Tornei-me doméstica: Quando Alevtina decidiu casar-se aos 63 anos, o filho e a nora ficaram em choqu…

Tornou-se criada

Quando Leonor decidiu casar-se, o filho e a nora ficaram perplexos com a notícia e não sabiam bem como reagir.

Tem a certeza que está pronta para mudar de vida assim, nesta idade? perguntou Sofia, lançando um olhar inquieto ao marido.
Mãe, para quê tomar decisões tão drásticas? murmurou Rui, nervoso. Eu percebo que está sozinha há muitos anos e dedicou toda a sua vida a criar-me, mas agora casar… parece-me um disparate.
Vocês são novos, é normal que pensem assim respondeu Leonor com serenidade. Tenho sessenta e três anos, ninguém sabe quanto tempo mais cá estarei. Só quero finalmente viver com alguém que amo.
Então ao menos não se precipite com o casamento tentou apaziguar Rui. Só conhece o João há dois ou três meses e já quer mudar tudo.
Na nossa idade não há tempo a perder refletiu Leonor. O que preciso de saber? Ele tem dois anos mais que eu, vive com a filha e o genro num T3 em Almada, recebe uma boa reforma, tem casa de campo no Ribatejo…
E onde vão viver? estranhou Rui. Vivemos juntos aqui, mas mais ninguém cabe nesta casa.
Não se preocupem tanto, o João não quer nada do nosso espaço, vou viver com ele explicou Leonor. O apartamento dele é grande, dei-me bem com a filha dele, todos adultos, não há razão para discussões.
Rui ficou inquieto, Sofia tentava convencê-lo a apoiar a decisão da sogra.
Se calhar somos egoístas disse pensativa. A verdade é que nos dá jeito que a sua mãe ajude, fica com a Beatriz, facilita-nos a vida. Mas ela tem todo o direito de procurar a própria felicidade. Se agora pode, não devíamos impedir.
Só não percebo para que casar formalmente resmungou Rui. Não faltava mais nada, uma mãe de vestido branco e festa com cantorias!
São pessoas à moda antiga, se calhar o casamento dá-lhes segurança justificou Sofia.

Leonor casou-se com João, depois de se terem conhecido por acaso numa rua do Chiado, e logo mudou-se para o apartamento dele. Ao início correu tudo bem, foram bem recebidos, o marido tratava-a com respeito, e Leonor até acreditou que, finalmente, tinha direito a ser feliz. Cada dia parecia-lhe mais leve. Só que rapidamente a rotina mudou, e as nuances da nova família vieram ao de cima.

Leonor, podia fazer um assado para o jantar? perguntou Inês um dia. Gostava de fazer, mas o trabalho anda mesmo puxado, não tenho tempo, e você tem, não é?
Leonor entendeu o recado e começou a cozinhar. Logo vieram as compras, a limpeza da casa, a roupa para lavar, e até as idas à casa de campo passaram a ser obrigação.

Agora que somos casados, o monte é território nosso decretou João. A Inês e o Diogo não têm tempo nem para respirar, a netinha é pequena, fazemos tudo nós os dois.
Leonor não reclamava, gostava de ajudar e de sentir-se útil numa família grande, onde reinava a entreajuda. Com o primeiro marido nunca tinha sentido isso: ele era preguiçoso, aproveitador, e fugiu quando Rui fez dez anos. Há vinte anos que não sabiam nada dele. Agora, tudo parecia certo, e nunca sentia cansaço ou aborrecimento.

Oh mãe, que faz você no campo? tentava contrariar Rui. Deve ser um esforço tremendo, nem lhe faz bem…
Claro que faz, gosto disto e dou-me bem com o João respondia Leonor. Vamos colher fruta e legumes, chega para todos, até vos damos um cabaz de vez em quando.

Mas Rui mantinha dúvidas: em meses, nunca os convidaram sequer para se conhecerem melhor. Rui e Sofia convidaram João para jantar, prometeu ir, mas arranjava sempre desculpas, e acabaram por deixar de insistir. Aceitaram que a nova “família” não queria realmente aproximação. Só pediam que a mãe estivesse feliz.

E no começo, Leonor sentia-se leve, tudo fazia com gosto. Mas as tarefas começaram a multiplicar-se, e o peso aumentava. João, ao chegar ao monte, ficava logo com dores nas costas ou queixava-se do peito. Leonor, preocupada, punha-o na cama, enquanto ela limpava, apanhava ramos, varria folhas, levava lixo para longe.

Outra vez sopa de feijão? franziu a testa Diogo, genro de João. Comemos isso ontem, esperava outra coisa hoje…
Não tive tempo para mais nem consegui ir às compras desculpou-se Leonor. Estive todo o dia a lavar cortinas e fiquei exausta, tive até de me deitar um pouco.
Entendo, mas não aprecio sopa disse Diogo, afastando a tigela.
Amanhã a Leonor faz-nos um banquete! apressou-se João.
E no dia seguinte Leonor não saiu da cozinha, para tudo ser devorado em meia hora. Depois limpava, arrumava. Mas a filha e o genro tornaram-se cada vez mais críticos, e João alinhava com eles, Leonor era sempre a culpada.

Também não sou nova, canso-me, não percebo porque tenho de fazer tudo sozinha! desabafou, após mais uma reclamação.
És minha mulher, tens que assegurar o lar atirou João.
Como mulher, não devo só ter obrigações, mas também direitos! chorou Leonor.
Acabava por acalmar-se, tentando agradar, mantendo tudo leve e cordial. Até que certo dia, desmoronou-se de vez.

Nesse dia, Inês e o marido iam a casa de amigos e decidiram deixar a filha com Leonor.
Que fique com o avô ou vá convosco, porque hoje vou ver a minha neta avisou a mulher.
E porquê temos de girar à sua volta? alterou-se Inês.
Não têm, mas também não vos devo nada lembrou Leonor. A minha neta faz anos, avisei na terça-feira. Ignoraram, e ainda assim querem que fique presa em casa.
Não é maneira de agir! enfureceu-se João. Os planos da Inês ficam arruinados, e a tua neta é pequenina, não há problema em visitá-la amanhã.
Não há problema nenhum se formos os três agora, ou ficas tu com a tua neta enquanto vou à festa respondeu Leonor firme.
Sabia que este casamento não ia dar certo resmungou Inês, maldosa. A comida é fraca, nunca há limpeza, pensa só em si.
Depois de tudo o que fiz, pensa o mesmo? perguntou Leonor ao marido. Diz-me honestamente: procuravas esposa ou empregada, para satisfazer a todos?
Agora não estás justa, e tentas pôr-me como culpado piscava João, nervoso. Não faças casos onde não há.
Queria só uma resposta, tenho direito a isso insistiu.
Se é assim, faz como achares melhor, mas em minha casa isso não se aceita declarou João, cheio de orgulho.
Então demito-me disse Leonor e tratou de juntar os seus pertences.

Aceitam a avó de volta? arrastando a mala e o presente para a neta. Fui casar, vim de regresso, por agora não me perguntem, só digam: aceitam?
Claro que sim! correram ao seu encontro Rui e Sofia. O seu quarto está à sua espera, estamos felizes por estar connosco.
Felizes mesmo? quis ouvir Leonor.
Porque é que as pessoas gostam da família? riu Sofia.

Então Leonor soube que não era criada. Ajudava em casa, ficava com a neta, mas Rui e Sofia nunca abusaram, nunca a trataram mal. Ali, era mãe, avó, sogra, e membro da família, não serva. Leonor voltou para o seu lar, pediu o divórcio, e fez de tudo para esquecer do que passou.

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