A tua mulher está a ficar impossível. Explica-lhe como se deve comportar, dizia a sogra de Duarte, com aquele tom meio autoritário que já se tornava rotina.
Andreia, amanhã vou finalmente dar a festa de inauguração da casa nova! Chamei tanta gente, sabes, e ainda não organizei nada no apartamento Vais dar-me uma ajudinha, não vais?
Claro, Dona Olívia, respondeu Andreia, sorrindo educadamente, embora já tivesse outros planos para o fim de semana.
E pronto, começou o turbilhão. Canapés para trinta pessoas. Salada de bacalhau. Tábuas de enchidos. Arranjos de fruta. Decoração da sala. Mudança de móveis de um lado para o outro.
Imagina isto: era sextafeira à noite e, em vez de um jantar romântico com Duarte, lá foi ela aturar o supermercado do Continente. No sábado, às seis da manhã, já estava a preparar comida numa casa alheia.
Duarte, ao menos dá uma ajuda a pôr as cadeiras! pediu Andreia ao marido.
Tu é que tens mais jeito pra essas coisas, amor, respondeu ele, sem se mexer, entretido com o telemóvel a ver as notícias.
Por volta das três da tarde, o apartamento da sogra estava irreconhecível. A sala parecia saída de uma revista de decoração, a mesa estava posta com gosto, e as flores estavam distribuídas com perfeição. Andreia olhava para aquilo tudo e só pensava no cansaço.
Os primeiros convidados chegaram à hora marcada, às quatro. Amigos antigos da Dona Olívia, vizinhas do prédio velho, colegas da associação. Todos a cumprimentavam efusivamente, elogiando a casa e trazendo prendas para a nova etapa.
Andreia estava na cozinha, a cortar mais limão para as bebidas.
E a nora, onde está? perguntou alguém, curioso.
Na cozinha, claro! respondeu Dona Olívia, acenando com a mão a desvalorizar. Andreia! Vem cá dar um olá!
Andreia apareceu, sem se fazer rogada. Sorriu, cumprimentou toda a gente com simpatia.
Que nora tão prestável! elogiou uma senhora elegante, de fato creme. Dá gosto ver!
Eu bem a ensinei, riu a Dona Olívia, visivelmente orgulhosa. Agora tenho uma aliada de confiança!
E pronto, foi então que Andreia percebeu que não havia cadeira para ela à mesa.
Oh, Andreia, não te preocupes por não teres lugar, desculpou-se a sogra Nem tens tempo para te sentares! O melhor é estares sempre de olho no que falta, a trazer os pratos.
Andreia assentiu, porque o que podia fazer?
E lá estava ela, à parte como uma empregada. A servir os acepipes, a encher flutes de espumante, a recolher os guardanapos usados. No meio da sala, conversas animadas, brindes, gargalhadas.
Lembras-te, Olívia, dos nossos velhos tempos lá na repartição? começou uma das colegas.
Andreia limitava-se a ouvir as histórias, sentindo-se como mera espectadora.
Andreia, traz fruta fresca, por favor! interrompeu a sogra.
Lá foi Andreia à cozinha, lavar uvas e dispor fruta num prato.
Está tudo lindo! elogiaram os convidados. Dona Olívia, tem mesmo uma artista consigo!
O Duarte foi esperto, meteu conversa a senhora do fato. Aposto que nunca lhe falta jantar quente e uma casa impecável!
Toda a gente ria. Duarte sorria com vaidade.
Orgulha-se de quê? De ter uma empregada gratuita em casa?
Mas espera, que ainda havia mais.
A conversa à mesa ia ficando cada vez mais descontraída. A atmosfera tornava-se de família, as vozes subiam de tom.
Olívia, conta lá, quando o Duarte foi para a faculdade, como todas as raparigas lhe caíam em cima! pediu uma amiga antiga da sogra.
Ai, que saudades! retorquiu Dona Olívia, e via-se que gostava de ser o centro das atenções. Era um galã! Vinte anos tinha ele era só olhares!
Risota geral. Duarte ficou vermelho, mas já estava habituado a este tipo de comentários maternos.
Andreia continuava ali, a limpar copos, invisível. Nem pareciam notar que estava presente; uma peça útil, mas desvalorizada.
Na faculdade, havia até fila para ele, continuava a sogra. O diretor até dizia: O Duarte é um Dom Juan! E não se enganou! Antes da Andreia, foi só romances!
Pronto, mãe, tentou Duarte parar a conversa.
Ora, Andreia sabe que não foi a única, continuou a Dona Olívia a rir. Homem tem de conhecer o mundo, senão como forma família?
A senhora do fato acenou afirmativamente:
Pois claro, Olívia. E é bom para nós, ficamos com um homem experiente!
Exatamente, concordou outra convidada. E a Andreia é calma, não é nada ciumenta!
Viraram-se todos para Andreia, à espera da sua confirmação.
Andreia assentiu, sem alternativa.
Andreia, como é que se conheceram tu e o Duarte? quis saber a vizinha.
Andreia ia responder, mas a sogra antecipou-se:
No banco! Ele já era gestor, ela estava a começar como consultora. Via-se logo: rapariga de confiança, madura.
Madura. Como num currículo, literalmente.
Eu disse logo ao Duarte: olha para esta rapariga! Não é uma cabeça no ar. É de casa. Ideal para família!
Conversa de mercado, ideal para família.
E não se enganou! interrompeu a senhora elegante. Veja o empenho, organizou tudo do novo apartamento!
Pois é, confirmou a Dona Olívia ainda mais orgulhosa. Percebi logo: esta sim, merece confiança. Não como essas miúdas de hoje, que só pensam nelas.
O pior de tudo? Duarte permanecia calado. Não protestava, não dizia: Mãe, chega. Só ouvia, como se Andreia fosse propriedade a leiloar.
E os bebés, para quando? veio a pergunta inevitável. Olívia, não sonhas já com netos?
A sogra suspirou profundamente:
Sonho tanto! Mas os jovens só adiam trabalho, isso e aquilo e o tempo passa!
Andreia sentiu-se corar. Era uma ferida aberta. Ela e Duarte tentavam ter um bebé há quase dois anos. Andreia já tinha feito exames, tomava vitaminas. Estava tudo bem, mas mês após mês só trazia desilusão.
Isso são assuntos do casal, interveio a vizinha.
Claro! anuiu Dona Olívia. Mas eu já fui dando umas dicas já estava na altura! Anseio pegar nos netinhos ao colo.
Andreia apertou os lábios. Umas dicas na linguagem da sogra: perguntas semanais do género Alguma novidade?
Talvez não estejam prontos, comentou uma convidada, cautelosa.
Que falta de prontidão! cortou a Dona Olívia. Nós à idade deles já estávamos a criar filhos, nada aconteceu! Hoje em dia é só desculpas
Andreia dirigiu-se à janela.
Andreia! chamou a sogra. Porque é que ficas tão calada? Vem para aqui, estamos a conversar sobre coisas importantes!
Andreia foi para junto do cadeirão do Duarte.
Olhem só para a mulher do Duarte, continuava a sogra. Tudo faz, tudo acerta. Não reclama de nada, ao contrário das de agora!
E os direitos da mulher? filosofou a senhora do fato. O importante é que o marido esteja feliz, a casa corra bem.
Certíssimo! completou outra convidada. Felicidade de mulher está nos filhos, na família.
Andreia ouvia e sentia um nó apertar-se.
Olívia, e aquela primeira namorada séria do Duarte? Como se chamava? Inês?
Ui, nem me lembres! riu a sogra. Era bonita, mas muito difícil. Ainda bem que se foram embora!
E porquê? quis saber alguém.
Olívia lançou um olhar:
Um feitio impossível. Sempre queria ter razão e discutir. Não era mulher para ninguém! Disse logo ao Duarte: Vê bem não te metas com gente conflituosa!
Duarte começou a remexer-se, mas não disse nada.
Fez bem! corroborou a senhora do fato. Uma mãe percebe qual é a rapariga adequada para o filho!
Andreia, traz mais gelo, por favor! pediu a sogra.
Andreia foi até à cozinha, abriu o congelador, pegou nos cubos de gelo e ficou a olhar para eles.
De repente, percebeu: não era parte da festa. Era simplesmente pessoal de serviço.
Andreia ficou parada, baldes de gelo na mão, a olhar para o lusco-fusco lá fora. Nas varandas vizinhas viase luz. Cada família na sua vida.
Da sala vinham risos, alguém cantava karaoke; todos participavam.
Andreia! gritou a sogra. Onde está o gelo? E põe o café a fazer, faz favor!
Andreia ligou a máquina de café sem pensar, pegou no balde de gelo e foi para a sala.
Aqui está a nossa trabalheira! anunciou a senhora elegante. Andreia, porque estás tão séria? Anima-te!
Está exausta, disse a sogra, Esteve todo o dia a tratar de tudo. Mas nada demais, uma mulher tem de saber fazer de tudo. É o que se espera!
Sim! reforçou a vizinha. O homem que traga dinheiro e pronto!
Mas eu também trabalho murmurou Andreia.
Calou-se a sala.
O quê, querida? perguntou a sogra, confusa.
Eu trabalhei também, não trabalho só em casa! disse Andreia, já mais alto.
Duarte franziu o cenho:
Andreia, para que esse assunto?
Porque Dona Carla acabou de dizer que só o homem trabalha. E eu então?
Os convidados trocaram olhares. Não estavam à espera.
Sim, claro que trabalhas, respondeu a senhora do fato, tentando acalmar. Mas é diferente, não é?
Diferente em quê?
Sim, hesitou a senhora tu és consultora, o Duarte é gestor de projetos. Ele tem mais responsabilidade.
Portanto, o meu trabalho não conta como trabalho a sério? E além disso, todas as tarefas domésticas são minha responsabilidade. No fundo, trabalho fora e em casa. Mas é ele que merece descanso
O ambiente ficou tenso.
Andreia, olha disse Duarte, incomodado. Que tem isso a ver agora?
Tem que fiquei dois dias a tratar da festa de inauguração! Fui às compras, arranjei tudo, preparei a comida e nem cadeira tive.
Foi sem querer! tentou desculpar-se a sogra. Não reparamos!
Não pensaram, isso sim, disse Andreia. Porque aqui sou só a criada.
Andreia! cortou Duarte, bravo. Já chega!
Chega de quê? De dizer verdades?
Tem calma, Andreia, tentou um dos convidados. É stress, só isso
Que vergonha, reprovou a sogra. Fazer cena diante das pessoas!
Mas criticar a minha vida familiar já pode? Falar sobre filhos, ex-namoradas, tudo pode ser dito à frente de todos?
A sogra ficou branca.
Não era a minha intenção
Falaram da Inês, que era chata por ter opinião. Disseram que agora têm uma nora conveniente. Toda a gente concordou.
Andreia olhou diretamente para os convidados.
Sabem que mais? Inês é que tinha razão! Não deviam permitir que tratem uma mulher como ajudante sem salário.
Que disparate! Duarte levantouse. Onde é que tu és ajudante?
Sabem o que eu queria ouvir hoje? disse Andreia suavemente. Queria ouvir Esta é a minha mulher, inteligente e dedicada, trabalha num banco. Em vez disso, só ouvi: Que prendada! Que discreta! Perfeita para a família.
Andreia, vá lá tentou Duarte.
Vá lá o quê? cortou Andreia. O quê? Que ficaste calado! Quando a tua mãe só dizia que eu sou prática ficaste calado! Quando a Dona Carla fala dos direitos da mulher nada! Quando todos discutiram a minha vida nada!
A voz dela vacilava. Finalmente as lágrimas que guardou toda a noite começaram a cair.
Eu cansei de ser conveniente!
Andreia limpou os olhos.
Desculpem estar a estragar a festa. Mas não aguento mais fingir que sou a nora perfeita.
E dirigiu-se à porta.
Andreia, espera! chamou Duarte. Para onde vais?
Ao terraço, apanhar ar, respondeu, sem parar. Continuem a divertir-se sem staff.
Fechou a porta da varanda. O que ficou atrás era só murmurinho de vozes e música. Ali, ao relento, Andreia finalmente podia ser ela própria.
Podia chorar.
Andreia ficou no terraço mais de uma hora. Primeiro chorou pela mágoa, pela vergonha, pelo alívio. Depois parou, limpou as lágrimas e ficou a apreciar as luzes da cidade.
Da sala já só se ouviam duas vozes Duarte e a sogra.
Não sei o que lhe deu! resmungava Dona Olívia. Fazer isto na frente das pessoas!
Mãe, talvez não esteja completamente errada Duarte tentava defender Andreia.
Errada? Porque levantou a voz aos mais velhos? Porque estragou a festa?
Andreia ouviu atentamente.
Mas ela trabalhou o dia inteiro.
E então?! Eu também trabalhei muito! A família não se faz sem esforço, Duarte. Uma mulher deve saber o seu lugar!
Andreia sorriu com tristeza. Nem depois disto a sogra percebida.
Olha que
Nada de olha que! Fala-lhe sério. Explica-lhe como se deve portar. Está a perder a noção!
Andreia entrou na sala. Duarte e a sogra estavam no meio dos pratos sujos, surpresos ao vê-la.
Uma conversa séria parece-me ótima, disse Andreia, calma.
Ambos estremeceram.
Andreia, começou a sogra num tom meloso. Não leves a mal, não foi por mal
Sei, respondeu Andreia. Vocês não estão habituados a que eu fale.
Andreia, falamos em casa, está bem? pediu Duarte.
Não. O que começou aqui, termina aqui.
Andreia sentou-se numa das cadeiras deixadas livres pela festa.
Duarte, amanhã vou para casa dos meus pais. Uma semana. Preciso pensar.
Pensar no quê? perguntou Duarte, apreensivo.
Se quero continuar numa família onde não há respeito por mim.
Andreia, não faças drama.
Não é drama, garantiu ela. É decisão. Ou as coisas mudam, ou eu mudo de vida.
A sogra resmungou:
Esta juventude! Sempre a pôr limites!
Duarte, se te importas comigo pensa. Pensa porque é que a tua mulher estava a chorar no terraço, enquanto a tua mãe recebia parabéns.
Uma semana depois, Duarte apareceu em casa dos sogros. Sentou-se à mesa, inquieto, a rodar a aliança no dedo.
Andreia, volta. Prometo que tudo muda.
Andreia olhou-o muito tempo.
Está bem. Podemos tentar.
Nunca mais chorou em festas de família.
Porque aprendeu a reivindicar respeito por si mesma.







