luís contava piadas do trabalho, Joana ria-se. Henrique aberta a segunda garrafa de vinho. Matilde picava o bacalhau com ar pensativo esteve calada a tarde toda. E, de repente, a campainha. Estridente, inesperada.
Eu vou! gritou Matilde, saltando da cadeira.
Eu sequei as mãos quando ouvi o seu chamamento:
Avó, está aqui um senhor…
O tom dela deixou-me alerta, fui até ao hall.
Na porta, um homem idoso. Barba branca, desgrenhada. Casaco antigo, encardido e desabotoado. Gorro com pedaços de enchimento a sair. Botas gastas, um dos cordões trocado por um fio. Um sem-abrigo dos que costumam vaguear perto da estação.
Mas ele não olhava para nós. Olhava para a casa. Para as janelas de madeira, o alpendre pintado há décadas, a oliveira no quintal com luzes de Natal. Observando como quem busca lembranças, ou tenta reconhecer alguma coisa.
Boa tarde disse ele, voz fraca, rouca, mas serena. Peço desculpa Estou gelado, posso aquecer-me por uns minutos?
Henrique apareceu atrás de mim, senti-o a ficar tenso.
Não damos esmolas afirmou em voz baixa, mas firme. Mas posso trazer-lhe chá quente, se quiser esperar…
Deixe entrar interpôs-se Matilde, ficando entre nós e a porta. Os olhos dela brilhavam. Avó Leonor, a cadeira está ali. A décima terceira. Para o visitante inesperado.
Olhei para o homem. Não pedia. Não se queixava nem inventava histórias tristes, como tantos tentam junto ao supermercado. Apenas olhava a casa a minha casa, a casa da mãe.
Foi então que reparei nas mãos dele.
Tirou as luvas de lã, furadas no indicador, para aquecer as palmas. Vi então: unhas limpas, simétricas e cortadas com cuidado. Pele gretada pelo frio, mas mãos cuidadas. Dedos longos, com calos nos topos. Não eram mãos de vagabundo. Eram de alguém habituado a trabalhos delicados.
Entre, faça favor. Hoje é passagem de ano. Não pode ficar ao relento.
Henrique quis protestar vi-lhe o tremor no queixo. Mas toquei-lhe no braço, exatamente como a mãe fazia ao pai. Funcionava sempre.
Está bem acedeu Henrique. Mas só por pouco tempo.
O homem entrou, hesitante no átrio. Olhou em redor. Virou-se devagar à direita para o corredor da cozinha. Depois à esquerda para a sala decorada e a árvore de Natal. Algo cintilou nos olhos. Reconhecimento? Ou só projeção minha?
A cozinha é para este lado, não é? perguntou, sem endereçar a ninguém.
É, sim assentiu Matilde. Como soube?
Estas casas antigas são todas assim respondeu, hesitando. Desculpem. Há muito tempo que não entrava numa casa de verdade.
Levámo-lo à sala de jantar. Luís lançava olhares desconfiados detestava imprevistos. Joana encolhia-se junto ao marido. Só Matilde sorria ao nosso convidado, atarefada em bem-receber.
Sentei-o na décima terceira cadeira. Sentou-se devagar, como se tivesse receio que se partisse. Mãos nos joelhos, costas direitas apesar da idade.
Vou buscar-lhe comida disse Matilde.
Obrigado. É muito simpática.
A voz Havia algo estranho nela. Tom pausado e correto. Um português polido, longe das gírias das ruas.
Matilde serviu-lhe salada, batatas a murro e lombo recheado. Pegou no garfo com uma destreza que me chamou à atenção não segurava rudemente, mas leve, certo como quem aprendeu desde pequeno. Comia devagar, sem pressa, sem barulho. Como alguém educado à mesa.
Como se chama? perguntou Matilde, sentando-se de frente.
Ele ergueu o rosto.
Alberto.
Quase deixei cair o copo. O vinho salpicou a toalha. Alberto. O tio da história da mãe. Vagueamento na memória: um familiar que sumiu quando ainda era pequena tinha nove anos, via-o raramente porque morava longe, saía tarde do trabalho. Não lembro do rosto. Só lágrimas da minha mãe depois da partida dele. Coincidência, só podia ser. Albertos havia tantos.
E o apelido do seu pai? insistiu Matilde.
Duarte.
As minhas mãos voaram aos brincos de âmbar. O meu avô materno chamava-se Duarte Gouveia. Morreu muito antes de eu nascer, só o via em fotos desbotadas.
Está delicioso disse o senhor, empurrando o prato limpo. Há muito não comia comida de casa.
Quer mais? ofereceu Matilde.
Não, minha querida. Já chega.
Ficou ali, mãos pousadas sobre os joelhos, olhando a árvore de Natal com o olhar perdido. Nos olhos cinza-azulados reconheci algo. Algo que olhava para mim ao espelho todos os dias. O mesmo olhar da minha mãe.
Léo, murmurou de repente, olhando-me direto podes passar-me o sal?
Léo.
Só a mãe me chamava assim. E apenas em criança. Léo, vem comer. Léo, está na hora de dormir. Ninguém mais. Henrique chama-me Leonor ou Leoquinha. Luís mãe. Matilde avó Leonor. Na clínica Dra. Leonor Duarte.
Como sabe o meu nome?
Ele ficou estático, garfo no ar. No rosto, um sobressalto. Medo? Ou hesitação?
Ouvi alguém chamar-lhe.
Ninguém me chamara assim naquela noite.
Limitei-me a passar-lhe o sal. Virei-me para a janela, onde a neve continuava a cair grossa, paciente.
Mas, durante toda a noite, não tirei os olhos das mãos dele.
Às onze e quarenta e cinco levantámos os copos. Henrique fez um brinde sobre família, saúde, melhores dias. Todos brindámos, até o estranho Alberto que apenas molhou os lábios no espumante quase não bebeu.
Soaram as doze badaladas. Matilde gritou: Feliz Ano Novo!, Joana abraçou Luís, Henrique beijou-me. Mas eu olhava para o idoso. Ele estava imóvel, fixando a árvore. Os lábios mexiam-se como se recitasse uma prece, ou contasse badaladas em silêncio.
Depois começaram as músicas de festa. Luís e Joana foram dançar na sala ao lado só se ouvia o riso deles entre os acordes antigos. Henrique adormeceu na poltrona, exausto do dia. Matilde fugiu ao telemóvel para ligar a amigas.
Fiquei a arrumar a mesa.
Mas o convidado continuava ali costas direitas, mãos pousadas no colo, olhando a árvore.
Ouvi um ranger suave.
Alberto ergueu-se, devagar, cuidadoso com os ossos. Aproximou-se da árvore. Tocou de leve na estrela de papel dourado no topo velha, de outras gerações e girou-a para a esquerda. Uns dois centímetros.
Por dentro, senti um nó apertar-se-me.
Aquele gesto. A mãe fazia sempre igual: no fim de enfeitar a árvore, ajustava a estrela dois centímetros para a esquerda. Perguntava porquê, ela sorria sem responder: Assim é que fica bem, Léo. Assim tem de ser.
Aproximei-me dele, o coração disparado.
Porque fez isso à estrela?
Ele retirou a mão. Virou-se devagar. No olhar susto.
Hábito antigo.
Hábito de quem?
Silêncio. Olhou-me fundo com aqueles olhos cinza-azulados. Rugas, barba branca, desalento. Mas os olhos iguais aos da minha mãe.
Conheceu a minha mãe não foi uma pergunta, foi certeza.
Baixou o olhar.
A Maria do Céu Duarte? acenou devagar. Sim. Conhecia-a.
De onde?
Longa pausa. Virou-se para a árvore, como se a resposta estivesse entre luzes.
Crescemos na mesma casa.
O mundo parou. Cresceram juntos. Podia significar muita coisa: vizinhos, família, talvez só conhecidos.
Nesta casa? arrisquei, já desconfiando.
Sim.
Custava respirar. Dei um passo em frente.
Quem é o senhor?
Silêncio.
Aqui era o quarto das crianças disse ele, indicando o corredor. Pequeno, ao fundo, janelas para o quintal. No inverno, o gelo desenhava formas na janela nós gostávamos de inventar nomes para aquelas figuras.
Agora é a despensa.
Eu sei. Nós, eu e a Céu Calou-se a meio.
O quê?
Ele abanou a cabeça.
Não importa. Desculpe. Preciso de ar.
E saiu para o alpendre, sem casaco.
Fui procurá-lo meia hora depois.
Estava sentado no velho banco de madeira, junto ao muro. Olhava para as janelas, cobertas de neve. A neve acumulava-se-lhe nos ombros e gorro, a barba já salpicada de branco. Não se mexia. Apenas olhava.
Vesti o velho casaco de penas da mãe antiquado mas quente e fui até junto dele.
Vai ficar doente aí fora.
Não seria a primeira vez.
Sentei-me a seu lado. O banco gelava, mesmo atravessando o casaco. O frio batia-me no rosto húmido, cortante.
Conte-me.
O quê?
Tudo. Quem é, como conheceu a minha mãe. Porque apareceu agora.
Longo silêncio. Olhava as mãos aquelas mãos cuidadas, com calos nos pontos certos.
A Maria era minha irmã disse finalmente, a voz trémula. Mais nova. Fugi de casa quando ela tinha vinte e sete. Eu tinha trinta.
O chão fugiu-me dos pés. Precisei segurar o banco para não perder o equilíbrio.
O senhor é o tio Alberto?
Ele sobressaltou-se. Virou-se para mim.
Ela falou de mim?
À neta. A Matilde. Ela contou-me tudo hoje. Disse que a bisavó punha sempre a cadeira para si. Quarenta anos.
Enterrou o rosto nas mãos. Os ombros estremeciam.
Quarenta e três anos. Quarenta e três anos fugi do regresso.
Porquê?
Tirou as mãos da cara. Os olhos estabanados de chorar, lágrimas já geladas na barba.
Por causa do meu pai, murmurou. Brigámos. Feio. Disse-lhe coisas imperdoáveis. Que me arruinara a vida. Que o odiava. Que nunca mais voltava. Suspirou fundo, a fumaça confusa no ar. E fui para o Norte. Arranjei trabalho no Douro, à safra. Achei que voltava passado um ano, resfriava a raiva. Um ano virou cinco. Cinco virou dez. Depois vinte. Depois só vergonha. Tempo demais. Acreditei ser melhor pensarem que tinha morrido.
E a Maria? A minha mãe?
Fez uma careta de dor.
Achei que ela também me odiava. Que ficou do lado do pai. Nem uma carta lhe escrevi. Tinha medo de resposta fria, ou que me dissesse para nunca voltar.
Ela esperou por si murmurei, a voz embargada. Durante quarenta anos pôs sempre uma cadeira a mais na festa. Todo o ano novo. À espera que voltasse.
Ele olhou-me, lavado em lágrimas.
Foi há um ano que soube que morreu. Li num jornal antigo no café do bairro. Vi a foto a minha Maria, velha, cabelo branco. Voz embargada. Lá dizia: Faleceu após doença prolongada. E percebi falhei. Quarenta e três anos a preparar coragem. E foi tarde demais.
Então porque veio?
Porque ela esperou. Quarenta anos à espera. Pôs a cadeira. Esperança de regresso. Tinha de ver a casa, ao menos. A casa onde fomos felizes. Onde voz sumida Onde estraguei tudo.
Ficámos em silêncio. A neve caía sobre nós, indiferente. O casaco da mãe ainda cheirava ao perfume Flor de Lisboa a marca que ela usou a vida toda.
Não acredito murmurei afinal. Só por palavras não chega. Qualquer um pode contar uma história, dizer-se irmão.
Compreendo.
Tem como provar?
Pensou. Olhou demoradamente para as janelas.
No quarto de crianças, murmurou agora despensa, lá ao fundo. Em 62, eu e a Maria, com um prego, escrevemos uma frase na parede por baixo do papel de parede. Eu tinha onze, ela oito.
O papel já foi trocado cinco vezes.
Sei. Mas deve estar. No reboco, junto ao canto direito da janela, à altura de criança. Ficámos em cima de um banco para alcançar.
Levantei-me. As pernas trémulas.
Venha.
A despensa cheirava a coisas antigas xailes de lã, livros do pai, tempo. Acendi a lâmpada amarela e fui ao canto da janela.
O lado direito. Altura de criança. Uns olhos da altura do meu peito.
Aqui?
Mais ou menos, um pouco acima. Usámos um banco.
Procurei alguma coisa para tirar o papel velho. Umas tesouras enferrujadas deram para desenrascar.
Fui descascando as camadas: primeiro, flores neutras que pus há poucos anos. Depois, azuis de 90, mistas de infância. Outras do tempo da minha avó. Por fim, a parede nua, cinzenta.
Peguei no telemóvel para iluminar. As mãos tremiam.
Lá estavam: letras infantis arranhadas no reboco. Aqui morámos: Alberto e Maria, 1962.
Soltei o telemóvel. Caiu no chão. Encostei os dedos à inscrição. Sessenta e dois anos aquelas palavras ali, debaixo de cinco camadas de papel. O segredo deles.
Fui eu que escrevi murmurou Alberto atrás de mim. A Maria ficou cheia de medo que a mãe visse. Disse para tapar de novo. E ficou o nosso segredo para sempre.
Virei-me. Ali estava ele velho, maltratado, estranho. E, no entanto, família. Irmão da mãe. Meu tio. A pessoa que ela esperou quarenta anos.
É mesmo o tio Alberto.
Sou, Leonor. A voz sumiu por um instante. Tu eras pequenina quando saí de casa. Tínhas nove. Mas lembro-me, sentava-te nos joelhos. A Maria dizia sempre: Léo, anda ao tio! Por isso saiu sem pensar hoje.
Ficámos na cozinha até o sol nascer.
Fiz chá forte, com lúcia-lima como a mãe gostava. Tirei do armário o doce de framboesa feito por ela no último verão ainda de saúde.
Alberto contou tudo. Dos anos de emigrante no Douro, trabalhos em França, prisões por pequeno delito, tempos de sem-abrigo pelas gares do Porto e Lisboa. O medo de regressar aumentou cada ano.
Era relojoeiro disse-me, mostrando as mãos. Antes de sair. Tinha oficina na Baixa. Arranjava relógios finos, despertadores antigos. Estes calos mostrou-me os dedos são disso. Alavanca, lupa, pinça fina. O corpo esquece, mas as mãos lembram.
Olhou para as mãos, recordando.
Sabes por que tanto medo de voltar? Não só pela vergonha. Era medo de ouvir da Maria: Vai-te embora, para mim já morreste. Não suportava essa hipótese.
Ela nunca dizia isso.
Como sabes?
Punha sempre a cadeira, toquei-lhe ao de leve na mão. Todos os anos. Mesmo já doente, fazia-me prometer de pôr. Eu nunca percebia. Agora sei: esperava por si.
Ele permaneceu calado, fitando o início do novo dia pelas janelas.
Os brincos, disse de súbito. Âmbar em prata. Foram prenda que lhe dei aos dezoito. Juntei dinheiro do primeiro ordenado da loja. Ela jurou que usaria para sempre.
Levei as mãos às orelhas. As gotas de âmbar. O tesouro da mãe. Agora sabia de quem.
Nunca os tirou falei nem para ir ao hospital. As enfermeiras insistiam, ela resistia sempre.
Alberto chorou. Baixinho, como só choram os velhos.
Levantei-me. Fui ao armário e tirei o xaile cinzento tricotado pela mãe. Ainda cheirava ao perfume dela e a casa antiga.
Pousei-lhe o xaile nos ombros.
Feliz Ano Novo, tio Alberto.
Ele agarrou-me a mão, encostou-a à face. Senti-a molhada de lágrimas.
Não chegou a tempo, soluçou. Três anos cedo demais. Três anos
Chegou, sim. Mais vale tarde. O que importa é que veio. Era só isso que a mãe esperava.
Levantou para mim os olhos ainda húmidos.
Ela gostaria que ficasse.
Ficasse?
Aqui. Com a gente. Nesta casa. Com a família.
Ficou calado. Pela janela a luz de janeiro entrava, fraca mas nova.
Na manhã do novo ano, entrei na sala.
O tio Alberto estava na décima terceira cadeira. À frente, o chá ainda quente. Matilde sentada ao lado, gesticulava contando-lhe coisas, e ele sorria. Pela primeira vez desde que chegara.
A estrela na árvore estava, como sempre, apontada para a esquerda. Dois centímetros exatos. Agora sabia porquê. Era o sinal deles, segredo de irmãos. Um gesto para ser reconhecido.
Luís olhava de longe, desconfiado. Joana agitava-se entre panelas. Para ela, era um velho entre velhos.
Henrique surgiu, rodeou-me com o braço.
Então ele fica mesmo?
Fica.
Leonor hesitou. Tens a certeza? Ninguém o conhece
Sabia da inscrição na parede, Henrique. Debaixo de cinco papéis. Aqui morámos: Alberto e Maria, 1962. Não se finge uma coisa dessas.
Henrique suspirou. Vivia com os pés na terra, mas era bom homem. E amava-me o suficiente para aceitar.
Está bem. Mas só alerto, se correr mal
Olhei para o tio Alberto. Segurava a chávena com ambas as mãos com todo o respeito de quem tem mãos de relojoeiro. Mãos que gravaram aquela frase há sessenta anos. Mãos que deram os brincos de âmbar à irmã.
A mãe pôs esta cadeira durante quarenta anos, disse baixinho. Já basta de estar vazia.
Matilde chamou-me com entusiasmo.
Avó Leonor! O tio Alberto diz que sabe arranjar relógios! Acredita? Tenho o antigo da avó que nunca funcionou! Ele vai arranjar!
Aproximei-me e toquei o ombro do tio do modo como a mãe acolhia, do modo como afagava o pai, e como eu fazia à Matilde quando era miúda e tinha medo do escuro. Agora, era eu a dona do gesto.
Feliz ano novo, disse-lhe. Feliz recomeço.
Ele cobriu-me a mão com a dele. A mão estava quente.
Obrigado, Léo. Disse com a voz trémula. Obrigado por me teres recebido.
Lá fora, continuava a cair neve daquelas grossas, tranquilas. A mãe dizia sempre que tal neve traz visitas.
E tinha razão, como sempre teve.
Quarenta anos a esperar. Três anos depois de partir ele veio.
E a décima terceira cadeira nunca mais ficou vazia.







