O gato fitava-a em silêncio. Suspirando, ganhando coragem, Beatriz estendeu a mão até ele, esperando que as mangas da sua jaqueta de cabedal a protegessem das garras do fofo clandestino
O turno chegava ao fim, e Beatriz foi até ao fundo do autocarro, espreitando meticulosamente debaixo de cada banco.
Aquele autocarro era quase como um lar para ela, e em casa, Beatriz gostava sempre de manter tudo impecável. Talvez porque não havia mais ninguém para desarrumar?
Ó Beatriz, estava na hora de arranjares um marido diziam-lhe as senhoras encarregadas da central. Já vais para os trinta, sempre sozinha. E essa profissão tua, nem é coisa de mulher! Até os homens perdem a paciência com certos passageiros bicudos!
Tenho sorte com quem me calha, sorria ela. E gosto muito do que faço. Marido não é como um cão ou um gato para se arranjar assim!
As senhoras trocavam olhares divertidos. Sabiam elas muito bem que, com homens, há mais trabalho do que com um animal de estimação.
Então, pelo menos, arranja um gato aconselhavam, sempre ficas acompanhada!
Beatriz suspirava, com paciência:
O gato ainda não apareceu respondia ela, com a sua doçura, antes de regressar a casa, ligar a música e tratar do jantar, ler um pouco, depois deitar-se
Os dias eram iguais, como dois pares de meias. Os fins de semana eram os ainda piores tempo a mais só para si. Nessas alturas, ela ia passear de autocarro, desta vez sentada do lado dos passageiros.
Gostava de imaginar-se levada por alguém rumo a uma vida feliz, cheia de cor e de sol.
Aquele dia não tinha sido diferente. No fim do turno, Beatriz foi limpar o autocarro, como era hábito.
Ao espreitar debaixo dos bancos de trás, sobressaltou-se. Dois olhos brilhantes fitavam-na no escuro!
Olá quem és tu? Miau, miau! Como vieste aqui parar? Beatriz agachou-se. Perdeu-se alguém?
O gato manteve-se em silêncio, atento.
Suspirando de novo, ganhou coragem e estendeu a mão, confiando nas mangas da jaqueta para proteger as mãos das garras do fofo clandestino.
O gato deixou-se pegar, e Beatriz pôde ver melhor.
Era um belíssimo felino.
Não percebia muito de raças, mas o formato do focinho e o pêlo longo diziam que era um persa. Havia uma coleira com medalha ao pescoço.
Merlin leu ela, rodando a medalha nas mãos. O próprio? O feiticeiro famoso?
O gato bocejou, aceitando sem desmentir.
E agora, Merlin, que faço contigo? Vamos procurar os teus donos amanhã?
O gato olhou para ela e bocejou de novo, como quem diz: Não sei, mas podíamos comer alguma coisa, certo?
Percebendo que não tinha outra opção afinal, que género de pessoa abandona um gato na rua? decidiu:
Hoje ficas comigo, amanhã fazemos uns cartazes com a tua fotografia. Alguém deve estar à tua procura!
O gato nada disse. Mas mal Beatriz se virou para sair, começou a contorcer-se, saltando-lhe dos braços e regressando rapidamente ao seu abrigo debaixo do banco. Daí, saiu com algo entre os dentes.
O que é isso? Beatriz aproximou-se.
O gato largou na sua mão um bilhete da lotaria.
Ora esta! Então o teu dono perdeu-te a ti e a sorte toda num dia só?
Merlin voltou a olhá-la, como a dizer: Vá lá, vamos para casa.
Beatriz já pensava se devia mencionar o bilhete nos anúncios. E se alguém tentasse enganá-la só para apanhar o prémio?
Tinha de ser esperta! Antes de tudo, teria de comprar um miminho para o convidado.
O que te apetece? perguntou ela na mercearia, frente às prateleiras de comida para gato.
Merlin inspecionou as embalagens, depois encaminhou-se diretamente para um determinado pacote, fazendo Beatriz aproximar-se.
É este?
O gato abocanhou o pacote, não lhe restavam dúvidas.
Que inteligente, este Merlin! elogiou.
Merlin miou levemente, como quem diz: Eu sei! Fez ainda umas compras para si e foi para casa
Entra à vontade, disse ela, pousando o gato no chão.
Merlin foi logo inspecionar a casa. Beatriz preparou a refeição, improvisando dois pires para a comida e água.
Quando o gato terminou de comer, Beatriz tirou-lhe uma fotografia e preparou um anúncio. Nem palavra sobre o nome, nem sobre o bilhete da lotaria.
Imprimiu-o e mostrou ao gato.
Olha que bem ficaste! Amanhã ponho isto no autocarro, pode ser que apareça o teu dono!
E de repente, lembrou-se que tinha turno outra vez e não havia como deixar o gato sozinho
Levá-lo? Impossível. Ia distrair-se, e motorista distraída não pode ser. Deixar o bicho só? Cai-lhe mal no coração.
Lembrou-se então do Rodrigo, o vizinho do lado, que trabalhava em casa. Cabia-lhe bem cuidar de um gato por algumas horas. Bastava-lhe o portátil e uma boa conexão.
Cruzavam-se por vezes nas escadas, quando o Rodrigo ia às compras. Era alto, desengonçado, de óculos.
Cumprimentavam-se e seguiam cada um para cada lado, mas Rodrigo parecia-lhe uma ótima escolha.
Tomando fôlego, Beatriz bateu à porta do vizinho. Rodrigo apareceu com o cabelo despenteado, chinelos e calças largas. Olhou-a surpreso.
Ela explicou tudo, com o máximo de convicção possível. Não precisou insistir; Rodrigo acenou a cabeça, aceitou a chave.
Por um segundo, sentiu-se até ofendida por ele prestar-lhe tão pouca atenção. Suspirou, voltou ao apartamento e chamou:
Miau, Merlin, onde te meteste?
O gato estava junto à porta da varanda, todo ele a indicar que queria sair.
Beatriz hesitou, mas convenceu-se: um gato tão esperto não ia saltar do oitavo andar. Abriu a porta, foram ambos ao varandim.
Merlin saltou, ágil, para o parapeito. Ela acorreu, em pânico, pronta a agarrá-lo.
O gato olhou-a, orgulhoso, depois voltou-se para as estrelas. Ela afagou-lhe o pêlo e contemplou o céu
As estrelas brilhavam, centenas de olhos luminosos perdidos na noite. Uma delas soltou-se e tombou pelo céu, como uma lágrima.
O gato roçou-se nela, como a desafiar: Faz um desejo! E foi isso que ela fez
Adormeceu logo ao encostar a cabeça na almofada, sem precisar de filmes ou livros. Talvez porque, ao lado dela, o gato Merlin ronronava uma cantiga de embalar?
De manhã, depois de deixar instruções ao ensonado Rodrigo, saiu para o trabalho.
Andou todo o dia pela cidade com o anúncio e nenhuma notícia do dono do Merlin.
Sentiu-se meio envergonhada, mas também contente. Voltava para casa como se voasse, onde agora alguém a esperava.
A casa cheirava a café fresco. Preferia, habitualmente, instantâneo, por isso notou logo a diferença.
Fiz de conta que era meu quarto, admitiu Rodrigo. Desculpa, mas o teu café não presta. Trouxe o meu. Queres uma chávena?
Quero! disse Beatriz, radiante. E o Merlin?
O gato apareceu imediatamente no corredor, ar satisfeito. Aproximou-se e roçou-se na perna dela, transmitindo-lhe o máximo de afeição.
Rodrigo baixou-se para acariciar o gato.
O teu Merlin está ótimo, disse. Sabes, há muito tempo que não descansava assim. Era suposto trabalhar, mas abri o computador e só me apeteceu escrever histórias
Lembrei-me que em pequeno criava contos e fábulas. Escrevi um sobre um gato.
Mostras? perguntou Beatriz, curiosa.
Oh, é só uma tolice! hesitou ele, mas logo aceitou. Gostas mesmo disso?
Adoro contos, ou melhor, fantasia! Não é quase a mesma coisa? garantiu ela, animada.
Rodrigo cedeu.
Depois partilharam café e história, com Merlin deitado junto deles, a olhar de lado, superior, como quem observa dois gatinhos brincalhões.
Beatriz gostou do conto. Quando Rodrigo foi para casa, sentiu um vazio Mas, pelo menos, tinha Merlin.
Nesse momento, a campainha tocou. Merlin esticou-se altivo e foi atender. Beatriz perguntou:
Quem é?
Venho pelo anúncio, responderam da porta. Ela congelou.
A primeira vontade foi não abrir, mas sabia que não era certo. Abriu. Um senhor alto, muito idoso, de gabardina preta, sorria gentilmente:
Não se preocupe, menina. Vim mesmo buscar o gato. O seu nome é Merlin, não é verdade? Olhe, até veio ter comigo!
O gato atirou-se-lhe para os braços com um entusiasmo que não deixava dúvidas.
Entre disse Beatriz, quase sussurrando.
Sentiu vontade de chorar. Como era possível afeiçoar-se tanto a um gato em tão pouco tempo? O senhor entrou, aspirou o cheiro a café, sorriu ela achou que trocaram um olhar cúmplice.
Ofereça-me uma chávena de café, se faz favor, pediu ele.
Ela preparou, usando o resto do café que Rodrigo deixara no pote bonito. Durante todo o tempo, o velho e o gato olharam-se como se conversassem sem palavras.
Encontrou mais alguma coisa, por acaso? perguntou, quebrando o silêncio.
Beatriz ficou corada. Trouxe o bilhete da lotaria, estendendo-o hesitante. O velho recusou.
É para si, sorriu. Foi você que encontrou, e Merlin não se importa.
E se for premiado? balbuciou Beatriz.
Vai recusar uma oportunidade de ser um pouco mais feliz? riu-se ele.
Ela baixou os olhos. Era mesmo aquele o desejo que fizera à estrela cadente.
Dê uma hipótese à felicidade, minha querida disse o velho. E não se entristeça! Ainda nos vamos encontrar, um dia, quando regressar
Regressar de onde? quis perguntar Beatriz, mas ele já desaparecera, fechando a porta atrás de si.
Ouviu a chave a rodar sozinha. Sentiu o sono chegar e quase não chegou à cama Sonhou com o conto de Rodrigo.
Com um mago poderoso, que só se importou consigo mesmo toda a vida. Por castigo, foi transformado num gato e teria de andar pelo mundo assim, até libertar a magia
Na manhã seguinte, Beatriz voltou ao trabalho, mas era como se o sol brilhasse mais, os passageiros sorrissem, e o autocarro percorresse aquela Lisboa cantarolando, leve.
Claro, foi confirmar o bilhete da lotaria. Surpreendeu-se pouco: ganhara uma viagem ao Algarve! O que a surpreendeu mesmo foi o chefe:
Vai descansar, Beatriz. Bem mereces. Os colegas tomam conta disto, não te preocupes!
Depois, houve praia, estrelas e uma sensação de renovação total.
Voltou a Lisboa cheia de alegria, trouxe consigo conchas e o mar na alma.
Ao chegar a casa, Rodrigo saiu ao patamar. Alto, desajeitado, despenteado.
Ontem vieram cá, disse ele. E pediram-me para te dar isto parou, observando-a, antes de continuar: Estás diferente. E muito bonita.
Obrigada, sorriu ela. E o que me trouxeram?
Rodrigo escondeu-se rápido e voltou com um gatinho cinzento nos braços. A expressão era-lhe familiar.
Aliás, todos os persas são um pouco altivos.
É o filho do Merlin Quer dizer, do gato que encontraste no autocarro. Chamam-lhe Artur.
O velho disse que só confiava a sua criação a ti gaguejou. Isto é, a nós.
Como? O coração de Beatriz bateu forte.
Disse que só a nós podia confiar a educação dele, confessou Rodrigo.
Miau! confirmou o gatinho, estendendo-se para ela.
Ela estendeu a mão, encontrando a de Rodrigo. E, de repente, o mundo pareceu mais quente, mais doce, e completamente feliz.







