Durante trinta anos trabalhei numa fábrica em Lisboa, só para os meus filhos poderem ter uma vida melhor do que a minha. Agora, nos meus setenta anos, tiveram a gentileza de juntar-se e mandar um cesto de flores com entrega ao domicílio.
Fiquei ali, sozinho naquele apartamento silencioso, o cesto de flores na mão, lágrimas a correr-me pela cara. Se alguém me dissesse há quarenta anos que nos meus setenta ia comemorar assim, achava que era piada sem graça. Mas a vida, às vezes, ri-se de nós e não quer saber se estamos preparados para o desfecho.
Era uma quinta-feira. Acordei às seis da manhã, o costume de sempre, nem que não fosse preciso ir trabalhar. Trinta anos a levantar cedo para não perder o turno da manhã na fábrica.
Costurei fardas, batas, roupa de trabalho. Lisboa estava cheia desses armazéns, sempre cheios de mulheres, como eu, curvadas sobre as máquinas, as mãos picadas de tanto agulhar, a cabeça nos sonhos dos filhos. Para quem mais havíamos de o fazer?
O meu António, que Deus o tenha, era ferroviário. Juntos fomos fazendo pela casa. Nunca me ouvi lamentar muito tivemos o que foi possível. Primeiro uma arrecadação em Chelas, depois uma permuta para um T2 nos Olivais.
Aquecimento central, varanda a dar para o largo, pouco mais. Mas os miúdos nunca lhes faltou roupa lavada, comer quente, nem os livros. O Tomás teve explicações de inglês, a Rosa aprendeu informática. O António ainda fazia serão, eu nas horas mortas cosia cortinas ou vestidos para as vizinhas.
E pronto valeu a pena. O Tomás tirou direito, tem um escritório em Coimbra. A Rosa montou empresa de publicidade no Porto. Atenção, não percebo muito bem o que faz, mas ganha a vida e parece-lhe bem. Sinto orgulho neles. Só que este orgulho agora sabe-me a chá sem açúcar está ali, mas falta-lhe alguma coisa.
O António partiu há oito anos. Um ataque do coração, foi-se embora durante a noite. No início, os filhos ligavam todos os dias. Depois, uma vez por semana. Agora o Tomás liga ao domingo, depois do almoço, se não se lhe passar.
A Rosa manda mensagens curtas, mais parecem recados dos CTT: “Mãe, tudo bem? Beijinhos.” E eu respondo: “Tudo bem, filha.” O que é que queriam? Que dissesse que falo para a televisão toda a noite? Que ao sábado a única pessoa a quem dou duas de letra é a funcionária do Pingo Doce?
Preparei-me a semana inteira para este aniversário. Tolo que sou, fiz o velho cheesecake que aprendi com a minha mãe, comprei uma toalha nova cheia de malmequeres. Tirei o serviço de porcelana, aquele que nunca usámos desde o casamento. Quatro pratos. Porque o Tomás disse que “tentava passar”, e a Rosa que “ia ver a agenda”.
O Tomás telefonou cedo. Voz cansada, a despachar. “Pai, não posso, tenho tribunal, remarcaram a audiência, não deu para evitar. Mas sábado vou de certeza, está bem?”
A seguir, mensagem da Rosa. Nem se deu ao trabalho de ligar. “Pai, conferência no Porto, não chego a tempo. Amo-te, recuperamos isto no fim-de-semana!!!” Três pontos de exclamação. Como se isso compensasse não estar à mesa.
Fiquei na cozinha a olhar para os pratos, para a tarte, para a toalha nova que tanto me alegrou comprar. Depois comecei a guardar tudo devagar. Os pratos no armário. A toalha dobrada. A tarte coberta com um pano.
Às três, o intercomunicador tocou. O estafeta, rapaz novo, devia ter pouco mais de vinte anos. Entregou-me um cesto enorme, rosas, lírios, flores que já nem conheço. E um cartão: “Querido Pai, desejamos-te saúde e tudo de bom! Tomás e Rosa”.
O rapaz sorriu-me: “Muitos parabéns, senhor! É bom ter quem goste assim de si.”
Peguei no cesto, pesava que se fartava. Pousei no móvel do corredor e fechei a porta. Sentei-me no banco junto ao cabide e fiquei ali, nem sei quanto tempo. O perfume das flores era tão intenso que enjoava naquele corredor apertado.
Mais tarde, ligou-me a Edite, a vizinha debaixo, a única com quem ainda converso. Tem setenta e cinco, também viúva, também sozinha. “Ó José, fazes anos, sobe cá a tomar um chá, tenho tarte de maçã acabada de fazer.” Fui, sim. Conversámos até tarde na cozinha dela. Não me perguntou pelos filhos. Não precisei explicar nada.
No sábado, o Tomás apareceu. Sozinho, sem mulher nem netos. Ficou três horas, das quais uma passou ao telefone, trancado na varanda. Deixou um envelope com duzentos euros em cima do aparador. A Rosa voltou a adiar “surgiu-me um imprevisto, pai, mas no Natal volto de certeza”.
E foi então que percebi. Eles gostam de mim, claro. À sua maneira e no tempo que lhes sobra, entre julgamentos e conferências. Gostam de mim como eu gostava do meu trabalho com honestidade, mas sempre de olho na máquina, sempre a contar minutos. Trabalhei trinta anos para lhes dar uma vida melhor e orgulho-me disso. O que nunca pensei foi que o preço de terem um futuro melhor seria esta casa demasiado vazia.
A tarte acabei a comê-la com a Edite. As flores duraram até à semana seguinte. O envelope do Tomás guardei-o na gaveta onde estão os papéis antigos do António dos comboios.
Ontem comprei um bilhete para uma excursão à Serra da Estrela. Dois dias, grupo de seniores, de autocarro. A Edite vem comigo. Quando contei à Rosa, ela ficou admirada. “Pai, tu agora viajas?”
“Desde os setenta anos, filha” respondi.
Ouviram-se três segundos de silêncio do outro lado. Depois apenas: “Que bom, pai”, e mudou de tema. Mas esse silêncio valeu mais do que todos os pontos de exclamação delas. Ela há-de perceber um dia. Talvez quando, aos sessenta, olhar para a mesa e veja uma cadeira a sobrar. Mas não vou esperar por isso.
Tenho setenta anos. Tenho pernas para andar, um bilhete de autocarro, e uma vizinha que faz a melhor tarte da zona. O António diria: “Zé, não te queixes, anda lá.” E eu vou.







