Traiu e agora impõe condições
Olha, Cátia, honestamente, não tenho tempo nem paciência para ouvir as tuas lamúrias eternas.
Ou agora mesmo paras de te fazer de vítima ofendida, vivemos como gente civilizada, ou amanhã pego nas malas e tu que expliques à nossa filha porque é que o pai foi embora.
Explicas tu! Percebeste?
Viver normalmente, como assim, Rui? perguntou ela num fio de voz. Fazemos de conta que nada aconteceu? Que eu não vi aquelas mensagens?
Que o André PeçasAuto não te mandou mensagem às duas da manhã a dizer que sentia falta das tuas mãos?
Rui suspirou ruidosamente, começou a descalçar as sapatilhas sem lhes desatar os atacadores, calcando com força os calcanhares.
Lá vamos nós de novo… Pareces um disco riscado. Eu disse-te, em bom português: acabou. Estou em casa? Estou. Estou contigo? Estou. Dou dinheiro? Dou.
O que é que te falta mais? O que queres, que me ponha de joelhos? Não vais ver isso, não te iludas!
Não quero nada disso. Só queria que parasses de falar comigo como se eu fosse um estorvo. Tratas-me sempre com desdém, a provocar e a dizer bocas…
Porque és insuportável! interrompeu ele. Andas pela casa feita alma penada, de cara sempre fechada, como se tivesses comido um limão.
Achas que eu gosto de voltar todos os dias para isto? Mal entro é logo interrogatório ou gelo!
Qualquer mulher de juízo já tinha feito vista grossa, pelo bem da família. Mas tu não, tu tens de meter sempre o dedo na ferida.
Passou por ela na direção da cozinha, bateu-lhe de leve no ombro e, mesmo assim, quase a fez perder o equilíbrio.
Cátia sempre pensou que tinha tido sorte. Rui era um homem determinado, bem-sucedido e um excelente pai. Tinha a sua filha, a Leonor, de cinco anos, uma casa que partilhavam, e ambos tinham bons empregos.
A traição que descobriu há meio ano não foi por acaso o marido tinha uma segunda vida há meses.
Cátia só soube porque a Leonor, a brincar com o telemóvel do pai, viu uma notificação: André PeçasAuto a perguntar-lhe se já tinha comprado aquela lingerie que lhe ficava tão bem.
Quando tudo veio ao de cima, Rui não tentou negar. Primeiro ficou calado, depois ficou zangado, e no fim atirou:
Sim, aconteceu. E já acabou. Não faças um caso disso, eu estou aqui.
Durante estes seis meses ele nunca pediu desculpa, nunca se mostrou arrependido. Não se sentia culpado, e isso magoava Cátia mais do que tudo.
Quando entrou na cozinha, o marido já se sentava à mesa, a passar o dedo no Facebook. À frente tinha um prato com peixe assado, prato que Cátia tinha coberto para não arrefecer.
Faltou-te o sal? atirou ele, destapando o prato. Ou foi das lágrimas, já nem sentes os sabores?
Rui, chega. A Leonor está no quarto, ela ouve tudo.
Que ouça sorriu ele, metendo um pedaço de peixe à boca. Convém que saiba que a mãe está a fazer tudo para o pai sair de casa. É isso que queres? Que eu vá embora?
Eu só queria que fosses homem, Rui. Disseste que íamos lutar pela família. Isto é trabalhar em ti mesmo? Humilhar-me diariamente?
Rui pousou o garfo devagar.
Ouve bem. Uma família é um projeto, e eu dou ao projeto. Brinco com a Leonor, pago-lhe o ballet, levo-a ao jardim de infância.
Tu querias que a filha tivesse pai? Tem. E não sou obrigado a ser simpático contigo depois de me massacrares três meses com o mesmo filme!
Já disse: ou acabamos com este assunto de vez, ou vou-me embora. Se me for, ficas sem dinheiro.
Vendemos a casa e vais ter de dividir os lucros comigo. Ficas a pagar-me milhares de euros.
Tens esse dinheiro? Não tens. Vais para um T2 num subúrbio qualquer, mudas a Leonor de escola e de bairro. Vais sujeitá-la a isso?
Cátia ficou calada. Rui conhecia-lhe as fraquezas melhor do que ela própria. A ideia de obrigar a filha a mudar de vida, perder amigos, ir para uma casa alugada, e ela sem recursos, a lutar na justiça pela divisão da casa, assustava-a mesmo.
Era o que eu pensava rematou Rui. Come lá, senão não consegues manter-te em pé, já só pele e osso.
***
À noite, depois de deitar a Leonor abraçada ao seu coelhinho de peluche Cátia sentou-se na varanda, perdida em pensamentos.
Rui realmente era um bom pai aos olhos de fora: não bebia, nunca levantava a mão, a filha adorava-o.
Papá, és o meu herói sussurrava-lhe de manhã a Leonor.
Como é que Cátia ia destruir aquilo tudo?
Ouviu Rui ao telefone no quarto ao lado, a voz carregada de impaciência.
Sim, amanhã está de pé. Claro. Epá, eu já disse, isto resolve-se. Vai queixar-se um bocado, depois acalma-se. Para onde é que há de ir?
Cátia ficou sem ar. Tratava-a assim? Como um estorvo? Ela fechou a porta da varanda com força.
Rui estava deitado no sofá, de pernas estendidas. Mal a viu, despachou logo a chamada.
Com quem falavas? perguntou.
Com um colega. Queres ver a minha lista de contactos toda? estendeu-lhe ironicamente o telefone. Fica à vontade, já que agora és detetive.
Mas aviso já: se apanhar lá uma mensagem apagada por tua causa, amanhã vou para casa da minha mãe. Depois não te queixes.
Isto é sério, Rui? Achas mesmo que tens o direito de me impor condições depois do que fizeste?
Acho, sim. Porque sou homem, e quem manda nesta casa sou eu. Ou segues comigo, ou fazes-te à vida, simples.
Aproximou-se dela, rosto quase colado ao dela.
Sabes perfeitamente, Cátia, que outro homem nunca vai gostar da Leonor como eu. Vai tolerá-la enquanto fores jovem e gira, depois ela passa a estorvo. É isso que queres para tua filha? Um padrasto que lhe é indiferente?
Tu não prestas, Rui sussurrou ela.
Sou realista respondeu ele, afastando-se e sorrindo. Vou tomar banho. Deixa-me cá a camisa bordô pronta para amanhã, sim? Engomada, que hoje tinha uma prega no colarinho irritante.
Rui foi para a casa de banho e Cátia ficou parada na sala, sem saber o que fazer.
***
De manhã foi o costumeiro reboliço. Cátia fritava fatias douradas, a Leonor fazia fita porque não queria vestir as malhas.
Rui apareceu na cozinha já com a camisa bordô Cátia, apesar de tudo, engomou-a.
Mamã, no sábado vamos ao Jardim Zoológico?
Claro, meu amor tentou sorrir-lhe Cátia.
Papá, tu vens? Disseste que me mostravas o grande leão!
Rui fez uma festa no cabelo da filha e imediatamente suavizou a expressão.
Vou, querida. Se a mamã se portar bem e não chatear o papá, vamos todos na boa.
Cátia quase deixou cair a espátula.
Rui, que disparate é esse? murmurou, assim que Leonor ficou distraída com os desenhos animados.
Que foi? encolheu os ombros, com ar inocente. A minha filha tem de saber o que é liderança na família.
Não queres que ela perca o passeio só porque tu não te controlas, pois não?
Cátia nada respondeu. De novo, Rui usava a filha como escudo.
***
No trabalho, não era a mesma. As colegas perguntavam se estava bem ela fugia com a desculpa de cansaço.
Na pausa, espreitou os preços das rendas pela internet. Estavam pelas ruas da amargura, e os melhores apartamentos na zona esgotavam-se num instante.
Os mais baratos eram longe do escritório.
Duas horas para cada lado. Ela sai da escola às seis. Não vou ter tempo de a ir buscar murmurou, fechando o portátil. O que faço? Por onde começar?
Faltava uma hora para sair quando Rui ligou:
Olha, hoje vou chegar tarde. Tenho que tratar de uns assuntos. Jantem sem mim. Ah, Cátia
Sim?
Compra um tinto do bom, meio seco. Hoje quero conversar numa boa, sem dramas de sempre.
Rui, não
Não estou a pedir, Cátia interrompeu ele. Estou-te a dar uma oportunidade para melhorar o ambiente. Não estragues tudo. Pronto, beijo. Diz olá à Leonor.
Desligou. Cátia ficou a olhar para o telemóvel. Talvez devesse tentar conversar? Pior já não fica
***
A Leonor adormeceu depressa, e Cátia sentou-se na cozinha há duas horas. A garrafa de vinho, como pedido, repousava sobre a mesa ela odiava-se por ter cedido.
O marido chegou quase às onze, bem-disposto.
Muito bem deu-lhe um beijo na face, mas Cátia afastou-se. Anda lá, não fiques tão tensa. Vamos beber um copo.
Estive a pensar Precisamos de férias. Que tal irmos ao Algarve no próximo mês? Nós os três. A Leonor adora praia, já vi alguns hotéis.
Férias, Rui? exclamou, surpresa. Parece que vivemos como dois estranhos!
Isso é mania tua sorriu, provando o vinho. Eu é que me esforço para colar os cacos. Mas! Quero que me prometas: nunca mais se fala disto.
Nada de telemóveis, nem de suspeitas, nem de choros. Fazemos de conta que nada houve!
E a confiança? olhou-o diretamente nos olhos.
Confiança é um luxo que agora não podes ter ele riu-se. O que precisas é de estabilidade, a nossa filha de pai, e esta casa de alguém que mande.
Tu tens tudo isso. Só tens de estar calada. Acho um bom negócio.
E se eu não aceitar esse negócio?
Rui pousou o copo devagar.
Amanhã arrumas as tuas coisas. Estou farto desta novela, Cátia. Sou homem, quero paz, não uma mulher sempre amarga a meu lado.
Se não me perdoas e esqueces, é cada um para seu lado.
Mas aviso já: vou tirar-te tudo o que conseguir. A culpa será toda tua, por orgulho!
Levantou-se e saiu. Cátia ficou na escuridão da cozinha, ouvindo o som do chuveiro ao longe. Sabia que tudo aquilo era uma chantagem descarada.
Qualquer mulher forte já lhe tinha atirado o copo à cara e saído porta fora. Mas ela não é assim tão forte
É mãe, primeiro que tudo, e tem de pensar na filha. No fundo, todos merecem uma segunda oportunidade.
O marido errou apenas uma vez e talvez mereça perdão. Pelo menos pela filha, ela tinha de tentar apagar aquilo tudo
Mamã? ouviu-se a vozinha sonolenta no corredor.
De imediato limpou as lágrimas Leonor estava ali.
Mamã, tive um pesadelo. Onde está o papá?
O papá está aqui, amor pegou nela ao colo, apertando-a. Está só no banho. Está tudo bem, estamos todos juntos em casa.
A sério? enroscou-se no pescoço da mãe. Vamos estar sempre juntos?
Cátia fechou os olhos, sentiu o coração a partir-se devagar.
Sempre, meu anjo. Sempre.
Levando a filha para o quarto, Cátia tomou uma decisão: iria preservar a família. A partir de amanhã ia fazer tudo para esquecer aquela traição. Mas amanhã só amanhã.
No final, aprendi que na vida os nossos limites são testados pelo que mais amamos. Por vezes, cedemos mais do que jamais pensávamos conseguir só para termos por perto quem faz o nosso mundo girar.







